Grabor

9 Capítulo 09 - A tropa negra


Notas iniciais
Boa leitura!

FRONTEIRA PÂNTANO DE NAFRA-DESERTO VERMELHO, HEMISFÉRIO SUL

A tropa já havia desarmado completamente o acampamento e faziam a formação para continuar a movimentação. Platos era quem coordenava tudo enquanto Jorkin ficava na parte traseira da formação, ao meio dos últimos batalhões, os de catapultas. Era onde gostava de ficar, pois conseguia vislumbrar toda a extensão da tropa.

Os vinte mil homens caminhavam em um ritmo bom. O pântano estava com uma temperatura agradável, com algumas nuvens no céu e sem sinal de chuva. Jorkin estava contente com a velocidade do exército. Nesse ritmo, chegariam ao destino antes do planejado.

* * *

Em Pomi, Maranda realizava uma reunião de emergência com os capitães, discutindo as novas informações. O elfo capturado estava no meio da roda, ainda inconsciente e a discussão rolava solta.

–Se era um teste, porque gastar tantos homens? A contagem já passa de quatro mil – falava um dos capitães.

–Pessoal – interrompeu Maranda – vocês estão deixando escapar a questão primordial. Um teste para que?

–Bem, vamos aos fatos. Eles chegaram aqui pela madrugada, muito próximo do nascer do sol. Poucas foram as sentinelas que sobreviveram, mas foi de importância para tentarmos algo – começou um dos capitães.

–Jorkin está seguindo para o sul, mas a única cidade a sul que é dele é Polux. Mas porque ele iria sozinho até lá? Bem sozinho não, mas estava carregando um elfo negro consigo – disse outro capitão.

–Então ele não está sozinho – falou Maranda – e tem mais soldados de onde esses vieram.

–Certamente – comentou outro capitão, aparentava ser o mais velho – e o ataque seria muito bem sucedido se a Guilda não tivesse interrompido a nosso favor.

–Concordo plenamente capitão. Outro sinal que mostra que nossas táticas são pouco eficientes. Agora, por que ele levaria um exército para Polux? – Questionou Maranda.

–Exato! Por que ele levaria? – Questionou o mesmo capitão – A cidade em si já é um forte impenetrável, não tem porque ele levar um exército para lá.

–Cordol! – Exclamou Maranda.

–Não tire conclusões precipitadas minha cara – continuou o capitão mais velho, Giraldo — Temos Cordol, Hermit ou Cryion como alternativas. Se fosse Plac, teria dado a volta pelo outro lado.

–Hermit ele não vai conseguir tomar, não por agora – comentou outro general.

–Sobram duas – completou Maranda – temos que esperar ele acordar e interrogá-lo novamente – Maranda apontou para o elfo negro no meio da roda — Por agora, estão dispensados. A próxima reunião será daqui a três horas e meia.

Todos se levantaram e seguiram a seus postos. Maranda pegou o elfo negro pelo pescoço e o arrastou até o centro do povoado, esperando-o acordar.

Longas duas horas se passaram até que o elfo negro despertou. Ao tomar consciência de seu corpo, notou que estava sem armadura e com as mãos e os pés amarrados. Olhou em todas as direções e visualizou a sua esquerda Maranda sentada no chão, fitando o horizonte.

–Que bom que acordou. Assim poderemos conversar novamente.

–Já te contei tudo o que queria. Por que não me deixa ir?

–Se já tivesse me contado tudo o que queria você não estaria aqui. Agora, quantos de vocês são no total?

–Por que você quer saber disso?

–Quanto tempo você vai demorar pra aprender que quanto mais você demorar pra falar, maior será o seu sofrimento?

Maranda soltou o braço esquerdo do elfo e segurou firmemente sua mão com a mão direita e com a mão esquerda segurou o polegar do elfo.

–Vou perguntar de novo: quantos de vocês são no total?

O elfo, entendendo o que Maranda faria, preferiu não arriscar.

–Erámos cinco mil.

–Disso eu sei. Já me informaram que havia quatro mil novecentos e noventa e quatro elfos negros aqui. Quero saber quanto vocês são no total?

O elfo engoliu em seco. Não podia dar essa informação, significaria traição definitiva. Maranda começou a forçar o polegar pra trás. Ele não tinha escolha.

–Não sei – arriscou.

Maranda puxou com toda a força o polegar para trás fazendo uma fratura exposta e segurou o dedo indicador. O elfo gritou o mais alto que pode, atraindo toda a atenção do povoado. Maranda apenas acenou com a cabeça, como se dizendo “Não se importem com nada”, e continuou.

–Quantos vocês são no total? – Perguntou Maranda dando ênfase no “total”.

–O número exato eu não sei – disse o elfo entre os gritos de dor – mas somos mais de vinte mil.

–Muito bem, você aprende rápido. Outra pergunta: onde está seu exército?

–Eu não sei.

Maranda puxou o indicador pra trás, assim com fez com o polegar. Largou indicador e segurou o dedo médio. O elfo se contorcia de dor.

–Bem, já temos duas fraturas expostas e estou me sujando de sangue. Sua sorte é que não tomei banho ainda hoje. Agora, novamente, onde está seu exército?

–Na... Na... fro... fronteira – respondeu o elfo entre choros e soluços.

–Qual fronteira?

–Do deserto com o pântano.

–Bom. Qual seu nome elfo?

–Clou.

–Muito bem Clou, só mais uma pergunta e depois vou te por pra dormir de novo. Pra onde o exército está indo?

–Já te disse, eu não sei. Tudo o que Platos falou é que isso seria um teste e nos passou a estratégia. Sem mais.

–Acredito em você Clou.

Maranda soltou o braço do elfo e o pegou pelo pescoço, aplicando uma chave de braço. Quando Clou não esboçou mais reação, Maranda o largou. Estava novamente inconsciente, mas não morto. Ao se levantar, deparou-se com um grupo de elfos com diversas ferramentas, eram pelo menos dez elfos.

–Você que é a Maranda? – Perguntou o primeiro deles, era baixo e bem musculoso.

–Eu mesma. Em que lhes posso ser útil?

–Bem, na verdade nós lhe seremos úteis. Allie nos disse que estavam precisando de ajuda para reconstruir o povoado. Estamos aqui – todos assentiram e esboçaram um tímido sorriso.

–E quanto isso tudo vai me custar?

–Não se preocupe. Já acertamos os detalhes com Allie. Só nos diga por onde começar.

–Sigam-me – disse Maranda conduzindo-os pelo povoado e lhes indicando onde deveriam trabalhar.

* * *

O exército caminhava a passos largos. Já era possível avistar o deserto que os esperava. Na ponta, Platos cavalgava em seu corcel direcionando a tropa. No final, Jorkin apenas observava e contemplava seu exército. Não eram muitos, mas julgava ser o essencial para tomar Cordol.

A tropa andou por mais trinta minutos, sem diminuir o ritmo, até que Platos deu a ordem para que parassem. Imediatamente Jorkin apressou seu corcel na direção de Platos.

–Por que paramos general? Estamos praticamente no deserto e não é hora de nossos homens descansarem.

–Com todo o respeito comandante: shhhh! – Pediu Platos. Tinha ouvido e avistado movimento vindo das rasteiras águas do pântano.

Jorkin compreendera e se virara, na direção do exército. Desembainhou sua espada na frente de seus homens, incentivando-os a fazerem o mesmo. Platos ficou fitando a água por mais alguns minutos e confirmou sua expectativa:

–GOLEM! – Gritou Platos enquanto desembainhava sua espada.

Um animal gigantesco surgiu das águas, erguendo-se a seis metros facilmente. Tinha uma cara nada amigável: não comia há dias e agora tinha um exército a sua disposição, só teria que matar, um por um. Ameaçador e entre gritos e rugidos, se pôs a andar na direção do exército.

Platos esperou o Golem se afastar de onde estava: devida a sua altura se esconde em um fosso ligeiramente profundo. Não seria vantajoso lutar e nadar ao mesmo tempo. Jorkin fez o mesmo, exemplo que foi seguido pelo seu exército. Após o Golem se afastar cerca de vinte metros, andando furiosamente, Platos avançou. Jorkin logo em seguida com cerca de cinquenta homens o seguindo. Era mais do que o necessário.

Platos desferiu o primeiro golpe, na perna esquerda. Ao se defender, o Golem quase acertou Platos que conseguiu desviar a tempo. Enquanto Platos o distraia, Jorkin avançou pela perna direita, fazendo um belo estrago com sua espada de Makit. Os outros cinquenta homens faziam o mesmo: uma metade distraia o Golem e o acertava quando podia e a outra metade o acertava com tudo.

Após cinco minutos de muita correria, conseguiram derrubar o Golem. Vinte homens haviam morrido para esse feito e o Golem ainda tinha os braços para se defender.

Em um movimento, Jorkin fez seu corcel subir nas costas do Golem, descendo daquele em seguida. Foi até seu ombro esquerdo e cravou a espada com o máximo de força que conseguiu. Das suas mãos, uma substância escura escorria para dentro do corte e, quando tirou a espada, o braço do Golem, além de ser arrancado, começou a se deteriorar.

Quem deu o golpe final no Golem, logo após Jorkin ter arrancado seu braço foi um dos soldados, Quil. Ele conseguiu subir na cabeça do Golem e desferir um golpe na nuca, certeiro.

–Meus parabéns garoto. Bom saber que posso contar com você – elogiou Jorkin – aliás, parabéns a todos. Não temos tempo para promover um enterro apropriado para nossos homens e, afinal, os outros Golens precisam comer. Refaçam a formação e continuem.

Jorkin montou em seu corcel e desceu do Golem. Ajudou a reorganizar a formação e se pôs, novamente, no final do exército. Logo adentrariam o deserto e não teriam problemas tão grandes.

* * *

Em Pomi, acontecia nova reunião com os capitães e Maranda.

–Vinte mil? Foi isso mesmo o que ele disse? – Perguntou um dos capitães à Maranda.

–Exato! Disse também que o exército estava acampado na fronteira do deserto.

–Não vai chover no deserto por um bom tempo. Talvez o calor os atrapalhe um pouco.

–E ainda tem os perigos naturais do próprio deserto. Se ele chegar com quinze mil homens onde pretende será um milagre.

–Não brinque com a Divindade capitão Lu – interrompeu Maranda – Precisamos saber qual cidade ele atacará.

–Pois mande avisar ambas. Problema resolvido – sugeriu Giraldo.

–Já cogitei isso capitão – falou Maranda – mas...

–Mas o que minha cara? Esses jovens, cada vez mais burros.

Todos riram inclusive Maranda.

–Pois bem capitão. Acatarei sua decisão. Esperamos que não seja nenhum alarme falso.

–Que assim seja minha cara – completou Giraldo.

–Agora, o principal assunto: novas táticas de defesa – falou Maranda.

–Para termos novas táticas precisamos de mais soldados. Ficamos reduzidos à metade após o ataque – comentou outro capitão.

–Quantos temos a nossa disposição? – Perguntou Maranda.

–Pouco mais de dois mil soldados para defender o povoado inteiro.

–Por enquanto terá que bastar. Sugestões?

–Bem, podemos dobrar os elfos na vigília e triplicar as sentinelas...

–Ficaremos sem nenhum soldado para suporte, esqueça – interrompeu Maranda.

–Achei boa a ideia de dobrar a vigília – opinou Giraldo – temos somente um elfo na vigília por turno. Dois elfos podem olhar mais território ao mesmo tempo.

Todos os capitães concordaram e Maranda não teve opção.

–Pois que assim seja. Outro problema: muitos elfos vão querer reconstruir suas casas à noite. Precisamos garantir segurança. Quero turnos alternados, tanto de tempo quanto de sentinelas nas ruas. Deixarei as escalas para vocês. Podem duplicar, mas triplicar é demais – Deu a palavra final Maranda.

–Sendo assim, ainda sobram soldados o suficiente para o suporte e para os refúgios. Chegamos a uma decisão? – Perguntou outro capitão.

Todos concordaram.

–Pois bem senhores. Temos todos muito o que fazer. Estão dispensados. Giraldo, deixo a missão de informar as cidades por sua conta.

–Sim senhora. Mais uma dúvida: o que fez com o elfo negro?

–Está lá, próximo a minha casa. Um curandeiro está cuidando da mão dele. Até mais senhores – despediu-se Maranda, indo até onde Clou estava.

* * *

Já caminhavam pelo deserto há pelo menos três horas. O ritmo começara a diminuir e Jorkin ordenara uma parada. Breve, mas foi o suficiente para todos se abastecerem com água e comida.

–Não estamos em época de chuvas aqui então espero que todos sejam fortes. Mais algumas horas e pararemos de novo – encorajou seus homens Jorkin, enquanto andava até o final da formação.

Durante o laço o exército se moveu sem diminuir o ritmo. Paravam para descansar quatro vezes ao dia, apenas bebendo e comendo rapidamente, para recuperarem as energias. Levantavam acampamento cedo e o armavam assim que o sol se punha. Durante o dia, Celina castigava o exército.

Muitos elfos não tinham aguentado a viagem. Os Defrotes, pequenos animais cinza típicos dos desertos que caçam durante o dia, causaram a morte de mais de cem elfos. Sua peçonha é mortal matando em segundos. Em seguida, eles comem a presa, geralmente em bandos. Um elfo os forneceria comida pelo resto do set*.

Outros não resistiram às temperaturas elevadas de Celina e pereceram. O fato era que a floresta estava próxima e ninguém estava tão bem para comemorar. Platos ficava tonto frequentemente e Jorkin começava a delirar, mas tinha autocontrole o suficiente para ignorar, pelo menos as mais fracas.

Ao fim do laço, cerca de quinhentos elfos haviam morrido. Um desfalque considerável, mas Jorkin saberia que isso aconteceria. Se pôs a pensar em Nun e Mary. Já deveriam estar em Corol por agora, fazendo o reconhecimento. Encontrar-se-iam na distância média da fronteira entre a floresta e o deserto e Cordol daqui a alguns dias. Até lá, só tinha que torcer para não ter mais perdas.

* * *

Em Cordol, Nun e Mary movimentavam-se cautelosamente por entre as árvores, fazendo o reconhecimento de longe. Havia muitos guardas, certamente a cidade fora avisada sobre uma possível invasão. A região da alta cidade, onde ficava a administração estava mais protegida do que Jorkin os informara. Seria difícil se infiltrar, mas não impossível.

–Teremos que ter muita cautela, Nun. Se formos pegos, toda a preparação será em vão.

–Como se eu fosse burro pra você me alertar sobre isso – retrucou Nun com a cara fechada.

–Já achei meu corpo. Você? – Declarou Mary.

–Hmm, está difícil. Não consigo notar um padrão... Ali, encontrei! – Disse Nun, olhando para a irmã em seguida.

Escoraram-se em uma árvore, fitaram seus alvos e murmuraram, juntos:

–Transpor.

Ao efetuarem o feitiço, seus corpos caíram na direção da árvore, inertes. Imediatamente, tomaram a consciência dos corpos que tinham escolhidos e agora podiam se mover por dentro da cidade sem serem notados, ou até alguém notar uma diferença de comportamento. Só tinha um problema, eles não sabiam a identidade de quem tinham assumido.

Nun, no corpo de uma sentinela ligeiramente obeso, caminhava lentamente por uma rampa na parte alta da cidade. Aparentava ter um cargo importante para uma sentinela, pois todas outras sentinelas que passavam o reverenciavam de alguma forma.

Mary teve muito mais sorte do que Nun. Sem saber, tomou o corpo da esposa do líder político de Cordol: Veruza Henzo. O porquê que se encontrava na parte baixa da cidade não sabia. Ao se virar, fora surpreendida por Fríope Hanzo, seu “esposo”.

–Por que está aqui em baixo meu amor? Sab que não é seguro – disse Fríope com uma voz meiga e apaixonada. O elfo estava vestido com um traje de gala azul, com belíssimos sapatos na cor púrpura. O rosto não era de alguém novo, mas também não era velho.

–Eu...eu ouvi um barulho e vim verificar. Desculpa – Mary não sabia como reagir.

Fríope estava confuso. Nunca que a mulher havia falado assim, tão carinhosamente. Pensou que estava escondendo alguma coisa.

–Tudo bem querida. Vamos voltar ok? Perguntou Fríope com insegurança. Mary, percebendo a situação compreendeu que Veruza tinha um temperamento difícil.

–Hunf. Vou aonde quero quando quero. Agora volte para onde estava. Subirei em instantes – disse Mary com uma voz arrogante.

–Sim meu amor, como desejar.

E Fríope se retirou, utilizando o elevador para subir aos níveis superiores. Ao sair do elevador, deu de cara com Nun.

–Ah, Mason. Tenho uma tarefa para você – disse Fríope com a voz totalmente mudada, determinada.

Nun ficou confuso por um tempo, mas logo percebeu que o corpo em que estava se chamava Mason.

–Sim senhor! – Disse Nun. Não reconhecera nenhum rosto até agora, mas Jorkin tinha lhe mostrado uma foto dos líderes de Cordol.

–Quero que siga minha esposa – e apontou para uma elfa de branco caminhando rapidamente. Reconheceu a passada: “Mary”. Conhecia cada gesto da irmã – e descubra o que ela está fazendo.

–Sim senhor! – Concordou Nun e desceu o elevador, indo atrás de Mary.

Quando estava próximo da irmã, Nun usou telepatia para avisá-la. “Mary, sou eu, a sentinela atrás de você”. “Aproxime-se”, respondeu Mary. Ambos se encontraram próximo ao antigo bairro de Grabor e, juntos, andaram por toda a metrópole. Cerca de cinco horas depois, o reconhecimento estava completo: sabiam as posições das sentinelas, observaram a troca de turnos bem como a movimentação. Mary se aproveitou da situação para memorizar a sala da liderança, na parte alta da cidade antes de regressar ao seu corpo.

–Missão cumprida – disse Nun em seu corpo verdadeiro.

–Missão cumprida – concordou a irmã.

E dirigiram-se ao ponto de encontro.

Notas finais
*set: equivalente ao mês terrestre. Existe três. Encontrou algum erro no capítulo? Envie-me uma mensagem que arrumarei o mais rápido possível. Críticas e sugestões são bem-vindas. Mais informações em graborelf.blogspot.com.br Página do facebook: facebook.com/graborelf?ref_type=bookmark