Got My Heart In Your Hands
89 Vingança
Notas iniciais
Every Breath You Take — The Police
Naquela manhã chuvosa de quarta-feira, Pierre e David estavam deitados na cama. Os pingos de chuva intensificavam lá fora, tornando mais estrondosos, com direito a trovões. David estava com a cabeça apoiada sobre o tórax de Pierre, e então Bouvier olhou para o relógio. 9:45 da manhã. David ainda dormia profundamente, e Pierre levantou-se da cama cuidadosamente para preparar o café da manhã. Pão com manteiga e um chá. David adorava os chás que Pierre preparava com tanto amor.
“É tão bom poder ver seu amor dormindo aconchegante, e saber que tudo está bem novamente.” — Pierre disse olhando para David, em um tom de voz baixo para não acordá-lo. Era incrível David permanecer dormindo mesmo depois de ter sido afastado do peito do Pierre. Ele nem se atreveu a acordar. Dormia profundamente, como um anjo. Um anjo com lápis borrado nos olhos. Ele sempre teve o costume de dormir com maquiagem, por causa da sua famosa preguiça e teimosia — o que era comum de se ver.
Pierre preparou o chá e pôs em uma bandeja de alumínio, levando até o quarto e colocando sobre o criado-mudo, para quando David acordasse, ele pudesse tomar o chá que ainda estava quente. Bouvier deitou novamente em seu travesseiro, e afagou o cabelo de David com uma das mãos, enquanto a mão livre estava espalmada no rosto dele. As carícias se intensificavam, porém David não acordava de jeito nenhum. Ambos continuavam com muitas dores nos pulsos devido aos cortes, mas isso não importava no momento... O que mais importava era a felicidade do casal.
Pierre foi até o banheiro tomar um banho, já que estava frio e chovendo, então ele temia de que pudesse acabar a luz e ter que ser obrigado a tomar banho gelado. Despiu-se dentro da suíte e adentrou ao box, ligando o chuveiro e cantarolando uma de suas músicas, porém baixo, pois David ainda dormia feito um bebê. Após desligar o chuveiro, Pierre apanhou a toalha que ele havia pendurado no box, e se enxugou, saindo do banheiro apenas com a toalha presa na cintura. Devido ao barulho que Pierre fazia com as portas do guarda-roupa, David despertou um pouco assustado.
─ Acho que eu te acordei, não foi? — Pierre disse em um tom de voz manhoso, e um pouco triste por ter feito David acordar assustado.
─ Eu levei um susto por causa das portas do guarda-roupa.
─ Ah, me desculpe, amor. — Nesse momento, Pierre abaixou a cabeça, como se estivesse triste pelo que fez. Deixou um bico se formar em seus lábios, e David, vendo a situação, levantou a cabeça de Pierre, fazendo-o olhar para dentro dos seus olhos.
─ Tudo bem, não faz mal. Não fica assim. Não podemos deixar nada estragar o nosso dia.
─ Mas eu te acordei... Você estava dormindo feito um anjo, não queria que acordasse.
─ Para, se não ficarei pior.
Pierre deu um sorriso para David, e deram um pequeno selinho, antes de David virar o rosto e perceber que o café da manhã já havia sido preparado.
─ Que lindo, preparou o café e veio trazer na cama. Isso que é ser cavalheiro. — Disse David formando um belo sorriso no rosto.
David tomou o seu café, e quando terminou, desceu as escadas juntamente com Pierre. Sentaram no sofá e foram assistir televisão. Estava passando Damage Control, um programa da MTV que começava com os pais contando a adolescência do filho ou da filha. Eles vão embora por um fim de semana, mas o que o adolescente não sabe é que seus pais se escondem em uma garagem, controlando cada passo do filho ou da filha. Câmeras escondidas são instaladas ao redor da casa, e os pais assistem a cada movimento, podendo ganhar dinheiro por prever corretamente a próxima ação que o jovem irá realizar. No final de semana, quando os pais voltam para casa, o adolescente pode, então, ganhar dinheiro se confessar aos pais o que ocorreu durante o período em que eles estavam fora. Era um programa muito divertido, e os dois viviam rindo enquanto assistiam.
(...)
─ Chuck, eu só queria entender por que brigamos. — Disse Avril que estava deitada na cama, com uma gripe forte por causa da chuva que tomou no dia anterior.
─ Porque eu sou imaturo demais.
─ Nem é. Mas vamos esquecer isso.
Chuck selou os lábios de Avril, e ela levantou da cama num impulso.
─ Vou comprar alguma coisa para comermos, ok?
─ Amor, está chovendo.
─ Ah, mas eu levo guarda-chuva.
─ Avril, você está doente. Por favor, não vá. Não quero que fique pior.
─ É aqui perto. Não vou demorar.
─ Eu ainda preferia que ficasse. Pode deixar que eu vou lá. — Chuck tentou insistir.
─ Não, amor. Eu quero arejar a minha cabeça, ficar só deitada na cama não vai resolver. Eu já volto. — Avril selou os lábios de Chuck por mais uma vez e conduziu-se até a porta. A chuva estava forte, mas ela não se importou, e abriu o seu guarda-chuva, caminhando pelas ruas frias de Montreal. Os carros passavam e molhavam a loira quando passavam pela enorme poça de água.
─ Quanta gentileza! — Disse ela aos berros. ─ E agora, como vou me limpar? Ah, deixa...
Seguiu o seu caminho, mas o supermercado mais perto estava fechado. Havia um aviso na porta dizendo que estavam de férias.
─ Mas que droga! Vou ter que ir ao outro supermercado, que é longe.
Resmungou e continuou caminhando. Olhou para o lado direito e viu um carro preto, com vidros escuros e fechados, não dava pra ver o motorista. Avril caminhava e o carro parava ao seu lado, acompanhando cada passo que ela dava, no mesmo ritmo. Quando, finalmente, o motorista saiu do carro. Ou a motorista: Sarah.
─ Sarah, o que faz aqui? E por que está me seguindo? — Perguntou Avril assustada.
─ Eu te vi andando pela rua e pensei... “Ela não pode andar sozinha nessa chuva”, e pensei em lhe dar uma carona.
─ Obrigada, eu não aceito carona de estranhos.
─ Mas eu não sou nenhuma estranha.
─ Sarah, o que você quer? Já não basta tentar tirar o Pierre do David?
─ Eu desisti disso, já vi que ele não me quer.
─ E nunca vai querer.
─ Só queria uma chance de ser sua amiga.
Avril soltou uma gargalhada.
─ Amiga? Você tem um coração de pedra, se fechou para o mundo.
─ Mas eu juro que é verdade. — Sarah puxou Avril pelo braço e a fez adentrar ao carro, trancando a porta do passageiro logo que Avril sentou ao banco, de forma forçada.
─ Sarah, eu não preciso de carona. Tira-me daqui, por favor.
─ Por que está com tanto medo? Eu não vou lhe fazer nada, apenas levá-la para onde quiser ir. — Sarah sorriu de forma irônica, e ligou o carro. Avril deitou a cabeça na janela, mas se assustou com um raio que atingira parte do carro. Por pouco não atingiu o seu rosto.
─ Meu Deus, que chuva!
─ Avril, você se lembra de quando derrubou tinta verde em mim?
Avril ficou imóvel e sem ter o que responder.
─ É... Ahn... Mas não fui eu.
─ Eu sei que foi. Levou-me até o centro do shopping, e eu pensando que queria conversar. Caí feito um patinho.
─ Desculpa.
─ Agora você vai provar do próprio veneno.
Sarah acelerou o carro, fazendo curvas perigosas na pista escorregadia por causa da chuva.
─ Para, Sarah! Vai devagar!
Sarah não deu ouvidos e permaneceu acelerando o carro. Avril pegou o celular e discou o número de Chuck.
─ Avril? Onde está? Já devia estar aqui há uma hora.
─ Eu estou...
─ Vou te matar, vadia. — Interrompeu Sarah.
─ Quem está aí com você?
Antes que Avril pudesse responder Chuck, Sarah tomou o celular de Avril, abriu a janela do carro e atirou o celular longe.
─ Por que fez isso? Agora nem pro Pierre posso ligar, pois ele também está sem celular porque você o jogou no mar.
─ Como você sabe disso?
─ Sou melhor amiga do Pierre, e já fui namorada dele... Enquanto você não passa de uma qualquer.
─ O que você disse?
─ Você-não-passa-de-uma-qualquer. — Avril repetiu pausadamente.
Sarah, que mantinha o pé no acelerador, abriu a porta do passageiro com uma das mãos e empurrou Avril com força, fazendo-a cair na estrada e bater a cabeça, ficando inconsciente.
(...)
─ Estou muito preocupado com a Avril. — Disse Chuck, que estava na casa de Pierre juntamente com os outros amigos. Eles já estavam sabendo da notícia.
─ Mas o que você ouviu? — Perguntou Pierre.
─ Uma moça dizendo: ‘’Vou te matar, vadia”, e quando Avril foi responder quem estava com ela, o celular desligou. Provavelmente a moça pegou e o atirou longe.
─ É a Sarah.
─ Como sabe, David? — Perguntou Jay curioso.
─ Eu estou sentindo uma dor muito forte no peito. Consigo ver Avril na estrada, toda ensangüentada, desmaiada e pedindo nossa ajuda. — David dizia já aos prantos. ─ Ela é minha melhor amiga, nos conhecemos desde o jardim de infância.
─ Ela já morou em Londres também?
─ Não, Joel. É que meus pais, antes de se separarem, costumavam viajar muito pra Napanee, onde ela nasceu, e então, nos conhecemos lá. Somos amigos desde que eu tinha 4 anos de idade. E agora eu não quero que aconteça nada de ruim com ela.
─ E quem quer isso? Mas ela vai ficar bem, fé em Deus. — Disse Seb.
─ Precisamos ir atrás dela. — Propôs Laurence.
Nesse momento, Lachelle apareceu.
─ Vão rápido, tirem-na da estrada.
─ Estrada? Onde ela está, Lachelle? — Perguntou Chuck preocupado.
─ Na rua perto do Sainsbury’s. Vão depressa. Ela está estilhada no chão, perdendo muito sangue, e se não forem a tempo, ela pode morrer.
─ O que aconteceu? Quem estava com ela?
─ Sarah empurrou Avril para dentro do carro, e acelerou... Até que ela abriu a porta e empurrou Avril com força.
─ Maldita! — Gritou Chuck.
─ Corram!
Pierre acordou a Lennon enquanto Laurence acordou a pequena Lauren. Delilah e Stuey também fizeram companhia nessa viagem. Eles entraram na van e dirigiram o mais rápido possível, só para fugirem até o local onde Avril estava. Começaram a discutir sobre Sarah, mesmo que aos prantos. Tudo o que eles queriam era ver Avril novamente, sorrindo... Mas o que poderia acontecer depois desse acidente horrível?
Avril não poderia ir embora e deixar a vida de Chuck bagunçada. Mas acabou acontecendo algo inesperado: a van quebrou. Eles seguiram andando até chegarem à estrada onde Avril permanecia caída. Porém, não havia nada lá, apenas um sangue. Muito sangue. Provavelmente Sarah teria levado Avril para outro lugar. Continuaram a caminhada, e viram Avril no chão — sim, eles estavam caminhando na rua errada -, perdendo muito sangue e ainda desacordada.
Chuck verificou os pulsos de Avril, e sentiu o mesmo pulsar-se. Ela ainda estava viva. Ele a pegou do chão e carregou em seu colo até o veículo. Já estavam todos molhados, e então, eles adentraram novamente a van, dirigindo agora até o hospital mais próximo. Chegando lá, Avril foi atendida com urgência, e levada a um quarto para fazer transfusão de sangue, mas somente uma pessoa era compatível: Laurence. Ela doou o sangue e, assim, puderam fazer a transfusão de forma tranquila.
A enfermeira saiu do quarto, e os amigos, ainda aflitos, levantaram da cadeira na sala de espera e foram em direção a ela.
─ E então? Minha esposa está bem?
─ A Sra. Comeau está bem, já está acordada. — Respondeu a enfermeira.
─ Graças a Deus! — Disse Pierre sorrindo.
─ Mas tem um problema.
─ Qual? — Perguntou David.
─ Ela não se lembra de nada e nem de ninguém.
─ Não! Minha amiga com amnésia. — Laurence chorou e abraçou Sébastien. Ninguém conseguiu se conter, e também deixaram escorrer muitas lágrimas.
─ Podemos entrar para vê-la? — Questionou David.
─ Não sei se vocês vão poder, mas...
Eles não deram ouvidos a enfermeira e entraram ao quarto.
─ Amor...
─ Quem é você? — Perguntou Avril, com dificuldades para falar.
─ Sou o Charles Andre Comeau, seu marido... O Chuck.
─ Marido? Charles? Chuck? Não, eu não sei quem você é.
─ Avril...
─ Avril? Quem é Avril?
─ Você é Avril. Avril Ramona Comeau, minha esposa.
─ Quando eu me casei?
─ Não faz muito tempo.
─ Amiga, se lembra de mim? Éramos amigos de infância. Sou o David.
─ David? Não, eu não estou me lembrando de você.
─ Nem de mim? Eu fui seu namorado... Meu nome é Pierre.
─ Não, eu nunca vi a cara de ninguém daqui.
─ Ela não se lembra da gente. — Pierre olhou para todos, e deixou uma lágrima escorrer por seu rosto, molhando a maca onde Avril estava deitada.
─ Vamos dar um tempo... A pancada foi muito forte, com o tempo ela se recupera. — Sébastien tentava acalmá-lo.
─ E se ela ficar assim para sempre?
─ Vira essa boca pra lá, Pierre. Ela vai sair dessa. — Jeff cutucou o braço de Pierre com o cotovelo.
Eles desviaram o olhar para Avril, e ela estava olhando nos olhos deles, como se estivesse tentando lembrar-se de onde os conhecia. Mas tudo estava confuso, e a pancada foi forte demais.
Parece que tudo perdeu o sentido... Eles precisavam da amiga sorrindo, cantando e encantando a todos com a sua beleza de dar inveja. Mas temia-se de que isso nunca mais iria acontecer.
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