Got My Heart In Your Hands
87 Onde está o amor?
Narração: David
You And I Tonight — Faber Drive
Você já se sentiu arruinado? Já foi decepcionado por alguém que você o ama mais que a si mesmo? O que fazer quando a vida decide virar as costas para você apenas para lhe prejudicar? Eu já não sei mais o que faço da minha vida. Estou indeciso com a proposta de voltar para o Pierre. E se eu voltar e ele fazer tudo de novo? Eu não posso mais suportar essa dor. Sinto tudo desmoronar sobre minha cabeça, parece que nada faz sentido.
“Se a minha felicidade é passageira, porque minha dor será eterna? Sabe, com a frieza das pessoas que amo imensuravelmente eu aprendo que embora o amor seja o bem mais inestimável, indestrutível e construtivo do universo, eu devo por vezes não abrandar meu coração e dar vozes a minha emoção. Tenho que ser racional e não me entregar ao choro, dor e desespero somente porque fulano não consegue enxergar o quanto o amo, ou cicrano me menospreza por se considerar superior... Ou eu mesmo me subestimo por acreditar nas críticas destrutivas, e deixo com isso meus sonhos serem protelados. Já vivi grande parte da minha vida em prol dos sentimentos alheios pondo minha dor no bolso e priorizando a dor de todos, mas quando me sinto mal, abatido e amargurado, me torno recluso e exploro meu auto-consolo, pois todos sub-julgaram meu sofrimento como dramatização, frescura e reclamação à toa, afinal, no mundo existem pessoas que sofrem bem mais do que eu. Que bela justificativa! Se todos nós pensássemos assim, não haveria o porquê existir lágrimas, não? Eu decido por mim mesmo a me amar mais, e aqueles que me abandonaram e deixaram com que eu me sentisse um nada em suas vidas. Eles? Eles não me importam mais, não mesmo... Agora meus sonhos responderão ao meu sofrimento que embora muitos me deixem de lado, Deus me pôs à frente de tudo e enquanto Ele estiver ao meu lado nada irá me destruir. Poderei me abalar, mas jamais vou recuar. Todos os dias tenho a minha chance e a partir de amanhã não deixarei ela escapar outra vez... E espero que você que ontem me desprezou e me fez sofrer veja o quanto sua atitude desumana fez com que eu me tornasse um humano melhor. Amor não mata. Amor nos constrói. Todo amor que era seu, está em mim, transformarei ele em amor próprio e farei com que novas chances surjam e quem sabe um novo amor floresça com elas.”
“Eu hoje chorei por estar arrependido de ter te conhecido e ter visto em você alguém melhor. Chorei por estar arrependido, chorei por estar sendo duro comigo mesmo e chorei por mais uma vez acreditar que alguém seria capaz de me fazer feliz. E o mais triste de tudo isso é que percebo que durante o tempo que você esteve ‘comigo’ você sentiu falta de outras pessoas, correu atrás e demonstrou a importância das mesmas em sua vida. E comigo? Oh, não vejo isso e me entristeço mais uma vez por hoje desconhecer você e desejar voltar ao dia que nos conhecemos e nem sequer ter sentido o meu coração pulsar além do normal, ou melhor, ele nem pulsou, mas algo em você me encantou e me fez continuar apostando em um erro que eu sabia que no final me gerariam danos inestimáveis, como nas outras vezes que eu literalmente me afoguei na ilusão, e o mais triste de tudo isso é descobrir que eu não sei nadar e que terei que naufragar em um mar sozinho, com a certeza de que se depender de você eu irei me afogar, pois sua incapacidade é tamanha que prefere paulatinamente sumir de seus olhos a esticar suas mãos e me salvar dessa ‘escuridão’ que você criou em meu universo. Estava tão bem sozinho, tão confiante e feliz, e você apareceu para essa confiança aumentar, mas eu pensei... Ou melhor, acho que pensei demais sem ter muitas provas, achei que existia amor, confiança e que esse sentimento era indestrutível, mas por pensar demais em você esqueci de mim. Esqueci da força que tinha, da minha autenticidade e garra, esqueci até mesmo porque eu larguei tudo por alguém que hoje me trata como um nada. Legal, vá atrás de todo mundo que fez parte do seu passado, aproveite e ouça músicas que faz você lembrar suas exs agora, já que não está mais comigo, porque é bem melhor sentir isso estando longe do que descobrir hoje que enquanto estava ao meu lado, morria de amores por alguém que você jurava não amar mais. Me diga, como se sentiria em meu lugar? Apenas me responda. Seria necessário trocarmos de corpo, para que hoje você pudesse entender que era eu quem amava mais? Durante esse tempo eu fui tão fiel, que qualquer pensamento de desejo, até mesmo por um pacote de Doritos eu abominava e, se possível, fazia orações, por estar agindo de má fé com alguém que, segundo minhas concepções, era altamente honesto comigo! Por que eu tenho que sempre cair e jurar não me deixar fazer de bobo, de novo, sendo que me deixou? Pouco tempo após uma grande decepção me deparo com outra. E saiba que dói muito ter que chamar de decepção quem hoje mesmo com todos os erros poderia chamar de ‘meu amor’, e ao seu lado me considerando único, mesmo que eu estivesse sendo enganado, eu estaria abrindo mão de algo que por instantes me fazia se sentir bem... E esses instantes se perdem, cada vez que olho descubro ou deduzo uma ‘traição’ sua nem que seja por pensamento. Não te desejo mal, mas desejaria que somente por agora, você pudesse sentir essa estranha e destruidora sensação que sinto só de imaginar o quanto me enganei, iludi e acreditei em alguém que me usou, me dilacerou e hoje me prova que eu fui um capítulo a se somar em sua vida enquanto minhas pretensões eram bem claras: Você era o meu livro, o mais bonito a ser escrito! Mas por opção sua hoje você se torna apenas um rascunho da minha história, e que fique claro, se tornará isso pelo simples fato de ter me feito acreditar em ti, preferia que fosse honesto, ficar ao meu lado por comodidade, ou melhor... Usar-me tendenciosamente pra fazer ciúmes a outrem é algo imundo e injustificável! Só de imaginar que estava me sentindo mal por ter falado algumas palavras contigo... Mas o seu silêncio hoje e as suas provas às escondidas passadas me provam que eu estava redondamente enganado a seu respeito. Deus queira que você jamais tenha que vivenciar o que eu vivencio hoje, Deus queira que você não precise sentir isso, Deus queira que eu te esqueça, afinal, pra você isso não será esforço, pois não há como se recordar do papel higiênico quando se tem Band-aid, mas que fique gravado aqui, quando seu band-aid perder a cola não haverá papel higiênico nenhum que suporte enxugar suas lágrimas ou limpar suas feridas, será neste momento que você verá que o boomerang voltou e bem mais impactante lhe acertou! Não adianta, realmente existem pessoas que não mudam, mesmo que se esforcem, continuarão sendo o tostão. E como minha avó costuma dizer... ‘Nunca chegará ao centavo! Chorar faz parte, escrever textos depreciativos também, tudo faz parte quando se decepcionamos com alguém que amamos tão intensamente que seríamos capazes de renunciar a tudo em nome de um amor’... Estranho mesmo é hoje escrever textos que denotem desconhecê-lo sendo que antes eu escrevia inúmeros textos que lhe elogiavam, agradeciam e juravam... Elogiava o que mesmo? Seu dote artístico de encenar? Agradeciam o que? O fato de você me abandonar? E juravam o que mesmo? Ah, jurava acreditar em alguém que é capaz de mentir tão bem, que no final, faz com que si próprio creia em mentiras deslavadas. Se eu duvido do seu sentimento? Ah, nem sei mais, se fosse verdadeiro não me enganaria, cumpriria ao menos algumas promessas... Não todas, mas faria o máximo de esforço pra me provar o contrário. Lamento, você perdeu alguém que mais te ama, AMA, ok? Ainda te amo sim, mas espero que o tempo lhe tire de mim, leve pra longe o que não mais acresce e espero que seja feliz, realmente que descubra a felicidade e que ao olhar pra trás não sinta, dor, remorso e nem pena de mim, não mesmo porque se vier me procurar após eu ter me acostumado com a sua ausência, não farei o mínimo de questão de prestar atenção na sua presença. Espero ter a sua força, sua garra e sua cara de pau. Espero mesmo! E como espero não esperar mais nada de você, pois foram esses ‘esperar’ que alimentaram uma expectativa e difundiram uma idéia de que você era o meu ‘par perfeito’. Aham, infelizmente ou felizmente, você está me deixando ir e parece nem se preocupar. Estou ferrado, afundado e sem ânimo, perdi praticamente meu ano. Mas fico feliz por perder um ano e ganhar outros, porque não sei até onde iríamos ou como conseguiríamos levar sua encenação, pois uma hora ou outra as máscaras cairiam! Ah meu Deus, tantas coisas teria que lhe dizer, muitas mesmo, mas só sei hoje me cobrar e me pergunto: ‘onde errei pra merecer tantas lástimas em minha vida?’ Respostas virão com o tempo e espero que tudo se esclareça, espero mesmo. E invista, aproveite, retome sua vida, me magoe, me maltrate em silêncio e me prove ainda mais o quanto sou forte e capaz de me reestruturar em cima de um fracasso que foi te amar.”
Deitei em minha cama e comecei a refletir sobre tudo... Mas que droga, eu não consigo tirar o Pierre da cabeça. Por mais que eu tente esquecê-lo, sem querer meus pensamentos são guiados até ele. Que porcaria de cérebro!
─ David, se acalma. — Dizia Lachelle ao aparecer novamente para mim, vestindo um manto lilás.
─ O que você quer que eu faça? Mate-me? É o único jeito, afinal, ninguém sentiria a minha falta. — Respondi chorando mais ainda, com o sangue escorrendo de meus pulsos.
─ Para com isso, tem alguém que te ama.
─ Quem? O único que me ama é Deus.
─ E o Pierre.
─ Pierre não ama nem ele mesmo.
─ É claro que ele te ama, e está arrependido.
─ Você não percebe que ele só está encenando? Acontecerá de novo.
─ Foi a Sarah que se insinuou para ele.
─ E daí? Ele foi ingênuo e burro de sair com ela, é óbvio que a Sarah iria querer alguma coisa. E tem mais, por que ele não a empurrou quando a beijou e tirou a roupa dele? No fundo, ele quis.
─ Não teve como evitar. Ela praticamente o prendeu.
─ Desculpa, mas eu não consigo acreditar. Ele tem culpa no cartório sim.
─ Ele está sofrendo, David.
─ Não mais do que eu. Iríamos casar, sabe o que é isso? Agora todos os meus sonhos foram jogados para o alto. Abri mão de tudo.
─ David, eu vou conversar com o Pierre agora. Fica aí.
Ela desapareceu e foi até o Pierre, que voltou para a casa de seus pais. Estava sentado sobre os cacos de vidro. Ele havia quebrado o espelho, e cortado os pulsos, já que não havia ninguém em casa. Seu irmão havia saído com a Marie Lee, e seus pais foram viajar.
─ Pierre. — Disse Lachelle ao aparecer para ele.
─ Me deixa sozinho. — Ele a respondeu aos prantos.
─ Pierre, eu imagino a sua angústia.
─ Foi tudo culpa minha. Eu sou um idiota. Por que fui acreditar em uma garota que não é nada minha? E nem fã era? Por que, Lachelle? Isso só pode ser castigo.
─ Pierre, não fala assim. Deus não gosta de ver os seus filhos tristes.
─ Perdoe-me, Deus. Mas não estou conseguindo sorrir, e nem fingir um sorriso. Tudo o que eu quero é chorar. — Disse ele olhando para o teto, e fechando os olhos, contendo uma lágrima que estava para escorrer.
─ Aqui está um papel contendo tudo o que você tem que fazer. É a sua missão. Corre.
Ele abriu o papel e começou a ler.
“Conta pra ele. Chega nele e fala. Fecha os olhos se for preciso. Fecha os olhos e finge que é pro espelho, como você já fez uma vez. Diz pra ele que você sente muito, que se arrepende de todas as vezes que poderia ter mudado a situação com poucas palavrinhas (e evitado algumas noites de choro e preocupação da parte dele), mas ao invés disso, só ficou parado sem falar nada, como o idiota que é. Pede desculpa por ter o deixado como última opção quando você era a única escolha. Confessa que se sente culpado por todas as vezes que estragou os possíveis relacionamentos dele provocando-o e fazendo-o cair na sua de novo, mesmo que isso seja a mentira mais descarada do mundo e que você não se arrependa. Assume que é egoísta e não sabe perder, que é atrapalhado e não sabe possuir, que é mimado e mandão e que tudo tem que ser do seu jeito, que é orgulhoso e pra você, você sempre está certo, que é pior do que criança, que é infantil, que é canalha, galinha… Como se ele não te conhecesse melhor do que você. Se humilha se for preciso. Fala que vai compensar pelas noites de sono perdidas, pelas lágrimas desperdiçadas no travesseiro, pelas dores de cabeça, pelos cortes, por tudo. No fundo ele só espera um sinalzinho verde pra não desistir, uma confirmaçãozinha de que você ainda está nessa junto com ele. Mas não o deixa cansar de vez de você.”
─ Eu não sou galinha e muito menos canalha. E eu me arrependo de tudo o que fiz sim.
─ Pierre, isso foi modo de falar. Eu sei que você é um cara bom. Apenas se explique. Corra atrás do seu amor.
Enquanto isso, com as meninas...
─ Eu tenho um plano genial. — Disse Avril em um tom empolgado.
─ Qual, Avril? — Perguntaram todas em coro.
─ É o seguinte... Vocês vão...
(...)
─ Mas no meio do shopping?
─ Claro que sim.
Elas começaram a planejar o plano, enquanto eu assistia TV. Desliguei a mesma logo que vi passar o clipe de Addicted, pois não iria conseguir olhar para a cara do Pierre, mesmo que em videoclipes. Mas, devido à tristeza e o sofrimento, eu desmaiei. Julie veio correndo, e só acordei depois de quinze minutos, depois de vários tapas.
─ Irmão... Vamos até a casa da Avril.
Eu não conseguia respondê-la. Estava fraco e sem nenhuma vitamina no corpo. Eu estava me importando demais com o Pierre e esquecendo de viver a minha vida.
Fui até a casa de Avril com a minha irmã Julie, e todos estavam lá, com um sorriso maldoso. Alguma coisa eles estavam planejando.
─ David, já combinamos aqui e vamos fazer o seguinte...
(...)
Saímos de lá e fomos até o shopping, que não estava tão longe. Como Sarah trabalhava no shopping — não entendo como conseguiram descobrir isso -, seria fácil de encontrá-la.
─ Ali está ela. — Apontou Hayley, e nós fomos em direção a ela.
─ Oi, querida. Tudo bem? — Avril forçou o sorriso, e a abraçou, também forçadamente.
─ Olá. — Sarah não conseguia olhar para mim.
─ Você está muito ocupada?
─ Não.
─ Então vamos conversar.
Avril foi levando Sarah até o centro do shopping, e em cima havia um andaime. Hayley estava lá posicionando um balde sobre uma corda. No balde continha uma tinta verde, que assim que a corda fosse puxada, a tinta atingiria todo o corpo de Sarah. Avril seguiu a conversa, a fim de deixá-la distraída, enquanto Marie Lee posicionava-se atrás de Sarah. Puxou a corda e Avril se afastou um pouco. A tinta caiu inteira sobre o corpo de Sarah, e todos nós rimos.
─ Suas loucas! — Gritou Sarah antes de sair correndo e tentar se limpar.
Os seguranças se aproximaram e nós nos escondemos em outro canto, perto da praça de alimentação. Ela teve que limpar toda a sujeira.
(...)
─ Pierre, vá até o shopping. David e seus amigos estão lá. Fale tudo o que tem pra falar na frente de todos. — Disse Lachelle que apareceu novamente para ele.
─ Vou lá.
Pierre correu para o shopping, chegando lá imediatamente. Escutei alguns passos... Reconhecíveis, por sinal... E também escutei a voz de Pierre, se aproximando. Fui em direção a Sarah e comecei a limpá-la, e logo dei um beijo nela. Fiquei louco? Talvez, mas era para descontar a dor que estava sentindo. Meus amigos e Pierre me cercaram. Pierre ficou nervoso, e saiu de lá correndo, mas Avril o segurou pelo braço. Hayley me tirou de perto de Sarah e deu um forte tapa em minha cara.
─ Você por acaso se drogou, seu idiota?
─ Não. Eu só quero que ele sinta a dor que eu estou sentindo. — Disse apontando para Pierre.
─ Eu não tive culpa.
Nesse momento, Sarah se afastou, sem ao menos ter limpado o chão.
─ Mas você poderia ter evitado. Eu sei que poderia.
─ Evitado como? Uma garota estava em cima de mim.
─ Ah, Pierre... Você não é mais criança, não vem com essa história de que ela o agarrou e você não conseguiu impedir.
─ É mesmo? Então vou fazer um pequeno flashback. Você se lembra de quando Nemours lhe agarrou e lhe beijou? Você fez o mesmo discurso. Lembro-me até hoje. Você disse que não conseguiu impedi-lo, pois ele se insinuou. Eu lhe perdoei, acreditando em sua inocência. Agora você me julga por ter errado? Mas por que você também não repara o erro que cometeu? Eu sempre sou o monstro da história. Meu coração não fica partido porque eu sou considerado o ‘’sem sentimentos’’, e isso é injusto. — Ele disse aos prantos.
Comecei a pensar comigo e Pierre tinha razão. Eu também havia cometido o mesmo erro. Ai meu Deus, o que eu faço agora? Tudo está tão confuso. Preciso de uma ajuda bastante reforçada.
─ Me perdoe por tudo que lhe causei, eu não queria te magoar. Mas infelizmente acabei fazendo. Olha os seus pulsos... Por causa de mim, você quase se matou, e eu também tive muita vontade de fazer isso. Só não fiz por causa do meu irmão, que ficou dizendo que seria muito estúpido eu acabar com a minha vida assim. Lachelle foi até mim e me disse para eu vir aqui atrás do meu amor, e não o deixasse se afastar. E agora estou aqui, me lamentando pelo erro que cometi. Um grande erro. Fui ingênuo, acreditei em uma pessoa que havia acabado de conhecer, mas por favor, me dê mais uma chance de fazer tudo ficar bem novamente.
Olhei para ele em prantos, e não consegui dizer uma palavra.
─ Acho que fracassei, não é? Nem aliança você usa mais. — Ele disse olhando para o meu dedo.
─ Não, seu bobo... Está aqui. — Tirei a aliança do bolso e entreguei para ele, estendendo a minha mão. ─ Põe de novo.
─ É sério? — Ele sorriu de forma boba.
─ Sim. Eu fui um idiota por não ter acreditado em você. Quando aconteceu o mesmo comigo, você me perdoou, e eu me recusei a lhe entender. Sou um péssimo noivo.
─ Não, não se culpe. Foi tudo por minha causa.
─ Vamos deixar isso no passado e consertar o nosso presente.
Ele sorriu e pôs a aliança em meu dedo. Passei os braços ao redor do pescoço de Pierre e o abracei fortemente. Minha vida voltou a ser colorida.
“Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém se lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. Cometa bobagens. Não compre manual para criar os filhos, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado. Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procure falar o que não vem à cabeça. Cantarolar uma música ainda sem letra. Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar. Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar. Leve uma árvore para passear. Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito. Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida. Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para serem os outros em você. Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo. Alterne a respiração com um beijo. Volte tarde. Dispense o casaco para se gripar. Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. Cometa bobagens. Ninguém se lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade.”
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