Goodbye

1 Dear nobody.


Querido ninguém,

Eu estou morrendo. Todos nós estamos. A cada segundo que se passa estamos mais próximos da morte, e de encontrar nossos entes queridos que já não estão mais entre nós, e isso me deixa feliz.

Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Afogada. Com certeza não é um dos melhores jeitos de partir desse mundo. Nosso velho carro voou pela pista lisa depois de uma grande chuva e caiu no rio que cruzava a cidade.

Dentre tantos lugares para estar dirigindo, ela estava passando justamente pelos poucos metros da estrada que passam em cima do rio. Dentre tantos dias, ela fora morrer justamente no dia do Natal, 25 de dezembro.

O natal nunca fora o mesmo para mim.

Ela adorava o Natal, sabe? Todo feriado ela se vestia com seu suéter de rena vermelho, que vovó tinha tricotado para ela, e cantava alegremente pela casa. Cantarolava músicas natalinas o mês todo, tanto que Jingle Bells foi uma das primeiras músicas que aprendi.

Ela estava usando aquele mesmo suéter quando seu carro voou em direção ao rio. Foi enterrada com ele também. Ela gostava muito dele.

Eu só queria poder abraçá-la uma última vez.

* * *

Faltam três dias para o Natal. Papai está começando a ficar ruim de novo.

Ele anda para lá e para cá, gritando com si mesmo. Ele passou a mão na minha bunda ontem a noite. Hoje no café apertou meu peito. Não que isso fosse novidade.

Eu não quero culpá-lo. Ele está triste, porque amava muito a mamãe. Não é culpa dele. Não é.

* * *

Eu e o papai fomos fazer compras hoje. O mercado estava bem cheio. Nós compramos peru e cream cheese para fazer o cheesecake que mamãe gostava de comer. Bem na verdade acho que isso o deixou mais nervoso do que antes, mas eu quis comprar do mesmo jeito.

Talvez assim eu conseguisse fingir que ela ainda estava ali.

* * *

É hoje.

Fazem onze anos.

Eu não quero mais.

* * *

O dia tem sido difícil.

Papai ficou muito furioso porque eu derrubei um pouco do cheesecake na bancada da cozinha. Pude perceber em seus olhos. Ele ficou muito bravo, muito mesmo. Ele ergueu a mão para bater em minha cara, mas não bateu. Mamãe teria ficado orgulhosa dele.

Assim que sentamos na mesa para a janta, nenhum de nós disse nada. Nós apenas sentamos ali, com o peru e todo o resto das comidas que tínhamos preparado juntos, e não comemos nada. Ficou tudo ali, perfeito, como um banquete intocado. Ele não olhava para mim, seus olhos estavam no cheesecake.

Acho que passamos um bom tempo assim, em silêncio. Na minha cabeça, um turbilhão de sensações. Memórias.

Mamãe.

Mamãe comendo cheesecake.

Mamãe com seu suéter de rena vermelho.

Mamãe dirigindo seu carro ao som de uma música natalina.

Seu carro.

A estrada molhada.

O rio.

Escuridão.

* * *

O relógio cuco cantou meia-noite.

Ainda estávamos ali, meu pai e eu, sentados em frente ao banquete intocado.

Ele se levanta bruscamente. Prendo a respiração. Ele da dois passos pesados em minha direção. Não solto o ar. Ele para diante de mim e agarra meus cabelos, levanta-me até que fique da sua altura.

— Sinto falta dela, pai. — choramingo. Sinto lágrimas quentes escorrendo por meu rosto de porcelana.

Ele me olha sem reação por um segundo. Olha em meus olhos, como não fazia em um bom tempo.

Ele ergue a mão e desce na minha cara. O barulho seco do tapa ressoa pela sala vazia. Não ouso a dizer, permaneço comportada em silêncio.

Minha bochecha queima. Posso sentir o local exato do tapa arder. A dor. Sentia falta dela.

Ele sente muita falta dela, é só isso. Concentro-me no tique-taque do relógio.

— Eu sinto muito, pai. — murmuro baixinho. Mamãe teria orgulho, teria sim. Eu estava sendo corajosa, uma boa menina. — Não gosto quando faz isso comigo.

Ele me encara por mais alguns instantes. Seu rosto congela e ele deposita outro tapa, no mesmo local. Sinto a dor se espalhar. Ele segura meu cabelo e me gira, virando-me de costas para ele. Ele me pressiona contra a mesa de madeira. Empurra o grande prato de peru, ele cai da mesa e ouço um barulho suculento. Em seguida ele torna a derrubar os pratos da mesa. A maionese. A geleia de cranberry. A torta de abóbora. Sua mão de aproxima do cheesecake.

Não! O cheesecake não! Grito para mim mesma.

Num movimento brusco ele derruba o prato do cheesecake sem piedade. O doce se espatifa no chão numa chuva de glacê e morangos.

Grito. Bem baixinho. Só para mim mesma. Mamãe não ficaria orgulhosa. Ela ficaria triste.

Em seguida, o olhar de meu pai se volta para mim novamente. Eu havia me debruçado sobre a mesa, chorava sobre a toalha verde e vermelha.

Ele ia me bater de novo. Eu tinha certeza. Sinto sua mão impiedosa em minha saia.

Não. A saia não. Por favor. Repito para mim mesma. Eu não ousaria a dizer em voz alta.

Sinto o frio de dezembro nas pernas nuas. Na bunda nua. Eu não quero mais. Dói tanto. Ele não tem piedade.

Só termine logo de uma vez. Imploro. Minhas lágrimas encharcam a toalha natalina.

Não sei quanto tempo se passou. Sinto a dor irradiar de debaixo de minhas pernas. Eu não aguento mais.

Foquei em mamãe. Seu suéter. Suas músicas. Seu carro. Seu rio. Sua escuridão.

***

A noite terminou triste. Não houve brindes, nem presentes. Apenas o frio e a saudade.

Assim que papai foi dormir, corri para a sala. Peguei a chave de seu carro e saí.

Não sabia para onde estava indo. Guiava o carro para qualquer lugar. Qualquer lugar era melhor que aquele.

Estava nevando. Os flocos caíam lentamente. Parei bruscamente. Quase bati a cabeça no volante. Abri a porta do carro e saí, sentindo o vento gelado e os pequenos flocos.

Era a minha mãe, tinha certeza. Era finalmente ela! Ela tinha vindo me salvar. Estava caindo, em forma de flocos de neve pequenininhos. Estava voltando para mim. Mamãe sempre quis voar. E agora ela era neve.

Fiquei feliz. Rodopiei. Senti mamãe caindo em meus cabelos, no meu rosto. Deixei que caísse sobre minha língua.

Parei. Pisquei. Me lembrei aonde estava. Na estrada escura, pertinho do rio. O farol do carro iluminava o caminho. Segui em frente, mamãe gostaria de ver como estou ficando corajosa.

Um passo. Outro. Mais um.

A estrada estava fria, podia sentir sob meus pés descalços. Parei no finzinho da estrada, bem de frente ao rio.

Estava bem escuro, mas eu podia ver a água refletindo as luzes da cidade. Era como uma mistura de escuridão e luzes.

Eu sabia o que tinha que fazer. Eu ia ver mamãe de novo. Não sentia medo, não. Estava feliz.

E então eu voei. Voei para minha mãe.

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