Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=CnQ8N1KacJc

As estrelas pareciam mais bonitas do que nunca, ou André apenas se acostumara a olhá-las através do véu de poluição da cidade. Agora, deitado sobre o capô do carro junto com o Fabrício, elas pareciam de fato carregar um significado especial por trás de seus desenhos abstratos. Fábio, Danilo e Juliana estavam numa rodinha próxima, ao redor de um fogo que haviam feito, bebendo cerveja e batendo papo. Daniel disse que iria checar um barulho no mato, mas todos sabiam que ele fora fazer xixi, depois de todas as cervejas que havia tomado.

O alto do pequeno morro que havia próximo da cidadezinha dava mesmo uma bela visão dos arredores. Muitas festas adolescentes já haviam acontecido por ali, e Fabrício contava ao loiro sobre algumas delas, enquanto suas mãos estavam entrelaçadas entre eles. André apertou mais forte a mão do namorado, e o Fabrício se virou de lado, tocando-lhe o rosto.

“Tu parece mais feliz agora... Será por causa da minha companhia maravilhosa?” Sugeriu brincalhão, roçando o nariz na bochecha do loiro.

“Idiota.” André revirou os olhos, mas sorria. Parou pensativo por uns segundos, sentindo certos arrepios pela barba do moreno roçando em seu rosto. Tinha momentos em que o namorado parecia um cachorro fungando em seu pescoço. Sim, estava feliz. Feliz por onde estava, pelo que estava vivendo no momento. Feliz por no ia seguinte poder ter mais momentos com a mãe e o avô. E aproveitar da companhia engraçada do Diogo, Lucas e da Isadora. Ter conversar mais adultas com o Henrique, e divertir-se com as crianças brincando com seu labrador maluco, e a gata antipática.

“Sabe... Eu sempre te chamo de idiota, mas tu nunca reclamou.” Comentou, aleatório, porque não era momento para assuntos mais sérios.

“Tu só me chama de idiota quando está ou constrangido, ou corado, ou gemendo. Não tem como achar muito ofensivo.” Fabrício explicou debochado.

“Idiota!” Exclamou esticando o ‘o’ da palavra. Corou e, notando que Fabrício estava mais do que certo, deu-lhe as costas. Fabrício riu e o abraçou.

“Hei! Não vai ficar irritadinho, né? Tu sabe que eu amo quando tu ‘tá constrangido, corado e gemendo meu nome...” Implicou ainda mais, desconsiderando o perigo. As orelhas do loiro arderam. “Gosto tanto que tu pode me chamar de idiota o quanto quiser e-“

Fafá ofegou com a cotovelada que recebeu na boca do estômago. Seu namorado era tão agressivo... Talvez fosse meio masoquista por gostar disso.

“E me bater o quanto quiser também...” Soltou num fio de voz.

André se virou novamente, um pouco arrependido, mas não o suficiente para pedir desculpas. Inclinou-se sobre o moreno, apoiando um antebraço no lado oposto do corpo dele.

“Me irrita a forma como tu me deixa constrangido.” Falou baixinho, e sussurrou na orelha do moreno. “Mas gosto da maneira como tu me faz gemer...”

O queixo do moreno caiu. Puxou pela memória, e percebeu que era a primeira vez que o loiro o provocava, com palavras, dessa forma safada. André se afastou com um sorrisinho torto vitorioso ao ver o namorado sem reação. Ora, ‘tava na hora de devolver na mesma moeda. Não era somente o moreno que poderia ser o confiante da relação para sempre.

“Não acredito que tu acaba de me provocar dessa forma quando tem outras pessoas aqui perto.” Fabrício disse, e o puxou. Seu corpo ficara todo eriçado. A vontade era arrastar o loiro consigo para o mato. Tentou beijá-lo, mas o loiro riu e se afastou, desconsiderando toda a excitação do moreno.

“Deixa de ser descontrolado.” Riu-se empurrando-lhe o rosto, enquanto um bico de insatisfação surgia nos lábios do namorado. André se deitou voltando a olhar para as estrelas. Era uma sensação tão gostosa, sentia-se tão leve. “Eu ‘tava aqui pensando que nas próximas férias temos de fazer aquele mochilão pela Europa... Era uma promessa.”

“Que viajaríamos juntos pelo mundo.”

“É, mas prefiro só pela Europa, tem lugares que quero rever, e outros que não vi. Contigo seria ainda melhor.” Seus olhos brilharam, refletindo as estrelas lá de cima. “Vai ir comigo?”

“Huuum... vou pensar.” Fabrício se fez de louco. Talvez uma reprimenda pelo beijo negado.

“Como assim vai pensar?” André se ergueu um pouco e o beliscou no abdômen. “Tu vai e acabou.”

Fabrício gemeu de dor pelo beliscão, a área estava sensibilizada pela cotovelada prévia.

“OLHA OS GEMIDOS!” Juliana berrou.

“Arranjem um quarto!” Fabio sugeriu.

“Vão pro mato.” Daniel que voltara havia uns minutos exclamou.

“Só cuidado que o Daniel mijou lá!” Juju os lembrou.

“Eu ‘tava pensando em receber uns beijos como forma de convencimento, mas o que recebo é um beliscão. Cotovelada, soco, beliscão... Será que é só isso que eu mereço?” Fabrício murmurou doído, ignorando os comentários dos amigos. André se compadeceu, apenas porque estava de bom humor, e lhe deu um beijinho nos lábios.

“Te coloco nas minhas malas e te levo na marra.” Sussurrou para o moreno, seus lábios bem próximos ainda, os narizes roçando.

“Eu vou de bom grado.” Fabrício puxou o loiro para um beijo mais digno. Se virou e deitou o loiro no capô, mantendo o beijo, as línguas se enroscando com carinho e desejo. Sentiu vontade de estar sozinho com ele, seria bom poder agarrar o loiro de maneira mais intensa ali, sob as estrelas. Mas se contentou em apenas beijar aquela boca deliciosa e acariciar-lhe o abdômen.

Talvez fosse efeito das cervejas que já haviam tomado, mas André sequer se importou de os amigos do moreno estarem ali próximos. Não, estava mentindo. Mesmo sóbrio, não se importaria. Havia percebido que não valia à pena se importar, que o importante era ser feliz consigo próprio, e curtir com a pessoa por quem se apaixonara, que já amava desde novo.

Os dois se afastaram quando Daniel, um tanto mala, jogou cerveja em cima deles.

“Venham pra roda. Não nos deixem de vela!” Ele reclamou, querendo atenção. “Fabrício, vem tocar umas com a gente!”

“Cara, pra que a cerveja?!” André reclamou sacudindo as mãos sujas. Tudo bem que estava com uma jaqueta impermeável, mas ficaria fedendo à cerveja.

“Tinha que separar vocês de alguma forma.”

“Ah é assim, malandro?” Fabrício pegou a latinha e atirou cerveja nele, mas o Daniel saiu corrido dali.

Fabrício de uma forma muito besta lambeu a cerveja do rosto do loiro.

“Ai, que nojo! Sai!” André reclamou rindo junto com o moreno.

Juju se aproximou deles, se apoiando ao capô do carro. Se apoiando para não cair, na verdade, porque já estava entortando pelo álcool.

“Seguinte, tem algo que quero falar. E falar pro André, antes que eu esqueça, ou fique bêbada demais.” Ela bebeu mais um gole de cerveja. “Assim, André, eu sei que o Fabrício é desses idiotas que te olham com cara de idiota e de uma forma muito idiota parecem ter escrito na testa algo como ‘oi, eu sou o cara mais legal do mundo e tu vai se apaixonar por mim como um patinho’, mas porra, o Fabrício é isso mesmo. Digo, ele é especial, então, eu nunca pensei que diria isso pra um guri, mas se tu magoar ele, vai se ver comigo. Sei que falei que estou feliz por vocês, mas se tu ferrar tudo, pulo em cima de ti e te esmago com meus 90kg.” Juju falou tudo ininterruptamente, olhando diretamente para o loiro, que arregalara os olhos. André quase se sentiu nocauteado, mas acabou rindo daquilo. Lembrou-se do por que gostava dela no passado – ela costumava xingar o Fafá de idiota também, e com bastante frequência.

“Certo. Entendi, não precisa te preocupar. Eu não quero nem vou magoá-lo...” André afirmou com certo rubor, e a Juliana sorriu satisfeita. “Só vou bater nele de vez em quando... Mas porque ele merece.”

“Merece mesmo.” Juju concordou.

“Mas como assim eu sou um idiota com cara de idiota?” Fafá perguntou estupefato. “E como assim eu mereço apanhar?”

“Vamos lá com o pessoal.” Ela motivou, ignorando o moreno.

André pulou do capô. Fafá não teve alternativa que não segui-lo, e os dois retornaram à roda. Fabrício pegou seu violão que havia trazido e sentou-se ao lado do loiro, olhou para ele e piscou, para então puxá-lo e dar-lhe um beijo na bochecha que estalou como o fogo da fogueira, e deixou o André vermelho como as chamas baixas.

“Essa vai pra definir meu sentimento nesse momento. Uma sensação de que tudo valeu à pena, e vai continuar valendo, enquanto eu estiver junto da pessoa que amo.” Explicou pros amigos, que concordaram, erguendo as latinhas de cerveja num brinde. Daniel pegou o próprio violão, para acompanhar o amigo.

“Essa gente que fica sentimental e boba quando apaixonada...” Daniel reclamou.

“Cala a boca, ‘tá azedo só porque levou um chute.” Juliana o empurrou.

Fabrício pigarreou, querendo silêncio, e começou a dedilhar. Sempre preferia música brasileira, mas aquela estrangeira em especial era uma de suas preferidas e, há uns dias, descobriu que também era a do loiro. Os dois então decidiram que ‘Por Você’ do Barão Vermelho era a música do moreno para o loiro, mas que essa, Good Riddance do Green Day, era a ‘música deles’.

Certo, vocês devem estar imaginando que Fafá decidiu isso sozinho, já que o loiro achou a ideia muito brega.

O então o Fabrício cantou:

Another turning point
A fork stuck in the road
Time grabs you by the wrist
Directs you where to go

So make the best of this test
And don't ask why
It's not a question
But a lesson learned in time

It's something unpredictable
But in the end is right
I hope you had the time of your life


Ao final, quase todos estavam cantando juntos.


So take the photographs
And still frames in your mind
Hang it on a shelf
Of good health and good time

Tattoos of memories
And dead skin on trial
For what it's worth
It was worth all the while

Até mesmo o André.

Porque, sem dúvidas, ele se sentia da mesma forma.

It's something unpredictable
But in the end is right
I hope you had the time of your life…

Notas finais
É, acabou. Eu mal consigo acreditar. Depois de um ano e meio... Eu finalmente consegui finalizar essa história. E ela cresceu... Como cresceu! Eu nunca imaginei que ela ultrapassaria os 50 capítulos! Eu nunca imaginei que ela acolheria TANTOS leitores, que receberia tantos favoritos, que ganharia tantos comentários e tantas recomendações, e certamente foi por isso que ela cresceu tanto, certamente foi por vocês. Porque eu me emocionei muito com cada leitor, cada elogio, cada pergunta no ask sobre a fic ou para os personagens, eu me emocionei em tê-los comigo, fazendo parte disso tudo, seja acompanhando desde o primeiro capítulo, chegando pelo caminho, ou mesmo perto do fim - todos vocês. E eu novamente agradeço muito a todos que contribuíram para que eu conseguisse chegar até o final, até o epílogo. Essa história tem grande valor sentimental para mim por ter tantos aspectos da minha vida nela (faculdade, lugares, amigos que serviram de inspiração etc), o que tornou ainda mais especial escrevê-la. Vocês foram demais, maravilhosos, e eu sempre vou torcer para vê-los em outras histórias minhas. ;) Obrigada por tudo. Espero que esse final tenha sido do agrado de vocês, assim como a história como um todo, porque, para mim, certamente foi uma Good Riddance. Com amor, Mila.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!