Notas iniciais
N/A: Eu bem que quis dar um nome à personagem principal, mas como não pensei em nenhum que fosse bom o bastante decidi deixar o ar de mistério ainda maior.

Ú N I C O


Era noite de inverno. Não tinha como ter certeza, mas o céu se encontrava imerso em trevas como eu naquele dia. Há muito me não pegava a recordar do por quê me encontrava naquela casa de repouso: Tens de descansar, criança., me diziam todos. Mas aquilo nunca me havia convencido, pois sim, queriam eram não se ter de preocupar comigo.

Era inverno, como dissera há pouco, portanto não me estranhei com o frio que invadia meu quarto; um quarto simples, com uma cama modesta, uma cômoda miúda e uma janela gradeada – para que eu não tentasse qualquer sandice. Uma casa de repouso, pois sim, aquilo era uma prisão!
Queriam-me equecer da vida que tivera antes daquele lugar, me entupindo de remédios, mas era inútil; já me tinham feito perder a luz dos olhos, os áureos anos de minha vida e o amor. Não me fariam perder também a pouca memória que ainda conseguia guardar.

Quase não me apercebi que havia alguém ali. Àquela hora não aparecia ninguém, mas eu sabia que não era meramente uma ilusão. Tentando manter-me o mais calma possível, girei até estar de frente à réstia de calor que me invadira os aposentos prisionais, e indaguei:

- Que vieste fazer aqui tão longe, e assim tão tarde? – disse. Aquele tipo de respiração não me era estranho, mas não me podia arriscar. Há muito que mais ninguém se impelia a me vir visitar. – Não tenho mais drogas a tomar hoje, tenho? – indaguei, imaginando que talvez fosse algum enfermeiro atrapalhado, embora soubesse que não o era.

- Como é que podes saber se venho de longe? – replicou ele, categórico. – Sequer sabe quem sou eu? Se te quero bem ou mau? – continuou, confirmando minhas suspeitas de que não se tratava de um enfermeiro ou pessoa conhecida.

- Reconheço cada um dos que me vêm visitar. – expliquei. Pude sentir o estranho a se aproximar. Não me afastei, e sei por quê. Estava há muito escondido aí dentro de mim, mas não o poderia esquecer jamais.

- Como pode estar tão certa? – indagou. Agora, à minha frente, a olhar meus olhos sem vida que não me podem mais servir. Não mais, desde aquele dia em que, para me proteger, deu-me a própria vida e tirou-me a luz das órbitas; tudo para que me não ferissem em função do nosso amor inconcebível.

- Não posso. – concluí, aflita. Não pode estar a acontecer!

- Acredite, é possível. – disse ele, como que se estivesse a responder meus pensamentos disformes.

Houve, então, um silêncio mórbido, como que se estivéssemos a nos reconhecer depois de tanto tempo. Era impossível, mas ali estava ele, bem à minha frente. Jamais pensei que pudesse um dia voltar a ter por entre os dedos aqueles cabelos lisos e compridos outra vez.

Suava frio, tremia muito – o que já não fazia há algum tempo –, estava a imaginar o que me teria acontecido. Isso é loucura!, pensava eu, cá com meus botões. Só poderia estar a ter alucinações, muito provavelmente efeito das drogas que me têm feito utilizar.
E então me veio, como que num passe de mágica, um clarão intenso. Não sei se a luz que era tão forte, ou a escuridão a qual me acostumara muito intensa, o caso é que, de uma hora para outra, tudo havia desaparecido. Exceto o clarão celestial ao meu redor.

- Acredite. – repetia ele, agora não mais a me olhar e sim a caminhar comigo de mãos dadas. – Eu não vou mais te deixar aqui sozinha no escuro. – disse, carinhos como outrora.

- Eu acredito. – disse por fim, virando-me a ele e o abraçando o mais forte quanto pude. Gotas de água doce me corriam pela face, e aquela água me lavava toda a amargura e me purificava a alma adormecida.

Era impossível, mas verdadeiro. Não o tinha mais em mente como um borrão perdido em minha memória desgastada, de tanto fazer força para nunca o esquecer; era, agora, nítida a sua imagem – tocava seus dedos, via seus olhos... e logo já não sentia mais medo.

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