Gossip Again - O Ano dos Eleitos

2 Capítulo Primeiro - Fancy


Notas iniciais
Sejam bem-vindos ao Instituto Birchcreek! Música da Autora: Fancy - Iggy Azalea

Água era tudo o que Scarlett Wright via quando olhava para fora de sua cabine no trem-bala que se dirigia ao Instituto Birchcreek.

A chuva torrencial a deixava abatida. Não que não gostasse de chuva, mas recentemente o tempo fechado a fazia se sentir mais sozinha: afinal, suas melhores amigas sumiram da escola. Corinne Donaland foi morar na Polônia com o noivo, um jogador de tênis em ascensão, e Zoe Fischer saiu da escola para lidar com o conturbado caso do pai com uma milionária americana que resultou em divórcio e um escândalo na mídia.

Um suspiro mal-humorado e os cabelos ruivos foram presos rapidamente em um rabo de cavalo malfeito. Talvez a garota mais famosa da escola, filha do Ministro Wright, Scarlett fazia o tipo da abelha-rainha: o corpo bem delineado e brilhantemente cultivado com corrida e alongamento era sempre vestido com as tendências, longos cabelos ruivo-acobreados e olhos claros que contrastavam com a pele de porcelana digna de uma jovem de 18 anos.

Um som característico de uma porta pesada sendo arrastada e Kyle Wright entrou pela cabine, assustando a irmã concentrada em contar os grossos pingos de chuva que caíam lá fora. Ele não era bem o garoto mais bonito do mundo. Ainda assim, os cabelos vermelhos, olhos claros e roupas bem-alinhadas o deixavam bem atraente. Kyle era um ano mais velho que Scarlett, embora estivessem no mesmo ano.

Com sérios vícios vergonhosos, Kyle era o garoto mais novo da família, atrás dos gêmeos William e Lloyd, donos de uma exclusiva marca de joias chamada Lotvs. Muito embora a família Wright conhecesse os problemas de Kyle de cabo a rabo, eles procuravam fingir — assim como qualquer outra família rica — que não havia problema algum, de fato.

— Scarlie? — Sussurrou Kyle ao fechar a porta.

— Dez minutos.

— O que?

— Dez minutos que partimos e você já veio me perturbar.

— Sempre delicada. Peguei uma torta de morango. Vai querer?

— Não. — Murmurou. — Estou chateada. Sinto falta das meninas. É nosso último ano e já prevejo que vai ser um saco. Já foi horrível sem a Zoe, e a Corinne se transformou em uma vadia sem tamanho ano passado.

— Você está esquentando a cabeça por bobagem. Você é a abelha rainha, S, todo mundo quer ser seu amigo. — Kyle chacoalhou a cabeça dela. — E você sempre vai ter o Drake.

— Que bom que posso contar com ele. Já com você...

— Eu sou muito ocup...

—Bom dia, vadia. — Uma terceira voz, debochada, passou pela porta recém-aberta, assustando os irmãos.

— Ah, meu Deus! Zoe?

Kyle só reconheceu a garota pela irmã ter dito seu nome: ela estava longe de ser o que era dois anos antes. Melhor amiga de Scarlett, tinha um perfil totalmente diferente das garotas-boneca que rondavam a escola, mas era um grande choque vê-la agora:

Os cabelos claros e aquele ar etéreo hipnotizante dos olhos azuis ainda estavam ali, mas Zoe Fischer estava mil vezes mais magra, mais elegante, e é claro, mais gostosa. Definitivamente os ares internacionais fizeram muito bem a ela.

— Surpresa, surpresa! — Zoe deu um sorriso amplo e abraçou a amiga. — Que saudades!

— Vadia. O que você andou fazendo para não me responder um e-mail em dois anos?

— Eu sei que deveria ter mandado notícias, mas foi uma loucura que você não imagina. — Sorriu e, no momento seguinte, se jogou nos braços de Kyle, parado em choque ao lado da porta. — Kyle, gato! Eu estava louca de saudades de você!

— Oi? — Olhou, incrédulo por um momento. — Ah, claro... quer dizer, eu também!

— Acho que você deixou o Drake sozinho. Ele deve estar preocupado, não? — Scarlett deu um leve empurrão no irmão, indicando que queria um tempo sozinha com a amiga. Ou que não estava aguentando o fato do irmão não conseguir disfarçar o assombro — e a excitação.

— Estou indo, estou indo. Até mais, Fischer.

— Zoe, Kyle. Me chama de Zoe. — A garota deu uma grande risada maldosa quando o garoto fechou a porta, totalmente sem graça.

♦

— Não acredito que perdemos o trem. O que vamos fazer agora? — Ethan Archibald olhava com nojo para a janela suja do quarto, os cabelos loiro-escuros sendo bagunçados pela brisa matinal que entrava pela janela, emoldurando a expressão furiosa dele.

Ethan já estava acostumado às coisas darem errado por ele estragar tudo: o famoso mocinho do filme que acabava ferrando com tudo o que tocava. Mas com a quantidade o dinheiro que tinham era inadmissível ficar em um lugar como aquele, mesmo depois de dispensarem os motoristas e não havia sinal algum no celular. E, pelo menos daquela vez, a culpa não era dele.

— Mas que inferno! — O som de um copo se estatelando no chão tomou conta do quarto.

— Não precisa quebrar as coisas, Caleb. — Aaron Green suspirou em sua postura inabalável de rapaz calmo, enquanto encostava-se ao batente caindo aos pedaços da porta do banheiro. Os cabelos escuros quase engomados cobertos por um chapéu simples preto e os olhos azuis agora emoldurados por óculos de grau com armação grossa lhe davam um ar extremamente nerd. Se ele não fosse vivesse tão chapado, era bem fácil de acreditar que ele era um.

— Não fui eu. É este quarto que treme. E aí, o que faremos?

— Vamos esperar. Se tudo der errado, pegamos outro trem e voltamos para Stonefall.

— Não faz muito sentido levarmos três horas para chegar aqui e depois voltarmos. — Charles Jones, tão vulgar quanto seu estilo e seu apelido, Caleb, pegou os cacos do copo que caíra no chão e se jogou no colchão velho, tirou um baseado do bolso de seu paletó vinho sob medida e o acendeu, pingando colírio nos olhos verdes assim que passou o mesmo para Aaron.

— Você não faz sentido, Charles. — Ethan riu, maldoso, piscando os olhos verdes para a janela, na esperança de se acostumar com a luz forte que passava pela janela que ele em vão tentara fechar. — O que você acha que devemos fazer então?

— Por enquanto, quebrar sua cara. — Desde que se conheceram, 13 anos antes, Caleb nunca se apresentara pelo seu verdadeiro nome: achava que Charles era nome de velho. Quando todo o grupo descobriu, já havia tanto tempo que se conheciam que só o chamavam de Charles para irritá-lo. — Onde estão sua irmã e as garotas, Aaron?

— Blair e Harriet estão em Stonefall torrando dinheiro. Zoe e Alex foram de trem, aproveitaram que estavam viajando e vieram direto para Londres. E aparentemente são mais pontuais que nós.

— Harriet Strauss... — Aaron olhou pensativo para o nada, como se procurasse pela garota no papel de parede desgastado. Com um estalo na memória, ele encarou os amigos com aquele sorriso registrado de quando tinha uma boa ideia. — Caleb, você acha que o celular está pegando aqui?

— Não está. — Ele resmungou. — Eu odeio essa cidade, cheia de buracos como esse lugar. Queria entender porque precisamos sair de Nova Iorque.

— Você sabe o porquê. É óbvio que depois que os Fischer transferiram Alex e a Zoe de volta para Birchcreek eles fariam o mesmo com a gente. — Ethan resmungou entredentes e se jogou na cama, quebrando um dos estrados. — O pior é que a Zoe já tinha falado que só alunos podem entrar de carro e precisa de uma autorização antes das aulas.

— Eu já tinha falado, animal. Meu Ghibli está há pelo menos um mês em Stonefall, meu pai já mandou levarem para lá, por que você não me ouve nunca?

E começaram a discutir, primeiro calorosamente sobre a garagem, depois sobre os carros que tinham, mudando eventualmente o assunto para a série de garotas sem relevância que passaram por Caleb naquelas férias.

De todos, Caleb era o mais conquistador: não havia uma garota bonita que não houvesse feito um check-in na cama dele. Aparentemente, à exceção da mãe, Celine, e da irmã de Aaron, Blair, ele não perdoava qualquer garota atraente que passasse pelo seu caminho. A menos que a garota o conhecesse muito bem — ou ele estivesse sóbrio.

Aaron ignorou a discussão dos amigos e pegou o celular do bolso do casaco: o sinal da operadora e da internet estavam cheios. Como Caleb era dramático.

♦

— Alô? — Harriet atendeu o celular, tentando em vão segurar a grande quantidade de sacolas nas mãos enquanto a bolsa Chanel último modelo escorregava do ombro. Não parecia ligar para a garoa que antecedia o final do verão, apesar da curta saia cinza de cashmere e a blusa de malha branca não a aquecerem quase nada e os longos cabelos escuros estarem começando a ficar mais úmidos do que deveriam.

— Oi, gorda. — Ele disse inconscientemente. — Onde você está?

— É a Harriet, e este é meu celular. — Ela riu. — Já passo para a Blair, ok, Green?

— Desculpa, mas só porque liguei errado não precisa me chamar pelo sobrenome. Nós já nos conhecemos há mil anos. — Reclamou, indignado com a polidez da garota.

— Espera Aaron. — Passou o celular para Blair, dando uma risadinha discreta. — Seu irmão.

— O que você quer? — Blair Green resmungou para o celular, entregando o papel para o manobrista. — E por que não ligou direto para mim?

— Você nunca atende o celular, gorda! — Ele riu. — Vocês estão indo para a escola?

— Eu sempre atendo, Aaron, você poderia ser menos cara de pau. Estou pegando o carro agora, liguei para mamãe e já mandei minhas malas para a escola.

— Estamos indo para casa agora, perdemos o trem. Você pode passar e pegar a gente?

— Aaron, sério? Vai demorar mil anos até chegarem aqui.

— Blair, é só uma hora de carro. Por favor! O carro do Caleb já está em Birchcreek e só podemos entrar com autorização.

— Primeiro: não cabem todos no meu carro. Segundo: vocês não conseguem ser responsáveis por nada. Terceiro: Qual é a sua? Eu não quero olhar para a cara dele.

— Duvido que se você pegar o carro da mamãe ela vai se importar, e podemos pedir para mandarem nossas coisas para lá! E outra coisa: você só precisa me amar e esperar a gente por uma horinha. — Sussurrou. — Pode ser? Não queremos ficar definhando aqui até sabe Deus quando derem a autorização.

— Você me paga. Deixem as malas em casa, vou pedir para Eileen mandar a de vocês. Só levem estritamente o necessário.

— Combinado.

— Vou almoçar com a Harriet e assim que terminarmos passo em casa. Espero que vocês já estejam lá.

— Valeu gorda, a gente está indo agora. Te esperamos lá.

— E Aaron? Nunca mais me peça nada. — Ela desligou o celular e bufou.

— O que aconteceu? — Harriet arregalou os olhos por trás dos enormes óculos de acetato Tom Ford.

— A gente vai buscar os garotos.

— E por quê?

— Eles perderam o trem e agora eu tenho que limpar a bagunça deles porque não conseguem encher o rabo de maconha e pensar ao mesmo tempo. — O manobrista entregou a chave da BMW para Blair, que entrou no carro, um tanto irritada. — Você vem ou não?

♦

— Como estão as coisas com a sua nova madrasta? — Scarlett e Zoe já haviam colocado todas as fofocas escolares em dia e finalmente chegaram ao delicado assunto da separação.

— Bom, o divórcio foi extremamente complicado e não estou lidando bem com a minha mãe ter me abandonado depois de tudo. Eu não tinha nada a ver com isso sabe? Meu pai se casou logo depois. Lilly é incrível. Ela e Alex estão me ajudando muito.

— Alex, suponho que seja sua irmã postiça.

— Nós somos irmãs por parte de pai mesmo. Aparentemente meu pai tem um caso com ela há muitos anos. Tanto que agora ela assumiu nosso sobrenome.

— Que loucura. E conseguiu mudar para Birchcreek com ela?

— Quando meu pai e Lilly se apresentaram para a sociedade e disseram que estariam se mudando para Stonefall, todos os nossos amigos claramente foram obrigados a vir para Birchcreek, já que os pais de todo o mundo moram aqui. O que foi bom porque finalmente poderiam conhecer a tal Scarlett Wright de quem eu não parava de falar.

— Que linda! Sentiu mesmo minha falta!

— É... Não só de você.

— Oi? — Zoe enrubesceu enquanto Scarlett erguia a sobrancelha, confusa.

— Muito me espanta você ainda não ter percebido, eu simplesmente não consigo mentir para você.

— Seja breve, Zoe. Você está me tirando do sério.

—Ok, dane-se. Eu sou louca pelo seu irmão. Arrumei a maior briga da terra naquele ano com a Corinne. E simplesmente porque seu irmão a curtia demais e ela ficou noiva e jogou na cara dele!

— Calma! — Disse Scarlett sorridente. — Desculpa rir da sua desgraça, mas não acha que você é areia demais para a bicicleta que é meu irmão?

— Gosto dele e sempre gostei, amiga. Não pedi isso na minha vida.

— Pelo menos isso... Mas vai ficar tudo bem. Quer dizer, espero que você consiga aceitar que algumas coisas mudaram. Kyle está bem... diferente.

— Como assim, diferente? — Zoe e Scarlett deram um pulo no segundo seguinte ao ouvirem a porta da cabine se abrir novamente.

Não era Kyle, mas Madison Hastings, uma antiga amiga de Corinne. Uma certa música já dizia que “in every circle of friends there's a whore”, mas o que ninguém disse é que poderia ser muito diferente quando se tratava de Madison: famosa colunista da Teen Vogue, mimada até não poder mais. Mas é claro que ela era linda, loira, rica e sabia ser uma ótima amiga quando lhe convinha. E, pelo menos no último ano do colégio, ela estava disposta a ser uma ótima pessoa.

— Scarlie! Te procurei por uma eternidade! — Madison jogou seu suéter no banco, arrumando o cós da jeans rasgada, e deu passagem a uma outra menina loira que Scarlett não conhecia. — Fiz amizade.

— Então já transformaram isso em uma bagunça generalizada. Alex, essa é a Scarlett!

— Ah, claro, a famosa Scarlett! Zoe não parava de falar de você o tempo todo. Alexandra Goetze-Fischer, mas todos me chamam de Alex. — Alex sorriu para Scarlett e sentou-se ao lado dela. Os longos e lisos cabelos louros cintilavam com o movimento e o corpo magro e bem delineado ficava perfeito na calça de couro apertada. Ela era praticamente uma modelo.

— Obrigada pelo constrangimento gratuito, Alex.

— E então, Madison... como vai a Corinne? O casamento foi bom? — Zoe tinha um tom venenoso muito peculiar na voz doce, como se fosse um coelhinho adorável pronto para morder a jugular de quem o acariciasse.

— Pode me chamar de Mads, é assim que todo mundo me chama. Sobre a Corinne, eu rezo para ela estar muito longe daqui. E ela não se casou.

— E por quê?

— Não sei, mas quero que ela se exploda! Aquela vadia é a culpada pelo fim do meu namoro.

— Isso é possível? Ela está noiva não está?

— Exatamente. Nós éramos muito amigas e sempre contei tudo para ela, inclusive que estaria em Mônaco para visitar minha avó. Aí, aquela amiguinha estranha dela de Hannover, Alice, é uma vadia sem tamanho que sempre foi apaixonada pelo Allan, meu ex. Corinne mexeu os pauzinhos e quando eu voltei mais cedo e fui até a casa dele fazer uma surpresa...

— Ai meu Deus...

— Sim, ela estava na cama com ele quando eu cheguei. E ele ainda tentando me explicar que foi um acidente. Claro, ele escorregou e caiu em cima dela.

— Pelo amor de Deus. — Scarlett abriu a boca. — Eu teria matado.

— Ele teve o que mereceu, descobri depois de um tempo que Alice tinha herpes ou alguma coisa do gênero. Mas vamos falar de coisas boas, como foram suas férias, Alex?

— Na verdade eu acabei indo pra Vegas de novo. Meu pai biológico comprou um cassino e acabou sendo um super escândalo porque trocou o nome, mas foi um pouco ented... — O monólogo da loira foi interrompido pelo celular de Zoe, que começou a tocar desesperadamente.

— Alô?

— Gata, estamos em Stonefall, daqui a pouco vamos para Birchcreek. Vocês já estão chegando? Alex está com você?

— Blair?

— Não, Audrey Hepburn. Claro que sou eu.

— Ferraduras novas, entendi. — A loira riu. — Que horas vocês vão chegar?

— Não faço ideia, mas a gente se vê por lá, guarde lugares para mim e Harriet.

— Ok, beijo! — Zoe desligou e sorriu. — Blair e Harriet estão vindo! O que vocês acham de nós tentarmos o mesmo dormitório?

— Eu topo! — Madison tirou um cigarro light da Hermès Birkin e o acendeu, enquanto seu isqueiro rodava todo o grupo. Scarlett e Zoe murmuraram num tom de concordância.

— Esse ano é nosso último ano. Todos sabem quem nós somos. Vamos fazer com que seja memorável. — Alex soprou a fumaça pela janela aberta.

— Um clichê. — Madison assentiu, em sua costumeira expressão de zombaria. Alex deu um sorriso confuso para ela, que enrubesceu e completou: — Vai ser engraçado! Que vocês acham?

— Acho que teremos um excelente ano! — Scarlett riu enquanto todas brindaram com os copos de papel cheios de café.

Ah sim. Essa é a vida.

Notas finais
Hello fofoqueiros! Aqui está o primeiro capítulo! Comentem, sigam, contem tudo pra mim :) Beijinhos Amber Black