Good Travel
3 Esmeralda - 2
Chegaram, uma floresta, com árvores bonitas, verdes e com troncos majestosos. As árvores não poluíam o visual, se podia ver por entre elas, num bom espaço-distância, se via o mar. Se juntaram num local sem árvores, apenas na volta. Aparentemente perfeito pra acampar. Os diversos jovens pegaram suas tralhas e iam largando no chão, algumas horas depois o sol estava mais forte, as barracas montadas, a fogueira sendo acendida, doces, de todos os tipos, espalhados pelo chão e na boca dos jovens, derretendo. Fumaça, que não era do fogo das árvores, e sim de seda enrolada. Estavam todos chapados, assim como o garoto. Que ao vivenciar todas as características citadas, "viajou". Começou a se sentir leve, feliz, despreocupado, como se nada mais fizesse sentido, e nem precisasse. Alucinou:
– Oi, desculpa ter te deixado sozinho, medroso.
– Cala boca, eu não sou medroso. Não me deixa sozinho, não gosto – disse virando a cabeça, com um olhar lento, ou seria apenas sua mente? Riu do pensamento.
– Não vou mais te deixar só, prometo. Que tal vir com a gente até a praia?
– Ta bom, mas não desgruda de mim.
Já estava vendo coisas, mas tudo agradável. Chegaram na praia, já haviam alguns troncos no chão, a praia era linda, assim como o mar, e aquele sol que se esvazia no fim da tarde, lindo, extremamente lindo. Um sol vívido e visível se pondo, deixando tudo alaranjado e alucinógeno. Tiveram que descer por um pequeno morro de pedras, onde embaixo estavam, na praia. Ficaram sentados no tronco. Alguns lá em cima, nas pedras, sentados em cadeiras de praia e soltando risos eufóricos.
Prendeu o olhar na pele branca da garota, depois moveu aos olhos verde-escuro, que por um momento, jurou virarem esmeraldas bem escuras, que saiam fora do seu globo e aumentavam de tamanho:
– Ei! – fazendo o garoto piscar e retomar.
– O que foi?
– Você parece estar bem louco. Tava olhando pra mim com uma cara... – soltando uma risada.
"What are you so afraid to lose?"
– Tua pele é muito branca, dá vontade de ficar acariciando, e teus olhos são bem legais, pareciam esmeraldas, de verdade.
– Obrigado, bem gentil da sua parte – num tom irónico, entre risadas.
O garoto deu uma risada sem jeito e olhou para o sol, já estava sumindo:
– Em que ano a gente está?
A garota havia sumido do seu lado. "Droga, droga, droga, meu Deus... Eu... Merda, eu não quero ficar sozinho. Caralho. Eu nem sei o nome dela.":
– Adivinha – forçando uma voz grossa, e tapando os seus olhos com as mãos suaves.
– NÃO ME DEIXA SOZINHO! – não foi um grito, mas não chegou a ser uma fala. Um suspiro de alívio.
– Desculpa, eu só fui pegar uma erva e algumas balas – tirando as mãos do rosto do rapaz e pegando os utensílios do chão.
– Desculpa também... Eu só fiquei muito assustado. Não me deixa sozinho, por favor.
– Ta bom, ta bom. Prometo não desgrudar mesmo de você agora. – entregando-o um pacote de balas – isso vai ter um gosto maravilhoso, vai por mim.
Pôs uma bala na boca e passou o resto da tarde ao lado da garota, vislumbrando a vista, conversando esporadicamente e ouvindo os diversos risos e papos dos outros.
Era noite já, ainda estavam sentados. O efeito já estava passando, estava voltando a completa sanidade, a garota esteve sóbria o tempo todo, tirando a neutralização corporal, e anestesia da mente, devido a seda que dividiram:
– Vamos voltar pro acampamento? Tá ficando frio pra cassete já, e estou faminta. Pode ser?
– A gente pode voltar e ficar aqui denovo, depois?
– Pode sim, só vou ter que pegar uns casacos pra gente, e comida.
Queria muito ficar mais um tempo com ela, naquele local.
Chegaram no acampamento, muita gente, bebendo, dançando, música numa das caminhonetes estacionada num pedaço sem árvores. Várias barracas e muita comida espalhada no chão. A fogueira de tamanho respeitável, nem muito grande, nem pequena. Parecia um filme americano de colegiais, mas lá estava ele. Se sentiu acanhado por alguns segundos, mas lembrou-se que todos estavam chapados, então logo se desprendeu. Piscou.
E subitamente, como a dor, súbito como o ponto final e o enter dado, teve um choque. O ambiente vazio, monstruoso, como um pesadelo. Escuro, frio, névoa, vazio. Apenas o espaço quieto e amedrontador, sem ninguém, apenas a si mesmo. Olhou para o lado, congelando a espinha. "Ninguém..." Piscou denovo, caiu no chão sentado. Tudo estava de volta ao normal:
– O que houve? Tá tudo bem com você? EI! RESPONDE!
O garoto tremia. Medo.
Algumas horas depois, estava sentado na fogueira, repassando involuntariamente aquilo, tentando descobrir, e ao mesmo tempo se distanciar da possibilidade de repetição daquilo:
– Dá pra você parar com essa cara, parece quando eu te encontrei a primeira vez. Lembra o que eu te falei, né?
– Eu estou com medo.
Contou o que aconteceu para a garota. Não se pode fazer muito, a não ser questionar a veracidade, e também se encucar com isso:
– Tá vendo o que você fez. Agora eu também tô pensativa – dando uma risada sem jeito.
– Desculpa, eu estou muito assustado. Queria ver minha família.
– Eu posso te levar embora se quiser.
– Se eu te contar uma história, você poderia, por favor, acreditar em mim? – disse interrompendo a última palavra da garota.
– Talvez... – o garoto olhou com uma cara de desapontamento para ela – É brincadeira, idiota. Acredito sim. Conta.
O garoto exitou, pensou um pouco, e decidiu que não tinha mais opção mesmo:
– Eu realmente não quero ficar num lugar escuro denovo, mas tá muito barulhento aqui. A gente pode voltar pra praia?
– Claro, pode sim. Vou lá buscar os casacos.
Permaneceu alguns segundos sentado numa das madeiras perto da fogueira, pensando em devaneios que não conclusionavam em lugar algum, tentando se manter longe do acontecido de minutos:
– EAAAAÍ, CARA! BELEZA? – gritou um garoto aparentemente chapado.
– Oi – acanhado.
– QUE TÁ FAZENDO AI PARADO, VÂMO DANÇA, CARALHO! – empolgado.
– Eu tô esperando uma amiga, obrigado.
– CHAMA ELA PRA DANÇAR TAMBÉM – dando risadas e saindo dançando.
Um casaco voa em cima da sua cabeça:
– Oi, voltei.
– Ah, oi... Um cara, completamente chapado, chegou e me convidou pra ir dançar. Vamos sair logo daqui, antes que ele volte.
– Tá bom – dando umas risadas.
Chegaram no mesmo lugar de antes, sentaram na areia mesmo:
– Vai, começa!
– Calma, não é uma história divertida. Me deixa falar com calma.
– Tá bom – num tom sério, mas com um deboche.
– Eu... ontem, ou não sei, eu conversei com um cara num fórum, ele hackeou meu computador e abriu umas janelas. Antes disso, estávamos tratando algo sobre viagem no tempo, achei uma pura bobagem, mas eu estava numa crise depressiva, e quando fico assim, é como se eu estivesse chapado, faço coisas completamente idiotas e absurdas. Então... Na primeira janela que abriu, havia "HELLO", significa olá (...)
– Eu sei o que significa "HELLO" – interrompendo-o.
– E na segunda, "TRAVEL", como se fosse um botão. Eu cliquei e acordei num quarto daquela casa. Como se tudo tivesse sido um sonho, mas o antes de eu acordar era a realidade, obviamente, e depois que acordei, o verdadeiro sonho. Eu estou confuso e com medo... Eu... Realmente acho que viajei no tempo, talvez não num tempo distante, e talvez nem literalmente para o passado ou futuro, mas pra uma dimensão diferen-
– Tá, você acha que viajou no tempo? Eu acredito em você. Não precisa explicar mais nada que não seja importante. Eu te entendi – num tom sério.
– Sério?
– SIm, sério.
Aplacou-se um silêncio temporário, até que:
– Mas você me deixou encucada, pena que a regra não é ao contrário.
– Que regra? – confuso.
– A que eu te disse no carro.
– Hm... – ainda sem lembrar.
– "Se você ficar ai encucando, eu vou te dar um beijo na boca." – fazendo uma voz diferente.
– Ah... Por que "pena"? – "LENTO!" – AHH... Entendi – sendo olhado com olhar aborrecido.
O silêncio voltou, os olhos permaneceram, o coração acelerou.
Um beijo. Tímido por sua parte, apaixonado pela outra. Na verdade, ambas partes se familiarizavam. Ali mesmo, roupas atiradas, montando um tapete, abaixo de uma montanha de pedras que escondia, amor aconteceu, amor nasceu. Dormiram.
Era manhã, ela ainda dormia. Ele balançou-a gentilmente:
– Bom dia...
– Oi – com a voz rouca e cansada.
– Vocês pretendem ir pra casa hoje, certo?
– Hm... – quase caindo no sono de novo – acho que sim.
– É que... Eu queria voltar pra aquela casa. Eu preciso ver minha família.
– Tá... – praticamente dormindo.
– Por favor... – realizou que ainda não sabia seu nome – Escuta, eu ainda não sei o teu nome...
– Esmeralda – a voz já mais acordada.
– Sério?
– Não, mas me chama assim. Você disse que meus olhos eram esmeraldas – ainda rouca.
– Tá bom – com um sorriso aberto.
Ele pegou ela no colo, que disse "O que você tá fazendo?", e levou-a até o acampamento.
"Mas que porra..." Um cenário absolutamente engraçado e caótico. Muita gente estirada no chão, latas e mais latas de cerveja, doces e comidas esmagadas e jogadas, a fogueira apagada. Até confetes haviam no chão. Os dois riram e pensaram juntos: "Como a gente dormiu com isso?"
Desceu-a do seu colo e caminharam até o carro:
– Você pode me levar pra casa, por favor?
– Tudo bem, vamos lá.
Ela sabia dirigir, apesar de aparentar ter uns 17 anos no máximo.
Passaram por lugares bem bonitos, do qual não tinha percebido noutro dia, e depois pegaram uma estrada longa, retilínea. Contemplando a vista, olhou para o lado e viu aquela garota linda, pensou "Como não me apaixonei antes?". Ela olhou para ele:
– Para de me olhar, pervertido – dando uma risada.
– Não dá, você sabe que gosto da sua pele branca, e das suas esmeraldas – dando uma risada de volta.
Ela sorriu, ele sorriu, guardaram o momento.
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