Notas iniciais
Começarei com a Cathy, por ela ser "novata" e ainda não conhecer os outros personagens e a vida que eles levam.

Já havia se conformado com o fato de dormir mal durante todas as noites, mas acordar cedo foi algo novo. Não possuía mais forças para levantar-se, mas assim o fez, antes de desligar o despertador. Olhou-se no espelho e a única coisa que viu foi o monstro que crescia dentro de si — além de suas olheiras gigantescas. Lembrou da época que acordava se sentindo realizada, águas passadas de tempos que nunca voltariam, agora, haviam apenas lágrimas que brotavam de seus olhos toda vez que se via no espelho.

Tirou a camisola e vestiu o uniforme do colégio novo, começou então a pensar o que iria enfrentar naquele dia, como as coisas seriam em uma nova cidade. Talvez fosse o momento certo de recomeçar e deixar o que passou para trás, mas havia o medo que a dominava cada dia mais. Terminou de se arrumar e apressou-se para a porta da frente, mas seu pai a chamou antes que pudesse tocar a maçaneta.

– Não vai comer nada? Já aviso que não 'to com vontade de buscar ninguém não.

– Não estou com fome, depois vejo algo durante o almoço. — virou-se então, sem esperar por uma resposta.

Andou até o ponto de ônibus mais próximo, enquanto observava as folhas amarelarem. Havia duas pessoas no banco de espera, preferiu ficar de pé. Para seu alívio, haviam alguns bancos vazios no ônibus, sentando-se na janela.

Pôde ouvir uma voz masculina no fundo do ônibus: "Ei 'bro', tem uma gata com o uniforme do Roundview! (...) Tem cara de novata, queria era apresentar ela o colégio (...) E outras coisas também, ta achando que eu sou garotinha igual você?" Com isso, seu estômago embrulhou e fez o máximo de esforço pra não virar: Se acontecesse alguma coisa, preferia não ver quem era para pelo menos livrar-se dos traços do sujeito; mas de qualquer forma, digitou discretamente o número 101¹ em seu celular, apenas por precaução. Na parada mais próxima da Roundview, desceu por último e viu um garoto pelo mesmo caminho do colégio, ele a observava. Cathy tentou passar despercebida, olhando para seus pés. "Deve ser ele! Que babaca..." pensou. Assim que estava próxima da entrada, ouviu os sinais tocarem e apressou-se para procurar sua sala de aula.

Enquanto analisava sala por sala, ouviu a chamarem:

– Bom dia! Você é a aluna nova, certo? Sente-se ali, por favor. — Era o professor, um senhor calvo e barrigudo. Tentou disfarçar no caminho para as mesas, mas percebia os olhares em sua direção, a típica atenção que alunos novos costumam ter. "Droga!" pensou. Sentou-se na mesa ao lado de um garoto ruivo de aparência amigável, que a observou durante a aula de literatura inteira.

Durante a troca de salas, Catherine se dirigiu para a classe de história enquanto, longe se seus ouvidos, o ruivo aborda outro garoto para pedir-lhe um favor.

–Cara, chama a garota de cabelo castanho ali, com o uniforme de manga longa, vamos ver o que vai dar.

– Quem é ela, cara?

– Uma novata. Você chama?

– Chamo. Mas... — Antes que pudesse terminar, o ruivo socou seu ombro.

– Obrigado, cara!

O outro garoto, cujo nome era Brendan, também era da aula de história e entrou na sala, sentando-se perto de Cathy.

Enquanto isso, Catherine estava frustrada não conseguiu se concentrar na aula anterior por culpa da ansiedade tomando conta de sua mente. Estava tentando esforçar na de história, mas foi interrompida.

– Pega. — Brendan era um garoto alto, de cabelos totalmente negros e olhos que pareciam de vidro. Ele havia passado um papel que fora visivelmente pisado, provavelmente pego do chão. No bilhete, um endereço e um rosto sorridente. Guardou dentro do livro e tentou pensar na razão de lhe mandarem isso. "Será que eu deveria perguntar, ou seria muita humilhação?" debatia essa ideia na mente, sem resultado. Não passou cinco minutos, quando a interromperam de novo.

– Ei! Você, novata! Vem cá! — Catherine se virou na direção da voz, se tratava de uma garota loira com acessórios estranhos, como um gorro com antenas e um óculos de sol em plena sala de aula. A garota se chamava Diana, como descobriu posteriormente, e pediu que sentasse.

– Então, novata, qual seu nome? 'Ta gostando daqui? — Falava rapidamente, como se não respirasse.

– Cathy... — sua voz falhava — Catherine. E não tenho muita noção se gostei ou não.

– Ok, Cathy! Olha, você vai na festa da Sarah? Só vai dar gente boa. Vai rolar marijuana, então leva um isqueiro porque eu perdi o meu.

– Não sei andar por aqui, é muito longe? — Apesar de não se contentar muito com a ideia, não queria decepcionar ninguém.

– A gente dá um jeito, encontra a gente em frente do restaurante, ali na rua de trás. Oito horas, ok?

– Ok.

As aulas prosseguiram em normalidade, enquanto Cathy tentava esquecer que, apesar de não conhecer quase ninguém ali, havia sido chamada para uma festa em um lugar que não fazia ideia de onde era.

Durante o almoço, apesar de Diana ter a convidado para sentarem juntas, preferiu ficar sozinha observando os alunos. Na mesa de Diana, havia a anfitriã da festa, Brendan e o garoto ruivo. Os quatro não paravam de conversar e rirem da cara dos outros. "Parecem ser legais mesmo" pensou. Em uma das mesas, o garoto do ônibus sentava-se com uma loira e um garoto com uma cruz tatuada no pescoço, percebendo que sentava na direção dele, preferiu levantar. Enquanto andava entre as mesas, viu uma garota desabando ao chão. Em desespero, correu em sua direção e a ajudou a se levantar.

– Você parece nervosa, calma, meu doce. Tive uma queda na pressão, nada demais. — A garota ajeitou o cabelo para trás da orelha e olhou Catherine nos olhos. — Isso acontece quase todos os dias, me acompanha até a enfermaria?

– Claro... Está tudo bem mesmo? — Apoiou a garota sobre seus ombros e começaram a andar pelos corredores.

– Sim, relaxa! — Ela riu.

Na porta da enfermaria, ela se soltou de seus ombros e a enfermeira já disse, em um tom alto:

– Senhorita Kendall! O que foi agora? E obrigada, mocinha, por a acompanhar. Como se chama?

– Catherine.

– Obrigada, senhorita Catherine.

E a garota, sentada na cama da enfermaria, gritou:

– Obrigada, docinho!

Não se concentrou nas outras aulas ficou apenas vagando em sua mente. "Que colégio louco!" pensava indignada "Um babaca me tara no ônibus, desconhecidos me chamam para uma festa, e uma garota acha completamente normal desabar por aí...talvez Londres fosse menos estranha." Na saída, o ruivo chegou e colocou a mão sobre seu ombro.

– Obrigada por ajudá-la. Minha irmãzinha não tem muito equilíbrio aqui — E apontou o indicador para a cabeça.

– Eu percebi... E sem problemas, mas vê se cuida dela. — Estava envergonhada de novo e não se conteve em olhar para seus pés.

– Olha ela... — e apontou com a cabeça, sua irmã vinha correndo na direção de Cathy, abraçando-a.

– Vamos para casa, aqui é chato! A Catherine vai na festa? — Sorria muito para alguém que acabara de passar mal. Cathy sentia-se apreensiva em dizer que não, portanto afirmou.

– Legal! Vamos para casa logo, Ted?

– Calminha, Zoë! Catherine, quer que nós a acompanhe?

– Não, eu vou bem. Você vai estar lá as oito horas?

– Vou, o carro é meu. Nos vemos lá, se cuida.

Cathy assentiu e foi andando para o ponto, mas ouviu Ted a chamar novamente. Antes que pudesse virar, ele correu em sua direção.

– É por lá que você vai? Droga! — estava vermelho, mas suspirou e voltou ao estado normal.

– O que foi? Está tudo bem?

– Vem com nós dois, aquele cara vai no mesmo ônibus que você. Eu não confio nele e não quero que aconteça alguma coisa com você. Zoë se aproximava, um pouco em choque. No caminho, ela permaneceu em silêncio nos primeiros minutos, e depois contou de tudo um pouco.

– É aqui. Obrigada pela preocupação. — Foi andando para a porta, Ted acenou e Zoë se despediu mandando abraços. Assim que chegou em seu quarto, tirou o uniforme e olhou as marcas em seu braço com os olhos enchendo de lágrimas. Ao mesmo tempo que as coisas pareciam melhorar, seu passado voltava a puxá-la para um abismo escuro. Terminou de se despir e foi se banhar.

– Catherine! Já chegou? — seu pai gritou, depois que Cathy já havia vestido as roupas novamente.

– Sim!

– É hora do chá das cinco!

– Ok! — Catherine foi em sua direção — Aliás, pai... Não vou ficar para o jantar, vou sair com um pessoal do colégio novo.

– Sério? Nossa... — ele riu, era a primeira vez em meses que Catherine saía sem ser no horário escolar — Espero que se divirta, e beijou sua bochecha.

– Eu também espero.

Antes de dar a hora, arrumou-se até sentir-se confortável com sua aparência e foi para o ponto de ônibus.

Notas finais
¹ - Número da polícia na região de Bristol usado para relatar pessoas agindo de forma suspeita. Primeira vez escrevendo aqui, aceito criticas e opiniões, gosto de melhorar. Obrigada por lerem.