Gotta Be Somebody
4 Capítulo 4 Behind His Yellow Eyes
Notas iniciais
Se eu estava assustado e completamente desorientado? Definindo "assustado e desorientado" como com medo de obter respostas pois a resposta a qual estou indo buscar provavelmente não é a resposta que eu quero escutar portanto quero e ao mesmo tempo não quero encontrar essa tal tia Hera de Annabeth; então sim, eu estava completamente assustado e desorientado. Annabeth me garantira que sua tia iria me ajudar. Admiti o que estava prestes a acontecer comigo, e, como nunca tive acesso a informações assim, estava completamente desesperado por ajuda.
A loira seguia a frente, sempre cautelosa. Vez ou outra olhava para mim, para ter certeza de que eu estava bem e que não havia me transformado em nenhuma besta sanguinária, penso eu. Annabeth perdera um pouco seu medo, mas ainda conseguia senti-la tensa ao meu lado. Porque claro, não se encontra um lobisomem perdido em uma cabana no meio de uma floresta todos os dias. Sentia também o cansaço atingir seus ossos e sua respiração passou a ficar um tanto ritmada. Mas ela continuava, não parou um minuto sequer. Sua capa marrom estava cheia de terra e folhas, mas isso lhe dava um charme a mais, pensava eu.
Depois de muito andarmos, comecei a escutar certos sussurros. Não sussurros, exatamente, era quase como se um grupo de pessoas conversasse ao longe. Eu escutava suas conversas em um volume mais baixo.
- Estamos chegando? — perguntei, pensando que as vozes estariam indicando que estávamos perto.
- À casa de minha tia Hera, sim. — Annabeth respondeu tirando algumas plantas do caminho com seu cajado, ou seja lá o que aquilo for.
- Estou escutando muitas vozes juntas, pensei que iríamos a algum vilarejo ou algo assim. — confessei.
- Vocês têm boa audição, por isso consegue escutar as vozes. O vilarejo mais próximo está a uma hora de viagem. Mas não se concentre tanto nas vozes, minha tia diz que isso pode enlouquecer qualquer... hum você sabe, certas criaturas. — ela respondeu, andando cada vez mais rápido.
- Como faço para não me concentrar nas vozes? Elas parecem não sair da minha cabeça! — digo entendendo o que Annabeth queria dizer. Minha cabeça parecia estar cheia de pensamentos. Eu mal conseguia pensar em mim mesmo.
- Por que não pergunta pra minha tia? — ela disse, apontado para uma velha cabana um tanto torta e verde pelo musgo que se alojara nela. Me parecia estar abandonada a muito tempo.
Assenti. E caminhamos até a porta. Sua maçaneta enferrujada sugeria que fora construída a muito tempo atrás. Me perguntei se esta tia de Annabeth seria alguma velha maluca que se fora isolada por conta de sua insanidade mental.
Annabeth então tocou a maçaneta e abriu a velha porta. O ranger estridente da porta cortou meus ouvidos. Os tapei instantaneamente, pois era quase como se os sentisse feridos. Mas, por sorte, a sensação ruim logo passou. Annabeth entrou e chamou pelo nome "Hera" duas vezes. E então uma voz nos mandou entrar. A voz não parecia ser de uma velha insana.
Adentramo-nos ainda mais naquela escuridão. Agora eu conseguia escutar não apenas um coração, mas dois; sabia que a mulher, seja lá quem fosse, estava por perto.
- Tia Hera, trouxe um amigo — Annabeth começou — Ele precisa de ajuda, ainda não se transformou por completo.
Então, uma forte luz apareceu. Quase senti minha retina queimar. Com a mão direita, tentei bloquear a luz, mas não consegui completamente. Quando meus olhos se acostumaram com a claridade, olhei para a mulher que segurava um lampião em minha frente. Era mais loira do que Annabeth, possuía um rosto fino e pálido, como se não visse a luz do sol a anos, seus olhos azuis me intimidaram a um primeiro momento, mas depois senti que ela sorria, e isso me deixou um tanto mais calmo.
Ela olhava para mim como se estivesse me decifrando. Era como se aquela mulher pudesse ler o meu corpo. Fiquei um tanto constrangido.
- É tão jovem — Hera disse — E já a mercê de uma maldição assim?
Senti um calafrio ao escutar sua voz. Era calma, mas penetrava em meus ouvidos de uma maneira absurda.
- Sente-se, jovem, e conte-me o que aconteceu antes de Annabeth te encontrar — ela disse apontando-me um pequeno banco logo atrás de mim.
Caminhei até ele, com o auxílio de seu lampião. Sentei-me e perguntei para Hera:
- Quem são vocês, e por que querem me ajudar?
Apesar de parecer um tanto mal educado e minha parte, é claro que eu estava desconfiado. Mesmo podendo me transformar a qualquer momento, eu ainda me sentia indefeso, e em desvantagem.
Annabeth se encontrava um pouco mais atrás. Estava encostada em uma estante enorme, e me olhava vez ou outra. Conseguia apenas enxergar parte de seu cabelo e deu rosto, a única parte que o lampião iluminava. Ela parecia estar tão curiosa quanto eu.
Hera então me lançou um meio sorriso.
- Posso te garantir que não deve se preocupar Percy Jackson.
- Como sabe meu nome? — pergunto assustado.
Hera riu, novamente.
- Do mesmo jeito que você é um lobisomem, um ser sobrenatural, eu também sou. Sou uma druida, uma espécie de conselheira, curandeira, e bruxa. E sinto absolutamente tudo. Minha ligação com o natural e o sobrenatural é maior do que imagina. Sei que está confuso e com medo, e sei também que sua transformação já começou. E, se quer amenizar seu efeito, terá que seguir meus conselhos.
Suas palavras me deram uma ponta de felicidade.
- Então quer dizer que... — comecei a falar mas logo fui interrompido.
- Não poderá tirar de você isto que está começando a te corromper, isso eu te digo. Mas é verdade que pode não sofrer tanto.
Arqueei a sobrancelha. Não entendi uma palavra que Hera disse. Para mim, aquilo ainda não estava claro e cristalino como a água.
Mais uma vez, Hera pareceu ler meus pensamentos. Ela entregou o lampião a Annabeth e, pegando um outro banco qualquer que parecia estar jogado em sua casa, sentou-se perto de mim.
- Parece confuso, Percy, deixe-me explicar melhor. Sua mordida é recente, o que quer dizer que você não se transformou nenhuma vez ainda. Você sabe, Percy, quando um lobisomem se transforma?
Limpei a gargante e lembrei-me de algumas histórias que meu pai já me contara. Ele, vez ou outra, mencionava algum lobisomem ou outro ser sobrenatural de nosso interesse.
- Na... Na lua cheia. — respondi.
Hera sorriu, como se eu tivesse acertado na mostra.
- Exatamente. Quando os raios da lua cheia entram em contato com o coração de um lobisomem, ele se transforma. É uma maldição eterna, e não há como reverter isto. Um lobisomem é, na verdade, um escravo da lua.
Meu coração pareceu querer parar de bater. O modo como ela falava me fez, pela primeira vez desde que acordei, pensar que isto tudo não era um sonho idiota.
- E se um lobisomem for corrompido, quero dizer, quando seu coração é negro de tanta maldade, seus olhos ficam vermelhos e, ao se transformar, seu único objetivo é matar toda e qualquer vida que cruzar seu caminho. Mas alguns lobisomens não são completamente corrompidos, seus olhos são amarelos e, se conseguirem completar determinada tarefa, seus olhos se tornam azuis e sua transformação não é tão dolorosa. Sem contar que ele não perde sua consciência e auto-controle durante a lua cheia.
Senti uma ponta de alívio, então. Pois, na cabana, Annabeth me disse que meus olhos ainda eram amarelos. O que quer dizer que ainda me restava uma ponta de esperança.
- O que eu tenho que fazer? — perguntei.
Hera então lançou-me novamente seu sorriso e se levantou. Annabeth me olhava assustada ao fundo. Ela também não parecia entender muita coisa. Se ela estava daquele jeito, nem imaginem como eu estava.
Assisti a bruxa revirar alguns armários. Sua capa negra lhe dava um toque ainda mais sombrio. Ela parecia ler os objetos, já que, quando tocava algo, se concentrava de alguma forma bizarra para entendê-los. Olhei para Annabeth assustado. Tentando ver se ela entendia algo em mim. Ela apenas me retribuiu um sorriso pouco animado.
- Isto! — Hera gritou enquanto segurava um frasco.
Voltando-se para mim, entregou-me um pequeno frasco de vidro com um líquido de cor avermelhada dentro.
- Percy Jackson, para conseguir seu auto-controle, você deve provar para a lua que é digno de receber tal dom. Poucos são os que realmente conseguem. O que você tem que fazer é atravessar a floresta, e subir até o morro mais alto destes domínios. E então, quando a lua estiver cheia e você quase estiver se transformando, beba o conteúdo deste frasco que te entreguei. Isto é uma mistura de algumas ervas que vão retardar sua transformação, apenas por alguns minutos. Mas não pense que é assim tão simples. A lua testará você, principalmente durante a noite. Conforme nos aproximamos da lua cheia, seus impulsos se tornarão cada vez mais intensos. Você terá que chegar até o morro sem sangue em suas mãos, ou seja, não poderá matar criatura alguma por diversão, deve mostrar que tem compaixão de seus semelhantes, e que não é uma fera insensível. E, aviso desde já, a vontade de matar estará sempre presente e cada vez mais forte; cabe a você controlá-la.
Quando Hera terminou de falar, minha cabeça parecia girar. O plano era, relativamente, fácil. Mas o impulso de matar já estava em mim. Eu sentia em cada veia de meu corpo. Estávamos em lua crescente, certamente. Ou seja, eu tinha no máximo uma semana para encontrar o tal monte, lutar contra a vontade de matar tudo e a todos, me manter puro, beber essa gororoba vermelha e só então ficar melhor.
Mas e minha família? Me perguntei se tornaria a vê-los, após enfrentar tudo o que tinha que enfrentar. Querendo ou não, estava com saudade de meu velho vilarejo e da comida de dona Sally.
E, mais uma vez, Hera pareceu ler minha mente.
- Pergunte o que te atormenta, Percy.
Respirei fundo.
- Um dia voltarei para casa?
- Você sabe como voltar para casa. É só confiar em seus instintos. Mas eu o aconselho a completar esta etapa primeiro. Um passo de cada vez, Percy.
- Mas como vou encontrar este tal monte? Afinal, eu não nasci por estas redondezas. Não conheço a geografia deste lugar.
Havia algo no olhar de Hera. Algo quase indecifrável. Seus olhos eram misteriosos e lindos ao mesmo tempo. Era quase como se ela soubesse de mais coisas, e não estivesse me contando.
- Annabeth irá te conduzir.
- Como é? — Annabeth gritou assustada ao fundo. Seu olhar confuso agora dera lugar a um olhar furioso.
- Sim, você vive nesta floresta, conhece tudo melhor do que ninguém. E me parece que conseguiu controlar Percy. Quem melhor do que você para ir com ele? — Hera respondeu, como se aquilo fosse algo completamente óbvio.
Annabeth arqueou a sobrancelha. Não parecia satisfeita. E eu não entendia ao certo porquê. Mas seria agradável viajar com ela. Por um minuto, pensei que Hera fosse me levar, e isso não me era muito agradável.
- Quando querem partir? — Hera perguntou, voltando-se para Annabeth.
- O mais rápido possível. — respondi por ela.
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