Goodbye
7 Aquele pedido...
Notas iniciais
Os rumores só pioravam e ainda mais agora que Murilo se sentia muito mais a vontade e adorava fazer meu colo de travesseiro. Ele não se importava nem um pouco com o que os outros diziam, isso já estava na cara há muito tempo. Mas eu era torturada todo dia pelas minhas queridas amigas e com razão.
– Assume logo esse namoro. – Mirela começou.
– Nós não estamos namorando! – falei pela trigésima vez.
Aquilo já estava me irritando. Eu estava mesmo perdendo a paciência.
O que mais me frustrava, era saber que aquilo mexia muito comigo e nem um pouco com ele. Tudo me levava a conclusão de que eu gostava dele de verdade, mas cada vez mais ele parecia me considerar uma melhor amiga. Seria friendzone na certa.
Balancei minha cabeça negativamente e Gabi reprimiu o riso, sendo interrogada por todas logo depois. Fora por causa dela que eu tinha ficado tão encanada com aquilo e tinha aceitado o que o meu coração idiota sentia.
– Eu queria tanto ser como você, Manu. – Aki sonhou.
– Como eu? – perguntei sem entender.
– Você é tão ousada dando travesseiro de colo para o seu namorado. – argumentou.
Corei ao extremo enquanto todas as outras riam.
– Claro que não! – cruzei os braços, desconcertada – Ele só é folgado demais! – sorri, travessa, rezando para que aquele assunto se encerrasse.
Eu podia até ter conseguido sair daquela em paz e ter sossego o resto do dia, mas Murilo tinha que aparecer por trás, apoiar seu queixo no topo da minha cabeça e perguntar:
– Quem é folgado?
– E você gosta~ – Lara cantarolou se referindo ao meu argumento anterior.
Antes que eu pudesse dizer algo, Gabi se intrometeu do mesmo jeito que Lara:
– E não consegue dizer não~
Protestei, me levantei desviando do garoto e segui para o bebedouro deixando-as com uma Zenaide nervosíssima, já que estávamos fazendo muito barulho dentro de uma biblioteca, apesar de não haver nem uma alma penada lendo ou nem mesmo ali, além dela que era a bibliotecária.
Bebi água e joguei água no rosto na tentativa de acalmar meus ânimos.
– Um festival! – Victor anunciou no dia seguinte depois que todas as aulas tinham terminando e ele tinha nos obrigado a permanecer dentro da sala.
– Para que? Não estudamos nos states, meu caro. Isso aqui é Brasil, ta? – Lara foi curta e grossa.
– Só que, meu docinho, — o ruivo desceu da cadeira onde estava fazendo seu anuncio – o fundador da nossa amada escola...
Mirela fingiu que ia vomitar e eu ri.
–... Está completando mais de 100 anos!
– Mas ele já morreu. – Aki lembrou.
– Mas se estivesse vivo estaria completando mais de 100 anos. – falou com toda a animação de novo.
– Isso é ridículo! – Guilherme apareceu do lado de Aki, fazendo-a cambalear.
– Ta bom. – Victor se rendeu – Só quero uma grana, entenderam? – ele fez uma facepalm.
As pessoas pareceram muito mais interessadas, a ponto de guardarem seus celulares e prestarem atenção na conversa.
– Podemos vender alguma coisa e ganhar um dinheiro bom. – ele disse.
– Fazer tipo um restaurante? – Murilo se pronunciou parecendo interessadíssimo no assunto.
– Sim! – o amigo sorriu.
Percebi murmúrios. As pessoas não pareciam tão animadas com a iniciativa e diziam concordar com o argumento que Lara falara mais cedo.
– Podemos fazer isso. – falei e todos me olharam surpresos.
Na verdade, eu não estava nem um pouco entusiasmada com a ideia, ainda mais depois que Victor resolveu incorporar um louco e falou que faríamos um café inverso. (Esse garoto anda lendo muitos mangás.) Eu nem sabia que ele curtia esse tipo de coisa. Mas eu percebi que Murilo, Aki, Gabi e grande maioria da sala estavam empolgados. Eu acabei ficando também.
– O que está pensando? – me aproximei dele, o assustando.
Já haviam se passado duas semanas desde o comunicado de Victor e a concordância de todos pela minha iniciativa. Só foi mesmo difícil convencer Mirela, já que Lara se interessava por tudo que a fizesse ganhar nota, mesmo se fosse uma ideia vinda de Victor.
Fomos todos conversar com o diretor e o convencemos, de alguma maneira. Então todas as salas foram comunicadas por nós mesmo e teriam que fazer algo do tipo. Não foram todos que curtiram a ideia, mas a maioria gostou.
Já tínhamos comprado tudo que precisávamos.
Os pais de Guilherme tinham um restaurante e forneceram as mesas e as cadeiras; Murilo e Victor ficaram com a decoração junto com algumas meninas: Júlia, Amanda e Rita; Gabi, Camila e Ana ficaram de preparar roupas e a Aki, junto com Guilherme, ficou de modelo (Coincidência? Acho que não.); e o resto de nós ficou com a comida. Faríamos duplas para trazer algo, mas, além disso, metade da sala traria refrigerante e a outra metade café e chá.
– Eu acho que podíamos colocar mais desses posteres pendurados ali. – Murilo disse e correu até Victor. Sorri sem perceber.
Lara me puxou para trás do balcão improvisado que fizemos. Até que não tinha ficado tão mau.
– Ao trabalho! – Mirela ralhou e eu fui obrigada a voltar a fazer biscoitos em formato de ursinhos para levar ao forno da cantina.
No final, colocamos tudo que era necessário de congelamento na geladeira que nos forneceram, lanchamos, jogamos alguns jogos de tabuleiro e fomos embora, já que a escola só tinha sido aberta hoje para a arrumação de todas as salas.
Eu, Mirela, Aki e Lara fomos as últimas a sair. Gabi já tinha ido embora para fazer os últimos retoques nas roupas, animada. Lara trancou a porta e colocou a chave em um bolso da mochila, satisfeita.
Fomos conversando pelo corredor. Aki era a mais animada.
– Você já terminou o design dos cardápios, Manu? – Mirela perguntou me despertando do mundo da lua.
– Opa... – fiz cara de cachorrinho que caiu da mudança para não levar bronca e tratei de me despedir e sair correndo pra casa.
Quando passei por baixo da árvore que sempre era usada como ponto de referência naquela região, senti alguém puxar meu braço, mas antes que eu pudesse gritar, a pessoa colocou o dedo indicador gentilmente sobre a minha boca. Soltei o ar quando vi os olhos verde-mel e o cabelo caído sobre um olho.
– Você me assustou. – sussurrei.
– Por que está sussurrando? – ele sussurrou de volta.
– Não sei.
Nos encaramos e rimos como dois idiotas, que era o que éramos mesmo.
De repente me lembrei que tinha que terminar os cardápios para o outro dia e me desesperei. Murilo soltou uma risada que me fez corar e querer que aquele momento não passasse. O expliquei que eu tinha que ir embora.
– Suba. – percebi que ele estava sentado no banco da sua bicicleta – Eu vou te ajudar a terminar essa parada.
Eu queria ir para minha casa, mas meu motorista particular me obrigou a fazer os benditos cardápios na casa dele. Bufei, mas aceitei. Eu precisava de ajuda e a única que toparia me ajudar já estava ocupada: Gabi. Então tinha que ser o Murilo.
– Oi, Manu. – Miranda apareceu na porta do quarto de Murilo.
– Oi, tia! – sorri.
Eu já tinha ido tantas vezes ali passar tardes com Dona Miranda que já tinha certa intimidade com ela. Toda vez que Murilo faltava aula, eu aparecia para confortá-la e acabava me confortando também.
Ela me ofereceu bolacha com leite como sempre fazia e eu recusei, mas ela não me deu ouvidos e saiu anunciando que faria deliciosos biscoitos, em direção à cozinha.
Suspirei e observei o quarto enquanto esperava que Murilo voltasse. Ele tinha ido se trocar quando chegamos.
– E então! – ele pulou da porta para o meu lado.
– Vamos...! – eu virei o rosto numa péssima hora.
Eu não tinha percebido que ele estava tão perto. Me olhou intensamente. Tentei desviar o olhar, mas ele levou uma das mãos até meu queixo e me forçou o olhá-lo. Foi se aproximando cada vez mais. Senti meu rosto entrar em combustão e me levantei rapidamente.
Ele suspirou e sorriu derrotado, como se estivesse mesmo disposto desde o começo a fazer aquilo. Fiquei confusa, mas feliz com aquela hipótese. Boboca!, me repreendi mentalmente.
– Olha só, — comecei, nervosa – já não acha que tem rumores demais rolando ao nosso respeito? É melhor tomarmos cuidado! – olhei pra todos os lados, em baixo da cama, do travesseiro e para fora, pela janela, fazendo cena como se estivéssemos sendo observados.
Ele riu e se levantou do chão onde estávamos sentados. Se aproximou de mim e me forcei ao máximo contra a parede, pensava até em me jogar pela janela.
– Porque você liga tanto pra isso? – colocou as mãos no parapeito da janela, me prendendo.
– Ãhn... Porque é mentira. – falei, tentando parecer indiferente. – Não gosto que me rotulem ou pensem bobagens sobre mim. Ainda por cima, mentiras. – fechei com força os olhos quando percebi que ele se aproximava novamente.
Então me roubou um rápido selinho. Abri os olhos, assustada e ele sorriu gentilmente, me fazendo corar.
– Então a partir de hoje não é mais mentira. – se sentou novamente no tapete, casualmente, e começou a escrever alguma coisa no meu caderno, que estava aberto no chão.
– C-como assim? – perguntei, totalmente perdida.
– A partir de hoje você é minha namorada e agora daremos motivos para os rumores. – ele me mostrou os dados pessoais do caderno.
Ao lado do meu nome ele tinha escrito: Namorada do garoto estranho do 1 – E. Não mexa com ela ou ele pode roubar sua alma.
Ri com aquilo e senti uma vontade muito grande de chorar, mas percebi que ele estava se achando muito. Nem tinha feito um pedido oficial, tinha me roubado um selinho e já saía todo possessivo desse jeito. Fechei a cara o deixando confuso como ele me deixara.
– E quem disse que eu quero?
Ele largou o caderno na mesma hora e se aproximou de mim de novo.
– Você não tem “querer”, my lady. – fez cosplay de Victor, encostou seu nariz no meu e sorriu me fazendo sorrir também.
– Se é assim, eu não tenho escolha. – fingi uma tristeza de repente.
– Claro! – ele sorriu novamente.
Ouvimos alguém bater na porta e eu o empurrei rapidamente, corando gravemente logo em seguida. Ele caiu sentado no chão e eu continuei escorada na janela, o mais inocente possível.
– Dê oi para a sua nora, mãe. – ele disse – A propósito, ela é bem forte quando quer. – riu e passou uma das mãos na nuca.
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