Good Riddance

36 Mas eu me mordo de ciúmes Extra Gui/Davi Parte IV


Notas iniciais
Muuuuuuuuuito obrigada a DCC pela recomendação!

"Para! Ai, que saco, Leo, te odeio." Davi o empurrou. Estava na casa do Leonardo, que morava sozinho em um apartamento de tamanho razoável. O pai do garoto era de Caxias do Sul, mas Leo viera para Porto Alegre morar com a tia desde os dez anos. A mãe morrera de câncer um pouco antes disso.

"O que foi? Estou apenas brincando Sr. eu sou fino demais para comer comida dos amigos." Leo disse, fingindo-se de emburrado, enquanto pegava seu prato de massa e metia uma garfada na boca.

"Leo, isso tá nojento. A massa 'tá toda grudenta e tem gosto de plástico. Tu não tem habilidades culinárias, apenas aceite isso." Davi disse, virando o rosto quando o amigo tentou enfiar-lhe mais uma garfada daquela coisa nojenta que ele chamava de almoço goela abaixo. Achou que deveria ter aparecido mais tarde.

"Chega dizendo que 'tá morrendo de fome, e agora isso. Mas tudo bem, sobra mais pra mim." Deu de ombros e continuou comendo, voltando a atenção para o seriado que passava na televisão. Friends. Mesmo depois de anos do término, Leonardo ainda adorava aquilo.

"Vai passar mal." Davi cogitou a hipótese de pegar o prato dele e correr para cozinha, jogar tudo no lixo, mas Leo poderia mordê-lo se tentasse. Leonardo ignorou seu comentário, nada que Davi não esperasse.

"Se não veio pra comer, pra que veio? Tipo, nós já íamos nos encontrar com a Natália e a Tati na redenção hoje de tarde." Leonardo perguntou curioso, largando o prato porque, tinha de admitir, aquilo estava intragável e causando um mal-estar no estômago. Porém comera quase tudo.

"É que... Eu tenho uma coisa pra te contar." Davi engoliu a saliva que se acumulara na boca — e a culpada definitivamente não era a massa. Leonardo o olhou com uma careta de dúvida e curiosidade, notando que o menor ficara desconfortável, encabulado e nervoso de uma maneira bastante súbita.

"Fala aí." Disse tranquilo, tentando deixar o outro mais relaxado. Davi ainda abriu e fechou a boca inúmeras vezes, coçou os cabelos cor de mel, mordeu o novo piercing que ele fizera no canto do lábio, e demorou a conseguir olhar Leonardo nos olhos. Este já estava acreditando que ele contaria que assassinara alguém, ou coisa que o valha.

"Sou gay." Davi admitiu e arregalou os olhos, como se até ele mesmo se surpreendesse com tal informação. No caso, se surpreendia por ter tido coragem de contar para o Leonardo.

Se Leo estivesse comendo massa, ela provavelmente trancaria em sua garganta e ele morreria lentamente por asfixia. Acabou engolindo errado a saliva e tossiu pela surpresa. Depois olhou para o Davi, esperando que ele dissesse que era uma piada. Ao ver apenas seriedade e nervosismo no rosto do pequeno, se levantou, indo até a janela pegar algum ar.

Não era que fosse preconceituoso, estava apenas muito surpreso. Como não percebera antes? Era algum tapado? Davi era tão fofo! Tão pequeno e inocente! Como assim era gay e iria deixar algum cara pegá-lo e destruir toda aquela inocência? Era muita informação pra sua cabeça. Considerava Davi seu irmãozinho caçula. Impossível não se sentir preocupado, pois sabia que muitos homossexuais sofriam preconceito. Ainda mais levando em conta os pais do garoto.

"Leo...? Tu 'tá... Com nojo de mim?" Davi perguntou num tom tão vulnerável e triste, e Leonardo virou-se de imediato para ele, vendo-o ainda sentado encolhido no sofá, abraçando as próprias pernas.

"Tu endoidou?" Perguntou, colocando seu tom bem-humorado de sempre na pergunta. Um sorriso encheu seus lábios, mesmo que o forçasse um pouco. Era difícil entender como um homem poderia sentir atração por outro, quando tentava imaginar como, achava estranho e sem sentido, mas respeitava. "Por que eu estaria com nojo de ti?"

Davi o olhou ainda em dúvida, repleto de receio.

"Porque eu sinto atração por homens... Porque estou quase namorando com um..." Contou num murmúrio constrangido, abaixando o olhar para seus joelhos.

"Namorando?!?" Leonardo exclamou atarantado. Com um ciúmes de irmão mais velho, sentiu ganas de ir tirar satisfação com o cara, mas se conteve. Não tinha esse direito, afinal, não eram de fato irmãos. Aliás, sempre achara ciúmes fraternais bastante idiotas. Passou a mão pelos cabelos castanhos repicados. Eles eram sempre uma bagunça, por mais que tentasse arrumá-los. Nunca tentava, mas sabia que continuariam da mesma forma caso o fizesse.

"Já tem um mês e alguns dias que estou ficando com um cara. Ele tem vinte e três anos, e é meu veterano. Ele tinha começado outro curso antes, de Estatística, mas não gostou, largou, ficou só trabalhando um tempo, e aí decidiu entrar em engenharia e-"

"Tu não precisa me dar a ficha completa e o histórico de vida dele." Leo o cortou, antes que Davi se animasse demais. "Desde quando tu sabe que é gay? Há um mês e pouco?"

"Não... Eu já vinha desconfiando há quase um ano. Em março conheci o Guilherme e não consegui refrear a atração que fui desenvolvendo por ele. Em junho foi a confirmação completa. Então, fazem dois meses e meio, por aí..." Abraçou as pernas com mais força, as coxas se pressionando contra seu abdômen. "Só a Tati sabia até agora."

"Tu contou primeiro pra ela? Por que eu estou sabendo disso apenas agora?" Leo sabia que estava sendo dramático, algo que não era de seu feitio. Mas aquela confissão o pegara desprevenido, e se sentia meio sem saber o que dizer ou fazer. Tinha conhecidos gays, e em festas, quando levava cantadas de homens, levava na boa, os dispensava com bom humor. Era apenas a surpresa do momento.

"Ela é fujoushi, ela percebeu, e eu acabei contando porque não ia conseguir superar meu próprio preconceito sozinho. Tinha medo dos meus pais, e da reação dos outros. Ela me aceitou." Davi explicou, um pouco na defensiva, mas ainda vulnerável, mordiscando o piercing no canto da boca.

Leo não fazia ideia do que era 'fujoushi'.

"Eu te aceito também." Declarou, conseguindo atenção total do Davi. Este imediatamente abriu um sorriso enorme, que marcava covinhas nas bochechas coradas. Lágrimas saltaram aos olhos do pequeno, e Leo se aproximou, parando em frente a ele e erguendo a mão para limpá-las. "Só 'tô com ciúmes que tu contou primeiro pra Tati. E eu quero conhecer esse guri que 'tá te pegando. Como assim ele não passou primeiro pela minha aprovação?"

"Leo..." Os lábios do menor tremeram antes que ele se erguesse e se jogasse em cima do amigo. Leonardo, que não era nenhum parrudo forte como o Guilherme, não aguentou o peso repentino e caiu para trás, no chão, com Davi sobre ele. Davi o olhou assustado e culpado assim que Leonardo soltou um gemido de dor. "Desculpa..."

"Tudo bem, eu só acho que não sinto as minhas pernas. Quero uma cadeira de rodas de compensação." Leonardo disse, sentindo bastante dor no quadril. Levou um tapa do pequeno.

"Nem brinca com essas coisas!" Davi disse exaltado, mas isso sumiu rapidinho e ele se abraçou ao amigo, ali no chão mesmo. Começou a chorar.

Leonardo arregalou os olhos sem entender nada. Havia dito que o aceitava, certo? Então por que ele estava ali chorando como se seu bichinho de estimação houvesse morrido atropelado? Fez força pra se sentar, com Davi ainda abraçado a si como um bicho preguiça chorão agarrado em uma árvore.

"Hei, hei! Que isso, guri? Não precisa chorar assim. Eu falo sério sobre não ver problema nisso, e sobre a Tati, eu entendo. Não estou brabo. Então não chora." Disse meio sem jeito, mas acabou abraçando o Davi, que agora estava em seu colo com os braços ao redor de seu pescoço. Acariciou os cabelos extremamente lisos dele, e esperou até ele se acalmar, aninhado em seu colo, rosto escondido em seu pescoço. As lágrimas quentes pinicaram a curva do ombro.

"Eu estava com medo de tu ficar com nojo de mim." Davi murmurou após uns segundos, sentindo-se estúpido por ter chorado daquela forma. Era a primeira vez que contava a alguém sem saber que reação esperar. Fora assustador, já o alívio, fora tremendo. "Obrigada por entender."

"Não tem nada que entender. Tu nasceu assim, e como amigo me resta aceitar. Isso não muda nada. Só muda que vou ter de pensar em piadinhas novas com garotos pra te constranger. E vou ter de manter os caras longe de ti, e parar de tentar te arranjar alguma guria. E te dar presentes mais adequados de aniversário, tipo, um vibrador, sabe. Vai ser estranho entrar numa sex shop pra comprar isso mas-" Leo se calou e riu ao levar um tapa pesado no braço.

Davi se levantou, com as bochechas coradas.

"Deixa de ser bobo." Ele disse, revirando os olhos. "Mas concordo com o resto. Tu sempre quase me matava de vergonha querendo me empurrar alguma das tuas 'amigas'." Disse a palavra com bastante ironia. "Agora já estou comprometido. Ou quase." Guilherme não o pedira em namoro, e Davi não sabia se ele poderia pedir também, ou não.

"Tu ainda é virgem?" Leonardo perguntou de supetão, apenas para implicar. "Porque aquelas tuas mentiras de que já havia feito com garotas-"

"Cala a boca. Não quero falar sobre isso." Disse se irritando. Principalmente porque ele e o Guilherme ainda não haviam transado, por puro receio seu, já que não faltaram tentativas da parte do mais velho.

"Então é porque ainda é bunda virgem." Leo abriu um sorriso sacana, e riu se desviando de uma almofada tocada pelo outro. "Hei, calma! Estou só te enchendo o saco."

"Eu sei!" Davi exclamou, mas sorriu também, porque era ótimo pode ter contado e ter sido aceito. Leonardo tornara-se alguém extremamente especial para si nos últimos meses, era como o irmão que nunca tivera, e se perguntava por que havia demorado tanto para que a amizade dos dois se aprofundasse. "Mas obrigado mesmo, Leo." Sentou-se no sofá e abraçou outra almofada.

Leonardo se levantou, massageando a lombar.

"Ainda quero conhecer esse teu ficante. Quem ele acha que é pra te roubar de mim? Olha que eu venho treinando boxe." Foi logo avisando dando uns soquinhos no ar, e jogou-se no sofá ao lado do menor.

Davi o empurrou pelo ombro.

"Ele não me roubou de ti." Disse baixinho. "Eu não quero nunca perder tua amizade, Leo." Corou ao admitir, pois não era muito normal um garoto confessar isso a outro. Mas nem se importou, era a verdade.

"Não vai perder, tampinha." Leo bagunçou-lhe os cabelos.

XxxX

Estavam no Muligan, já que o Guilherme trabalhava no bar dali, fazendo drinques. Leo, Marília e Davi estavam sentados ao balcão, conversando e bebendo, enquanto Guilherme alternava entre dar atenção para eles, ou fazer as bebidas. Já a Tati estava com o pseudo-namorado de quatro anos, com quem tinha uma relação infernal de vai-e-volta, Bruno.

Davi estava se deliciando com as batatas rústicas do lugar, divertindo-se com o jeito efusivo e engraçado da Tati, que no momento brigava ‘carinhosamente’ com o Bruno, e com as cantadas que Leonardo soltava para cima da loira. Marília obviamente dava corda, e em alguns momentos Davi até corava com o nível em que eles desciam. Dois pervertidos.

"Tu não sente ciúmes?" Davi cochichou para o Guilherme após este se inclinar para perto para escutá-lo. O mais velho não entendeu a pergunta. "Da Marília! Quero dizer, vocês costumavam ter alguma coisa..."

"Amizade colorida. Nunca senti ciúmes dela, nós dois nunca tivemos nenhum compromisso. Não me importo se ela for dar pro teu amigo hoje. Aliás, não gostei dele." Guilherme avisou, contrafeito. Leo e Davi pareciam próximos demais em sua opinião, e seu alarme de ciúmes estava apitando. Já apitara desde que Davi havia falado de Leo tantas vezes, e com tanto carinho.

Talvez fosse porque já havia sido traído na sua única tentativa de relacionamento quando adolescente, e por isso agora seu ciúme estivesse em alta. Davi tinha uma beleza inocente e chamativa, principalmente agora que se rebelara e colocara piercings, arrepiara um pouco o cabelo, começara a usar roupas mais justas e correntes, brincos, parecia um pequeno rebelde inocente, uma mistura bem paradoxal.

"Por quê?! O Leo é tão legal!" Exclamou abismado. Nunca havia conhecido alguém que houvesse desgostado do Leonardo.

"Não sei. Esse jeito dele pra cima de ti..." Guilherme olhou para Leonardo, que se debruçava sobre Marília, com uma mão nas costas dela, para falar algo no ouvido dela. Ok, era idiota estar com ciúmes, mas sentia, era inevitável.

Tati entreouviu a conversa dos dois e se inclinou sobre o balcão.

“Leonardo e Davi são amigos desde a quarta série, se fosse pra rolar alguma coisa, já teria rolado.” Tati contou, mas sorria. “Ciúmes é algo tão fofo...”

“Hei! Por que então quando eu sinto ciúmes, tu fica toda irritada?” Bruno perguntou, metendo-se também no assunto. Tati o olhou indignada.

“Ora, é fofo quando é entre homens, tu pra cima de mim é um porre.” Suspirou, e aí os dois voltaram a discutir.

Davi riu daquilo, achando melhor não se meter, e olhou para o Guilherme.

"Deixa de ser bobo, Gui. Eu e o Leo somos amigos, como a Tati disse. Só isso, e ele é hétero." Segurou-se para não fazer um afago no rosto do maior. Dificultaria, provavelmente, o trabalho do Guilherme se soubessem que ele era gay. Ou bi, melhor dizendo.

"É, é. Sei. Eu também achava que era até um tempinho atrás." O lembrou. Davi revirou os olhos e bebericou de sua caipirinha, feita pelo Gui que, aliás, estava ótima.

"Sério, tu tem de parar de achar que qualquer cara que puxe assunto comigo quer me pegar. Que coisa! Nem somos namorados pra ter todo esse ciúmes!" Falou, e logo se arrependeu. Guilherme o olhou de uma maneira estranha, séria e nada contente. Se encolheu um pouco no banco, remexendo a língua para sentir o piercing.

"Tem uma coisa que quero te pedir depois." Guilherme avisou, e logo se afastou para fazer mais um drinque para um casal que acabara de chegar. Davi congelou por alguns segundos, o coração batendo forte. Depois cutucou a Tati.

"Acho que ele vai me pedir em namoro!" Sussurrou alto suficiente para que ela escutasse assim que ela se virou. Marília também ouviu e se achegou pra perto, e o Leo apoiou um braço no balcão, inclinando-se para frente para escutá-los também.

“Ai. Meu. Deus.” Tati abriu a boca e sacudiu as mãos, agitada. “Sério? O que ele disse?”

“Eu falei que não éramos namorados, e ele disse que tem algo pra me pedir.” Fofocou, nervoso.

"Ai, já era hora, né? Várias semanas vocês nessa chatice de fidelidade quando nem estão namorando, e nem transaram ainda. Sério, como que tu ainda não deu a bunda? Já pensou que o sexo entre vocês pode ser horrível? Deveriam experimentar antes de saírem namorando. Se bem que hoje em dia tem namoros que duram uma semana, ou nem isso. GARÇOM, mais uma Eisenbahn Weizenbieraqui!" Marília falou e chamou, dirigindo-se ao Guilherme, que a olhou com os olhos estreitados.

Ela lhe mandou um beijinho.

"Eu estou impressionado com o Guilherme. Tanto tempo sem sexo, não é fácil." Leo comentou, pensativo. "Tu 'tá sendo cruel, hein, Davi."

"Não estou!" Davi exclamou, ruborizando. Olhou por cima do ombro para o Guilherme, sentindo um arrepio descer pela espinha. Sentia muito desejo por ele, mas toda vez que estavam chegando na hora na hora H, ficava muito nervoso e tenso, e o clima ia pro espaço. Guilherme estava sendo paciente, por enquanto.

“O Davi tem o tempo dele, não é nada de crueldade. Se o Gui gosta mesmo dele, ele que espere e não pense só com a cabeça de baixo.” Tatiana defendeu, era uma romântica irremediável. Bruno revirou os olhos, os dois haviam transado no laboratório de informática do colégio na hora do intervalo quando mal se conheciam, ele trabalhando como estagiário, e ela uma estudante. Definitivamente nada romântico, mas Tati era mais de sonhar do que colocar em prática, ou então esperar que os outros seguissem seus planos românticos.

"Claro que é crueldade, Sansão deve estar enferrujando. Ai, não vejo a hora de vocês transarem para me contarem todos os detalhes. E algum dia poderei assistir?" Marília perguntou sem demonstrar um pingo de constrangimento. Leo se engasgou com a cerveja que tomava, e Davi olhou boquiaberto para a loira. Tati quase se voluntariou para assistir também, e Bruno bebeu um gole de cerveja.

"Claro que não! Isso seria constrangedor!" Davi achava Marília sempre um pouquinho mais louca a cada nova vez que a encontrava. E isso que já tinha a Tati como amiga, só esperava que a negra não acabasse influenciada.

"Por que uma guria iria querer ver dois homens transando? E... Sansão? Como assim?" Leonardo perguntou. Já era difícil entender como um cara achava outro cara atraente, agora por que uma mulher se interessaria em dois homens juntos?

Tati pigarreou, chamando atenção para defender sua tese.

"Porque é sexy. É como eu sempre digo, dois paus são melhores do que um.” Explicou.

“Fala sério!” Bruno achou a ideia ridícula, mas a Tati o olhou com desprezo e ele se calou.

Marília riu concordando.

“Sansão é o apelido do acessório do Guilherme. Mas não precisa sentir ciúmes, Leo, posso pensar em um nome pro teu também." Marília lhe piscou, e Leonardo acabou gargalhando.

"Sem nem conhecê-lo?" Perguntou descarado.

"A noite ainda não terminou, meu querido." Ela rebateu com um sorriso debochado e malicioso, fazendo Leonardo sorrir da mesma maneira.

“Viu como se cria um clima?” Tati perguntou.

“Ah, agora tu quer safadeza?” Bruno replicou. “Vamos ali no banheiro que eu te mostro umas.”

"Hei! Eu estou aqui ainda, okay?!" Davi exclamou, querendo se esconder embaixo do balcão.

"Está mesmo. Quem sabe essa conversa não te anime a acolher o Sansão na tua toca?" Marília sugeriu. "Ele deve estar com saudades de calor humano."

"Minha toca?" Davi demorou um momento para entender.

“Ai, Davi, tu sabe... Teu fiofó.” Tati explicou, paciente. “Mas não dê ouvidos a esses pervertidos. Eu sou sádica e até gosto da ideia do Guilherme sofrendo um pouquinho, ele merece depois de ter te feito chorar.”

“Pare de me lembrar que eu chorei por causa dele!” Davi sussurrou contrafeito e encabulado.

“O Guilherme tem de te fazer chorar por outros motivos agora.” Marília sugeriu maliciosa. Não deixava escapar uma. Leonardo gargalhava quando Guilherme se aproximou novamente, entregando mais um chopp de Eisenbahn para Marília, que o agradeceu erguendo o copo num brinde mudo.

"Qual o motivo da graça?" Guilherme perguntou, apoiando-se ao balcão e erguendo a mão para tocar o piercing que Davi havia colocado na orelha, num carinho sutil.

"Os sofrimentos do jovem Sansão." Marília explicou, e Leo se debruçou sobre o balcão, acabando-se de rir. Estava meio alegrinho já pela bebida.

Guilherme entendeu rapidinho do que eles estavam falando, Marília já vinha lhe enchendo a paciência com a história de ainda não ter desfrutado dos 'prazeres de um corpinho intocado’, como ela mesma dizia.

"Sério, eu acho que estou me apaixonando aqui." Leonardo admitiu à loira ao se recuperar. "Por que eu não te conheci antes?" Perguntou para Marília, que deu de ombros, jogando os cabelos para trás.

"Tu teve sorte até o dia de hoje." Guilherme apontou, e a loira soltou uma risada forçada.

"Engraçadinho. Pois fique sabendo, Leonardo, que eu acho que iremos nos divertir bastante juntos daqui pra frente." Piscou para ele.

"Esses dois estão me deixando preocupados. Mais um pouco e estarão acasalando em cima da mesa." Davi falou para o Guilherme, antes de capturar mais uma batata e levá-la à boca.

"Acho que invejo essa rapidez."

"Gui!" Davi repreendeu, ficando chateado. Sentia-se constrangido por estar demorando tanto para vencer seus receios, mas ele era desse jeito, oras. Fez um bico enquanto cutucava umas batatas com o palitinho, mas se arrepiou quando Guilherme se debruçou sobre o balcão, segurando-lhe o pescoço para sussurrar contra sua orelha.

"Não faz essa cara, estou apenas brincando."

"Toda a brincadeira tem um fundo de verdade." Resmungou, ainda emburrado.

"Quer que eu negue que estou louco pra transar contigo?" Dessa vez o arrepio foi ainda mais poderoso, junto com uma fisgada nas entranhas. Os pelinhos de sua nuca continuaram arrepiados, e as bochechas pinicavam.

Não soube o que responder àquilo, e Guilherme teve de se afastar de novo para preparar mais um chopp. Tati se abanava depois de toda cena, ficara quietinha para não interromper nada.

“Ai Davi, eu juro que entendo teu lado e te apoio, mas se fosse eu no teu lugar...” Puxou o ar, com uma expressão sofrida.

“Ah sim, porque eu não existo. Dá pra não babar em outro cara, na minha frente?” Bruno perguntou, puxando o banco da garota para mais perto, para abraçá-la pela cintura.

“Foi apenas uma sugestão hipotética.” Tati se defendeu, ainda se abanando, e piscou para o Davi.

“Vocês não cansam de viver de briguinhas e implicâncias?” Davi perguntou abismado, dando mais um gole em sua caipirinha.

“É o que deixa uma relação mais picante.” Tati disse divertida. “Apesar de às vezes eu ficar mesmo furiosa...”

“Mesmo quando eu não tenho culpa alguma.” Bruno fez questão de lembrar. Mesmo sendo o mais velho ali, com 25 anos, não era o dos mais maduros, mas combinava perfeitamente com a Tatiana.

"Então, só para lembrar que espero detalhes depois hein? Se rolar o tal pedido..." Marília chamou atenção para si.

“Eu também, e prioridade, eu sou a melhor amiga.” Tati lembrou, mas Marília ergueu as sobrancelhas.

“Pois fique sabendo que eu sou a pessoa responsável por os dois estarem juntos.” Empinou o nariz.

“Se é por isso, eu que convenci o Davi a ir na casa da Luciana naquela noite, logo eu também faço parte disso.” Opinou. Antes que as duas começassem uma discussão, Davi interpelou.

“Eu conto pras duas ao mesmo tempo! Pronto! Todos os detalhes que quiserem!” Acalmou os ânimos, apesar de saber que se arrependeria amargamente disso mais tarde.

"Já eu dispenso todo e qualquer detalhe." Leonardo contrariou, solene, arrancando risadas dos outros dois.

“Eu ‘tô boiando completamente nessa história, mas também dispenso de saber os detalhes.” Bruno falou concordando, e ele e Leonardo trocaram um olhar de assentimento.

"Mas agora quero um nome pro meu instrumento." Leo lembrou.

"Da Vinci?" Marília sugeriu, em dúvida.

"Clichê, mas eu faço arte e poesia com ele, realmente."

“Ai Leonardo...” Tatiana soltou com um ar de que achara aquele comentário lamentável e desnecessário.

“Eu vou ao banheiro.” Bruno não queria ouvir sobre as ‘façanhas’ do nomeado Da Vinci.

"Mas sabe, eu prefiro que faça música com ele." Marília objetou maliciosa, referindo-se aos sons que eram gerados durante o ato sexual. Davi se afastou dos dois, sentando-se mais próximo da Tati, e resolveu beber mais da sua caipirinha. Aqueles dois eram um poço de malícia juntos, ficar perto deles era um atentado contra o que restava de sua inocência.

"Apenas se comam de uma vez." Falou alto para eles, entregando a caipirinha à Tati para ela provar.

"Digo o mesmo pra ti e o Gui!" Marília retrucou, sorrindo torto quando Davi lhe mostrou a língua.

XxxX

A noite estava agradável, e um poste de luz piscava próximo da entrada do bar. Algumas pessoas saíam da boate em frente, atravessando a rua. Apesar do horário mais avançado, a Lima e Silva ainda tinha seu movimento. Leonardo bebera demais e estava quase caindo, já sem noção dos limites entre seu pé e o chão.

“Leo, vai se dependurar em outro.” Davi reclamou, tentando tirar os braços do garoto de cima de seus ombros. Ou Leo era pesado, ou Davi era fraco. Davi preferia fingir que a segunda opção não era a mais provável.

“Sério, eu não acredito. Jurava que teria uma noite proveitosa hoje, e é assim que ele acaba. Da Vinci jamais pintará algum quadro erótico nesse estado.” Marília lamentou torcendo os lábios, seus braços magros cruzados abaixo do decote singelo enquanto balançava a cabeça em contrariedade.

“Cadê o Gui que não vem?” Davi perguntou. Tati e Bruno haviam ido embora mais cedo, pois Bruno tinha de trabalhar pela manhã, e Tati dormiria na casa dele. Gui havia dito que só iria terminar algumas coisas e já sairia.

“Deve estar vindo.” Marília deu de ombros e tirou um batom da bolsa, passando sobre os lábios.

“Pra que passar batom se está indo para casa?” Davi perguntou sem entender, e segurou os antebraços do Leonardo, que praticamente se debruçava por completo em suas costas.

“E existe hora pra ficar bonita? No mais, acho que vou passar na casa de um amigo. Estou carente hoje.” Lamentou, ainda dando uma olhada de esguelha para o Leonardo, e voltando a soltar um suspiro insatisfeito.

“Você está sempre carente.” Davi apontou com um sorriso sabido.

“Sexo ao menos uma vez por semana é saudável, obrigada.” Avisou-lhe, e seus olhos brilharam afiados. Davi, a contragosto, entendeu o recado, mas fingiu que não. Marília deu-lhe as costas para ligar para o tal amigo.

Davi precisou dar um pulinho e acomodar melhor o Leonardo em suas costas. Isso despertou o moreno, e ele apertou os braços ao redor de seus ombros, estreitando-o contra ele com um resmungo manhoso de bêbado.

“Acho que tu encolheu.” Leonardo murmurou movendo o rosto, e seu nariz roçou no pescoço do menor, que sentiu uma cócega chata. “Teu perfume é bom, parece uma flor.”

“Não encolhi! E é um perfume que o Guilherme me deu de presente... Bom né? Mas não é de flor...” Perguntou abrindo um sorriso divertido e revirando os olhos. “Se ‘tá acordado, e ainda tem capacidade pra sentir cheiros, podia sair de cima de mim.”

“Não!” Leo reclamou e abraçou-se mais ao garoto. “Aqui ‘tá bom.”

“Leo... O Gui não vai gostar disso.”

“O Guilherme que se dane. Tu era só meu até ele aparecer de intrometido.” Falou resmungando e lhe fez algumas cócegas, limitadas pela posição em que estavam. Davi riu e tentou se afastar e, ao dar um passo para o lado, viu que o Guilherme os olhava da entrada do barzinho.

Nada contente. Novamente.

Davi remexeu a língua, sentindo o metal do piercing, e cutucou o Leonardo, que soltou um “Que foi?” sonolento. Quase dormira de novo, tal era seu estado alcoólico. Guilherme avançou até os dois e praticamente arrancou o Leonardo de cima do mais novo. Tu era só meu até ele aparecer de intrometido? Era só o que faltava.

Leo tropeçou para o lado.

“Hã!? Hã?! Já é de manhã?! Onde...?!” Leonardo olhou para os lados e se situou. “Ah... Puta que pariu, eu acho que eu vou...”

“Leo!” Davi correu e segurou o amigo quando ele se curvou. Leonardo acabou vomitando na calçada. Não era exatamente fraco, mas sempre que passava do ponto, acabava vomitando. Marília soltou um gritinho de nojo.

“E eu cheguei a pensar em beijar essa boca!” Fez uma careta, e o Leonardo, ainda curvado, ergueu um dedo na direção dela.

“Só para constar, essa boca beija muito bem quando não está vomitando.” Explanou, enquanto Davi tirava seus cabelos do rosto e tentava erguê-lo.

“Leo, tu ‘tá bem? Consegue caminhar? Vai vomitar de novo? O mundo ‘tá girando muito?” Perguntou cheio de preocupação, quase tropeçando junto com o amigo, quando Leonardo tentou se endireitar e caminhar. Por pouco não caíram em cima do vômito.

“Deixe ele com a Marília, eles estavam se dando bem até agora pouco.” Guilherme decidiu e, pegando Leonardo facilmente pela camisa, praticamente jogou-o em cima da loira, que gritou como se o Leonardo fosse um naco de bosta de vaca atirado em sua direção. Leonardo se agarrou à loira para não cair. “Nós estamos indo.”

“Gui! Eles precisam de carona!” Davi o lembrou. Guilherme parecia estar esquecendo-se desse detalhe.

“Isso mesmo! Ai, quer saber, me larga em casa, perdi o clima. Meu amigo não está em casa mesmo.” Marília suspirou, deixando Leonardo abraçar-se à sua cintura, com o rosto estrategicamente afundado em seus seios.

Guilherme expirou pesadamente e apenas seguiu para o carro. Aquele Leonardo era um abusado, agarrando o Davi daquela forma bem na sua cara. Mas, claro, se falasse qualquer coisa, seria atacado novamente com aquela história de ‘apenas amigos, etc’. Ficaria de olho naquele garoto.

Davi ainda foi checar se estava tudo bem com o Leonardo, ajudando a loira a levá-lo até o carro estacionado na garagem não muito longe dali.

Guilherme dirigiu em silêncio durante todo o percurso, e mesmo quando ele e Davi chegaram à sua casa, continuou caladão. Davi esperou pelo resto da noite para que o Guilherme falasse o que ‘ele tinha para pedir’, mas o mais velho não tocou mais no assunto. Acabou indo dormir frustrado, ainda mais por ter recebido um beijo de boa-noite tão seco do mais velho.

XxxX

Foi inesperado para o Davi quando seus pais o chamaram para conversar e começaram a cercá-lo com perguntas comprometedoras. Naquele momento soube que os pais já desconfiavam de seu relacionamento com o Guilherme, e resolveu admitir tudo. Filho único, sempre fora filhinho de papai, mimado pelos pais, e costumava nunca guardar segredo deles. Foi seu primeiro segredo, e sua primeira decepção.

A mãe chorou, o pai ficou tenso, sem conseguir falar nada. Depois falou que não esperava aquilo de seu único filho, e o mandou para seu quarto. Davi não teve opção que não subir, com lágrimas nos olhos. Seu único consolo eram seus amigos e ligou para eles, primeiro para Tati, depois para o Leo. Ajudou, mas mesmo assim sentia-se rejeitado.

E os dois seguintes foram piorando. Os pais começaram a tentar proibi-lo de ver o Guilherme, a mãe parecia não saber como agir, e o pai simplesmente o ignorava, como um pária. Sentia-se tão sufocado ali, tão rejeitado e errado. Aproveitou que já tinha dezoito anos, arrumou as malas e saiu de casa. A primeira pessoa que pensou foi no Leonardo. Ele morava sozinho e sabia que não lhe rejeitaria abrigo.

Tati morava com os pais. Já o Guilherme... Estavam há muito pouco tempo juntos para ter a coragem e o descaramento de pedir para morar com ele. Então bateu na porta do amigo, que atendeu apenas de bermuda, pés descalços e uma escova de dentes na boca. Os cabelos eram uma bagunça completa.

"Davi?" Ele perguntou com a boca cheia de espuma, engrolada. "O que 'tá fazendo aqui?" O olhar do Leonardo se desviou para as malas do menor.

"Preciso de abrigo. Meus pais praticamente me expulsavam de casa todos os dias pela maneira que me tratavam..." Murmurou, abaixando a cabeça. "Desculpe por não ligar antes."

Leo arregalou os olhos e foi pegar uma das malas pesadas do Davi.

"Não, não esquenta, entra aí. Vamos conversar sobre isso." Afirmou dando espaço para o pequeno, que entrou rapidamente e parou na sala, sem saber onde iria dormir.

"Desculpa aparecer sem avisar, Leo." Davi mordeu o lábio. "Mas eu realmente não sabia para onde ir, e foi impulsivo, só queria sair de casa."

Leo já estava por dentro da situação do amigo em casa, então apenas suspirou e pediu a ele que o seguisse. Levou-o até seu quarto, afinal, aquele apartamento tinha apenas um; porém grande o suficiente para colocar um colchão no chão.

"Eu não tenho colchão extra. Posso comprar um. Eu durmo na cama de casal, se eu fosse suicida diria para dormirmos juntos."

"Eu posso dormir no sofá." Davi alegou, não querendo incomodar o outro. Tinha suas economias no banco; como sempre fora pão duro, apesar de rico, colocava quase tudo na conta que tinha na poupança. Tinha uns vinte mil acumulados, e pretendia arranjar algum emprego temporário.

"Bem, tu que sabe." Leonardo deu de ombros, ainda escovando os dentes. Largou a mochila do amigo no chão, e foi no banheiro limpar a boca. Voltou pouco depois. "Mas tuas roupas podem ir no meu armário, vou liberar um lado pra ti."

"Certo. Obrigado." Davi largou a outra mala e a mochila.

"Não precisa ficar agradecendo, tampinha. Amigos são pra essas coisas." Leonardo garantiu. O chamava de tampinha, porém também não era o mais alto dos garotos, com seus 1,77m.

"Eu sei, mas mesmo assim. Não quero ser um estorvo. Estou nervoso com isso, nunca fiquei longe de casa por mais que uma noite." Sentou-se na cama de casal, abaixando o rosto. Começou a chorar antes que conseguisse se segurar. A rejeição doía, e ter de sair de casa por não aguentá-la doía ainda mais. "Meu pai sequer pareceu se importar..."

"Davi..." Leo sentou-se ao lado do amigo e passou um braço por seus ombros. "Não fica assim. Eu imagino que deva ser muito difícil, mas quem está perdendo são eles. Tu é um guri show de bola. E literalmente ainda, pois joga um bolão."

Davi riu em meio ao choro, a risada saindo meio estrangulada.

"Jogo mesmo, né?" Perguntou. "Até seria bom jogar para limpar a mente."

"E por que não? Vamos." Levantou-se indicando com a cabeça para que o pequeno o seguisse. Pegou uma bola de futebol jogada a um canto do quarto.

"Quê? Agora?" Davi perguntou aturdido, mas se levantou.

"Não, só estou pegando a bola para levá-la pra passear, sabe como é, ela fica reclamando de ficar só em casa." Revirou os olhos e sorriu divertido. Davi roubou-lhe a bola junto com um empurrão.

Pouco depois, desciam a rua até a praça próxima, e começavam a jogar um contra o outro no campinho que havia ali. Leo continuava de bermuda e descalço, mas nem parecia se importar. Mesmo com todos os dribles que levou do outro, sendo humilhado.

"O que posso dizer? Sou um músico, um artista. Não me dou bem esses jogos brutos." Leonardo explicou, dando de ombros fingindo que futebol era algo que não merecia louvor.

"Frutinha." Davi sorriu de lado, implicando, e chutando a bola para ele. Ambos riram da ironia daquilo. Leonardo voltou a dominar a bola e se empertigou.

"Te mostrar quem é frutinha, sua bichinha exibida." Voltou a avançar, e a brincadeira durou horas, até Leonardo se render, exausto, e Davi cair sentado ao seu lado, também mal conseguindo respirar.

Mais tarde, Davi ligou para a Tati e a menina foi visitá-lo na casa do Leo; chegou chorando pelo amigo, mas depois se acalmou ao ver que ele estava bem, apesar de tudo. Passaram a noite vendo filme e comendo brigadeiro de panela.

XxxX

“Não vai comer nada?” Guilherme perguntou ao ver o mais novo ignorar por completo o que havia preparado para o jantar. Davi olhava TV um tanto apático, abraçando uma almofada. Vilão tivera o descaramento de subir no sofá e agora dormia ao lado do garoto.

“Não... O Leo pediu comida antes de eu vir pra cá, acabei comendo com ele.” Respondeu distraidamente, e o maxilar do mais velho travou com aquilo. Há semanas Davi estava distante e, quando falava, parecia só falar do Leonardo.

“Ok.” Respondeu mesmo assim e sentou-se também no sofá. Havia um Vilão entre ele e o Davi, mas descansou o braço sobre o encosto do sofá, e seus dedos roçaram nos fios, agora, escurecidos do mais novo. Davi vivia mudando o visual. “E como foi o teu dia?” Tentou puxar assunto, já que o pequeno não parecia disposto a isto. Haviam passado a semana inteira sem se ver, e Davi não demonstrava nenhuma saudades quando aparecia.

“Normal. Terça eu e o Leo fomos ao estúdio da Natália, ele ‘tava pensando em colocar um piercing, mas desistiu. Eu quase cogitei fazer uma tatuagem. Na quarta tive aquela prova que comentei, acho que fui bem, o Leo teve uma também, no fim saímos pra comemorar, eu, ele e a Tati, mas o carro pifou e aí acabamos na casa dela mesmo. Na quinta nós fomos jogar futebol, uma pena que tu não pôde ir, o pessoal da veterinária joga bem até, acho que podíamos marcar um jogo Engenharia contra Veterinária. E aí na sexta encontramos um gatinho atropelado na rua, foi triste, levamos ele pra dentro, cuidamos dele, mas ele faleceu, o Leo ficou arrasado. O gatinho era pretinho, bem pequeno e magro, estava com as pernas quebradas...” Apoiou o queixo na almofada, com uma expressão triste enquanto seus olhos continuavam pregados no filme velho que passava na televisão.

A única coisa que o Guilherme ouvira daquele monólogo todo foi: Leonardo, Leonardo, Leonardo. Era assim em todos os assuntos dos últimos tempos, e simplesmente não aguentava mais. Se o Davi falasse mais uma vez esse nome, não sabia mais o que faria e, como seu humor para conversar voou para o espaço e não deu mais indícios de retornar, Guilherme se levantou, pegou o mais novo no colo, e o levou para o quarto. Davi ficou completamente atarantado, afinal, o mais velho sequer comentara uma palavra sobre tudo que havia dito. Recém falara da morte de um gato, e ele pensava em dar uns pegas?!

“Gui, o que tu ‘tá fazendo?” Perguntou contrariado, mas um suspiro lhe escapou quando foi colocado na cama e imediatamente beijado.

Mas havia algo de agressivo naquele beijo...

Como sempre acontecia, seu corpo se eriçou e correspondeu, porém algo lhe cutucava a mente, impedindo-o de aproveitar melhor o momento. Mas quanto mais se retraía, mas o Guilherme parecia atacar, exigir. Puxou suas roupas, o despiu de uma maneira bruta. A barba rala roçou em sua pele, arranhando seu peito e pescoço. Tentou dizer para ele ir com mais calma, mas foi beijado de novo, mal conseguindo retribuir. Sentiu uma pressão forte em sua cintura, a mão do maior segurando-o de um modo doloroso, e percebeu que não estava no clima para aquilo. Não estava no clima para algo doce, o que dirá algo mais bruto, que já o estava machucando!

Sentiu-se mal com aquilo, imaginou coisas que não deveria.

Davi parou o Guilherme quando ele tentou acariciar-lhe entre os glúteos. Guilherme se afastou irritado ao ser novamente repelido pelo garoto. Estava enlouquecendo com isso, haviam entrado no terceiro mês juntos, e nada de sexo. O que isso queria dizer? Davi não sentia vontade? Não confiava? Preferia o Leonardo? Maldito Leonardo.

Não disse nada, apenas foi para a cozinha em busca de algo para tomar. Havia outras coisas em sua mente. Não gostara de saber que o Davi fora morar com o Leonardo, e não buscara por sua ajuda. Morava sozinho, poderia ter dado abrigo a ele. Por que sequer lhe contar primeiro? Por que correr direto pro Leonardo? E ainda havia o encontrado um dia passeando no shopping com o outro, ambos rindo e parecendo se divertir demais, para seu gosto. Leonardo inclusive fazia cosquinhas no Davi, e chegara a abraçá-lo por trás, antes que se aproximasse, nada contente. Agora ouvia que eles haviam tido uma ótima semana grudados um no outro, comemorando juntos, e salvando gatos.

Ciúmes o consumia, como um ácido estragando metal.

"Gui..." Davi apareceu na cozinha, e a cena dele com uma camiseta sua lembrou-lhe do primeiro dia em que ele havia dormido em sua casa. "Eu..." Davi conseguia sentir a irritação do outro, latejando em todo o porte musculoso do namorado. "Desculpa, eu só não 'tô preparado pra-"

"Pra sexo? Porra, Davi, estamos há tampo suficiente juntos, do que tu sente tanto medo?" Perguntou irritado com aquilo tudo.

"E-Eu não sei." Murmurou, se encolhendo contra a batente da porta, envergonhado. Já haviam feito toda a sorte de preliminares, mas na hora H, travava, ficava tenso, e a história com os pais apenas lhe deixava com menos vontade, enchendo a mente até mesmo em momentos assim. Acabava imaginando seus pais ali, o olhando, o julgando, cochichando o quanto aquilo era nojento e como o ‘haviam criado errado, com liberdades demais’, como escutara de uma conversa entre os dois, antes de se mudar.

Guilherme suspirou e bebeu água. Precisava se acalmar, mas nem a água lhe desceu bem. Largou o copo na pia quase o quebrando, e apoiou as mãos no balcão.

"Tu deveria ir embora, lá pro Leonardo." Disse deixando escapar.

Davi arregalou os olhos.

"Como assim, pro Leonardo? E vai me mandar embora à uma da manhã?" Sentiu-se magoado com aquela atitude, aquele tom. Por que ele não conseguia compreender? Só precisava de um tempo!

"Não está morando com ele? Quem sabe o que vocês fazem, pra tu chegar aqui tão sem vontade que eu te toque. Desde que chegou, mesmo nos beijos, parecia não querer." Virou-se para o pequeno. Sua expressão era dura, e Davi se afastou um passo.

"E tu acha que isso tem algo a ver com o Leonardo? Olha a maneira como tu começou a me agarrar hoje! Parecia querer me estuprar, em vez de me dar prazer!"

"Por que te toco com desejo? Ah, desculpe se tu não sente o mesmo. Não sei o que estamos fazendo aqui se é pro Leonardo que tu corre sempre que precisa de ajuda, se é com ele que tu te diverte. Está apaixonado por ele, é isso?"

Davi sentiu a cabeça girar. Guilherme havia enlouquecido? Tudo bem que vinha falando um tantinho demais sobre o Leonardo, mas estava morando com ele, e se divertindo sim, era divertido viver com o Leo, era um bom amigo, sempre tentava animá-lo quando estava triste, e estava triste quase constantemente nos últimos dias. Também estava descobrindo coisas sobre o amigo que não se descobre caso não se more junto, e acabava comentando.

"Pare de falar assim!"

"Então não vai negar?" Guilherme se irritou ainda mais. Estava jogando verde — ou talvez não tanto — e colhendo maduro. Quis ir até a casa do Leonardo e espancá-lo.

"Claro que vou! Mas que droga, Guilherme. Não aguento mais esse teu ciúmes! Já disse mil vezes que o Leonardo é hétero e-!"

"Ah, e se não fosse hétero, tu iria querer? Aí poderia rolar? Ou tu anda tentando seduzi-lo agora que estão morando juntos? Já conseguiu comigo, quer converter mais um? É alguma espécie de jogo pra ti? Ficar me enrolando deve ser um também, se fazendo de virgem inocente, mas pra chupar meu pau-"

"CALA A BOCA!" Davi ficou realmente chocado, nem reconhecia o mais velho. Ele era debochado, malicioso, mas sempre fora carinhoso e atencioso, sempre o tratara como se fosse especial. Lágrimas brotaram de seus olhos, era apaixonado por aquele idiota, e ouvir tais coisas, ouvi-lo duvidando de si daquela maneira doía tanto. Menosprezando-o. Já não bastava seus pais? Quem seria o próximo? "Eu vou embora." Virou-se para ir atrás das roupas, praticamente correu para o quarto.

Guilherme socou a parede, conseguindo apenas esmagar a pele contra os ossos. Foi para a sala quando Davi já estava dirigindo-se nervosamente para a porta. Segurou-o pelo braço antes que ele alcançasse a saída e, devido à diferença de altura, Davi acabou na ponta dos pés, olhando-o de lado, olhos chorosos.

"Não acredito que vai ir lá mesmo. Eu não admito que tu continue morando com aquele guri." Determinou autoritário, não aguentando a ideia de que o pequeno chegaria na casa do outro chorando, e seria o Leonardo quem o consolaria.

"Não me importo com o que tu admite ou não!" Davi exclamou, se debatendo, mas Guilherme aumentou o aperto em seu braço.

"Se eu estivesse morando com uma guria, tu iria gostar? Se me visse tão próximo dela, se visse nós dois nos abraçando, se ela me tratasse como o Leonardo te trata, tu iria adorar a ideia, imagino." Falou, numa ironia irritada.

"Eu iria confiar em ti!"

"O caralho que iria! Por que não veio aqui para minha casa? Eu também moro sozinho!" Guilherme expôs sua dúvida.

"Porque eu não quis!" Davi gritou. Quando ficava nervoso, não conseguia argumentar adequadamente, seu coração estava pulando, estava magoado, frágil, e só queria sair dali. Não era nenhuma mentira, não quisera pois achava que não daria certo, iria deteriorar a relação ainda nascente dos dois. Só não percebia que ir morar com o Leonardo dera na mesma, ou ainda pior. "Não queria morar contigo!"

Guilherme arregalou os olhos. Não esperava algo tão cortante, mas machucou, seus dentes trincaram e se sentiu um idiota. Por que estava mantendo aquela relação, afinal? Era uma relação complicada simplesmente por ser com outro garoto. Poderia ter qualquer garota, qualquer uma, e seria muito mais fácil, em todos os sentidos — socialmente, fisicamente, sexo viria fácil. E agora tinha de ouvir isso. Largou o braço do menor.

"Se tu for voltar pra ele, nem volta pra cá. Não vou tolerar chifres." Disse. Talvez fosse por ter sido chifrado no passado, por aquela vadia maldita que o enganara. Não admitiria isso, nunca mais. Era contra relacionamentos desde então, decidira se arriscar por alguma razão obscura, e era isso que recebia em troca. Novos chifres.

"Seu idiota egoísta e burro." Davi o xingou chorando, e se virou para sair dali. Guilherme estava só pensando nele mesmo, não conseguia ver seu lado? Sentia-se pressionado e a vontade de chorar aumentava.

Assim que colocou a mão na maçaneta, foi novamente impedido. Foi virado contra a porta, e Guilherme o pressionou contra ela, forçando-lhe um beijo após chamar-lhe o nome com certo arrependimento. Foi um beijo rude, forte, com gosto salgado, que parecia querer prendê-lo àquela casa.

Possessivo.

"Me larga!" Davi conseguiu se afastar e um tapa estalou no rosto do maior. Se virou e saiu pela porta sem sequer ter coragem para olhar para o outro após o tapa. Apenas correu para o táxi que felizmente já esperava em frente à casa.

Guilherme rugiu furioso assim que a porta bateu. Socou novamente a porta, com a mesma mão, e dessa vez arrancou sangue dos metacarpos. Xingou o Davi, o Leonardo, xingou a si mesmo, sabendo que agira de maneira irracional. Sentou-se no sofá e, apoiando os cotovelos na coxa, tapou o rosto nas mãos, sentindo a cabeça explodir.

Notas finais
*No Mulligan eles não servem caipirinha, mas nem tô, o Gui fez especial pro Davi KKK! Ah, esses dois últimos extras acabaram saindo em terceira pessoa. Eu comecei a escrever, e escrevi metade desse cap., e só então me toquei que estava em terceira pessoa, sendo que os outros extras eram em primeira. Aí fiquei com preguiça de mudar, e foi assim mesmo. Peço desculpas. IOJHAOIAJAOIA Tentarei postar a continuação desse extra na sexta! Beijos!