Pierre não conseguia mais viver a sua vida normalmente. Ele estava se sentindo desgastado, com dores no peito, e com a culpa dominando o seu ego.

Flashback de Priscila

Ela verificou se a altura do prédio era boa para se jogar, e estava certa do que iria fazer, mas antes escreveu uma carta onde dizia:

“Provavelmente minha alma já deve ter encontrado o céu agora. É tarde e eu fiz tudo isso com todos os planos para que nada desse errado. Eu espero esse fim há muito tempo. Carol, eu queria que ao menos uma vez você olhasse pra mim e dissesse que tudo ia ficar bem. Eu queria que você tivesse acreditado em mim. Eu queria mais tempo para explicar-lhe a dor que me habita, mas hoje ela transbordou e o relógio está tocando as quatro badalas da morte. Desculpe-me por tudo, mas eu não consegui ouvir os consolos dos inúmeros pares de sapatos e roupas de marcas que você me abarrotava. Eu tinha tudo, menos amor, e era amor o que eu mais precisava. Eu não sei explicar. Talvez eu tenha me seduzido pelas bebidas e pelas drogas, pelas facas, pelas lâminas. Elas eram minhas amigas. Conversavam comigo sempre que eu estava sozinha, e ah, eu gostava tanto delas. Você entende? Quando eu não tinha mais ninguém, elas me acolhiam. A noite vinha fria demais, o coração apertava demais, e os olhos, ah os olhos, estes vão apagar em minutos. Eles cansaram muito de chorar. Mergulharam tanto em lágrimas que não conseguem mais ficarem sóbrios. Eu peguei os seus remédios. Eles são coloridos e eu gosto de cores. Combinei o marrom com o vermelho — a mamãe adorava essa combinação -. E os amarelos ficaram por último, porque amarelas foram as flores do enterro da vovó. Os meus pulsos nunca estiveram tão vermelhos e meus olhos nunca se afogaram tanto. Eu mergulhei nas ondas da angústia e a vida não me deu bóias. Sinto muito, eu me afoguei. E eu gosto muito do vermelho, e dos meus pulsos. Meus pulsos. Lembra quando me perguntou se eu o tinha machucado? E eu respondi que havia um prego na mesa da escola, pois é, o prego era o estilete que o papai usara para cortar os cartões do seu novo escritório. E o machucado, ah, ele não importa pra você. Hoje eu quis mais vermelho, eu quis mais sangue. E eu consegui. Ficarei inundada nas marés apaixonantes do inverno e sorrirei, quando despercebida, chegar ao mundo que eu tanto sonhei. A água, o vinho, os venenos... Estão todos aqui, estão assistindo ao meu fim. É a minha platéia fabulosa, silenciosa e agradavelmente fria. Eu nunca quis fazer ninguém chorar, mas ninguém nunca se importou com as minhas lágrimas. Faço justiça então. Ninguém nunca vai entender minha dor, porque só eu sei o quanto mata. Não se perguntem por que eu morri agora. Se perguntem por que é que vocês ainda estão vivos. Eu lutei demais. Eu sofri demais. E, Carol, eu já estava morta há muito tempo, dentro de mim mesma. Deus pode ter exagerado no meu fardo, mas ele abusou da minha coragem. Coragem esta que me conduz ao precipício agora. Pode ser que eu pague tudo em outra vida, mas hoje eu preciso matar a dor. O hoje é o que me importa. Eu não vou viver o amanhã. Não há ninguém para me salvar, e eu não sinto muito. Dou graças a Deus pelas circunstâncias favoráveis do dia de hoje: chuva, muito trabalho, cidade agitada, fim de ano e casa vazia. Amanhã nos jornais, eu, infelizmente vou ser a capa. ‘Menina se suicida e deixa carta.’ Eu só quero que saibam que eu tentei apesar de tudo. Minha mente sempre será uma incógnita para todos, e para mim, ela é apenas a perfeição. Peço que, por favor, não culpe o Pierre por nada, porque nós namoramos e eu me suicidei por amor... Mas foi uma opção minha, eu poderia ter ao menos tentado ser feliz, mas não consegui. Perdoe-o, apóie-o, pois ele deve estar sofrendo. Eu te amo, cuide-se. Priscila.”

Dobrou a carta e deixou sobre a cama, mesmo tendo a certeza de que Carol nunca veria, já que Priscila estava no Brasil e sua irmã no Canadá.

Aproximou-se da sacada, respirou fundo, e em um impulso, inclinou o seu corpo para frente, caindo de uma altura muito grande.

Flashback off

Vizinhos que ficaram sabendo sobre o suicídio, informaram a polícia do Brasil. Eles verificaram o corpo, e logo depois, entraram na casa, encontrando o bilhete. As pessoas que conheciam Priscila informaram que Carol estava no Canadá, e também disseram que Priscila parecia uma pessoa tranquila, e não entendia o porquê de uma garota tão bonita ter se suicidado por isso.

O corpo foi transferido para Montreal, onde eles puderam fazer a autópsia, junto com a carta... Pierre e Carol conseguiram ver o corpo, e ficaram desesperados. Bouvier ainda tinha o sentimento de culpa, e a cada vez que se lembrava do ocorrido, seu corpo ficava imóvel e suas mãos trêmulas.

[...]

Um vulto na janela. Um grito. Um susto.

─ David, eu vi algo passando ali na janela. — Disse Pierre fixando o olhar na janela, ainda podendo ver o vulto passando de um lado para outro de forma repentina.

David olhou para janela, mas não viu nada.

─ Não tem nada ali.

─ Tem sim... É uma pessoa... Um vulto. — Pierre estava desesperado.

Viu agora uma mão encostar-se à janela... Uma mão ensanguentada, provavelmente a criatura estranha teria matado alguém.

[...]

─ Senhorita Carolina Medeiros?

─ Sim?

─ Preciso que venha à delegacia.

Carol desligou o telefone e foi correndo à delegacia. Lá ele entregou a carta que Priscila havia escrito antes de morrer, e ela leu em voz alta:

“Provavelmente minha alma já deve ter encontrado o céu agora. É tarde e eu fiz tudo isso com todos os planos para que nada desse errado. Eu espero esse fim há muito tempo. Carol, eu queria que ao menos uma vez você olhasse pra mim e dissesse que tudo ia ficar bem. Eu queria que você tivesse acreditado em mim. Eu queria mais tempo para explicar-lhe a dor que me habita, mas hoje ela transbordou e o relógio está tocando as quatro badalas da morte. Desculpe-me por tudo, mas eu não consegui ouvir os consolos dos inúmeros pares de sapatos e roupas de marcas que você me abarrotava. Eu tinha tudo, menos amor, e era amor o que eu mais precisava. Eu não sei explicar. Talvez eu tenha me seduzido pelas bebidas e pelas drogas, pelas facas, pelas lâminas. Elas eram minhas amigas. Conversavam comigo sempre que eu estava sozinha, e ah, eu gostava tanto delas. Você entende? Quando eu não tinha mais ninguém, elas me acolhiam. A noite vinha fria demais, o coração apertava demais, e os olhos, ah os olhos, estes vão apagar em minutos. Eles cansaram muito de chorar. Mergulharam tanto em lágrimas que não conseguem mais ficarem sóbrios. Eu peguei os seus remédios. Eles são coloridos e eu gosto de cores. Combinei o marrom com o vermelho — a mamãe adorava essa combinação -. E os amarelos ficaram por último, porque amarelas foram as flores do enterro da vovó. Os meus pulsos nunca estiveram tão vermelhos e meus olhos nunca se afogaram tanto. Eu mergulhei nas ondas da angústia e a vida não me deu bóias. Sinto muito, eu me afoguei. E eu gosto muito do vermelho, e dos meus pulsos. Meus pulsos. Lembra quando me perguntou se eu o tinha machucado? E eu respondi que havia um prego na mesa da escola, pois é, o prego era o estilete que o papai usara para cortar os cartões do seu novo escritório. E o machucado, ah, ele não importa pra você. Hoje eu quis mais vermelho, eu quis mais sangue. E eu consegui. Ficarei inundada nas marés apaixonantes do inverno e sorrirei, quando despercebida, chegar ao mundo que eu tanto sonhei. A água, o vinho, os venenos... Estão todos aqui, estão assistindo ao meu fim. É a minha platéia fabulosa, silenciosa e agradavelmente fria. Eu nunca quis fazer ninguém chorar, mas ninguém nunca se importou com as minhas lágrimas. Faço justiça então. Ninguém nunca vai entender minha dor, porque só eu sei o quanto mata. Não se perguntem por que eu morri agora. Se perguntem por que é que vocês ainda estão vivos. Eu lutei demais. Eu sofri demais. E, Carol, eu já estava morta há muito tempo, dentro de mim mesma. Deus pode ter exagerado no meu fardo, mas ele abusou da minha coragem. Coragem esta que me conduz ao precipício agora. Pode ser que eu pague tudo em outra vida, mas hoje eu preciso matar a dor. O hoje é o que me importa. Eu não vou viver o amanhã. Não há ninguém para me salvar, e eu não sinto muito. Dou graças a Deus pelas circunstâncias favoráveis do dia de hoje: chuva, muito trabalho, cidade agitada, fim de ano e casa vazia. Amanhã nos jornais, eu, infelizmente vou ser a capa. ‘Menina se suicida e deixa carta.’ Eu só quero que saibam que eu tentei apesar de tudo. Minha mente sempre será uma incógnita para todos, e para mim, ela é apenas a perfeição. Peço que, por favor, não culpe o Pierre por nada, porque nós namoramos e eu me suicidei por amor... Mas foi uma opção minha, eu poderia ter ao menos tentado ser feliz, mas não consegui. Perdoe-o, apóie-o, pois ele deve estar sofrendo. Eu te amo, cuide-se. Priscila.”

Ela chorou... Chorou de soluçar, e gritava de desespero.

─ Pierre...

─ Quem é Pierre?

─ O rapaz que veio aqui comigo verificar o corpo... Chame ele, por favor.

─ Ok, me passa o telefone dele.

Carol passou o número de Pierre, e o delegado o ligou. Pierre atendeu assustado:

─ Alô?

─ Preciso que venha à delegacia.

─ Ok, estou indo.

Pierre despediu-se de David, sem dizer para onde ia, e foi imediatamente para o seu carro e dirigiu o mais rápido possível. Sorte dele que a delegacia não ficava tão longe.

[...]

─ Estou aqui.

─ Pierre... — Disse Carol abraçando-o.

─ Oi... — Pierre não havia entendido o motivo do abraço, já que Carol estava o culpando pelo ocorrido.

─ Preciso que leia isso.

Pierre leu a carta, também em voz alta:

“Provavelmente minha alma já deve ter encontrado o céu agora. É tarde e eu fiz tudo isso com todos os planos para que nada desse errado. Eu espero esse fim há muito tempo. Carol, eu queria que ao menos uma vez você olhasse pra mim e dissesse que tudo ia ficar bem. Eu queria que você tivesse acreditado em mim. Eu queria mais tempo para explicar-lhe a dor que me habita, mas hoje ela transbordou e o relógio está tocando as quatro badalas da morte. Desculpe-me por tudo, mas eu não consegui ouvir os consolos dos inúmeros pares de sapatos e roupas de marcas que você me abarrotava. Eu tinha tudo, menos amor, e era amor o que eu mais precisava. Eu não sei explicar. Talvez eu tenha me seduzido pelas bebidas e pelas drogas, pelas facas, pelas lâminas. Elas eram minhas amigas. Conversavam comigo sempre que eu estava sozinha, e ah, eu gostava tanto delas. Você entende? Quando eu não tinha mais ninguém, elas me acolhiam. A noite vinha fria demais, o coração apertava demais, e os olhos, ah os olhos, estes vão apagar em minutos. Eles cansaram muito de chorar. Mergulharam tanto em lágrimas que não conseguem mais ficarem sóbrios. Eu peguei os seus remédios. Eles são coloridos e eu gosto de cores. Combinei o marrom com o vermelho — a mamãe adorava essa combinação -. E os amarelos ficaram por último, porque amarelas foram as flores do enterro da vovó. Os meus pulsos nunca estiveram tão vermelhos e meus olhos nunca se afogaram tanto. Eu mergulhei nas ondas da angústia e a vida não me deu bóias. Sinto muito, eu me afoguei. E eu gosto muito do vermelho, e dos meus pulsos. Meus pulsos. Lembra quando me perguntou se eu o tinha machucado? E eu respondi que havia um prego na mesa da escola, pois é, o prego era o estilete que o papai usara para cortar os cartões do seu novo escritório. E o machucado, ah, ele não importa pra você. Hoje eu quis mais vermelho, eu quis mais sangue. E eu consegui. Ficarei inundada nas marés apaixonantes do inverno e sorrirei, quando despercebida, chegar ao mundo que eu tanto sonhei. A água, o vinho, os venenos... Estão todos aqui, estão assistindo ao meu fim. É a minha platéia fabulosa, silenciosa e agradavelmente fria. Eu nunca quis fazer ninguém chorar, mas ninguém nunca se importou com as minhas lágrimas. Faço justiça então. Ninguém nunca vai entender minha dor, porque só eu sei o quanto mata. Não se perguntem por que eu morri agora. Se perguntem por que é que vocês ainda estão vivos. Eu lutei demais. Eu sofri demais. E, Carol, eu já estava morta há muito tempo, dentro de mim mesma. Deus pode ter exagerado no meu fardo, mas ele abusou da minha coragem. Coragem esta que me conduz ao precipício agora. Pode ser que eu pague tudo em outra vida, mas hoje eu preciso matar a dor. O hoje é o que me importa. Eu não vou viver o amanhã. Não há ninguém para me salvar, e eu não sinto muito. Dou graças a Deus pelas circunstâncias favoráveis do dia de hoje: chuva, muito trabalho, cidade agitada, fim de ano e casa vazia. Amanhã nos jornais, eu, infelizmente vou ser a capa. ‘Menina se suicida e deixa carta.’ Eu só quero que saibam que eu tentei apesar de tudo. Minha mente sempre será uma incógnita para todos, e para mim, ela é apenas a perfeição. Peço que, por favor, não culpe o Pierre por nada, porque nós namoramos e eu me suicidei por amor... Mas foi uma opção minha, eu poderia ter ao menos tentado ser feliz, mas não consegui. Perdoe-o, apóie-o, pois ele deve estar sofrendo. Eu te amo, cuide-se. Priscila.”

─ Eu...

─ Desculpa, Pierre.

─ Tudo bem, Carol.

Eles se abraçaram novamente, fazendo tudo ficar bem.

Notas finais
Desculpa ter postado a carta da Priscila três vezes, foi um jeito de deixar o capítulo ''maiorzinho'' HUAHUAHUAH. Enfim, reviews? :)