Notas iniciais
Boa leitura.

POV: Seb

Fui até o hospital onde Laurence estava, e permaneci ao lado dela o tempo todo. Lauren estava sendo bem cuidada por Avril, Julie, Marie Lee, Hayley e Laura. Laurence abriu os olhos e me olhou com cara de espanto.

─ O que está fazendo aqui, Sébastien? — Ela disse em um tom de reprovação.

─ Eu vim te ver, meu amor. — Sorri e acariciei seu rosto.

─ Não me chama de amor. E não me toque. — Ela retirou minha mão que estava em seu rosto.

─ O que houve?

─ Você me magoou muito, Sébastien Lefebvre.

─ Eu ainda não sei o que eu fiz.

Flashback

─ Sébastien, para com isso!

─ Cala a boca, sua piranha!

─ O que disse?

─ Piranha.

─ Seb, o que houve?

─ Fica quieta, eu não quero ouvir a sua voz. Você não presta.

(...)

─ Eu disse isso? — Indaguei assustado.

─ Disse. — Ela me respondeu chorando.

─ Laurence, meu amor... Nunca foi minha intenção magoá-la. Tudo culpa da maldita bebida, mas eu não vou mais beber.

─ Homens são iguais mesmo. Eu pensava que você era o único que prestava e que tinha a intenção de me fazer feliz, mas tudo o que fez foi abrir uma enorme ferida em meu coração.

─ Laurence, por favor, me perdoa. Eu te amo. Nunca falaria isso pra você.

─ É tão fácil pedir perdão e fingir que nada aconteceu, não é? Suas palavras me feriram muito, Seb. Eu estou arruinada. E ainda bem que vou receber alta daqui a pouco. Vou pegar as minhas coisas e sair. Viverei bem longe de você, e nunca mais verá a sua filha.

─ Laurence, você não pode fazer isso.

─ Posso.

─ Senhorita Laurence, você está dispensada. — Disse a enfermeira que entrou ao quarto.

─ Obrigada... Adeus, Sébastien. Que bom que eu me recuperei rapidamente, assim posso me livrar de você de uma vez por todas. Vai ser difícil, mas eu vou agüentar.

Ela foi se afastando de mim e eu tentei gritar seu nome, mas ela se foi. Não poderia impedi-la. Aliás, muitas pessoas me chamariam de frouxo, e é isso mesmo que eu sou... Frouxo, fracassado, derrotado, e que perdeu a luta. E quando eu perco, eu desisto de lutar.

Passa-se um tempo, e você só pensa em quando as coisas irão melhorar. Seus pensamentos mudaram com esse tempo que se foi, suas idéias e sua forma de pensar já não são mais as mesmas. Depois de tudo, depois das quedas, das feridas, a dor acaba não tendo mais aquele efeito sobre você. As feridas se fecharam, formaram-se cicatrizes e tornaram-se como um novo membro em seu corpo. Todas aquelas marcas incomodam e ao mesmo tempo dá uma sensação de alívio. Incomoda olhar pra cada uma delas e lembrar-se dos motivos que teve, mas alivia quando percebemos que esse tempo já passou, que hoje já não precisa mais ou então que hoje são apenas marcas de vitória, de situações superadas… Essas marcas não somem, mas quem liga pra elas quando tudo está bem novamente? Não se vive mais do passado, vive-se do presente e vive-se para o futuro. Isso ainda não quer dizer que os problemas se acabaram e que não existiram novos, mas se fazem parecer pequenos e inabaláveis quando visto desse ponto, desse modo como se nada pudesse te abalar ou derrubar novamente.

POV: Laurence

Saí do hospital chorando e fui até a casa de Avril para buscar a Lauren. Quando cheguei, toquei a campainha.

─ Amiga, o que foi? Saiu do hospital e voltou pior? — Avril disse enxugando minhas lágrimas, mas eu desabei em seu ombro.

─ O que está acontecendo? — Julie aproximava-se.

─ Ah... O Sébastien...

─ O que tem o Seb? — Questionou Hayley.

─ Ele me magoou e me chamou de piranha.

─ O Seb fez isso? Eu não acredito. — Marie Lee ficou espantada.

─ Muito menos eu. — Laura completou.

─ Ele se entregou às bebidas. — Falei aos soluços.

─ O que houve com o nosso amigo? — Indagou Hayley.

─ Não sei, ele está doido. Eu só quero a minha filha para ir pra casa. Desculpa, meninas... Eu gostaria de falar com vocês por mais tempo, mas eu não estou com cabeça para isso.

─ Claro, amiga. — Avril me entregou a Lauren. ─ Mas quando precisar desabafar, você sabe que pode contar comigo, não sabe? Você é a minha melhor amiga, e eu sempre estarei aqui para o que precisar.

Eu abri um pequeno sorriso e a abracei.

─ Obrigada por tudo. Tenham uma boa noite.

Despedi-me de todas e saí de lá com a Lauren, que era a única coisa preciosa que eu tinha em minha vida. Nada mais faz sentido. Estou desmoronando, caindo aos pedaços.

Mágoas? Tenho muitas, e todas sangram… Espero que um dia essas feridas parem de latejar, e eu sinta falta delas como quem sente falta do gesso após a fratura ter sido sanada. A cada vez que olho ou penso nas pessoas responsáveis por minhas mágoas, por dentro eu anoiteço, em uma escuridão tão densa que nem mesmo a mais intensa luz celeste encontraria resistência para atravessar. Fico abatida em ter depositado tanto de mim em tão pouco, por ter amado quem nem sequer sabia o que era amor, e por não ter tido controle do quanto eu iria me machucar, pois não posso me culpar em me entregar demasiadamente àquilo que eu amo, pelo mesmo motivo que um condor não pode ser culpado por voar tão alto. O que eu posso fazer em tais circunstâncias, é olhar no espelho e avaliar os danos e cicatrizes que se manifestam em meus olhos, e que agora, adquirem contornos entristecidos, que acompanham um fôlego que vez ou outra perde o ritmo a favor de tomadas profundas de ar, fazendo brotar lágrimas que rolam sem querer rolar, como quem chora sem saber que chora, como um palhaço que se condói por detrás da pintura alegre estampada na cara, cansado de presenciar a dor e ter que fingir não sentir nada em relação a isso, em troca de sorrisos inocentes de quem ainda mal sabe o que é sofrer. Tudo isso é muito triste, me machuquei muito na vida e não sei ao certo se vou conseguir um dia me curar, ou ao menos, melhorar a ponto de não me incomodar com essas dores como se eu as incorporasse em minha essência, tal qual fazemos com a morte, que dia após dia cumpre seu papel sem que sequer notemos. O que eu mais me pergunto, é por que as pessoas fizeram isso comigo quando tinham a opção de não fazer. O que dilacera não é o que as pessoas fazem, mas como elas fazem sabendo que há inúmeras opções de fazer a mesma coisa. Mas me pergunto onde está a sensibilidade do ser então dito, “humano”, para avaliar qual a melhor e mais adequada opção, mas essa minha indagação logo cede espaço para outra, na qual me pergunto se essa tal sensibilidade realmente ainda existe. Seja como for, me resta usar o tempo para que eu considere a possibilidade de colar todos os meus estilhaços que fui recolhendo pelo chão no caminho de volta ao abrigo da minh’ alma… Quem sabe meu coração não fique feliz com sua nova decoração de mosaicos…

POV: Pierre

Andei pelas ruas já escuras de Montreal, seguindo até o hospital onde estava David, e acabei encontrando Laurence com a Lennon em seu colo.

─ Laurence! — A chamei.

Ela olhou para trás e eu me aproximei.

─ Por que essa carinha tão triste? — Disse ao observá-la com os olhos cheios d’água.

─ O Seb...

─ Ah, já sei. — Interrompi.

─ Sabe?

─ Sim, eu falei com ele. Mas ainda não sei o que aconteceu.

─ Ele me chamou de piranha e disse que eu não prestava.

─ O que?! — Eu não conseguia acreditar.

─ Isso mesmo, Pierre. Ele me maltratou.

─ Eu mato o Seb!

─ Calma... Eu vou dar tempo ao tempo, esfriar a minha cabeça... Não aja de forma precipitada. Só... Dê um abraço no David por mim.

─ Vamos até lá comigo.

─ Eu não vou agüentar olhar para o Sébastien.

─ Nem eu, mas venha... É o seu amigo e meu noivo que está correndo riscos de morrer. Já pensou se hoje for a última vez que poderá vê-lo?

─ Nossa, Pierre... Deixa disso, ele vai sobreviver.

─ Ok, desculpe-me, eu sou muito idiota às vezes.

─ Então vamos.

Abracei a Laurence e fui até o hospital com ela. Não demoramos muito para chegar, e estavam todos lá. A enfermeira, que já estava cuidando de David, foi até nós.

─ Vocês vieram para visitar David Phillippe Desrosiers? — Perguntou a enfermeira.

─ Sim! — Respondi um pouco apreensivo.

─ Ele não pode receber visitas no momento, mas o que eu posso adiantar é que ele precisa de uma transfusão de sangue urgentemente, e preciso encontrar alguém compatível.

Eu olhei para todos e fiz um sinal. Eles entenderam que eu queria dizer para fazermos um teste para ver a compatibilidade, e eles concordaram. Fizemos os testes, um por um, mas apenas Joel e Chuck eram compatíveis.

─ Eu vou doar o sangue. — Disse Joel.

─ Que isso, Joel. Eu posso fazer isso. — Respondeu Chuck.

─ Não, eu faço isso. Vai ser uma forma de me redimir ainda mais com vocês, depois de todo mal que fiz. Eu ainda quero me desculpar 100% com vocês, e pra isso, eu quero salvar a vida do David. Estou disposto a doar o meu sangue a ele.

Abri um largo sorriso no rosto e abracei Joel, que retribuiu o meu sorriso.

─ Isso é perfeito! Muito obrigado. Não sei o que seria de mim sem você, amigo. — Falei querendo chorar.

─ Eu que agradeço, amigo. Mas ok, agora eu vou doar o meu sangue a ele. Vai dar tudo certo.

E as feridas que você deixou continuam abertas, mesmo sabendo que iria me machucar, eu me apaixonei por você. E o que ganhei em troca? Momentos, belos momentos, dos quais me machucaria de novo somente para tê-los novamente.

Minutos após a transfusão, a enfermeira voltou para nós e disse que a transfusão foi um sucesso, e que David estava recuperado de tudo. Graças ao Joel. Fomos até o quarto e eu corri para abraçar David. Pedi desculpas pelo que havia dito antes sobre a Lennon, e ele aceitou. Também agradeceu ao Joel por tê-lo doado o sangue. É tão bom ver todos felizes novamente... Mas e a Sarah? Ela vai parar de ser psicopata? Eis a questão...

Felicidade é coisa que não tem nome. É silêncio que perpassa os dias tornando-os mais belos e falantes. Felicidade é carinho de mãe em situação de desespero. É olhar de amigo em horas de abandono. É fala calmante em instantes de desconsolo. Felicidade é palavra pouca que diz muito. É frase dita na hora certa e que vale por livros inteiros.

Desistir no “não sei”. Insistir que “não sei não é resposta”. Calar na dúvida e me encolher na impotência de mudar destinos. Ir embora nas ocasiões onde o coração aperta, a garganta engasga e o corpo todo sente a dor que não se vê. Há livros, filmes e músicas sobre amores que não deram certo. As histórias que eu li, os filmes em que chorei… Gosto da tortura, mesmo com medo da vida. Mas quando nos vi numa moldura de um quadro triste e na trilha sonora de um filme francês — logo, dramático -, eu chorei também. Não pela dúvida, pelo “não sei” ou pelos silêncios. Eu chorei por descobrir que o nosso quadro não fica bem assim, a história não segue, a profundidade não é enxergada. Chorei por ver no quadro o quão real pode ser a dor. E senti, sem me poupar, como a distância de um palmo e a de um oceano inteiro pode coincidir. Porque “não sei” não é resposta, e mesmo assim me submeti a sua dúvida. Esperei para escrever, para ver o dia nascendo com a enxaqueca sendo a minha ressaca, mas não estou mais tão sóbria como antes e muito menos de olhos fechados. Não coloque os meus pés no chão, pois eu sou capaz de ir andando para longe demais. Não me deixe num canto a sós com os ângulos tão retos, pois eu posso me cegar. Eu me encolho novamente para não ver o fim. A escrita despreza o nexo e eu nunca fiz sentido: damos-nos bem até então. Não há sentido em ficar na dúvida, mas eu fico. Nunca soube desistir… Não me deixe esquecida na sua estante.

Notas finais
Reviews?