Got My Heart In Your Hands
21 Traição: o valor de uma amizade
Notas iniciais
Ao encontrarem o botton do Green Day autografado no chão, logo deduziram que David havia passado por ali. Já estava escuro, e a floresta podia ser perigosa à noite. Pierre se desesperou:
- Mataram o David! – Bouvier alterou-se.
- Claro que não, Pierre. Ele deve ter fugido. Acho que o David está bem. – Avril tentou acalmá-lo.
- Você acha? E se ele estiver morto, jogado na floresta?
- Pierre, acalme-se, você está muito alterado. – Chuck também tentou acalmá-lo.
- Vocês não percebem a gravidade do problema? David é frágil, deve estar correndo perigo.
- Ele já é um adolescente. – Disse Jeff.
- Adolescente que não sabe se defender. Esqueceram que ele é sozinho?
- Mas Pierre...
- Eu vou procurá-lo. – Pierre interrompeu Sébastien.
- Procurá-lo? Já está escuro. – Indignou Patrick.
- E daí? Não vou ficar de braços cruzados esperando uma luz entregar o meu amigo. Eu vou atrás dele e nem pensem em me impedir.
Pierre saiu correndo pela floresta à procura de David, mas tudo que ele encontrou foi o botton que Desrosiers deixou cair, era a única pista que eles tinham. De qualquer forma, não desistiu, e continuou o seu caminho. Mas como estava longe, ele parou para descansar, e gritou pelo nome de David.
- David!
Desrosiers escutou alguém gritar o seu nome.
- Parece a voz do Pierre.
Bouvier continuava gritando, e então David pensou em seguir a voz.
Minutos depois...
- David... Você está vivo! – Pierre sorriu e abraçou o amigo.
- Pierre, por que está aqui?
- Primeiro para me desculpar.
- Mas pelo quê?
- É que eu não te acompanhei, se eu tivesse feito isso, você não iria ser seqüestrado.
- Está tudo bem, Pierre. Não é culpa sua.
- E... Você está bem?
- Na verdade, estou com fome e sede.
- Vou te levar para minha casa e você se alimenta lá, e aproveita para dormir, pois temos aula novamente.
- Obrigado, eu sabia que você não me deixaria na mão.
- Nunca! Bom, vamos?
- Sim.
Os dois foram andando, mas David estava muito fraco, então Pierre pediu para que este se apoiasse nele, assim eles andariam mais rápido. Encontraram o resto do povo assim que chegaram até a cidade, e todos estavam felizes por Desrosiers estar vivo, e também pela coragem de Bouvier de caminhar pela floresta justamente para encontrá-lo.
Entraram no táxi novamente e foram levados para casa. David foi para a casa de Pierre, como o combinado, e os outros foram para suas casas.
- Pode pegar o que quiser na geladeira. Sinta-se em casa.
David preparou um grandioso sanduíche, pois estava faminto. Em seguida, foi para a cama, pois também estava cansado e precisava repor as energias.
O dia amanheceu... Sete horas da manhã de uma segunda-feira. Os alunos se preparavam para mais uma rotina, denominada escola. David chegou com Pierre, mas no mesmo instante, Bouvier correu e abraçou Avril. Imediatamente, Desrosiers puxou Bouvier, pedindo licença para Lavigne, pois precisava dizer algo sério para ele.
- Eu tenho que te confessar uma coisa. – David já estava assustado.
- O quê, David? – Pierre notou a reação do amigo, e também se assustou.
- Eu espero que você não me julgue.
- Você está me assustando. – Pierre se afastou um pouco.
- Calma, não é nada demais. É apenas uma confissão. Você é meu amigo, e eu não posso ficar escondendo, eu preciso contar antes que isso me mate.
- Está bem, David. Pode falar.
- Você promete que não vai me julgar e que nossa amizade manterá a mesma? – David fitou Pierre, que estava com um olhar estranho, parecendo apavorado.
- David, que papo é esse?
- Promete? – Desrosiers interrompeu Bouvier.
- Eu não posso prometer nada, vai depender do que você tem para me falar. É sobre a Avril? Você ficou com ela? Apaixonou-se?
- Não, nunca, ela é minha melhor amiga.
- E então?
- É que... Eu sou gay, Pierre. – David respirou profundamente, acompanhado de um ofego, por estar muito nervoso.
- Está falando sério, David? Você é gay? – Cochichou Pierre.
- Por que eu brincaria com isso? Eu estou falando sério. Nunca tive coragem de me assumir dessa maneira, pois tenho medo das críticas, e sei também que Joel é homofóbico, se ele descobrir, ele me mata a pancadas.
David quando se referia ao Joel, criava um pânico em seu olhar. O que todos compreendiam, pois Joel já foi preso por espancar um homossexual até morrer. Seu ódio por eles era algo incompreensível.
- Ele não fará nada contra você. – Pierre olhou diretamente nos olhos de David e pôs uma de suas mãos em seu ombro.
- Como pode ter certeza disso? – Disse David, com uma voz ofegante.
- Porque eu estou aqui para te defender. Em você ele não encosta um dedo. – Pierre abraçou o amigo, o que fez David abrir um largo sorriso no rosto.
David ficou feliz ao saber que Pierre sempre estaria lá quando ele precisasse, pois nunca teve tanto apoio dos amigos, e Bouvier oferecia conforto ao garoto. Ele o amava, pensava nele todas as noites, e sua voz transformava-se quando conversava com o amigo. Bouvier era um garoto atraente, o que não era difícil se apaixonar por ele.
Enquanto isso, o sinal tocou. Era aula vaga, e todos foram até o pátio. Chuck recebeu uma inesperada visita de Joel nas caixas de som da escola, onde Comeau controlava. Através das caixas, a diretoria podia dar aviso aos alunos, mas somente quem tivesse autorização podia entrar lá, e como Chuck era um aluno destaque, sempre tirava A, tinha acesso e também o controle do som. Mas Joel, com toda sua raiva, tomou posse do microfone, mesmo Comeau dizendo que não podia mexer a menos que fosse autorizado. Mas quem poderia segurar um adolescente malvado que sentia prazer ao sofrimento alheio?
- Vocês conseguem me ouvir? Eu tenho uma notícia bombástica. Conhecem o aluno David Desrosiers? É, aquele que tem franja, sempre está com o Pierre... Bom, eu descobri que ele é gay. – Joel riu. – Acreditam nisso? O emo é frutinha. Cuidado, meninos, ele pode tentar beijá-los. É isso, obrigado pela atenção, e vamos aplaudir o bicha da escola. – Joel jogou o microfone.
David entrou em prantos diante de todo o público o chamando de ‘’bichinha’’, pois não esperava que Joel descobrisse, temia de que ele pudesse fazer algo que o machucasse ainda mais. Correu o mais rápido possível, e sentou debaixo de uma árvore. Pierre foi atrás.
- David, você está bem? – Pierre sentou do lado dele.
- Vai embora. – Disse David, empurrando Pierre.
- Eu sei como se sente, mas calma, eu estou aqui para lhe ajudar.
- Ajudar em quê? A sair correndo contar que sou gay pro Joel? – David ao dizer, franziu o seu rosto, mostrando uma expressão de raiva, mas ainda chorava.
- Do que você está falando?
- Não se faça de sonso, Pierre. Eu sei que foi você que contou pro Joel. Eu confiava em você, até dizia que você era meu melhor amigo, pois sempre fez tudo por mim e sempre me ajudou. Não esperava isso de você, na primeira oportunidade, se juntou com o seu ‘’amigo’’ só pra me ferrar. – David chorou mais ainda.
- Mas eu não fiz nada disso, eu nem converso com aquele cara. – Respondeu Pierre, tentando convencê-lo.
- É óbvio que você vai negar, mas não adianta, eu não acredito mais em você. – David saiu correndo, e dessa vez, Pierre não conseguiu segui-lo.
- David! – Gritou Pierre.
Pierre estava preocupado com David, pois afirmava que não tinha sido ele que espalhou para Joel. Joel o odiava, e Pierre jamais iria contar para ele sobre o seu melhor amigo, mas David insistia em dizer que Pierre havia espalhado.
Mas pela surpresa de David, sua irmã o aceitou mesmo com a sua homossexualidade, afinal, eles eram irmãos, e Julie não podia julgar um irmão que sempre esteve presente na vida dela e que sempre lutou para dar uma vida melhor para ela.
Foram anos de sofrimento, mas David parecia estar sofrendo muito mais, pois Pierre havia o traído, a pessoa que ele menos esperava na vida, que costumava chamá-lo de amigo, e também o seu grande amor, tornou-se o seu inimigo, que só queria fazê-lo sofrer. Sempre temeu a bondade de Pierre, e agora teve a certeza de como Bouvier agia perante aos demais. Porém Pierre permanecia negando, pois nunca faria algo contra Desrosiers, acreditava que Joel ou um cúmplice estava ouvindo sua conversa com David e decidiu espalhar a notícia. Mesmo tendo a certeza de que não havia feito isso, Pierre sentia nojo dele mesmo, por ter perdido um amigo e por estar sendo culpado até por seus outros companheiros de banda, e também pela Avril, sua namorada. Bouvier precisou se ausentar do Simple Plan, pensou até em desistir, pois não conseguia o perdão de seus amigos, de sua namorada e muito menos de David.
Ficou sozinho, sem amigos, sem ninguém para conversar, assim como era a vida de David no início. E para piorar, trancava-se em seu quarto. Seu pai, Réal, ficou muito preocupado com o filho, pois Bouvier entrou em depressão e não queria comer e nem beber, fez greve de fome e ficava sempre em seu quarto.
As coisas não iriam ser fáceis para ele, pois estava com o sentimento de culpa, que não iria se esgotar tão cedo. Como ele iria ver os amigos sabendo que todos estavam contra ele? Conviver com isso não é fácil, mesmo você não tendo feito aquilo, você fica preso nesse rótulo e acaba acreditando que foi você mesmo. Pierre enlouqueceu com essa notícia, e nem banho queria tomar. Estava pior que mendigo.
Todos já estavam em suas casas, e os pais de Pierre tentaram falar com o filho:
- Filho, é sua mãe. Abra a porta pra mim. O que está acontecendo? – Disse Louise.
Bouvier ficou em silêncio, o que deixou a família ainda mais preocupada. Considerava-se um ser humano desprezível e fútil.
Pierre tentou dizer aos amigos que ele não tinha culpa de nada, mas ninguém quis acreditar, e ninguém sabia se ele estava dizendo a verdade. Saiu finalmente do quarto, sem dizer nada, e conduziu-se até a porta. Caminhou pela rua, o objetivo era de chegar até a casa de David. Bateu na porta e a irmã de Desrosiers atendeu:
- Ah, é você. O que quer aqui? – Julie disse com raiva.
- Eu preciso falar com o seu irmão. – Pierre respirou fundo, para conter o nervosismo.
- Ele não quer falar com você, Pierre. Por favor, vá embora.
- Olha, eu sei que vocês devem estar me odiando, mas acredita em mim, não fui eu que contei para o Joel, eu nunca faria isso com o seu irmão. – Os olhos de Pierre se encheram de lágrimas.
- Pierre, se resolva com o meu irmão, não comigo.
- Então me deixa entrar e falar com ele.
Enquanto isso, David saiu do seu quarto por ter escutado uma pequena discussão, e foi ver do que se tratava.
- O que está acontecen... Ah! – David olhou fixamente para Pierre na porta e suspirou profundamente, pois ainda sentia muita mágoa.
- David, que bom que apareceu. Eu... – Pierre estava nervoso – Preciso falar com você. Poderia me dar um tempo?
- Não temos nada para conversar. – David tentava se acalmar.
- Não fui eu.
- Pierre, sai daqui. Eu não vou acreditar em uma palavra que você disser. É claro que foi você que revelou que sou gay. Suma da minha frente, não quero te ver nunca mais. Nossa amizade acabou! – David fechou a porta na cara de Pierre e novamente foi para o seu quarto.
Pierre saiu da porta de David e seguiu seu caminho novamente até sua casa. Já era tarde, estava chovendo forte, e Bouvier estava sem nenhuma proteção, mas seguiu seu caminho da mesma maneira, pois segundo ele, o buraco era fundo. Parecia que estava sendo apunhalado no peito, de tanta dor que ele estava sentindo por ter perdido seu melhor amigo, companheiro de banda. Continuou a sua caminhada e mais a frente avistou Joel. No mesmo instante, Pierre franziu os dentes e mostrou uma expressão de ódio, e saiu correndo em direção ao garoto problemático, puxando o ombro dele para que ele olhasse para trás, e quando Joel olhou, Pierre acertou-o com um soco, fazendo Joel cair no chão.
- Você é louco, rapaz? – Disse Joel, colocando a mão na boca e verificando o sangue.
- Isso ainda é pouco pra você. – Pierre levantou Joel do chão pela gola de sua blusa. – Por que você humilhou o meu melhor amigo diante de toda a escola, hein? Por que foi fazer isso?
- Todos iriam saber um dia, só adiantei. – Joel riu.
- Você não tem que se intrometer nessas coisas. Por que não o deixa em paz? Seu problema é comigo, não o use para atingir a mim, simplesmente venha aqui e faça seu papel de homem, fale diretamente comigo. Não é você que se diz homem com H maiúsculo? Pois haja como tal, e se tiver que dizer alguma coisa, diga na minha cara, me bata se quiser, mas não faça nada contra os meus amigos. – Pierre enfrentou Joel.
- Eu te conheço, Pierre. Você no fundo está agradecendo a mim, porque se não fosse eu, você iria lá contar pra todo mundo, eu apenas facilitei o seu trabalho. – Joel debochou.
- O quê? Você ficou maluco?
- Não se faça de bobo, Pierre. Você quer que todos acreditem que você é bondoso, mas ninguém sabe a verdadeira pessoa que você é. Pra quem rouba namoradas, faz qualquer coisa, inclusive prejudicar os amigos.
Pierre ficou calado e Joel se afastou, fazendo Pierre seguir o seu caminho para casa. Ao chegar, subiu imediatamente para o seu quarto e novamente se trancou. Quebrou tudo o que tinha a sua frente, deixando o quarto na extrema bagunça. Deitou em sua cama e começou a pensar em tudo o que Joel havia dito, mesmo dizendo para si mesmo que não havia sido ele que espalhou a notícia de que David era gay, mas ninguém acreditava em Bouvier.
- Eu sempre estrago tudo! – Gritou Pierre.
Bouvier não estava preparado para receber acusações, não sabia o que fazer para reverter a situação e refazer suas amizades e a banda, estava a castigar a si mesmo, pois segundo ele, era o adolescente mais estúpido do mundo, que magoou seu amigo com uma simples besteira. O que Pierre poderia fazer? Ninguém acreditava nele, Joel dizia que ele não era o que todos pensavam, o que deixava certa desconfiança ao redor. Não sabia ao certo se Pierre era uma boa pessoa ou estava jogando contra seus colegas, talvez fosse vingativo como Joel, e só queria prejudicar quem atravessasse o seu caminho. Será que Pierre tinha sede de vingança? Ele parecia alegre, sempre cantarolava uma de suas músicas, e adorava compor, até escrevia músicas para outras bandas, como All Time Low e Faber Drive, seus amigos de infância.
‘’Você estava bem levando a sua vida normalmente, não estava, Pierre?’’ Era o que Bouvier se perguntava enquanto se olhava no espelho. Em sua face existia um olhar de desprezo por si mesmo, algo que não podia apagar de seu coração e de sua memória. Seu coração se tornou cinza depois do ocorrido, como ele costumava dizer, pois estava sendo acusado injustamente. Ou foi ele mesmo que contou para todos a verdade sobre David? E por que ele faria isso? Será que ele sofreu na vida e queria se vingar de todos, mesmo daqueles que não têm culpa? Ou é somente uma mentira que foi inventada? Alguém ouviu a conversa? Eram as perguntas que não queriam calar, pois Avril, Chuck, David, Jeff, Laurence, Patrick e Sébastien não se conformavam com o que havia acontecido, sempre definiram Pierre como um exemplo de vida, mesmo popular e rico, ele era humilde e um ótimo cantor, ninguém entendia. Mas talvez Pierre tivesse seus motivos para fazer algo assim contra ele, ou poderia nem ter sido ele. Pierre estava dizendo a verdade? Ele era mesmo um cara bom?
“Sim, eu sou um cara excelente, não faria mal a uma mosca, por que iria fazer mal ao David? ’’ Pierre dizia para ele próprio, mas todos acreditavam que tivesse sido ele, então não adiantava negar a não ser que ele possuísse provas, nas quais ele não tinha.
‘’Eu vou descobrir quem foi que fez isso com o meu amigo. ’’ Pierre dizia nervoso, como se realmente tivesse uma pessoa por trás dessa traição toda, mas ninguém conseguia confiar em Bouvier, e ninguém sabia se quem estava dizendo a verdade era Pierre ou Joel. Tentou relaxar com um banho de banheira, e depois tomou um remédio, para curar toda aquela dor de cabeça que estava sentindo. Estava uma grande confusão, uma verdadeira bagunça, tanto na mente de Pierre como de David, pois David estava magoado, mas não conseguia compreender porque Bouvier iria fazer o que ele supostamente fez.
Joel não tinha uma boa fama, mas depois de tudo o que ele disse a Pierre, as dúvidas começaram. Não se sabe se Bouvier era um verdadeiro amigo ou inimigo de todos ao seu redor, mas as pessoas acharam melhor se prevenirem, pois talvez ele estivesse planejando um plano maligno. ‘’Você precisa manter os seus amigos por perto e seus inimigos ainda mais perto. ’’ Ou seja, conhecer seus inimigos era o conselho que David daria para seus colegas.
Pierre possuía um diário, no qual ele escreveu sobre o que sentia:
‘’Eu sou um monstro. Como isto pôde acontecer comigo? Eu cometi meus erros, não há por onde fugir. Está anoitecendo e eu desaparecendo aos poucos. Você já se sentiu como se estivesse desmoronando? Você já se sentiu fora do lugar? Como se de alguma forma você não fosse daqui e ninguém te entendesse? Você já quis fugir? Você se tranca em seu quarto? Com o rádio ligado e o volume bem alto, para ninguém te ouvir gritando? Não, você não sabe como é, quando nada parece certo. Você não sabe como é ser como eu! Ser machucado, sentir-se perdido, ser deixado na escuridão, ser chutado quando você está mal, sentir como se você estivesse sido empurrado para fora e não ter ninguém lá para te salvar. Não, você não sabe como é. Bem-vindo à minha vida!’’
David também possuía um diário, e enquanto pensava em Pierre, escrevia o que estava sentindo:
‘’ Ninguém nunca lhe apunhalou pelas costas, você deve pensar que eu sou feliz, mas eu não vou ficar bem! Todos sempre lhe deram o que você quis, você nunca teve que trabalhar, estava sempre lá! Você não sabe como é. ’’
David soluçava de tanto chorar, pois estava apaixonado por Pierre. Parecia loucura, mas ele não conseguia evitar. Tentava de todas as maneiras possíveis esquecer-se de Bouvier, mas de um jeito estranho, ele o fazia feliz, o completava. David adorava quando Pierre estava perto dele, sentia um conforto que nem ele mesmo sabia explicar, mas estava muito chateado com Bouvier, e com isso, sua vida virou do avesso. Já não via mais a vida sem Pierre, se é que sem ele existia alguma vida. David quebrou todas as coisas que havia em seu criado-mudo. Lá havia também uma foto de Bouvier e Desrosiers, na qual David pensou em queimá-la, mas pensou uma, duas, três vezes e não teve coragem de fazer isso com a foto de seu grande amor, mesmo que este fosse agora o motivo de seu sofrimento.
Pierre olhou pela janela e viu os estragos que a chuva estava fazendo. Raios e trovões por pouco não atravessaram o seu quarto. Tentava dormir, mas não conseguia parar de pensar em David, o que fez Pierre ter insônias, assim como David. Ambos pensando um no outro. David já não conseguia tirar Pierre da cabeça, seu amor era tão forte que chegava a doer.
‘’Meu coração está em pedaços, e esses pedaços sentem sua falta. ’’ David escreveu em seu diário se referindo ao Pierre, pois de alguma maneira, Bouvier fazia alguma diferença em sua vida. Afinal, ele devia agradecer por tudo que o amigo já fez por ele, e por ter dado segurança. Mesmo tendo trapaceado com ele, David mencionava de que Pierre era a única pessoa que oferecia coragem para fazer tudo aquilo que tinha vontade sem temer de nada, e coragem para assumir a homossexualidade, mas o que se prejudicou mais foi Pierre, que ficou muito mal por ninguém acreditar nele. Infelizmente ainda não dava para saber se Bouvier estava mentindo ou dizendo a verdade, não se podia saber se sua amizade com David tinha o intuito de prejudicá-lo ou não.
E se fosse tarde demais para esclarecer aquela história? E se David cometesse alguma besteira diante daquele fato? Em cada dez palavras que Pierre dizia, onze eram David. Suas lágrimas escorriam por todo o seu rosto, mostrando decepção. Tinha medo de que David fosse falar com Joel e sofresse alguma coisa. ‘’Mas eu prometi defender o meu melhor amigo, independente se ele estiver magoado comigo ou não, eu não deixarei nada atingir David’’, Pierre falou enxugando as lágrimas. Já estava se formando uma poça d’água no chão, e sua voz estava ofegante, toda vez que se pronunciava, soluçava, e o som de sua voz não saía muito bem. Seus familiares se preocuparam com Pierre, que sempre estava trancado em seu quarto e não queria visitas de ninguém, muito menos de seus pais. E Bouvier estava lutando contra a asma, o que deixava a família ainda mais preocupada.
Porém era no conforto do seu lar que Pierre podia pensar no que havia feito, e no que faria para consertar seus erros. E se pudéssemos voltar no tempo e corrigir os nossos erros? Será que corrigiríamos tudo? E se nos arrependermos, somos perdoados? Ultimamente, com a intensidade de seus sonhos agravando-se, seus amigos faziam gracinhas desnecessárias, e ele mantinha-se ocupado compondo músicas para se livrar das memórias do acontecido. Praticamente tudo era feito para ele, em função dele. E ele ficava indeciso: ou estava sendo alvo de uma farsa, ou talvez de uma triste realidade.
‘’ Você sabe que é amado quando lhe dizem as três palavrinhas mágicas: eu te amo. Mas saber ser amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. Sentir-se amado é ver que ele se lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é ver como ele fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d’água. Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. ‘’
- Eu devo perdoar o Pierre? Ele seria realmente capaz de fazer isso comigo? Por que, meu Deus, por quê? – David arremessou um copo no espelho e voltou a chorar.
David não conseguia conter suas lágrimas, ele amava Pierre com todas as suas forças, e sentiu que estava o perdendo mesmo sem nunca ter tido. Como será a vida de Desrosiers daqui pra frente? Ele irá sobreviver mesmo com todas as desavenças? E Pierre, conseguirá o perdão de David? Era difícil de saber, os dois estavam passando por uma fase difícil. A vida de Pierre mudou completamente, sua paixão estava sendo derrotada, que era o Simple Plan. Seu sonho de cantar estava sendo jogado para o alto, como se não houvesse importância alguma, mas Pierre amava a banda mais do que tudo e todos. A porta estava novamente trancada, e então seus pais subiram as escadas e bateram em sua porta:
- Filho! – Sua mãe dizia com uma voz preocupada.
Pierre notou a preocupação de sua mãe, e resolveu abrir a porta.
- Desculpa, mãe. Eu... – Pierre engoliu o choro – Estava... Estudando. – Tropeçou nas palavras.
- Mas eu estou vendo todas as suas coisas quebradas.
- Não foi nada demais, mãe. Não precisa se preocupar comigo, eu estou bem.
- Você tem certeza que está bem, meu filho? Seu rosto está inchado, e você não come há dias. Desce lá e vem comer conosco.
- Obrigado, mãe, mas eu estou sem fome.
- Filho, não deixe sua mãe ainda mais preocupada. Por favor, vai comer, eu me preocupo com a sua saúde.
- Está bem, mãe. Eu vou tentar.
Pierre desceu até a cozinha e preparou um prato de arroz, feijão e salada, mas muito pouco, dava para contar os grãos.
- Meu filho, você não come só isso. Pega mais. – Dizia o seu pai.
- Obrigado, pai, eu estou bem.
- Pierre, olha pra sua cara, você está magro, dá pra ver que sua saúde não está boa, você deve estar com anemia.
- Exagero seu, pai. Vou ficar bem.
Bouvier realmente estava muito magro, e não conseguia dormir. O sentimento de culpa consumia-o por dentro. Subiu novamente para o seu quarto e trancou a porta. Alguns instantes depois, eis que seu celular toca:
[Ligação: ON]
- Alô?
- Pierre, é a Avril.
- Oi, amor.
- Amor nada. Eu estou muito magoada com você, e ainda não entendo porque fez isso com o David. Ele é meu melhor amigo, será que não sabe disso?
- Eu sei, Avril. Mas eu não disse nada, acredite em mim.
- Eu gostaria de acreditar em você, Pierre. Eu realmente gostaria, mas não tem como, o único que sabia dessa história era você. Terá que provar que não foi culpa sua, assim acreditamos que você não fez esse tipo de coisas.
- Mas como eu posso provar isso?
- Eu não sei, tenta. Você sempre dá um jeito em tudo, dê um jeito agora de reconquistar suas amizades e também a sua namorada. Chuck, David, Jeff, Laurence, Patrick e Sébastien estão do meu lado, vieram passar o dia aqui em casa. Coloquei no viva-voz para eles escutarem a sua voz de traidor.
- Mas não fui eu.
- É fácil dizer que não foi você, né Pierre? – Disse Chuck.
- Muito simples. Por que não confessa logo que foi você que me entregou? – David tentava engolir o choro.
- O que vai ser da nossa banda? Você não pensou nisso antes de fazer essas coisas com o seu amigo? E com o Simple Plan? A banda não tem importância pra você? – Disse Jeff.
- Vai desistir dos seus sonhos? Aliás, foi você que estragou por conta própria. – Laurence dizia nervosa.
- Eu não acredito, Pierre. Você é um falso igual à Lachelle. Como eu pude acreditar em você em todo esse tempo? – Disse Patrick.
- Você não sente vergonha, Pierre? Estragou tudo. – Disse Seb.
- Mas eu não fiz nada, acreditem em mim.
- Como eu disse anteriormente, prove. Sem provas nós não podemos acreditar em você.
[Ligação: OFF]
Avril desligou o telefone sem ter deixado Pierre terminar de falar. Ela estava muito magoada com o namorado. Ou ex-namorado, porque depois do ocorrido, o namoro havia se acabado.
- Eu ainda não consigo acreditar porque o Pierre fez isso. – Disse Avril.
- Sinceramente? Nem eu. Sempre achei que ele era uma boa pessoa, não esperava isso dele. Ele me traiu. – Disse David.
- Ele deve ter uma alma vingativa. Fala da Lachelle, mas age feito ela. – Disse Jeff.
- É complicado entender... Ele é o amor da minha vida. – Disse Avril, o que fez David olhar torto, mas não se manifestou.
- Bom, eu acho que vou para a minha casa agora, já está tarde e Julie deve estar me esperando. Boa noite.
David despediu-se dos amigos e foi para a casa, cabisbaixo. Nada fazia sentido para ele.
‘’Quando querem transformar dignidade em doença
Quando querem transformar inteligência em traição
Quando querem transformar estupidez em recompensa
Quando querem transformar esperança em maldição:
É o bem contra o mal
E você de que lado está?’’
- Fiquei magoado. Não por teres mentido para mim, mas por não ter certeza se posso voltar a acreditar em ti. – Escrevia David em seu diário. – A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas e o cabelo. Meu coração está partido. O que mais falta? Coração partido é como um espelho quebrado, você não consegue colar os pedaços para que ele fique inteiro novamente.
Desrosiers fechou o seu diário e apoiou a cabeça em seu travesseiro. Tentava dormir, mas algo lhe atormentava todo o tempo. Será que era o sentimento forte que este sentia por Pierre? Mas de qualquer forma, ele fechou os olhos, naquela noite de lua cheia e estrelada. Escutavam-se cães ladrando ao longe.
Pela surpresa de Desrosiers, Bouvier apareceu:
- David.
- Pierre? O que está fazendo aqui?
- Vim convencê-lo de que eu não fiz nada contra você.
- Convencer de que forma?
- Eu te amo.
- Você o quê?
- Estou apaixonado por você, descobri isso logo naquele instante em que você revelou a sua homossexualidade.
- Eu... Eu também te amo, Pierre. Desde o início.
- Então vamos ficar juntos, viver esse amor lindo. Fomos feitos um para o outro, você não acha?
- Acho, claro que acho. Sempre achei. Você é tudo pra mim.
- Eu quero você.
- Eu também quero você, Pierre.
Pierre pegou nas mãos de David, que estavam frias, e acariciou-as por breves segundos. Ambos fitavam-se, até aproximarem o rosto um do outro lentamente. Com os olhos fechados, Bouvier se posicionou e contornou a cintura de Desrosiers com os braços, e o puxou de forma firme, fazendo com que seus corpos se unissem. David pôs seus braços em volta do pescoço de Pierre, deixando passagem livre de suas mãos até a nuca dele, no qual ele deixava leves carícias. Em seguida, ambos prenderam os dedos no cabelo, David no de Pierre e Pierre no de David, enrolando-os com a ponta dos dedos.
Depois de tantos carinhos, Bouvier e Desrosiers entreabriram os lábios, para que assim pudessem se beijar de forma calorosa. Com os lábios já colados, o beijo foi iniciado, cheio de ardência e paixão.
- Pierre, eu amo você e... – David acordou e olhou para os lados, procurando Pierre. – Eu estava sonhando?
Foi tudo apenas um sonho. Um sonho que David estava esperando para que se tornasse realidade, mas será que um dia poderá ser real? Bouvier gostava de garotas, o que fazia David perder as esperanças e desistir de tentar esse amor impossível.
‘’Que podes fazer se a pessoa que te faz chorar tanto é a única que pode lhe ajudar?’’
‘’A pior forma de sentir a falta de alguém é estar sentado ao seu lado e saber que nunca a terá. ’’
‘’Devo chorar por esse amor não-correspondido?’’
‘’Dizem que o tempo cura tudo. Mas desde que me apaixonei por você, o tempo se congelou. ’’
‘’Nunca se deixa de querer a pessoa por quem realmente esteve apaixonado. Só se pode aprender a viver sem ela. ’’
‘’Não tens que me prometer a Lua... Bastar-me-ia que te sentasses comigo um momento embaixo dela. ’’
- Amar demais dá nisso... Sempre nos damos mal. – David suspirara profundamente. – Querer alguém que não te quer é como tentar voar em uma asa quebrada. Não amar é sofrer, mas amar é sofrer muito mais.
Enquanto isso, na casa de Pierre, ele ainda estava passando pelo mesmo tratamento. Decidiu fazer greve de fome outra vez, mas de forma mais rígida, e também o pacto do silêncio. Ninguém podia comunicar-se com ele, pois tudo que lhe perguntava, ele permanecia calado e frio. As acusações mudaram o garoto, ele já não era mais feliz. Parte dele havia sido destruída. O que era fácil de compreender, pois as palavras machucaram-no brutalmente. Ele havia sido morto por dentro, sua vida estava atordoada. Mas para ele, aquilo não era vida, ele estava cavando o buraco para sua própria cova.
Os familiares ainda estavam em estado de choque, e decidiram verificar o problema.
- O que está acontecendo com o Pierre? – Disse Louise, a mãe de Bouvier.
- Não sei. Vamos subir para perguntar. – Respondeu Réal, pai de Pierre.
Seus pais subiram as escadas e bateram na porta de Pierre, mas como de costume, ele permaneceu em silêncio, e eles desceram novamente. Jay Bouvier, que estava jogando videogame em seu quarto, escutou alguém caindo no chão e se assustou, fazendo com que ele apelasse pela ajuda dos pais.
- Pai, mãe! Pierre está caído no chão. – Gritava Jay, o irmão de Pierre.
Novamente seus pais subiram as escadas, e pela fechadura de Pierre, conseguiram vê-lo caído com sangue em suas mãos, que estavam escorrendo por debaixo da porta.
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