Goodbye
11 Extra: Algo que vem de dentro.
Notas iniciais
Um coreto.
Na praça central, bem próximo ao aquário que certo garoto que desejava ser biólogo tanto gostava, há um coreto. Um bonito espaço para escrever, para encontrar amigos, para refletir.
O garoto não estava entre as pessoas que se encontravam no lugar, mas pode-se dizer que ele estava lá. O Moreno pensava, enquanto encarava uma certa garota loira que, desde seu último suspiro, vivia com um caderninho. Manoela talvez nunca fosse entender o que o ele pensava, mas o mesmo acreditava ter sido extremamente egoísta enquanto viveu o que tinha certeza que não poderia ter. Contudo, também tinha certeza, os anos de sofrimento foram recompensados quando a conheceu.
Não queria assumir, mas nunca quis deixá-la partir.
Lembrava-se que seus pais, juntamente com dona Lidia, tiveram uma conversa entre soluços com ele antes do episódio da saída do hospital do mesmo e da garota, sua namorada. Sua Manoela.
O moreno realmente tinha total sabedoria de que não se recuperaria daquela vez. Parecia que sua cota imaginária com o destino já tinha acabado. Ele achava que não podia enrolar muito mais.
Mesmo assim... Não deu ouvidos aquela conversa. Deixou que entrasse por um ouvido e saísse pelo outro, como sua sogra costumava dizer quando implicava com Manoela e a arrumação de seu quarto.
Ele estava ciente que foi difícil para todos os presentes lhe jogarem aquelas palavras um tanto frias, mas doeu ainda mais pensar em deixá-la do que realmente não abrir mais os olhos. Era como dizer para um pássaro escolher entre suas asas, ou para uma mãe completamente amorosa escolher um filho preferido.
Havia cogitado dizer a ela que era melhor acabar com aquilo, com aquele namoro, antes que fosse tarde, entretanto foi covarde o bastante para não ter coragem de pronunciar palavras tão simples, ao seu ver.
“- Não me diga adeus, seu grande idiota!”, era o que Murilo esperava e que, certamente, ela diria se tivesse entrado na sala antes que ele não abrisse mais os olhos.
Ele tinha medo que ela cansasse daquilo tudo. Que fosse pressão demasiada para uma garota de apenas quinze anos com um primeiro romance problemático.
Ela tem tanto chão pela frente. Que diferença fará um primeiro amor que não deu certo? Era o que mais pensava quando estava entediado e não tinha ideia para piadas ou charadas e enigmas sem respostas.
Aqueles pensamentos doíam imensamente no garoto. Chão pela frente... Coisa que ele fatalmente não tinha.
Passou a fazer de tudo para não deixá-la entediada. Não queria que ela o deixasse. Só pensar nessa possibilidade o apavorava. Devia ter soado forçado várias vezes, ela o olhava com preocupação e tentava sorrir.
Murilo não tinha medo de morrer. Ele... não queria deixá-la. Era horrível pensar que ela acharia outro alguém para construir sua vida, sua família, sua felicidade. Não iria mentir que tinha esses pensamentos miseráveis sim, mas tentava ver somente pelo lado de que ela seria feliz, sorriria.
Não queria brincar em um esconde-esconde que nunca acabaria. Ele nunca seria achado, não teria paz. Não a levaria a sofrer por ele... ainda mais.
Eram as coisas que o garoto mais pensava todos os dias sem exceção no período que ficou enfornado num hospital onde pessoas entravam chorando e saíam chorando quase todas as vezes. A ala da emergência era terrível! E ele constatou após dar uma fugida de seu quarto em uma madrugada de quando estava somente na enfermaria.
Agora, depois de não muito tempo, ele a vê de novo sentada em um banco preso no teto de um coreto por grossas correntes de ferro desgastadas e enferrujadas devido a maresia. Seus cabelos loiros balançam com o vento e o movimento do banco.
Manoela está mais velha e com uma aura que ele imaginara que ela emanaria um dia. Em suas mãos, o bloquinho que sempre carrega, escrevendo tudo do seu dia. Como um diário. Não. São relatos para mantê-lo atualizado.
Mesmo eu a observando a todo o momento, sorriu com esse pensamento.
Ser um anjo não é uma tarefa fácil. Pode perguntar à Murilo, mas sua vontade de protegê-la acabou dando a ele esse privilégio.
No começo, achou que poderia contatar-se com ela, mas não é bem assim que funcionam os deveres angelicais. Ele a guarda de perigos eminentes e age como um sexto sentido para avisá-la.
Estar ao seu lado novamente o tranquilizava mesmo que saiba que ela não pode vê-lo, mas Murilo percebia que ela parecia sentir sua presença ou ao menos um aconchego que a fazia estar sempre sorrindo, principalmente ao escrever para ele. Já ela tinha absoluta certeza de que ele a olhava, de algum modo, de algum lugar.
Um coreto.
Ótimo lugar para mais um encontro.

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