Good Riddance

16 Mas...! Eu não sei fazer isso! Extra Davi Parte I


Notas iniciais
Olá! Poisé, um extra narrado em primeira pessoa pelo Davi! Haverá mais, porém irei postando meio alternado com a história, e acho que serão uns três, se vocês gostarem, faço mais ao final, quem sabe! ;D Fiquem atentos porque ele se passa nove meses ANTES do início da história.

“Sua putinha sem coração, desde quando sai pra noite sem chamar os amigos?” Leonardo falou ao celular, bastante amável. Leonardo é sempre um desbocado que adora xingar os amigos de todas os nomes mais bonitos.

Eu sorri para aquilo e brinquei com o piercing de língua que eu havia colocado há um pouco mais de uma semana. Não devia fazer isso, pois retardava na cicatrização, mas era inconsciente mexer no piercing.

“Não estou exatamente saindo para noite, otário. É um encontro da turma na casa de uma colega, e tu não foi convidado.” Alfinetei, rindo ao escutá-lo soltar uma expressão de dor. Quase pude imaginá-lo apertando o punho contra o peito, fingindo ser atingido no coração.

“Teu marido vai ficar com ciúmes.” Leo debochou com um ar sacana.

Ele tinha a mania chata de falar que eu e o André éramos casados, já que fazíamos quase tudo juntos. Melhores amigos e essas coisas. André odiava a brincadeira, e eu apenas revirava os olhos. Agora ele está viajando, já há alguns meses, e só volta Deus sabe quando. Por causa disso, eu e o Leo acabamos nos tornando mais próximos do que antes.

Sempre havíamos sido amigos, mas agora éramos mais, por assim dizer.

“O único ciumento aqui é tu, queridinho.” Falei num tom meio drag queen que arrancou uma risada de nós dois.

“É justo. Se divirta então, que eu vou arranjar alguém pra cair na noite comigo.”

“Só não engravide ninguém, por favor.” Pedi nem tão na brincadeira assim. Leonardo era um total galinha e, de alguma forma, mesmo não sendo desses caras altos e musculosos que fazem as garotas suspirarem, ele conseguia, com todo seu carisma e sorrisos inerentes, ficar com praticamente qualquer guria que ele quisesse. Tinha o dom pra galinhagem, mas era trouxa o suficiente para já ter transado algumas vezes sem camisinha.

“Mas eu ‘tava justamente pensando em fazer um!” Ele exclamou decepcionado. “Tu não disse que queria um filho?”

“Não agora. E muito menos um filho teu. Vê se te protege, babaca.” Me deixava muito irritado a falta de cuidado dele com isso. Depois seria eu que teria de emprestar o ombro pra ele chorar quando alguma garota aparecesse embuchada, ou ele viesse dizer que ‘tava com HIV. “A gente se fala.”

“Falou.” Ele se despediu e desligou com uma risadinha. Balancei a cabeça e olhei rapidamente para a rua. Estava perto de chegar. Ao menos a guria que cedera a casa iria bancar as bebidas também. Ela parecia morar no fim do mundo, e o táxi estava saindo filhadaputamente caro.

“Vocês dois ainda vão acabar casados.” Tatiane falou, divertida. Olhei para ela, vendo que havia acordado. Tatiane era uma pessoa estranha. Ok, chamá-la de estranha é uma ofensa a todas as pessoas estranhas do mundo. Pra começar que ela dorme de cinco em cinco segundos, é só deixá-la quieta, se não tiver muito barulho então, ela pode entrar em coma profundo. Mas quando acorda, parece uma máquina estivadora ligada no turbo, destruindo tudo que vê pela frente. “Antes eu achava que era tu e o André. Mas agora...”

“Sério, tu tem que parar de empurrar teus sonhos fujoushis pra cima dos amigos.” Ergui as sobrancelhas. Eu tenho de ser sincero com vocês: eu vinha nos últimos tempos duvidando da minha heterossexualidade, e a Tati vem me ajudando com isso, mas às vezes ela exagera na dose. Para ela, se toda a população masculina fosse gay, seria o paraíso da Terra. Engraçado que eu só fui descobrir isso recentemente, até um tempo atrás eu era um tipinho homofóbico que falava mal dos gays e, ironia da vida, talvez eu fosse um.

Eu quis desabafar com alguém e tive de desabafar com a Tati. Tinha vergonha de contar para os amigos homens, e para Natália não tinha como, ela era muito próxima do André e acabaria contando para ele. E ele, como eu, não era lá muito fã de homossexuais. Aliás, me lembrava de um episódio horrível com o pai dele, que se resume basicamente em o Sr. Heitor destruindo verbalmente o André quando ele tinha apenas uns onze anos.

Eu estava na casa dele, e o André contou ao pai sobre um colega gay que entrara na escola aquele ano; nós comentamos que o garoto estava tendo dificuldade para encontrar amigos e que vínhamos convidando-o a andar com a gente. Heitor ficou tão brabo que nos deu um sermão que pareceu durar horas. O cara é meio desequilibrado, controlador, autoritário, conservador; eu sempre senti pena do André por ter um pai como ele.

Ainda tenho arrepios quando me lembro disso. Quando voltei pra casa naquele dia, eu chorei. Nem sabia dizer por que, mas chorei. Agora me pergunto se não foi porque me senti pessoalmente ofendido com as coisas que ele dissera, as quais agora nem lembro direito. No fundo talvez eu já soubesse, desde cedo. Engraçado como me enganei por tanto tempo e só agora, com dezoito anos, começava a abrir os olhos. Mas era difícil. Meus pais também não eram exatamente defensores dos direitos homossexuais, adoravam alfinetar e falar mal dos ‘viados’.

“Já sei. Tu ‘tá de olho no Guilherme!” Ela exclamou e piscou demoniacamente os olhos, tirando-me de meus pensamentos e conseguindo me deixar corado. Eu nunca havia sentido tesão por meus amigos, só de pensar nisso me sentia meio... Blargh, sabem? Seria como beijar alguém da família, sei lá.

Já o Guilherme... Ele é um veterano da Engenharia Civil.

Eu e a Tatiana passamos em Engenharia Civil na UFRGS esse ano. Era ótimo ser colega dela, pois sou um pouco tímido para novas amizades e ter um amigo junto sempre facilita no processo de fazer novas, até porque a Tati é mega extrovertida. Até demais, do tipo que assusta as pessoas no início. Mas depois que se acostumam, não tem como não gostar, ela é uma negra de um sorriso lindo branquíssimo e tem tanto carisma quanto o Leonardo.

Eu me achava sortudo por ter amigos como eles.

“Ai. Corou, que graça.” Ela apertou minhas bochechas.

“Que que é, hein?” Tirei a mão dela e comecei a atacá-la com cócegas. Isso me rendeu um soco nas costelas bastante dolorido. Gurias que sabem socar deveriam ser proibidas de andar soltas por aí. Gemi de dor e voltei a me sentar comportado o banco.

“Tu pediu por isso.” Ela justificou nem um pouco arrependida. “E então, ele vai estar lá?” Tati ondulou as sobrancelhas, repleta de malícia.

“Não sei... Talvez.” Dei de ombros, como quem não quer nada.

Tati soltou um gritinho agudo de frustração.

“Nem vem com essa! Sei que vocês dois andam cheios de conversinhas pelo campus. E ao longo do semestre já jogaram futebol juntos, e foram nas festas...” Os olhos negros dela brilharam de uma forma pervertida que me assustou. “Aqueles homens suados e sem camisa no futebol, se esfregando...”

“Eu tenho medo de imaginar o que tu acha que acontece num jogo de futebol.” Falei e olhei pro taxista, que fingia que nada escutava, mas era óbvio que devia estar achando o papo bizarro. Pra começar que era meio desconfortável ficar falando que eu era a fim de outro cara na frente de um desconhecido.

“Vocês dois estão bem amiguinhos...” Ela sugeriu sorrindo de lado.

Isso eu não podia negar, mas não queria dizer nada. Faltava pouco pro semestre terminar, apenas mais uma semana, até por isso a guria havia sugerido uma festa pra comemorar. O mais certo seria pra depois das provas, mas aí ela já estaria viajando em julho. Eu já havia ido em festas com o Gui sim, porém sempre ia um monte de gente junto. E o futebol a mesma coisa, nunca estávamos apenas nós dois, a exceção de alguns raros momentos que não duravam muito.

Ele era um cara legal até. No início me deixava com um puta de um medo. Era daqueles caras altos e fortes, meu completo oposto, que tinha um baita jeito de bad boy. Acho que não tinha guria que não fosse louca pra dar pra ele. Ele é o Deus grego e loiro da Engenharia Civil. As engenharias não têm muitas garotas, mas ele chega a ser conhecido pelo Campus do Vale. Também, ele vivia indo em festa, era cheio de amigos, ia no futebol de vários cursos, conhecia muita gente mesmo. Em apenas um ano de curso se tornara aquele ‘cara público’ que é só dizer o nome e dizer ‘aquele loiro!’ e todo mundo já sabe quem é.

Que importava se eu me pegara admirando o corpo dele durante o futebol, quando ele tirava a camiseta, e chegava a perder uns gols por culpa disso? Eu não tinha a mínima chance, e na real nem sabia se queria ter. Ainda estou na fase da dúvida e tenho medo de acabar ficando com um guri, gostar e não conseguir voltar atrás. Eu nunca fiquei com muitas gurias, é verdade, mas não achava de todo ruim ficar com elas. Meu segredo é que sou um completo virgem, havia mentido pros meus amigos sobre isso, e me acho meio otário por isso, mas sinto vergonha. Tanto o André quanto o Leo já ficaram e transaram com várias garotas, e eu não queria me sentir pra trás.

Só a Tati sabe toda a verdade.

“É, mas tu ‘tá viajando. Ele é totalmente hétero.” Dei de ombros, desconsiderando o assunto.

Tati fez uma careta que estampava sua descrença.

“Eu não acho. Já vi ele te dando umas secadas demoradas quando tu ‘tá distraído, viu?” Ela avisou num tom de quem sabe mais, porém eu nem levei a sério. Devia ser coisa da mente fujoushi (coisa que ela me explicou o que era há um tempinho) dela. E de boa, ter um cara do tamanho do Guilherme me secando e querendo me agarrar chegava a me dar medo – mais do que quando eu recém o tinha conhecido e pensei que ele era do tipo marrento que adora uma briga. Ele é marrento, mas gente fina, não briga à toa. Mas voltando... Ele provavelmente me quebraria em dois caso me agarrasse! E, ok, eu ainda estava tendo dificuldades em me imaginar transando com outro cara, sentia uma vergonha esmagadora só de pensar, e vídeos pornôs gays me deixavam num estado lamentável de vermelhidão. Eu sou patético, guris não deveriam ficar assim!

“Não delira, mulher.” Rebati e, pouco depois, chegávamos à casa de nossa colega.

O táxi me doeu o bolso. Ok, eu sou rico e mão-de-vaca, meus amigos me odeiam por isso, mas é mais forte que eu.

XxxX

A casa da Luciana era muito legal. Digo, parecia daquelas casas antigas que teriam um armário para Nárnia, ou algo assim. No primeiro andar, havia uma sala espaçosa com lareira e uma cozinha com churrasqueira onde a galera preparava umas bebidas e uns guris faziam um churrasco básico com pão, salsichão, coração e pouca carne, apenas o suficiente pra encher um pouco o bucho. No segundo andar, havia um espaço descolado para sinuca que mais parecia uma área de bar – o teto triangular baixo, a janela larga, panorâmica e almofadada na borda onde um pessoal sentava pra beber e observar a sinuca.

Cumprimentamos os colegas, veteranos e outros perdidos e penetras quando chegamos. Eu fui para a cozinha e larguei as bebidas que havia trazido ali. A galera ficou contente, a vodka já estava acabando. Bando de gambás, fala sério! Era recém umas nove da noite. Como eu não queria ficar sóbrio em meio a uma cambada de bêbados, misturei vodka e energético num copo. Não vou com a cara de cerveja, apesar de beber na falta de outra coisa, mas eu acabo enjoado depois de bebê-la. Meus adoráveis amigos tiram com a minha cara por causa disso.

“O Gui já ‘tá aqui.” Tati cantarolou no meu ouvido, sobressaltando-me e quase me fazendo derrubar o copo. O tom de voz dela me lembrava a de um velho safado em posse de Viagra, o que me assustava um tantinho. Ok, um tantão.

“Eu sei. Já cumprimentei ele.” Revirei os olhos. Guilherme estava junto com outros rapazes cuidando da carne. Como eu entendia pouco de churrasco (apesar de já ter me virado algumas vezes quando ia com minha mãe pra casa dos meus avós e decidíamos fazer um), eu preferia não me meter no meio de quem era craque no assunto. Meu forte é comer, por mais magrelo que eu seja.

“Awn, Davi, que desânimo!” Tati reclamou.

“Tu quer o quê?! Que eu chegue e agarre o guri? Não surta, nem se tivesse só eu e ele nessa casa.” Sussurrei para ela e acabei olhando pro Guilherme. Ele estava com uma camiseta branca e calça jeans. A camiseta não era apertada, mas mesmo assim os músculos do braço ficavam comprimidos na manga. O delírio da mulherada. Já tinha umas três gurias ao redor dele, e ele obviamente estava com um sorriso largo no rosto. Sorriso de cafajeste.

“Uma garota pode sonhar.” Tati deu de ombros e olhou também pro loiro. Isso atraiu a atenção do Guilherme, e eu desviei o olhar rapidinho, não gostando do súbito calor que me atingiu. Era ridículo, eu já havia interagido com ele dezenas de vezes, e agora isso. Tudo culpa dos hormônios da Tatiana me influenciando.

“E aí, cara! Que bom que vieram! Qualé a boa da night?” Um dos meus colegas, Enzo, se aproximou já bêbado, erguendo a mão para um cumprimento que eu devolvi. Acabamos indo para a sala, onde havia música e um bando de gente ou empilhada nos sofás, ou dançando numa pista de dança improvisada.

Não fui dançar, é claro. Acabei conversando com mais colegas e depois subi pra jogar sinuca. Eu não sou lá essas coisas, mas dou pro gasto o suficiente pra não dar vexame.

“Tem dupla? A Aninha ‘tá querendo jogar também.” Carlos falou, indicando a namorada. Eu olhei pras meninas sentadas na borda da janela de vidro e chamei por uma delas, mas todas estavam mais a fim de bater papo e tirar foto do que jogar.

“Eu posso jogar.” Guilherme apareceu de repente das escadas. Olhei para ele, que pegava um dos tacos, e sorri fracamente quando se virou para onde eu estava. Guilherme tinha uns olhos naturalmente intimidadores que me davam arrepios, mas era só ele sorrir para que a sensação se dissipasse. Ou piorasse, como vinha acontecendo nos últimos tempos...

“Não espere muito de mim.” Fui logo avisando.

“Eu já te vi jogar. Não é tão mal assim. E o Carlos joga que nem mulher, então ‘tá fácil.” Disse despreocupado, debochando amigavelmente do amigo.

“Pode até ser. Mas a Aninha joga que nem homem.” Carlos rebateu, arrancando risadas de todos nós. Guilherme começou jogando e já na primeira tacada uma bola caiu. Ficamos com as altas. Ele tentou de novo, mas só deixou perto da caçapa.

“E o futebol, vai rolar amanhã?” Perguntei para ele, já que até ontem não era certo que houvesse uma disputa entre a minha turma e a dele.

“Bah, cara, ‘tá faltando um jogador pro meu time. Mas acho que sai, tenho quase certeza de que convenço o Bordin a jogar.”

“Como assim? O Bordin é o mais viciado!” Me surpreendi. Aquele ali estava em todos os jogos, e sempre combinando e pedindo por mais.

“Culpa de uma aposta idiota que ele fez. Se conseguisse pegar uma mina lá que ele ‘tava a fim, iria ficar um mês sem jogar futebol.” Guilherme revirou os olhos e observou a jogada da outra dupla. Aninha realmente jogava bem, deixara uma bolinha na boca da caçapa. “Tua vez.”

“Ele não vai aguentar um mês.” Comentei, bebendo um gole da minha bebida e indo fazer minha jogada. Consegui colocar na caçapa a bolinha que o Guilherme havia preparado antes.

“Vai nada. Amanhã vai ‘tá jogando de novo.” Guilherme riu e se aproximou um pouco, me deixando um pouco nervoso, o coração dando um salto súbito. “Tu colocou o tal piercing que queria colocar? Tua voz parece diferente.”

“Ah sim.” Ri e mostrei a língua pra ele.

Isso chamou atenção de uns colegas que meteram as caras na minha frente querendo ver. Vieram as clássicas perguntas de ‘se havia doído’, ‘se não tinha risco de infeccionar’, se isso, se aquilo. Respondi todas enquanto tentava uma nova jogada, que foi bem fracassada por sinal.

“Ainda ‘tô me acostumando, ‘tava inchado e dolorido até uns dois dias atrás. Na real eu não deveria estar bebendo ainda...”

“Então...” Guilherme falou e pegou minha bebida, virando-a num único gole.

“Hei!” Reclamei, mas era tarde. Olhei feio para ele, que apenas sorriu torto. “Tu vai me buscar uma bebida depois.”

“Primeiro vamos ganhar esse jogo.” Ele disse, arrogante.

“Esses dois estão muito nariz em pé hein, Carlos. Vamos mostrar quem é que domina na sinuca.” Ana falou, batendo nas costas do namorado e colocando pressão. Carlos foi tentar jogar e acertou a bolinha só de raspão.

“Ui, isso que é domínio.” Impliquei.

“Isso é só pra dar uma chance!” Carlos rebateu e falou pra Ana. “’Xá comigo, vai dar tudo certo, lindona.” Piscou pra namorada, que só fez rir da cara dele.

XxxX

“... Aí quando a gente ‘tava na quarta série, o pessoal da quinta era maluco, tipo, descerebrados mesmo. Teve esse cara que pegou o cabo de uma vassoura e correu em direção à parede, pra tentar quebrar, sei lá o que ele queria fazer, só que aí ela não quebrou e o cabo se afundou no tórax dele e perfurou o pulmão!” Eu falava tudo, gesticulando pros colegas que estavam por ali – Enzo, Giordano, Ana, Carlos, Carol e Lauro. Não estava mentindo, era uma história doida e sem noção mesmo, e olhe que meu colégio era o de mais alto nível de Porto Alegre, o Rosário.

“Caralho, que louco meu. E ele viveu?” Enzo perguntou, meio rindo, meio preocupado.

“Foi terrível! Ele caiu no chão e ficou lá, agoniando. As pessoas gritaram, chamaram a ambulância. Foi absurdo, mas ele viveu.” Tati complementou, num ar grave e exagerado. As pessoas ou riam incrédulas, ou olhavam com os olhos transformados em pires. “É real, gente. E tem também a história dos mendigos...”

“Bah, a história dos mendigos!” Eu comecei a rir em antecipação. Ia começar a contar, porém alguém me segurou o braço. Olhei pro lado e vi uma garota da turma do Guilherme, veterana, e se eu bem me lembrava seu nome era Marília. E se eu me lembrava ainda mais, ela e o Guilherme estavam aos beijos no andar de baixo até pouco tempo atrás.

Quando vi os dois juntos, me senti estranho e subi pra sinuca de novo, ficando ali entre os amigos, aproveitando a bebida e a conversa, em alguns momentos alternando na sinuca. Franzi a testa e movi a língua, sentindo meu piercing. Ela era mais alta que eu, coisa fácil quando se é guri e tem 1,63 m de altura. Tinha cabelos loiros cacheados, olhos densos e escuros, de um brilho intimidante. Era bem magra, com peitos pequenos mas suficientemente chamativos, e coxas delgadas.

“Davi, pode vir comigo um pouquinho?” Ela perguntou com um sorrisinho sugestivo. Eu entreabri os lábios, sem saber o que dizer. O que diabos ela poderia querer comigo? Olhei pra Tatiana, que deu de ombros, sem entender, e não tive tempo de fazer muito mais, pois ela me puxou com ela para longe de meus amigos.

Quando dei por mim, estava subindo uma escada para uma espécie de sótão da casa. Meu coração disparou feito um doido, enquanto eu me sentia suar frio. Aquela guria estava querendo me levar pra cima para transarmos?! Como que eu ia dar conta de uma guria como ela? E pra começar, quem disse que eu queria transar com ela? Achei que iria desmaiar.

E a sensação piorou quando, uma vez no sótão, que parecia uma espécie de quarto bastante chique, eu vi o Guilherme sentado na cama de casal que havia ali. Suspendi minha respiração, arregalando ainda mais os olhos, mais do que arregalei quando na quarta série vi o idiota da quinta se perfurando com um cabo de vassoura.

“O que é isso, Mari? Por que trouxe o Davi aqui?” Guilherme perguntou. Apesar de ter bebido bastante – é, eu reparei – a voz dele não tinha nada de engrolada, e ele parecia bastante sóbrio. Havia latas de cerveja pelo sótão, e a cama já estava bagunçava, o que me levava a crer que os dois já haviam começado umas preliminares antes de a Marília ir atrás de mim.

É verdade que eu estava alegrinho e mais solto, mas não o suficiente para achar a situação normal.

“Ué... Eu só quero apimentar um pouquinho as coisas. Tinha te falado que queria fazer um ménage um dia, não disse? E quando te perguntei com que tipo de guri tu aceitava, tu falou ‘um estilo o Davi’.” Ela apertou ainda mais minha mão. Eu olhei pasmo pro Guilherme, e ele bufou, olhando para Marília e me ignorando.

“Pensei que tu não ‘tava falando sério.” Ele rebateu.

“Ah, Guilherme, deixa de ser chato. Ele é bem gostosinho, tu mesmo acha isso.” Marília sorriu endemoniada, e eu percebi que ela era na verdade a mais bêbada de nós três.

“Tudo bem. Que seja.” Ele disse com pouco caso, e se inclinou para trás, apoiando as mãos no colchão.

“Tudo bem? Como assim tudo bem?” Perguntei atordoado. Marília riu e então se virou para mim. Eu tive vontade de correr, porém ela se aproximou e me agarrou antes que eu tivesse tempo. Ela devia ter uns dez centímetros a mais que eu, o que não era muita diferença, mas ainda assim, me senti um nanico que não sabia onde colocar as mãos.

Marília resolveu me mostrar e pôs minhas mãos na bunda dela. Isso não pode estar acontecendo, pensei angustiado. Por que eu não conseguia me mexer? Sair dali? Dizer que não queria participar daquela loucura? No lugar disso, acabei me deixando arrastar. Ela me puxou com ela, sem que nossos lábios descolassem, e nos girou.

Marília parecia uma furação, e eu a menina virgem, pois ela agarrou minha bunda, quase me erguendo do chão e me acariciou entre as pernas. Eu acabei gemendo, um tanto perplexo. Nunca uma guria havia me agarrado daquele jeito, e muito menos me tocado daquele jeito. Quando ela se afastou um pouco, eu estava em pé na frente do Guilherme, entre as pernas dele, que ainda estava sentado na cama. Minha respiração estava irregular e minhas pernas tremiam.

“Então, Davi. O que tu nos diz? Vai querer brincar um pouco? Eu adorei beijar tua boca com piercing, sabe...?” Ela perguntou naquele ar malicioso e provocante. Eu tinha de admitir, ela era sexy, e eu ainda não era completamente imune a garotas, ainda estava tentando me decidir quanto à minha sexualidade.

Estava excitado e assustado com isso.

“Eu não acho uma boa id-“ Tentei falar meio gago, mas um gemido estrangulado de susto brotou em minha garganta. Guilherme me puxou pela cintura e seus lábios caíram em minha nuca enquanto sua mão agarrava com precisão o volume na parte da frente das minhas calças, num aperto muito mais violento do que o da Marília.

“Acho que ele quer, já que está bem duro aqui embaixo.” Ele riu malicioso e mordeu minha nuca, usando bastante a língua. Parecia querer arrancar um pedaço. Eu me curvei para frente, fechando os olhos e ofegando com os olhos apertados. Meu corpo pareceu arder como se alguém houvesse jogado óleo fervente nele, e depois tacado fogo.

Isso é insano.

“Tu já fez com um homem, Davi? Eu ia adorar ver o Guilherme te comendo.” Marília riu e ergueu meu rosto, que ardeu de vergonha pelo que ela falou. Não podia ser. Outra fujoushi na minha vida? Não me bastava a Tatiana?

Não tive tempo de pensar muito antes que ela voltasse a me beijar. Acabei pressionado contra o tórax do Guilherme e, puta merda, ele era umas três vezes maior do que eu. Sim, estou exagerando, mas por Deus, ele tem 1,91m de altura e um braço cinco vezes do meu! Segurei o pulso dele, tentando impedi-lo de continuar me tocando sobre a calça.

Era difícil de pensar com a Marília me beijando, ela tinha pegada.

Pouco depois ela se afastou novamente. Minha cabeça girava, e eu mal me dava conta que estava sentado no colo do Guilherme. Olhei para Marília, que empurrava as alças do vestido pelos ombros e depois o deixava cair lentamente pelo corpo esguio até que ficasse apenas de sutiã e calcinha. Se havia um momento para fugir, o momento era aquele, Guilherme também se distraíra observando-a se despir.

“Vocês também tem de tirar a roupa.” Ela exigiu com um beicinho. Guilherme se ergueu de súbito e eu tropecei para frente. Não caí porque ele voltou a me puxar e, para meu espanto, tratou de arrancar minha camiseta com uma facilidade que era alarmante. Ele observou meu corpo de uma maneira que me deu vontade de tapar meus mamilos – eu sei, é estúpido. Ele já havia me visto sem camisa no futebol, assim como eu já o tinha visto, mas a forma que ele me olhou naquele momento, enquanto tirava a própria camiseta, me queimou e constrangeu ao extremo.

“Tu me acha bonita, Davi?” Marília se aproximou parecendo uma felina perigosa, e eu tropecei pra trás até cair de bunda na cama.

“S-Sim.” Admiti, sem jeito. Os dois pareciam dois leões e eu era a presa. Marília riu e se voltou para o Guilherme, abraçando-o pelos ombros, os olhos ainda fixos em mim.

“E tu acha o Gui bonito?” Ela perguntou, passando a mão pelo peito e abdome musculoso dele até chegar ao fecho da calça. “Tem vontade de tocá-lo?”

Eu corei, mas o maldito álcool me fez responder outro “Sim...” constrangido. Marília sorriu largamente e se ajoelhou na frente do Guilherme. Eu fiquei estático na cama, chocado além da compreensão humana quando ela puxou o pênis dele para fora da cueca e começou a chupá-lo. Era tão estranho ver aquilo, e ao mesmo tempo tão sexy. Eu era alguma espécie de voyer?

Minha cabeça rodou e minha respiração acelerou. Senti uma vontade terrível de me tocar também, e isso só me dava mais vontade de me afundar no colchão e achar um caminho alternativo para Nárnia. O pior é que meus olhos não desviavam da cena. Da língua dela percorrendo o membro grande e grosso do Guilherme – que por acaso humilhava por completo o meu –, colocando-o até o fundo da garganta, enquanto ele a instigava, segurando-a pelos cabelos loiros.

Fiquei tão absorto que levei um susto quando ela parou e, puxando o Guilherme para a cama, falou:

“Vai tu agora. Eu quero assistir.” Ela demandou, me puxando para perto do pênis ereto do Guilherme e se deitando despojadamente na cama. Fiquei meio ajoelhado na frente dele, inclinado para frente com as mãos apoiadas no colchão, olhando abismado para aquilo que parecia uma ‘arma’ apontada na minha direção.

“Mas...! Eu não sei fazer isso!” Exclamei assustado e acuado. Meu coração parecia na garganta. Ergui o olhar pro Guilherme, em pé na beira da cama, pensando que ele iria falar algo como ‘que nojo, vamos parar com isso por aqui’, mas ele apenas segurou meu queixo, de um modo quase carinhoso, e sorriu de uma maneira cujo significado eu não consegui definir.

“Não esperava que soubesse.” Ele falou e por algum motivo eu corei ainda mais.

“É uma ótima oportunidade para aprender!” Marília exclamou alegre, espreguiçando-se na cama. “Vamos loooooogo!” Exigiu manhosa.

Guilherme puxou mais meu rosto e eu não sei explicar o que raios do inferno me fez fechar os olhos, entreabrir os lábios e colocar todo aquele volume – ou quase todo aquele volume – na boca. Depravado! Minha mente gritou enquanto eu me esforçava para acomodar o máximo possível dentro da boca. Guilherme acariciou minha nuca e eu abri os olhos, olhando pra cima, minhas bochechas queimando. Só podia ser o álcool, ou eu nunca faria algo assim.

Nunca, nunca, nunca.

Sou mesmo gay... Pensei ao perceber que não sentia asco. Pelo contrário, fiquei ainda mais excitado, e gemi, movendo o rosto e deixando o membro dele deslizar para dentro e para fora da minha boca, sem muito jeito, num ritmo lento pelo medo de acabar engasgando. Sentia o pênis dele latejar quente em minha boca, e isso me instigava a querer dar-lhe prazer, fazê-lo gozar.

Ai, socorro, que tarado que eu sou!

Guilherme em nenhum momento me forçou a acelerar os movimentos, apenas me acariciava nos cabelos e gemia rouco às vezes. Isso me ajudou a relaxar um pouco, limpar a mente e não pensar em mais nada. Quando me arriscava a olhar para ele, seus olhos azuis quase negros estavam sempre me encarando, daquela forma intimidadora que dava arrepios, um brilho que me constrangia.

Ele segurou minha mandíbula de repente, e ficou me admirando intensamente, parecendo querer ver meu rosto e meus olhos com nitidez. Minha cabeça girou. Eu estava tonto, não conseguia pensar mais e acho que tampouco continuar com aquilo. Ele me parou antes de gozar (ou antes que eu tivesse uma síncope pela maneira atenta com que me olhava) e me afastou gentilmente. O encarei atordoado, vermelho, agitado, não sabia o que fazer, ou o que ele iria fazer, e fiquei com medo de descobrir.

“A Marília dormiu.” Guilherme falou indiferente. Eu olhei para trás e vi a guria estirada no colchão, parecendo em sono profundo. “Ela bebeu demais.” Ele explicou o óbvio e se sentou meio de lado na cama, sobressaltando-me. Eu o olhei nervosamente. O fato de a Marília estar dormindo deixava a situação, se possível, ainda mais bizarra.

Guilherme sorriu e me puxou para perto, pelo braço.

Ficar perto do corpo quente dele me deixou fraco e febril.

“Mas nós podemos continuar sem ela, se tu quiser.” Ele sussurrou contra minha orelha, roçando os lábios nela. “Eu não me importo. Tu me deixou com vontade de experimentar coisas novas hoje.” Ele segurou forte minha cintura e beijou mais profundamente meu pescoço, lentamente percorrendo minha pele com a língua experiente e me causando arrepios violentos. “Já tem um tempo que eu venho reparando em ti, Davi.” Ele murmurou sedutor. Revirei os olhos pela excitação, desejando que ele voltasse a me tocar no meio das pernas. Guilherme pareceu ouvir meus pensamentos e de fato me tocou ali, logrando-me um gemido fraco enquanto seus lábios pareciam subir pelo contorno da minha mandíbula para alcançar minha boca.

Eu quase me deixei levar. Quase.

Um jorro de lucidez me fez empurrá-lo.

“N-Não! Eu não quero continuar. Tudo isso é estranho e... e errado!” Falei atrapalhado, minha voz transtornada pelo nervosismo. Levantei rápido da cama, sem nem ousar olhar pra cara dele, e catei minha camisa no chão. Corri para as escadas e as desci enquanto recolocava a roupa, tendo dificuldade para não tropeçar nos meus próprios pés.

Sentia-me como um fugitivo escapando da cena do crime.

No andar de baixo, encontrei a Tatiana. Na verdade, ela se colocou na minha frente antes que eu fugisse daquela casa amaldiçoada. Eu já ia me esquecendo dela. Tatiana não era de beber muito, então ainda parecia bem e não mais maluca do que já era.

“Davi, onde tu ‘tá indo, ô praga!? O que aconteceu?!” Ela perguntou preocupada. “Não diga que está fugindo da Marília.” Soltou uma risadinha marota.

“Quase isso! Vem, vamos embora.” A puxei comigo. Pelo menos já era umas três da manhã e eu não estava estragando toda a noite dela. Não era seguro deixá-la ir embora sozinha depois, e nós já tínhamos combinado que ela dormiria na minha casa.

“Espera, tenho de buscar minha bolsa!” Ela se soltou e eu a esperei impaciente, aproveitando para chamar um táxi. Assim que ela voltou, a peguei pelo pulso e a puxei para fora da casa.

“Calma, Davi! Vamos esperar lá dentro, está friozinho aqui fora!” Ela reclamou, mas não lhe dei ouvidos. Meu coração batia mais alto que as reclamações dela. O que eu havia feito!? Meu deus, como que eu ia olhar pra cara do Guilherme de novo? E será que ele me achava nojento por aquilo? Ah, eu sentia vontade de me atirar de uma ponte, cortar os pulsos, comer carne envenenada, me trancar num quarto e não sair nunca mais, coisas dramáticas assim.

Esperamos o táxi na frente da casa. Tatiana cochilou no meu ombro, enquanto meus batimentos cardíacos continuavam acelerados e meu corpo suava frio. Pouco tempo depois, subíamos no carro e eu dava o endereço ao taxista. Eu já estava esperando o interrogatório da Tati pela manhã... E o surto que ela teria quando eu contasse o que havia acontecido.

No momento, eu só quero a minha cama.

Notas finais
E aí!?! O que acharam? Quem diria! HAHAHA Marília ajudou no yaoi, hein. Ela é meio doida. Nem digo vadia porque acho de um machismo sem tamanho xingar uma mulher de vadia só porque ela é mais safada e liberal. Enfim, ela ainda incentivará, junto com a Tati, o lado gay desses dois, IAJIAHAUIHAIUA! Obrigada a quem leu! Não deixem de dizer o que acharam, preciso saber se posto mais extras com a continuação disso ou não. :] Beijos, amores!