Got My Heart In Your Hands

152 Tudo é tão complicado


Carol’s POV: On

Acordei com uma horrível sensação, quero dizer, ela apenas continuou. Era uma forte dor no peito e eu não conseguia parar de pensar em Priscila, minha irmã. Será que algo tinha acontecido com ela? Eu estou tão preocupada, ontem foi tão bom, mas agora me sinto tão vazia, não posso sentir mais nada além dessa dor insuportável que está me consumindo por dentro.

Liguei para Priscila e pela centésima vez ela não atendeu. Resolvi tomar um banho quente para relaxar um pouco. Fiquei na banheira por mais de uma hora, eu estava precisando daquilo. Depois, me enxuguei, coloquei uma roupa fresca e fui até a cozinha tomar café.

Quando estava preparando torradas, a campainha tocou, fui atender:

– Oi!

– Jonathan, que bom que veio. – Eu disse dando um selinho nele.

– Ta tudo bem?

– Mais ou menos, e você?

– Estou bem, o que você tem?

– Ainda to com aquela sensação horrível. – Eu disse passando a mão em meus cabelos que estavam molhados.

– Tenho certeza que ta tudo bem com ela. – Ela disse sorrindo.

– Obrigada.

Houve um silêncio e só depois que percebi que o café já estava pronto:

– Vem tomar café.

– Não precisa, acho que vou comer depois.

– Ah que isso, vem aqui.

– Ta bem.

Nós tomamos café, e ficamos vendo TV pelo resto da manhã. Depois Pierre nos convidou para ir a casa dele para almoçar. Eu e Jonathan fomos até lá, levei uma sobremesa que eu havia feito. Saímos de casa e logo estávamos lá:

– Oi gente. – David atendeu a porta sorridente.

– Oi David. – Eu e Jonathan dissemos em uníssono.

– Entrem!

Nós entramos e ficamos conversando enquanto o almoço não ficava pronto, estávamos falando sobre tudo: a banda, os nossos passeios, viagens, as crianças, os animais de estimação, pais, enfim, todos esses assuntos.

Julie veio nos chamar, o almoço estava pronto, era Lasanha, que delicia! Nos sentamos e começamos a almoçar, mas meu celular começou a tocar:

– Alô. – Eu levantei, e me afastei um pouco da mesa.

– É a Srta. Caroline?

– Sim, quem fala?

– É da policia, temos uma triste noticia para lhe dar.

– O que aconteceu?

– Acho melhor a senhorita vir até aqui, explicaremos tudo.

– Ta bem, estou indo, mas você não pode me adiantar o assunto?

– É sobre sua irmã, Priscila.

Neste momento meus olhos se encheram de lágrimas, a única coisa que consegui dizer foi:

– Estou indo pra aí.

Desliguei o celular e peguei minhas chaves em cima do balcão:

– Carol? – Pierre perguntou.

– Pessoal me desculpem, vou ter que ir na delegacia.

– Por quê?

– Não sei, é algo sobre a minha irmã. – Eu disse tentando esconder a minha preocupação.

– Eu vou com você. – Jonathan se levantou.

– Eu também. – Pierre disse limpando a boca no guardanapo.

– Obrigada pessoal. – Eu dei um sorriso fraco.

Nós fomos até a delegacia e falamos com um policial:

– A sua irmã, ela...

– Ela?

– Se suicidou.

– O que?

– Não temos certeza, precisamos que você faça o reconhecimento do corpo.

– Não! Não pode ser verdade! – Eu estava gritando e chorando.

Não podia acreditar naquilo, minha irmã, se suicidar? Por quê? Ela não tinha motivo pra isso. Eu tinha que ser forte, respirei fundo. Pierre e Jonathan me abraçaram, e o policial me conduziu até onde o corpo dela estava: o necrotério.

O corpo estava coberto por um pano branco, eu puxei e logo reconheci Priscila. Só lembro-me de chorar muito e desmaiar logo em seguida.

Carol’s POV: Off

“Minha tia avó perdeu o marido a algumas semanas e eu fui visitá-la com meus pais. Quando chegamos lá, ficamos encarregados de ouvir os lamentos… Ele sempre se esquecia da hora do remédio. Jair? Esse ai ficou mal da cabeça, nem saberia que dia é hoje se ainda estivesse aqui. Jair demorava tanto pra trazer um mísero copo d‘água. Juro que fiquei olhando pra minha tia por algum tempo tentando entender: Que lamentos eram aqueles que só criticavam meu tio? E então, quando cheguei em casa e pensei no assunto, eu percebi. Percebi a carinha triste que minha tia fazia quando andava pela casa e via os porta retratos, e lembrei-me dos sorrisos nostálgicos durante as reclamações. Minha tia sempre reclamou do meu tio, mas ela realmente o amava muito. Ela, minha avó, bisavó, minha mãe e até mesmo eu (confesso), sofremos. Daquela frase que diz “Ruim com ele, pior sem ele.” Demorei um pouco pra chegar a essa conclusão, e, infelizmente, meu tio não está mais aqui pra eu poder lhe contar sobre isso. Mas ele devia saber, já que faleceu deixando claro pra todo mundo que ele nos deixou totalmente realizado, pois se casara com a mulher que amava.”

Pierre’s POV: On

Eu e Jonathan corremos até Carol, que estava desmaiada no chão, antes que eu pudesse ajudar Jonathan a levá-la para fora de lá, eu olhei para o corpo e... Era Priscila, mas eu não sabia que a mesma Priscila que eu namorei era a irmã de Carol, comecei a pensar, chorar, não conseguia me controlar:

– Pierre? – Jonathan me chamou.

– Eu vou ficar aqui um pouco. — Ele saiu carregando Carol e eu fiquei ali.

Será que ela tinha se suicidado por minha causa? Não! Ela não seria capaz de fazer isso, por quê? Por que isso meu Deus? A culpa foi minha? Eu sou um idiota mesmo, só sei magoar as pessoas, e agora, como vou viver com isso na minha cabeça?

“E então em meio a um simples começo, deu-se o fim, o tão temido fim. As peças nunca aparentaram sob medidas a ponto de se encaixarem em mim, e depois que acabou percebi então que no fundo eu era apenas um vidro de shampoo. Sempre transbordei afeto em excesso onde nada existia, mas como um bom produto eu estive sempre ali pra proporcionar-lhe o desejado independentemente da situação. Eu me deslizava pelo seu corpo em meio à água numa cadência exuberante, contínua e fascinante, pra consumidor nenhum botar defeito. Mas assim como na vida ou de um produto qualquer, o final, apesar de indesejado tende a aparecer, e assim como um vidro de shampoo velho uma hora iria acabar, comigo não foi diferente. Fui trocada, como quem troca de roupa quando muda a estação. A automutilação foi incontrolável, junto com a sensação de perda, ainda tinha outra pior, a de não ter sido suficiente, tanto pra ele e pra mim mesma. Perdi a conta das vezes que me peguei desejando que tudo aquilo fosse apenas uma fase ruim, eu queria que as coisas voltassem como costumava ser, ou pelo menos era, pra mim. Mas todo vidro de shampoo que se preze, uma hora seca, e comigo não foi diferente. Construí em mim mesma uma barreira que interceptava as possibilidades de sentimentos iguais ou parecidos, pra mim, na minha cabeça, por mais que acabara eu ainda pertencia a ele, da forma mais absurda e estranha possível. Eu era como um vidro vazio que se um pouquinho de água fosse acrescentado ao frasco, ele voltava pra poder ser usado novamente, pelo mínimo que fosse. Mas engana-se quem pensa que eu fui só esse objeto de uso, chegando a até mesmo ser descartável, descobri então que no final mesmo o que tinha em mim, ou no vidro, não era shampoo, era veneno, do pior que você pode estar imaginando nesse momento, portanto meu caro, aconselho que sinceramente, se afaste, mais do que já havia se afastado, porque o meu ódio e desprezo não são mais proporcionais ao tamanho do sentimento que antes existia, são bem maiores e podem causar dessa vez um estrago bem maior, só que não em mim. ”



Notas finais
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