Got My Heart In Your Hands
182 Uma maldita noite fria
Notas iniciais
─ Do que está falando, David?
─ Eu acho que ela quer te matar.
─ Mas ela? Por que logo ela?
─ Eu não sei o que ela quer conosco.
─ E por que esse acidente? O que está acontecendo?
─ Ninguém sabe...
─ Eu estou desesperado...
─ Tudo vai ficar bem...
Só vai ficar bem se eu conseguir sair desse pesadelo, pensou Pierre. Ele ficou parado em frente ao carro que havia capotado e chocado contra o poste. Observou o carro, impressionado com o estrago que havia feito... O dono do veículo estava embriagado, e se Pierre não houvesse desviado, provavelmente ele não estaria vivo.
O motorista teve suas pernas amputadas por ter ficado preso na embreagem. Teve hemorragia e corre sérios riscos de falecer.
Pierre, sem saber o que fazer, ofereceu-se para entrar à ambulância e acompanhar o homem... Sim, não era parente dele e nem nada, mas ele preocupou-se e pensou que seria um gesto muito bonito. Ele queria que seu pai se orgulhasse dele, e inclusive os fãs... Mas é claro que ele não estava fazendo isso apenas por reconhecimento, é porque Pierre sempre teve um coração muito generoso.
A lataria da frente do carro estava amassada, e enquanto David entrava junto com Pierre à ambulância, conseguiu ver o motorista sangrando muito e com fratura exposta no joelho.
Seguiram até o pronto-socorro mais próximo, com o motorista gemendo de dor e olhando para David e Pierre. Dava para notar os pontos de interrogação em volta da cabeça dele, afinal, por que eles estavam o seguindo? Por que se preocuparam?
Só nós sabemos a resposta, mas ele não... Permanecia gemendo, agonizando, e enfim chegaram ao pronto-socorro. O homem foi retirado às pressas da ambulância, e com os aparelhos, foi levado até a recepção, com a ajuda de David e Pierre.
Imediatamente o motorista foi atendido, ainda tendo sangramentos, e David e Pierre ficaram na sala de espera. Instantes após, uma mulher se aproximou, chorando, perguntando sobre Bernard. Pela descrição, David e Pierre puderam associar que ela estava falando do marido que dirigiu bêbado.
“Faz tempo que eu não ouço sua voz, nem te deixo escutar a minha. Faz tempo desde a última ligação. Esta que nos separaria e nos daria um para sempre bem diferente do que eu esperava. Era uma noite fria, eu ainda tinha suas últimas palavras decoradas como chiclete que não perde o gosto em minh’alma, só que a minha felicidade poderia ser comparada à bateria de um notebook viciado. Acabava rápido se me visse longe de ti. Não bastavam palavras, não bastavam cartas, pequenos bilhetes ou gravações, eu queria a sua presença e fui atrás, ingenuamente. Te liguei, deitada na cama que tinha sido nossa tantas vezes. Eu planejava te convidar para o jantar, novamente eu tinha tantos planos para nós dois. Dessa vez, eu estava confiante de que nada nos separaria. Eu queria ouvir sua voz, sentir seu corpo que era apenas meu e sonhar acordada junto contigo comendo aquela palha italiana que tinha sobrado do jantar da noite anterior. E como se já estivesse pré-determinado pelo autor, sem que nós pudéssemos opinar, nosso destino estava longe de ser algo tão doce. A voz que me atendeu não era aquela meio rouca e gentil, mas me era familiar. A voz que me atendeu, além de ser feminina, era sarcástica. O quão promíscua uma voz pode ser? Esta era o máximo, era o cúmulo. Minha garganta se fechou em um nó ao ouvir várias vezes pedidos de identificação. Bem que eu queria me identificar, gritar, perguntar como que um ser humano pode roubar algo que não é seu, mas me deixei em posição fetal relembrando que você nunca tinha sido meu. Era dela, mesmo quando se dizia entregue à mim. Esse é o pior de achar que brinquedos extremamente disputados podem ser doados à crianças pobres. O que aconteceu foi dividir o mesmo parquinho que aquela menina que tem seus olhos e coração, apenas dividir durante algumas horas e ao correr pelos cantos, te achar. Jogado, abandonado, mesmo tão bonito e divertido. Ela já estava com outro, bem bonito também, mas eu só tinha olhos para ti. Peguei-te com carinho e medo, nunca tive uma tarde tão incrível quanto aquela, me apaixonei em minutos. E como se não fosse apenas uma metáfora, ela me viu rir — infelizmente alto demais — te arrastando pelo parquinho inteiro e consequentemente exigiu o brinquedo que tinha o nome dela em uma das pernas. Me vi enquadrada. Ladra, jamais seria, e como mamãe dizia que nem tudo era como nós queríamos, eu te entreguei. Só que a vida me deu você novamente, me fez acreditar, qual foi minha surpresa de ouvir sua voz me chamar de dona e estar na cama de outra? Te ouvi chamá-la de amor, mandou desligar o celular e voltar para receber mais carinho. Agarrei minhas pernas na cama, minha gastrite apitava. Meu médico dizia que isso de comprimir o estômago ia acabar por me deixar em uma situação gravíssima, mas era impossível te imaginar nos braços de outra — apaixonado por outra — e sair daquela posição. Na cama eu estava e na cama fiquei, não queria sair dali. Ela desligou, rindo. Eu larguei o celular, chorando. Chorei até acabarem-se as lágrimas, fiquei na cama até alguém estranhar e vir checar a minha situação. Eu não conseguia falar, eu não conseguia me mover, eu só estava completamente frustrada. Confiar em desconhecidos é tão ruim quanto dar sua chave de casa para um estripador. Me senti desmontada, esvaziada, suco de laranja mal feito. Azeda. Depois de alguns dias, me levantei e te escrevi aquele bilhete. Não expliquei, cá entre nós… Você não merecia, eu não tinha condições e nossas infinitas discussões iriam me cansar quando eu já estava completamente morta. No tal guardanapo preso na sua porta, deixei “Adeus, meu amor” e sumi. Eu realmente me despedi do meu amor ao sair pela porta, eu busquei apagá-lo, enterrá-lo e sabotá-lo. Hoje, mais sóbria e menos traída, me sinto em condições de te escrever essa carta despedindo-me de uma maneira mais cordial, mais digna e te dando certa satisfação por crer em cada sorriso, em cada abraço e em cada conversa que nós tivemos. Você me beijava com paixão e eu te dava meu coração, de bandeja. Talvez este tenha sido o erro. Talvez aquela tarde na praia, aquele piquenique no parque, aquele primeiro “Eu te amo”, tenham sido todos erros em cadeia. Hoje me despeço de ti, e não mais do meu amor. Do meu amor, já me desfiz. Já o deixei em cada canto que andei nos últimos dias. Eu espero nunca mais te ver, mesmo sabendo que te verei em cada esquina. Eu espero que não me mande cartas, mesmo jamais mudando de endereço. Eu espero. Mesmo não podendo mais esperar. Contigo aprendi isso que farei agora. Fugir de coisas difíceis. Você foi a melhor coisa, e a mais difícil também. Não consigo esperar você mudar, pois já mudei. Insisti e simplesmente me vejo vazia. Não sou nada, nem tudo. Não sou nada, nem mesmo minha.”
[...]
─ Morreu? Como? — Perguntou a esposa de Bernard, chorando.
Infelizmente ele não resistiu, após perder muito sangue... Todos saíram de lá tristes. Não era o que esperavam...
“Inverno, quando a gente vai tomar banho é complicado… Você não quer ir, porque sente frio… mas depois que entra debaixo do chuveiro não quer sair mais… Acho que amor é mais ou menos isso. É um tanto esquizofrênico da minha parte comparar amor com banho quente. Sei lá de onde tirei isso. Mas, enfim, é o que eu acho. Quando não estamos no chuveiro, sentimos aquele frio comum e habitual de um dia a dia de inverno. Daí nos despimos e entramos naquele “mundo novo”. E aquilo é tão confortável que não dá vontade de abandonar. As vezes machuca, quer dizer, a água pode estar muito quente e parece que fica queimando. Mas nada que seja insuportável, porque afinal, aquilo é tão bom… Estamos despidos, literalmente, de qualquer proteção. O banheiro cheio de “névoa”, não enxergamos praticamente nada a nossa volta. Como no início de qualquer romance encantador. Daí desligamos o chuveiro. Aquele frio desconfortável. O banheiro cheio da “névoa” ainda nos deixa enxergar nada. O espelho embaçado não deixa enxergarmos a nós mesmos, a quem somos. Ao limpar o espelho, talvez nos sintamos estranhos. Como no fim de um amor que não dá certo. O início do fim é estranho. Mas aí, devagarinho e rapidamente, tudo evapora. Achamos uma toalha logo, ou seja, uma proteção. Nos secamos com dificuldade por causa do frio, mas logo criamos coragem pra seguir em frente, como fazemos ao secar as lágrimas. As vezes não temos essa coragem nesse frio, o corpo meio que se seca “sozinho”. Lágrimas as vezes também se secam sozinhas. Daí em pouco tempo voltamos ao velho e (ruim?) mundo. Sem a água quente do banho, sem o amor. Com casacos e blusões tentando romper o frio, como fazem os amigos e familiares na falta de um carinho, de um amor só pra gente. Isso até o próximo banho. Isso até a próxima paixão.”
I'm With You — Avril Lavigne
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