Gostava tanto de você
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Não sei o que eu estava esperando, mas definitivamente não era aquilo. Talvez algo parecido com um castelo, com paredes antigas e sofisticadas, e garotos perfeitamente perfeitos andando nos corredores. Mas o colégio Elizabete Albuquerque era bastante parecido com a escola que eu estudava anteriormente. Talvez mais novo, e mais limpo. Mas parecido.
Até mesmo as pessoas não eram tão diferentes. Garotas andavam nas mesmas leggings, que pareciam mais novas e mais caras, mas a maioria também não se importava em usar chinelos. Eram bonitinhos, cheios de pedrinhas, mas ainda eram chinelos. Grande parte das pessoas abriu um sorrisinho ao me ver; eram mais simpáticos do que o esperado também. Ninguém me olhou de cima a baixo, com uma bolsa de marca e cabelos loiros sem um fio fora do lugar, como via nos filmes. Era tudo tão... normal.
Andei até a tesouraria, mandaram eu passar lá antes das aulas para retirar o uniforme (que nem eram tão horrendos) e pegar uns documentos para Vítor assinar. Luzia, a senhora que veio me atender, era um pouco mais intrometida que o recomendado. Perguntava a toda hora coisas de minha infância (fala sério, o que tinha a ver com formulários de matrícula?!), e do meu irmão. Eu decidira, na noite anterior, que guardaria minha história para mim. Digo, compaixão não era algo que eu apreciasse, e quem não teria pena da pobre garotinha órfã? Me esquivei o melhor possível das perguntas, correndo para os corredores cheios de gente, procurando minha sala. Precisei parar para pedir informações algumas vezes, mas consegui chegar lá apenas alguns segundos após o sinal ter tocado.
Todos os alunos estavam sentados, quietos. No máximo conversavam baixinho com alguém do seu lado. Aquilo sim foi um espanto. Na minha outra escola, a gritaria e bagunça era constante até algum professor chegar aos berros. E nem isso era garantia de silêncio. Assim que passei pela porta, uma mulher, não muito mais velha que a gente, entrou atrás, fechando a porta.
Tentei correr até algum lugar vago, mas ela segurou meu braço gentilmente. Depois de colocar suas coisas na mesa, falou:
— Pessoal, essa é a Amélia. Certo? — ela olhou em meus olhos, buscando confirmação. Balancei a cabeça. Aquilo era algo tão infantil que por um segundo esperei que a classe respondesse, em uníssono, um "Oi, Amélia", como fizeram na escola para qual me mandaram assim que cheguei no lar. Mas, tirando alguns sorrisos e acenos, mais nada aconteceu — Agora pode se sentar — Ela sorriu.
Haviam vários lugares vagos, mas me sentei no primeiro que encontrei. Não queria que parecesse que estava escolhendo. Ao meu lado direito estava um garoto magrelo, que mal olhou na minha direção, mas a menina da esquerda me cutucou levemente, e disse, sorrindo:
— Meu nome é Júlia — Seus cabelos eram castanho claros, e cortados na altura do queixo. Havia uma mancha que parecia tinta embaixo de um de seus olhos castanhos, mas decidi não comentar. Não acho que seria educado.
— Me chame de Mia — Sussurrei, ciente de que meu nome ela já sabia. Júlia usava um macacão jeans por cima do uniforme, o que eu acharia super estranho se não estivesse vendo-a na minha frente. Nela, a roupa até que ficou legal. Tinha mais tinta respingada na parte de frente.
Ela sorriu, e depois disso sacou seu celular no bolso frontal do macacão, e não ergueu os olhos mais nenhuma vez. Temia que a professora (que se chamava Ariane) visse e punisse-a, mas quando a mulher passou ali do lado, simplesmente virou o rosto. Ou era cega, ou fingia não estar vendo.
Eu odeio química. Odeio muito, tipo muito mesmo. Porque eu sinto uma necessidade de entender e dominar tudo ao meu redor, e aquele emaranhado de números e letras simplesmente não fazia sentido. Ali, era ainda pior. Era meu primeiro dia de aula, e eu já sabia que levaria bomba em todas as matérias que tive até o recreio. Quando o sinal tocou, Júlia grudou no meu braço e me levou com ela, sem nem mesmo me perguntar se eu queria ir. Não discuti, é claro, porque eu queria. Comer sozinha nunca é bom. Ela me apresentou rapidamente para seus amigos como "a menina nova", e fiquei observando enquanto eles falavam sem parar, mas não interrompi. Fiquei sentada, olhando para um grande relógio em uma parede próxima, até que desse a hora de voltar para a classe.
A próxima aula era de literatura, uma das únicas que eu podia jurar que iria bem. Já tinha até mesmo lido o livro que eles estavam vendo, que era Capitães de areia. Permiti que a minha mente vagasse, rabiscando nas extremidades das novas apostilas. Não queria pensar em Marina, mas era quase inevitável. Ela teria gostado daquele lugar. Professores mais simpáticos (ela sempre reclamava dos nossos), e os "caras gatinhos" que ela gostava tanto de apontar. Fiquei imaginando, se, naquele momento, ela não estaria olhando para a cara da Márcia (a professora mais mal encarada do mundo) e pensando em mim.
Talvez estivesse. Mas, talvez — e doía bastante pensar — ela estivesse somente conversando com a Laísa, uma amiga nossa. Talvez já tivesse até mesmo me esquecido.
—___________________________________________________________
Vítor disse que me buscaria na escola somente por uma semana, e que era bom eu decorar o caminho, pois teria que voltar sozinha depois disso. Estava acostumada a andar, mas um pouco de mordomia não seria ruim, pra variar.
Joaquim, que além de "amigo", aparentemente era seu chefe, deixou que ele tirasse folga por um dia, então, na segunda, depois da escola fomos no shopping. Ele me levou no cinema, e depois tomamos sorvete. Foi o dia mais divertido da minha vida, acho eu. Bem, não tive muitos dias divertidos nos últimos anos, para competir.
Infelizmente, as tardes dos outros dias foram monótonas. Eu andava pelo apartamento pequeno, explorando, mas tentando não desorganizar nada. Talvez não tivesse o direito de mexer em tudo, mas o tédio me levava ao extremo. E não havia quase nada ali, mesmo. Parecia que ele tinha se mudado às pressas, e esquecido a decoração. Tinha alguns vasos, sem flores, mas nenhuma fotografia. Perguntaria isso para Vítor depois.
Na quinta, já não havia mais nada para descobrir, além do quarto do meu irmão. Eu ainda não entrara lá. Parecia desrespeitoso demais... ele nem estava em casa. Passei na frente da porta algumas vezes, e, em uma delas, cheguei a encostar na maçaneta, mas o barulho de chaves e da porta abrindo chamou minha atenção. Fiquei alerta. Não era nem quatro e meia, e Vítor só saía as seis. Me dirigi cautelosamente para a entrada do corredor, tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas era só o meu irmão.
— Vítor? — fui até ele — O que aconteceu?
— Parece que teremos uma tempestade feia — ele correu para fechar as janelas. Não tinha percebido, mas o tempo estava escuro. Se não estivesse divagando tanto sobre invadir o quarto do meu irmão mais velho, com certeza teria reparado, mas não foi bem isso que aconteceu — Meu pa... trão — Vítor tossiu, como se tivesse engasgado no meio da palavra — mandou todo mundo para casa mais cedo. Acho que será bem forte mesmo, para ele desperdiçar horas de serviço — Ele riu, sentando no sofá depois que tudo estava bem trancado.
Ai. Droga. Eu tinha medo de tempestades... não medo, medo, mas não gosto de clarões de raios, e barulho de trovões. Me deixam... inquieta.
— Hm — resmunguei — Vou fazer a comida esta noite, tudo bem? — Tudo que me mantivesse ocupada seria acolhido de bom grado.
— Tudo ótimo — ele sorriu — Vou tomar um banho — O que era péssimo, porque só havia um banheiro no apartamento, e era o que eu estava pensando em fazer. Dei de ombros, indo para o meu quarto. Tinha noção do quanto parecia um cãozinho se escondendo embaixo da mesa em dia de chuva. Mas, quem liga?
—_________________________________________________________
Estava prestes a bater na porta do quarto de Vítor quando ouvi sua voz. Estava falando com alguém, mas... com quem? Já me sentindo mestre em ouvir atrás de portas (segunda vez em uma semana, não é pra todo mundo), encostei uma orelha na superfície fria da madeira.
—... não, não, está tudo sob controle — garantiu ele, e ficou alguns segundos em silêncio. Provavelmente estava ao telefone — Tudo bem — mais silêncio — Vou... passar para o... hm, próximo estágio — ele hesitava ao falar, como se não encontrasse palavras suficientemente boas — Hoje — Acrescentou.
Ficou quieto por mais alguns segundos, e quando parecia que desligaria o telefone, bati com força na porta. Não queria que ele saísse e me pegasse espionando. Vítor girou a maçaneta, e antes de eu pudesse me conter, minha estúpida boca de pessoa curiosa já soltava as palavras:
— Com quem estava falando? — Se ele ficou irritado com a intromissão, não demonstrou.
— Com Joaquim — respondeu — Estou levando uns processos para a próxima fase, nada que possa te interessar — Vítor riu.
— Ah — me senti estúpida por ter perguntado. Digo, não deveria ficar sempre atrás dele, certo? — A comida está pronta.
A chuva começara, mas, felizmente, sem raios ou trovões. Sabia que era questão de tempo, mas quanto mais tarde, melhor. Fiz uma refeição básica que era (obviamente) a única coisa que sabia fazer, mas Vítor disse que estava muito bom. Eu discordei. O arroz estava parecendo papinha de bebê. Ele argumentou que, então, era a melhor papinha que ele já comera.
— Então, Mia, como vai a escola? — Perguntou, quando acabamos de comer, após colocar os pratos na pia (tanto o dele quanto o meu! E ainda disse para eu não me preocupar, que os lavaria depois).
— Bem — Eu disse, mesmo que estivesse tudo menos bem. Haviam somente duas ou três matérias nas quais estava realmente tranquila. Mas não queria que ele visse tão cedo o fracasso que eu seria. Quer dizer, ele estava pagando minha escola. Não queria que sentisse que era um dinheiro desperdiçado.
— Certeza? Estão te tratando bem, né? Fez algum amigo? — Vítor parecia cheio de uma preocupação fraternal, e foi a coisa mais fofa que alguém fizeram por mim em muito tempo. Digo, se preocupar. Sei que é besteira e que a maioria dos adolescentes simplesmente queria que os pais parassem de se preocupar, mas preocupação era sinônimo de "gostar", e ter alguém que gostava de mim era bom demais. Eu estava quase o perdoando por ter me tirado do lar. Quase.
— Hm, mais ou menos — Respondi, pensando em Júlia e em sua trupe. Não eram exatamente meus amigos, mas todos os dias me convidavam (tudo bem, arrastavam) para sentar com eles no recreio.
— Como assim, mais ou menos? — Nem parecia que ele fora adolescente há pouco tempo, droga. Ele não entendia o drama da amizade-refeitório. Bem, era uma teoria desenvolvida por mim mesma. Tem seus amigos, e os amigos-refeitório. Era quando a amizade era apenas um acordo mútuo e silencioso de companhia na escola. Assim, não ficavam sozinhos. Mas não era preciso, necessariamente, confiar e realmente gostar da pessoa.
— Sei lá — dei de ombros — Acho que não tivemos tempo de ser amigos de verdade. Talvez com mais uma semana — Muito mais fácil que explicar tudo aquilo a ele.
— Ah. Você não tem dever?
— Eu já fiz — Um pouco antes de decidir explorar seu quarto, acrescentei em pensamento.
— Então, o que acha de... — luz se apagou, e um trovão soou lá fora. Me encolhi, instintivamente — Parece que ver um filme não é mais opção.
Tentei esconder o fato de estar muito, mas muito, desconfortável com a situação. Nem nos meus piores temores, nessa tarde, cogitei que poderia haver uma queda de energia.
— Vou acender velas — Informou.
—Eu... eu vou para o quarto — Falei, tateando as paredes da cozinha em busca da saída.
— Tudo bem... vou tentar deixar claro o suficiente para ler um livro. Vou estar na sala se, hm... precisar de mim — Ele aparentemente percebera meu receio (tá legal, medo, mesmo). Fiquei bastante grata, mas, temendo parecer ainda mais infantil, só resmunguei um "tá", e fui para meu quarto. Felizmente, consegui chegar lá inteira, e sem quebrar nada pelo caminho também. A luz da lua iluminava bem pouco o cômodo, fraca, escondida por nuvens de chuva.
Tempestades me lembravam o medo que sentia, no quarto do lar Santa Maria, no primeiro ano de minha "estadia". Cheguei em um período de chuva, e os cobertores não eram grossos o suficientes. Desenvolvi algum tipo de trauma, mas as Irmãs tinham mais o que fazer que ficar cuidando dos medos de uma garotinha. As vezes, quando chovia forte, eu ia até a cama de Nina e me deitava ao seu lado. Ela não perguntava nada, nem mesmo abria os olhos. Só apertava minha mão, e, quando amanhecia, fingia que nada tinha acontecido. Mas agora, eu não a tinha ali.
—_________________________________________________________
Não consegui dormir. Era impossível. Mais que impossível. Não suportava a ideia de fechar os olhos durante aquele estardalhaço todo que estava lá fora. As luzes das velhas lançavam sombras pelos corredores, até a porta do meu quarto. Assim eu soube que, mesmo mais de duas horas depois, Vítor ainda estava lá. Eu não fugiria para me abrigar com meu irmão. Não. Não seria infantil a esse ponto. Eu iria para a cozinha, pegar um copo de água, e depois voltaria para o quarto.
A sala estava bem mais clara. Não sei onde meu irmão arrumara tantas velas, já que, em minhas explorações, achara menos da metade da quantidade, mas agradeci por isso. Escapar uns minutos da escuridão total não faria mal a ninguém. Bebi a minha água, e fiquei parada, encostada na parede que dividia a cozinha da sala, absorvendo a luz e o calor das chamas. Vítor lia um livro grosso, segurando uma vela bem perto das páginas. Perguntei-me se ele não tinha medo de o papel pegar fogo, ou não sentia a cera quente pingando em sua mão, mas ele nem piscava. A história devia ser mesmo interessante.
— Oi — ele disse, quando me virei para ir embora. Pensava que ele não havia sequer notado minha presença — Está tudo bem?
— Não consigo dormir — Admiti, esperando uma risada, ou que caçoasse de mim de alguma maneira, mas ele somente apagou a vela em suas mãos e fechou o livro, com uma expressão séria.
— Senta aqui — disse, abrindo espaço ao seu lado. O sofá não era grande, mas coube a nós dois perfeitamente, sem ficar apertado nem nada, o que era ótimo. Quer dizer, seria bem constrangedor ficar em cima dele, não é mesmo? — Não tem o que temer. É só a chuva. Eu estou com você.
— Obrigada — Sussurrei.
E, por um tempo, Vítor só ficou lá, parado, me olhando, sem dizer mais uma palavra, ou esboçar uma reação, por uns bons cinco minutos. Não sabia como reagir. Olhava para as velas, para a televisão que não ligava, para a mesinha de centro, para minhas próprias mãos. Não para seu rosto. Não sei porque o modo que me encarava me deixava constrangida. Ele colocou um dedo sob me queixo, levantando-o gentilmente.
Oh, não. Eu entendi, tarde demais, talvez, o que ele faria. Estava assustada. Qual é, ele é meu irmão. Mas não consegui me mover. Não me mexi enquanto seus lábios encontraram os meus. Só conseguia pensar em uma coisa. Ok, em duas. A primeira era "ai meu Deus, estou beijando o meu irmão". A segunda era que sua boca tinha gosto de morango.
Fale com o autor