Grabor

11 Capítulo 11 - O que a Divindade tirou só a Divindade pode devolver


Notas iniciais
Como diz meu fiel leitor Gabriel Nunes: "E o pré batalha vira batalha!" Queria agradecer aos comentários dos meus amigos sobre a fic, me ajudam muito a continuar escrevendo. Ademais, ao capítulo...

CORDOL, HEMISFÉRIO SUL

O ataque já havia começado! Silencioso e sanguinolento. O primeiro batalhão agia dentro da cidade, passando por todos os bairros e eliminando as sentinelas brancas. A troca das sentinelas tinha ocorrido há poucos minutos, como previsto e seguindo da parte alta de Cordol – parte administrativa – para a parte baixa da cidade – parte habitacional, comercial e industrial. Por enquanto, pegava a todos de surpresa.

Na parte habitacional, grande parte dos elfos dormia, não sabendo de nada sobre o ataque. Assim como em Pomi, as sentinelas agiam rápido e com ataques vitais por entre as brechas das armaduras. Durante os trinta minutos iniciais do ataque, metade das sentinelas brancas já havia caído. Foi quando chegaram à parte central da cidade que as sentinelas negras foram notadas. Dois pequenos grupos de sentinelas brancas realizavam um breve relatório e notaram uma movimentação estranha na parte sul da cidade, local onde o ataque havia começado.

O grupo então se separou: um deles foi confrontar as sentinelas avistadas e o outro foi soar o alarme para começar os protocolos de defesa da cidade. O grupo que foi confrontar as sentinelas negras não obteve sucesso: as três sentinelas brancas morreram todas com cortes no pescoço.

Não tardou e o alarme soou. Um som ensurdecedor se fez ouvir por toda a cidade, juntamente com luzes azuis, parecidas com holofotes, que percorriam toda a cidade. A chuva não tinha parado, pelo contrário, estava ainda mais forte e os relâmpagos e trovões estavam mais frequentes. Neste clima, o ataque chegava ao seu segundo estágio.

Com o alarme, as sentinelas pretas estavam comprometidas, aliás, o ataque todo já estava. Mesmo assim, as sentinelas pretas continuavam avançando e realizando os ataques, mas agora sem a mesma eficiência. Se antes as sentinelas brancas eram abatidas sem combate, agora em todo o canto havia ataques e defesas. Porém, o número de sentinelas pretas superava o de sentinelas brancas em larga escala.

As tropas auxiliares começavam a se movimentar pelas ruas de Cordol, tomando posições estratégicas nas avenidas e se agrupando em grupos de vinte soldados. Em cada combate de sentinelas havia uma tropa auxiliar se deslocando para ajudar. Foi ai que o segundo estágio do ataque começou.

O papel de Nun e Mary era de dar suporte às sentinelas negras eliminando o máximo possível as tropas auxiliares. O terceiro estágio, o da invasão em massa, começaria assim que as tropas principais de Cordol estivessem prontas para contra-atacar. Nun avançou pela parte oeste da cidade, enquanto que Mary avançou pelo leste. As tropas auxiliares continuavam chegando e, aos poucos, as sentinelas negras eram eliminadas. Tinham, ao menos, cumprido sua tarefa cem por cento: haviam eliminado todas as sentinelas brancas, sem exceção. Concentravam-se agora em escapar, eliminando o máximo possível das tropas auxiliares.

Nun se divertia na parte oeste de Cordol, nenhum soldado armado com espadas e lanças poderia lhe ferir, talvez alguém com um arco, mas teria que ser muito rápido e nas tropas auxiliares não havia nenhum. O mesmo acontecia com Mary na parte leste da cidade: soldados eram arremessados ao horizonte, outros eram queimados... Um verdadeiro massacre. Devagar, as tropas vinham perdendo seus números e Nun e Mary estavam mais sedentos por combate.

* * *

Em baixo de chuva e relâmpagos, a Guilda de Nafra realizava o ritual de conserto com Grabor. Ele já havia sido autorizado a começar o ritual quando quisesse. Estava, no entanto, fazendo uma rápida prece.

Ao terminar, olhou para Effort e acenou com a cabeça, levantando-se em seguida. “Aqui vamos nós!” pensou. Todos os cinco membros da Guilda ergueram seus braços na direção dos companheiros do lado. Não tocavam as mãos, havendo uma distância de quarenta centímetros. Os cinco membros, então, fecharam os olhos e Effort murmurou:

–Comece!

Todo o pó cinza que circundava a todos adquiriu uma luz azul a qual iluminava todo o ambiente. O ritual havia começado! Grabor caminhou até o frasco com a poção de purificação, ajoelhou-se diante dela e a pegou com a mão direita. Destampou-a com a mão esquerda e aproximou a boca do frasco do nariz, sentindo o odor.

Aquele cheiro lhe deu uma repulsa tremenda. Afastou o frasco no nariz e virou a cara. O odor era tão penetrante que o fez lembrar-se de momentos terríveis em sua vida: o corte que fizera acidentalmente em Jorkin, a triste e sofrida mudança de cidade, a dificuldade de adaptação, quando o pai perdeu o emprego pela primeira vez e teve que praticamente realizar trabalho escravo para ajudar a sustentar a família, quando quase perdeu sua irmã e muitos outros momentos.

Fez uma força tremenda para voltar a si e percebeu que estava em lágrimas. Allie lhe falava:

–Foco Grabor, foco!

Recompondo-se, bebeu a poção em um único gole, largando o frasco no chão em seguida. O líquido realmente era terrível. Não somente o gosto e o cheiro; causava uma sensação estranha. Não tardou e uma dor surgiu na região do estômago, inicialmente insignificante, mas em cerca de dois minutos Grabor não aguentou e começou a chorar. Pôs a mão por sobre o abdômen e se contorceu no chão.

Tudo lhe doía; seus músculos pareciam que seriam arrancados de si. Não mais aguentando, soltou um horrendo grito. A dor se espalhara pelo resto do corpo logo em seguida, fazendo-o se debater mais ainda. Nunca havia experimentado nada como aquilo, nem mesmo no ritual de inibição.

Em meio ao sofrimento de Grabor, Effort murmurou:

–Estabilize.

Imediatamente a dor cessou e Grabor parou de se contorcer, fitando o céu escuro e chuvoso da noite. Não tardou e sentiu uma enorme ânsia. Rapidamente virou seu corpo e abriu a boca o máximo que podia. Em seguida, expeliu vários líquidos: começou com um líquido preto, muito denso aparentemente. Logo após, uma grande quantidade de sangue veio, misturando-se ao líquido preto que estava previamente no chão. Após o sangue, o vômito cessou por alguns segundos.

Um líquido amarelo saiu em seguida em grande quantidade. Nem ele mesmo sabia que seu corpo continha tantas impurezas. Por fim, uma pequena quantidade de líquido verde fora expelida: o que restou da poção. Ao final de tudo, Grabor se levantou meio cambaleante, no entanto, conseguiu ficar de pé. A agua da chuva limpava lentamente os resíduos.

–Limpar! – Exclamou Hila.

Todas as impurezas que Grabor expeliu entraram em combustão e assim permaneceram até que todos os líquidos tivessem sido consumidos. Nem mesmo a chuva forte foi capaz de apagar o fogo. Dando procedimento ao ritual, Grabor foi até a adaga, agachou-se para pegá-la e se posicionou no centro do grande circulo novamente, sentado por sobre as pernas.

* * *

Labaredas saiam das mãos de Nun e Mary, os quais se encontravam no centro da cidade. Tinham percorrido todo o trajeto até o centro eliminando as tropas auxiliares. Os que sobraram tentavam um ataque contra os dois irmãos, mas acabaram incinerados. Alguns poucos tentavam uma fuga desesperada e todo o trabalho que os magos tinham era de comprimir a armadura contra o corpo dos fugitivos, matando-os na hora.

As queimaduras eram profundas, mas logo a chuva tratava de apagar o fogo. A grande parte dos soldados ainda se encontrava viva, alguns desmaiados pelas dores das queimaduras. Não tardou e a tropa principal começava a se movimentar pela cidade, avançando em massa contra os dois irmãos. Na parte alta da cidade, os governantes estavam protegidos atrás de portas e soldados altamente treinados, dentre eles espadachins, arqueiros e lanceiros.

Percebendo a investida do exército, Nun ergueu o braço esquerdo e lançou um raio vermelho na direção do céu: era o sinal para o exército sair das árvores e invadir a cidade. A população já estava praticamente toda acordada e só alguns elfos ousavam sair de suas casas. A minoria tentava alguma coisa para impedir o ataque e se davam tão mal quanto os soldados.

–Avançar! – Gritou Platos liderando o exército central.

Logo todos os homens gritavam e avançavam contra Cordol. Os exércitos laterais, percebendo a agitação, também invadiram. Para a terceira parte do ataque as ordens de Jorkin tinham sido claras: “Matem somente se extremamente necessário. Procurem imobilizá-los e deixá-los inconscientes. Nada além disso”.

Nun e Mary, após darem o sinal, seguiram seu rumo em direção à parte alta da cidade. Com o ataque dos elfos negros a atenção da tropa de Cordol passaria deles para a invasão iminente, deixando-os livre para prosseguir com o plano. Rapidamente a tropa negra invadia Cordol e tomava as ruas, travando combates sanguinolentos. Não tardou e corpos flagelados caiam nas ruas. Na tropa de Cordol se via de tudo: arqueiros, espadachins, lanceiros, algumas sentinelas... O número de soldados também era incrível, embora não superassem os da tropa negra.

Do final da formação, Jorkin avançava pacientemente em direção à cidade. Observava de longe alguns combates que as árvores lhe permitia ver e sorria pelo sucesso de sua invasão. Queria Cordol mais do que tudo, não somente por querer vingança contra a cidade, mas porque era um ponto estratégico para seus domínios. Não demorou muito e Jorkin finalmente saiu das árvores e adentrou a cidade, mandando seu corcel correr o máximo que podia, desembainhou sua espada e avançou sem medo na direção da parte alta da cidade.

Nun e Mary avançavam com certa facilidade. Inevitavelmente tiveram que entrar em alguns combates, mas lidaram muito bem com isso. Estavam na frente do elevador que levava à parte alta da cidade: a sede administrativa, construída no topo das maiores e mais resistentes árvores da região. No entanto, o elevador não se encontrava parado no térreo.

Mary esticou a mão na direção do elevador, que estava parado no andar da sede administrativa a sessenta metros do chão, e rapidamente levou seu braço para baixo em seguida. O elevador imitou o movimento: devido à força com que fora puxado, as cordas de sustentação não aguentaram e o elevador simplesmente desabou. A peça não era completamente fechada, tinha somente uma barreira na sua primeira metade, impedindo qualquer um de cair involuntariamente. Antes de atingir o chão, Mary parou-o:

–Todos a bordo? – Perguntou para o irmão.

Nun entrou no elevador, seguido por Mary. Ao entrar, virou a palma de sua mão para cima e ergueu o braço. O elevador imitou o movimento e se pôs a subir.

* * *

Quase no topo da montanha, Grabor, sentado sobre suas pernas, segurava firmemente uma adaga com sua mão direta, deixando ambas as mãos repousadas em seus respectivos joelhos. Mantinha a cabeça abaixada e estava sem a camiseta, deixando a mostra uma cicatriz vertical no seu peito.

A próxima parte era a do sacrifício. Respirou fundo depois de manter sua respiração tranquila e devidamente compassada. Voltou sua cabeça para cima e abriu os olhos.

–A visão primeva – declarou com um aperto no coração. Sabia que era necessário.

Seus olhos ficaram vermelhos e uma pequena quantidade de sangue escorreu pela parte inferior dos mesmos. Ele não sentia nenhuma dor, mas a sensação do sangue escorrendo pelo seu rosto lhe incomodava. O sangue continuou a escorrer por um longo período, já chegava até o chão, deixando um rastro pelo seu peito. A chuva ajudava a limpá-lo, no entanto, ainda havia vestígios.

Por um breve instante Grabor perdeu completamente sua visão e ficou visivelmente desesperado por isso. Por pouco não se cortou com a adaga quando foi levar as mãos ao rosto para esfregar seus olhos. No entanto, sua visão logo voltou ao normal.

–Está feito! – Disse uma voz completamente diferente da que Grabor ouvira até agora. Era uma voz grossa e áspera. Manifestava-se pelo corpo de Amber. Ninguém além de Grabor ficou surpreso.

–Não se distraia – a mesma voz falou, utilizando o corpo de Tom desta vez – o ritual está quase completo.

Grabor ficou muito assustado. Olhava para todos os integrantes da Guilda e nenhum lhe retribuía o olhar. “Estão em transe?” perguntou para si mesmo. Nada disso tinha acontecido no ritual de inibição. Estava muito surpreso.

De repente, um raio caiu muito próximo de onde estavam. Grabor reagiu com um pulo. Os outros integrantes, entretanto, não esboçaram reação.

–Continue o ritual! – A mesma voz, desta vez no corpo de Hila.

Grabor parou e pensou por um momento. Decidiu parar de se questionar e fazer o que a voz sugeria. Voltou a se sentar por sobre as pernas no centro do circulo, repousando as mãos por sobre os joelhos e segurando a adaga com a mão direita. Abaixou a cabeça e se concentrou.

Devagar, esvaziou sua mente o máximo que pode. “Que voz é essa? Esvazie sua mente Grab, agora”, “Isso, continue... Estou com fome. Pare Grab, esvazie sua mente... Isso... Muito bom...”. Cerca de cinco minutos depois sua mente estava vazia e serena.

Lentamente, Grabor sentiu um calor envolvendo seu corpo: era a energia primeva fluindo para dentro dele. A sensação era indescritível, nem antes de abdicar da energia sentira algo tão aconchegante, talvez nem quando a mãe o abraçava. Aquilo o confortava tremendamente.

Com movimentos muito sutis, levou a adaga até pouco abaixo do seu pescoço, bem no centro, onde começava a cicatriz. Pôs a ponta da adaga na pele e esperou. A energia o tomava por completo fazendo-o sentir uma felicidade imensa. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e se misturavam à água que caia da chuva.

Envolvido por essa sensação, Grabor começou a cortar novamente seu peito, exatamente por sobre a cicatriz. Não era um corte profundo o suficiente para alcançar o osso, mas foi o suficiente para sangrar. A cicatriz terminava na altura do diafragma e foi até ali que Grabor cortou-se. Ao terminar, afastou a mão do peito, repousando-a sobre o joelho novamente.

Grabor não sentia a dor do corte, aliás, não sentia mais nada. Não sabia como tinha conseguido mover seu braço e realizado o corte, o fato é que o ritual agora podia ser completado. Sem soltar a adaga, Grabor abriu os braços e levantou a cabeça na direção do céu escuro e chuvoso e aguardou.

Em uníssono, Effort, Allie, Hila, Tom e Amber pronunciaram no mesmo tom da voz de antes:

–O que a Divindade tirou só a Divindade pode devolver!

Nas nuvens, diretamente acima de Grabor, um clarão começou a aparecer.

* * *

Em Cordol, metade do exército dos elfos já havia caído assim como boa parte da tropa negra. De maneira geral, os espadachins da tropa negra eram infinitamente melhores do que os de Cordol, mas não havia tantos arqueiros assim como na tropa branca e isso estava fazendo a diferença.

Sempre que podia, Jorkin usava a magia negra para enviar uma flecha de volta para seu dono, matando alguns arqueiros e impossibilitando outros de combater. O comandante avançava com extrema facilidade montado em seu corcel, já Platos não tinha a mesma facilidade.

Quando abatia alguém, surgiam mais e mais para combater. Sua armadura era extremamente resistente e apesar dos intensos combates apresentava uma que outra marca ou arranhão. O general era extremamente habilidoso. Desviava e contra-atacava como ninguém, talvez fosse mais habilidoso que o próprio Jorkin só que infelizmente não contava com a magia negra para ajudá-lo.

Ao se aproximar da parte alta da cidade, Jorkin desceu de seu corcel e o deixou livre para andar por ali. Sabia que ele não iria longe mesmo com a cena de batalha. Ao olhar para o lado, um elfo corria em sua direção com uma espada. Segurava-a firmemente e seu braço estava relaxado. Sua corrida também era devidamente compassada: o oponente tinha experiência. Preparou-se para a investida com a espada em mãos e aguardou o ataque.

O elfo não parecia ser muito velho, no máximo quarenta anos. O rosto estava desprotegido, ao contrário do de Jorkin. O primeiro ataque não fora nada óbvio. Uma estocada, a principio, mas o elfo jogou seu corpo para o lado e puxou a espada, mudando para um ataque lateral. Jorkin não conseguiu bloquear. Jogou seu corpo para trás, se salvando por muito pouco do golpe.

Sem dar tempo de reação, o elfo avançou na direção de Jorkin com um ataque de cima pra baixo. Sem paciência para um combate, Jorkin bloqueou o ataque com a espada e envolveu sua mão com uma película negra e socou o oponente no peito. O corpo do elfo foi literalmente arremessado a metros de distância, cambaleando e rodando várias vezes até que parou inconsciente. Voltou sua atenção para a parte alta da cidade e notou que o elevador estava quebrado e severamente danificado no fundo do poço pelo qual corria. “Nun e Mary já estão lá. Perfeito!” concluiu, subindo no que restou do elevador e repetindo os mesmos movimentos de Mary, indo até a sede administrativa da cidade.

* * *

Rapidamente, as nuvens acumularam energia o suficiente para liberar na forma de raio. Esse raio, porém, fora diferente de qualquer um que já tenha caído nessa tempestade. Ele caiu reto, na direção do peito de Grabor, exatamente na cicatriz. Fez um barulho ensurdecedor e Grabor foi jogado no chão com muita força. A cicatriz havia simplesmente sumido, deixando somente um anel preto ao redor de si.

O elfo estava caído, inconsciente. Novamente em uníssono, os cinco falaram:

–Está feito!

Todos voltaram a si em seguida e o circulo perdeu sua luz. A tempestade também cessou segundos depois. Effort, observando Grabor caído no chão e sem reação foi até ele.

–Pessoal – chamou a atenção de todos – ele não tem batimentos cardíacos...

Notas finais
Encontrou algum erro no capítulo? Envie-me uma mensagem que arrumarei o mais rápido possível. Críticas e sugestões são bem-vindas. Mais informações em graborelf.blogspot.com.br Página do facebook: facebook.com/graborelf?ref_type=bookmark