Good Riddance

34 Descoberta noturna


Notas iniciais
MUITO obrigada à Becca pela recomendação tão fofa.

André desceu as escadas com a mochila da medicina já nas costas. A turma havia feito uma mochila da UFRGS medicina, marcando qual era a ATM deles. Era azul-marinha e um tanto grande demais, ainda mais para o loiro, que não levava caderno nem nada já que sua memória fotográfica ajudava-lhe bastante a lembrar o que os professores diziam em aula.

Foi para a cozinha apenas para tomar um suco.

“Não vai comer nada, filho?” Cíntia perguntou, enquanto preparava um café. “Isso de nunca comer pela manhã faz mal.”

“Mãe, tu me diz isso há dezenove anos. Felizmente agora não pode mais me obrigar a comer nada.” André torceu o nariz. Quando menor, era obrigado a tomar café da manhã, algo que odiava. Sentia-se enjoado, preferia comer um lanche pelas dez horas.

Cíntia suspirou, ainda mais quando viu Sascha descendo ansiosa e animadamente as escadas, atrás do André. Já, já começaria a espirrar.

“Eu gostava dessa época em que podia controlar melhor tuas ações. Não gostei nada do estado que tu chegou desse Intermed! E tem prova amanhã, não?” Ela perguntou, preocupada. André suspirou, mas mãe é mãe, mesmo quando os filhos crescem, elas não mudam nunca.

“Amanhã é prova prática de anatomia. Quinta a prova teórica. E terça que vem prova de neurofisiologia – segundo os veteranos, a prova mais difícil do semestre, mas estou estudando desde o início, e ainda tem tempo pra rever tudo.” André disse displicente, e bebeu um gole de seu suco.

Quando Sascha se aproximou, se rebolando todo e ganindo baixinho por carência por não ter sido acordado pelo loiro, André o cutucou com o pé e ele caiu no chão, ficando de barriga para cima. André sorriu distraído, o acariciando na barriguinha com o pé.

Cíntia espirrou.

“Eu não aguento mais esse bicho.” Ele disse, estafada.

“Mãe! Não fala assim!” André rebateu chateado. Terminou de beber o suco e, emburrado, foi largar o copo na pia. Logo a empregada chegaria e lavaria a louça. “Estou indo, já estou atrasado.” Falou, já que a aula começava às 7h30min e já eram 7h20min.

Pegou o capacete e foi para a garagem, subindo na moto, uma de suas paixões. Conhecia tudo sobre motos – modelos, marcas, motores, novidades. Lembrou que naquele final de semana precisava lavar a moto. Uma das poucas tarefas manuais que praticava naquela casa, não confiaria tal tarefa a mais ninguém.

Quando chegou ao campus centro, teve de ir direto para o laboratório de anatomia onde os monitores já davam a aula prática, que naquele dia era uma revisão. Cada um, em cada mesa de granito, explicava uma matéria. Numa um falava de nervos cranianos, outro de meninges e medula, outro de bulbo e ponte, outro de mesencéfalo, tálamo/hipotálamo e núcleos da base, outro de cerebelo, vascularização cerebral, sulcos e giros. Era uma correria, obviamente ninguém poderia assistir a todas às monitorias, mas apenas àquelas que tinham maior dúvida para a prova. André já havia decorado cada peça e nome, mas decidiu ouvir a monitoria sobre mesencéfalo, hipotálamo e núcleos da base, pois era uma parte da matéria que com certeza cairia, apesar de todas terem grande chance. Aproximou-se, pondo-se a ouvir o que a monitora falava enquanto apontava com uma pinça para o cérebro cortado à metade que segurava, num corte coronal.

“Aqui nós temos a cápsula interna. No ramo posterior, transitam o feixe córtico-espinhal e as radiações ópticas e auditivas. No chamado joelho da cápsula interna, transita o feixe córtico-nuclear. Depois nós temos aqui o claustro-”

Alguém a interrompeu para perguntar qual era mesmo o nome de um dos feixes, e André revirou os olhos. Achava um saco aquele pessoal que não prestava atenção e depois ficava perguntando, atrapalhando e atrasando a explicação. Ficou tão distraído xingando mentalmente o colega – por acaso um que vivia de conversar no meio das explicações para depois encher monitores e professores de perguntas recém-explicadas –, que levou um susto quando alguém lhe apertou a cintura por trás.

Fafá logo estava ao seu lado, sorrindo. Ele segurava um caderninho no qual tinha todas as anotações de todas as monitorias que haviam dito. André o olhou sentindo o peito agitado, mas não apenas por isso. Por que agora eu sempre fico assim quando ele está perto? André se perguntou. E por ‘assim’, ele se referia ao coração agitado, o corpo mais quente, apenas não transpirando porque não estava calor, pelo contrário, usava um casaco leve sob o jaleco.

“E aí, como acha que vai ser essa prova, huh?” Perguntou num murmúrio, mantendo o ouvido atento à explicação da monitora.

“Falaram que é bem de boa. Apesar de ter só um minuto pra olhar pra peça, reconhecer e escrever, sempre dá tempo. Vai ficar pro simulado hoje no final da tarde?” Perguntou com pouco caso.

Os monitores sempre preparavam um simulado da prova prática de anatomia um dia antes da prova.

“Certo que sim. E tu?”

André deu de ombros.

“Se tu vai ficar, eu fico também. Apesar de preguiça... Vamos sair daqui depois das seis da tarde.” Murmurou já com saudades da cama. Ainda não havia se recuperado do Intermed. Aliás, duvidava que qualquer um houvesse.

Acordar no dia anterior às 6h30min da manhã fora um martírio. No fim se arrependeu de ter saído da cama, já que apenas uns quinze – dos setenta – colegas apareceram na aula de anatomia, a maioria composta pelos que não haviam ido ao Intermed. Até os monitores faltaram; apenas um apareceu – que também não havia participado do evento – e a aula foi bem simples, sobre vascularização cerebral. Fabrício também deu as caras, porém dormira apoiado ao seu ombro durante a monitoria.

Naquela terça-feira, a maioria ainda parecia uns zumbis cansados demais até para comer carne humana. Algo até relativamente bom, considerando estarem numa aula de anatomia. Meu cérebro está derretendo e junto meu bom-senso, eu precisava dormir por uma semana seguida, André pensou massageando as têmporas por um momento. Seus pensamentos não estavam fazendo muito sentido.

“É, e tem que estudar de noite. Tu se importaria se eu fosse pra tua casa depois?” Fafá perguntou com olhos pidões que lembravam Sascha quando queria carinho. André abaixou as mãos e o olhou cheio de desconfiança. Primeiro porque era estranho o moreno pedir, no lugar de simplesmente ir se convidando, ou aparecer sem avisar. Segundo porque... Bem, os dois sozinhos no mesmo quarto...

Fafá ergueu as mãos para o alto.

“É só porque se eu for pra casa vou dormir, não vou estudar nada. Não consigo estudar nada desde semana passada.” Explicou, inocente. Como André não farejou nenhuma malícia, acabou suspirando enquanto ignorava a fisgada na boca do estômago ao imaginar ele e Fafá num quarto, mesmo que fosse apenas para estudar.

“Essas malditas provas me atrapalhando... Eu queria marcar uma coisa, com o Davi... Eu ‘tava pensando sobre isso hoje. Vou precisar da tua ajuda.” André comentou, quase fugindo do assunto. Havia conversado com a Natália na noite anterior, e ela lhe contara que o Davi já estava bem melhor, em casa, já bem-disposto. André queria muito fazer as pazes com o amigo. Morreria de vergonha de contar para ele que estava de rolo com outro garoto, mas eventualmente teria de ser sincero, principalmente se quisesse resgatar a amizade de antigamente.

“O que é?”

“Lá em casa te conto.” Disse, deixando um curioso como o moreno na curiosidade.

Pura maldade naquela cabeleira loira, foi o que Fafá concluiu.

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Alguns estavam quase chorando após o simulado. Não tinham acertado nem cinco, das dez mesas. Na prova, cada mesa do laboratório teria uma ou duas peças, nas quais flechas estariam apontadas, e as perguntas estariam sobre a mesa igualmente. Naquele simulado havia tantas perguntas numa única mesa que era impossível escrever tudo em um único mísero minuto.

“Galera, fiquem tranquilos. Nós fazemos o simulado muito mais difícil que a prova, só pra vocês verem o que estão e não estão sabendo! Ainda tem tempo de estudar.” A monitora, Bruna, madrinha do André, tentava tranquilizá-los. Ela se aproximou do loiro, parecendo mais baixinha do que nunca. “E aí, como foi, afilhadinho?”

“Errei uma das perguntas.” André deu de ombros, chegando a falar meio baixo. Não queria que ninguém o escutasse, ou poderia até tomar um soco. Os ânimos estavam exaltados e já vira uma colega que tirara oito no simulado ser execrada pelos colegas mais desesperados, que só faltavam abrir o próprio corpo para estudar intensivamente para o teste derradeiro.

Fafá, que se aproximara sorrateiramente, espiou a folha de respostas do loiro por cima do ombro.

“Ô lôco, meu! Eu acertei só quatro, sei nada pra essa prova!” Fafá falou alto, sorrindo como se isso fosse algo engraçado. Só se fosse do tipo ‘rir pra não chorar’. Nisso, mais pessoas, empáticas com a situação do moreno, pois estavam na ‘mesma merda’, se aproximaram e só faltaram debater a teoria da relatividade aplicada à anatomia humana ao começarem a discutir e debater o simulado.

Gabi havia tirado uns sete, já a Fran também quase gabaritara. Rafael fora que nem o Fafá. Os monitores garantiam que tudo iria dar certo, e André só queria ir para a casa porque estava cansado depois de um dia cheio de aulas, e aquela tagarelice e gritaria toda já lhe dava dores de cabeça. Além disso, estava caindo de fome e não queria acabar desmaiando de novo pelo cansaço e falta de glicose.

Saiu do laboratório e largou a mochila num dos bancos do longo corredor, para retirar o jaleco.

“Fafá vai lá pra tua casa, então?” Gabi perguntou ao loiro de uma forma bastante suspeita. André quase pulou novamente, pois não vira ela o seguir e muito menos se aproximar para sussurrar em seu ouvido. Olhou para a morena com as pálpebras estreitadas.

“Está insinuando alguma coisa?” Quis saber, ao que a garota soltou uma risadinha marota ao abanar a mão.

“Eu? Imagina... É claro que vocês vão apenas estudar.” Ela disse com aquele ar de quem não acredita nadinha no que o outro está falando, e outra risadinha escapou-lhe dos lábios. André bufou, virando o rosto que ficou quente ao imaginar coisas que não deveria. “Ora, vamos, ao menos uns beijinhos, né.” Ela voltou a sussurrar, conspiratória.

“Isso não é da tua conta!” André sussurrou de volta, grosso.

“Ai, que saco, todo mundo tem algum amigo gay para contar essas coisas, e agora que eu tenho, tu é todo fechado sobre isso, e o Fafá é babaca demais pra contar, ele só fala, fala, fala e não fala nada. Tentei arrancar o que aconteceu no apartamento dos tios dele em Torres, mas ele só conseguia sorrir que nem um besta e dizia umas bobagens. Sacanagem com a minha pessoa, sou amiga, sou leal, podia ‘tá roubando, podia ‘tá fumando, mas só ‘tô aqui colhendo informações. Vocês poderiam ajudar a realizar meu mais novo sonho.” Ela reclamou tudo com verdadeira indignação, jogando a mochila sobre as costas e olhando para o loiro com os braços cruzados sobre o peito.

“Arranje outro sonho. Ou outros amigos gays. Um que nem o Milo, ou até o Beto. Esses aí não iriam se importar nem de transar na tua frente.” Falou como quem não quer nada, não se abalando pelo bico que a morena esboçou ao não ter seus desejos realizados.

Fafá saiu do laboratório naquele momento.

“O Rafa e a Fran já foram?” Ele perguntou, se aproximando e passando um braço pelo pescoço do loiro, quase o sufocando. “O Rafa é que nem o Santa. Um dos homens lindos!”

“Para que essa piada já perdeu a graça!” André se soltou, ainda que Gabi estivesse rindo. Fafá ficava muito engraçado quando falava aquilo.

“Olha o ciúmes.” Gabi provocou, e o loiro mostrou-lhe o dedo do meio. Gabi deu-lhe um tapa, e Fabrício os afastou antes que uma guerra começasse no corredor. A morena se empertigou. “A Fran saiu correndo porque queria pegar o trem o mais cedo possível, e o Rafael se ofereceu pra dar uma carona até a estação.” Explicou então, ao ser barrada de sua vontade de treinar luta livre com o André.

“Mazá! Ele ‘tá aprendendo, aquele Don Juan.” Fafá falou como se Rafael fosse um conquistador safado, e os outros acabaram rindo incrédulos. Rafael era bastante tímido para esse tipo de coisa, mas parecia engajado em conquistar a de cabelos cacheados. Os três estavam na torcida.

“Eles formam um casal fofo.” Gabi comentou. “Então vamos? Eu ainda tenho de ir pra casa estudar, porque não quero tirar um sete, ou menos, na prova de amanhã!”

“Quer ir estudar com a gente? ‘Tô precisando muito estudar essas nabas.” Fafá convidou, mesmo que fosse na casa do André, e o mais natural fosse o loiro convidar. André nem se importou, afinal, já se acostumara à cara de pau do moreno. Gabi os olhou em dúvida, é claro que por ela iria curtir estudar em conjunto, conhecer a casa do André e ficar mais tempo com os amigos. Mas também não queria atrapalhar nada.

“Vem com a gente.” André colocou as mãos nos bolsos do casaco, dando de ombros. Reprimiu a leve decepção com o convite. É claro que não, é até melhor assim. Sua mãe estaria em casa e não queria que ela começasse a desconfiar de nada. Mal André sabia que o Fafá havia convidado a morena justamente para que estudassem de verdade, e ele não ficasse somente querendo agarrar o loiro. Fabrício não confiava mais em seu poder de concentração e autocontrole quando estava sozinho com o André.

“Ok, então eu vou! Estou com saudades do Sascha!” Gabi se animou, se colocou no meio dos dois e agarrou o braço de cada um deles, arrastando-os consigo para fora do ICBS.

“Só tem um detalhe. Eu estou de moto.” André avisou. “Vocês terão de pegar o ônibus até lá, ou um táxi, porque não tem capacete nem lugar pra vocês, e eu não vou deixar a moto aqui.” E muito menos pegar aqueles ônibus lotados.

“Porra, André, vai comprar um carro!” Gabi reclamou.

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Como eles saíram da faculdade justamente no horário de pico do trânsito, André obviamente chegou primeiro por estar de moto. O loiro resolveu enfiar os outros dois num táxi e pagou o motorista por antecipação, afinal, já havia pegado um táxi num dia de chuva e sabia quanto que dava até sua casa. Fafá e Gabi reclamaram, mas ele disse que ele era o rico do trio e eles que calassem a boca. Um poço de educação.

“Mãe!” André entrou em casa procurando pela Cíntia, mas estranhou que ela não estivesse ali. Quem encontrou foi a empregada, Amélia, preparando-se para ir embora, e Sascha, que pulava em suas pernas querendo carinho. “Onde ‘tá a mãe?”

“Tua mãe saiu para se encontrar com alguém. ‘Tava toda arrumada e perfumada. Olha que daqui a pouco tu ganha um pai novo.” Amélia brincou, e André torceu os lábios para a empregada. Amélia havia cuidado dele até os seis anos, antes de se mudar para Porto Alegre. Quando os Santayana se mudaram também, Cíntia a recontratou, e ela trabalhava naquela casa já há nove anos.

“Que nojo, não me faça imaginar coisas.” Torceu os lábios, se aproximou e deu um beijo de despedida na senhora que conhecia desde seus primeiros meses de idade. Amélia estranhou. O que estava acontecendo com aquele menino? Parecia mais carinhoso e de melhor humor nos últimos tempos, principalmente desde o dia anterior. Teria encontrado alguma namoradinha no tal Intermed? “Até amanhã, então. Uns amigos vão vir aqui em casa agora para estudarmos.”

“Estou vendo que vou ter bastante coisa pra arrumar amanhã.” Amélia suspirou, mas sorriu antes de dirigir-se para a saída da casa enquanto balançava a cabeça. André a olhou ultrajado por ela achar que ainda eram crianças que desarrumariam toda a casa, mas não falou nada, apenas foi atrás de algum lanche para oferecer aos dois que logo chegariam.

Sascha o seguiu com a certeza canina de que seria ele a ganhar um lanche especial.

Com que Cíntia está saindo? André se perguntou. Nem queria imaginar, não conseguia pensar na mãe de namoro com algum homem qualquer. Não que achasse que ela deveria voltar com o Heitor, eles costumavam brigar por bobagem, e a casa se tornara muito mais tranquila após a separação, há dois anos. Mas a ideia de ter um padrasto era um tanto estranha, só esperava que fosse um cara decente e, de preferência, trabalhador que ganhava o próprio dinheiro, e não daqueles safados querendo dar o golpe do baú.

Quando Fabrício e Gabi chegaram, um cheiro bom de pão de queijo e croissants encheu-lhes as narinas.

André abriu para os dois, e eles foram até a cozinha.

“Ai, que coisa mais querida!” Gabi exclamou e pegou o Sascha no colo, tendo de se desviar de várias lambidas. “Ele já cresceu um monte!” Sascha realmente crescera naqueles dois meses, praticamente dobrara de tamanho.

“Ele vai se tornar um monstro.” André lamentou. “Se estiverem com fome... Esquentei para vocês.” Ele próprio pegou um pão de queijo e deu uma mordida generosa. “Fiquem à vontade, somos só nós três de qualquer forma.” Sascha latiu para aquilo. “Nós quatro.” Se corrigiu.

“Ah, que perfeito!” Fafá exclamou e, inesperadamente, abraçou o loiro e lhe deu um selinho. André o encarou envergonhado, principalmente pela Gabriella estar olhando-os bastante interessada. Porém a morena não falou nada, apenas sorriu e foi lavar as mãos após soltar o Sascha no chão. Depois também pegou um pão de queijo.

“Estou com o Yokochi na minha mochila.” Avisou, referindo-se ao livro de anatomia. “Nem sei como vamos estudar, mas minha madrinha me passou algumas provas e simulados anteriores que podemos fazer. E eu tenho todos os bancos de questões, podemos fazer algumas questões juntos também.” Ela foi falando, prática e eficiente, de boca cheia como a dama que era.

Fafá lavou as mãos e também pegou um pão de queijo. Dois na verdade, que socou na boca de uma só vez. Tocou um pedaço para o Sascha, que pareceu o cão mais feliz do mundo ao abocanhar no ar o pedaço.

“Acho que já podemos no casar. Esse pão de queijo ‘tá ótimo.” Fafá comentou assim que engoliu a primeira mordida.

“É comprado, idiota. Só esquentei.” André retrucou.

“Saber usar o forno e o micro-ondas é fundamental nos dias de hoje.” Gabi se meteu na conversa, e recebeu uma resposta não lá muito educada do loiro.

Acabaram gastando uns minutos apenas comendo e conversando.

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Fafá estava dolorosamente consciente do peso em suas costas. E, bem, isso não era legal. Não quando se tem uma prova no dia seguinte. Não era como se ele pudesse chegar e dizer "Ah, professor, tu precisa me dar um desconto. Eu juro que tentei estudar, mas eu só conseguia pensar em beijar o loiro bonito que eu fisguei recentemente". Na verdade, não era como se ele pudesse falar qualquer coisa para convencer o professor de que merecia um desconto.

Estavam no quarto do André. O moreno estava estirado no chão de barriga para baixo, enquanto André se esticava de barriga para cima, com a cabeça apoiada nas costas de Fafá, os corpos formando algo como um T no carpete. Felizmente para o Fafá (ou não), Gabi também estava ali, sentada na cadeira do computador, a testa vincada enquanto lhes mostrava as imagens de outros simulados no notebook e lhes perguntava o que era, a função, entre outras perguntas relacionadas que poderiam cair.

Fafá já nem sabia o que era um cérebro, e talvez houvesse perdido o próprio.

“Tu não é uma boa almofada." Resmungou André, remexendo-se, tentando achar uma posição mais confortável. Sascha resmungou indo morder e lamber a orelha do loiro, querendo alguma atenção.

"Nossa, depois dessa, acho que não conseguirei dormir essa noite." Replicou Fafá arrastando a voz. Estava cansado, com sono, já haviam revisado toda a matéria. E mesmo assim ele não iria conseguir dormir por outros motivos...

André tocou os papéis de resumos e imagens longe e se sentou, esfregando o rosto e dando uns carinhos no cãozinho para que ele parasse quieto. Espirrou.

"Não aguento mais." Disse como uma criança mimada. Se levantou, chutou o famoso livro Netter de anatomia que estivera em seu colo e olhou para o Fafá, que sentia as costas formigando pela falta do contato.

"Vamos fazer alguma coisa.”

“Sexo?”

André praticamente chutou o moreno como fizera com o livro, enquanto a Gabi gargalhava, junto com o Fafá, que tentava se esquivar da indignação do outro. Sascha corria atrás do próprio rabo.

“Brincadeira, brincadeira, loiro!”

“Gente, acho que vou indo pra casa. Estou tri cansada, e amanhã a prova é às 7h30min né. Dré, sabe que ônibus eu pego pra ir para casa?” Ela perguntou. Não tinha dinheiro suficiente para um táxi. “Se eu caminhar até a Protásio, eu pego qualquer ônibus e desço na altura da Eça de Queirós.”

“Bem capaz. Às 10h45min da noite, sozinha? Não mesmo, te levo em casa.” André falou. A mãe estava usando um dos carros, mas o loiro havia ganhado uma moto e um carro por ter passado em medicina na UFRGS. Não usava muito o carro, mas ele ficava na garagem para emergências e eventuais necessidades.

“Não, sério. É muito abuso.”

“Então eu chamo um táxi.” André saiu do quarto já ligando pra algum serviço de táxis.

Gabi olhou pro Fabrício.

“Ele vai querer pagar de novo, né?” Ela suspirou, e Fafá assentiu solene. “Ele num geral tem essa pose de ‘o mundo foi feito para me servir’, mas ao menos não é pão duro.” Ela deu de ombros. Procurou por algum dinheiro na bolsa, mas encontrou apenas cinco reais atestando sua pobreza. Quando tentou dizer para o loiro que pagaria uma parte, ele gargalhou na sua cara, ridicularizando seus modestos trocados. Gabi deu-lhe uns tapas, mas ele não mudou de ideia. Quando o táxi chegou, André a empurrou para dentro novamente e lhe jogou vinte reais, o suficiente para que ela chegasse até em casa.

“Eu ganho quinhentos reais por semana de mesada. Então apenas aceite calada.” André revirou os olhos, estafado, e fechou a porta do táxi antes que a morena começasse a reclamar novamente, pois já havia percebido que a morena detestava que os outros lhe pagassem qualquer coisa. Orgulhosa.

Entrando em casa de novo, foi subitamente agarrado, ofegando baixo.

“Acho que se a Gabi não estivesse aqui, isso seria tudo que eu teria feito.” Fafá admitiu, começando a beijá-lo no pescoço. André estremeceu, e suas mãos pararam nos cabelos negros do moreno. Sascha, sentado no chão, os observava com curiosidade, a cabecinha inclinada para o lado. André pensou que estava dando maus exemplos ao seu ‘filhote’.

“Tu não vai embora também?”

“Está me expulsando?” Fafá ergueu o olhar. “Bem quando eu estou te beijando?”

“Minha mãe pode chegar a qualquer momento.” André sussurrou nervoso, como se a Cíntia estivesse por perto. Afastou-se. “Posso te levar em casa. Gosto de andar de moto de noite, é mais tranquilo.”

“O quê? Andar de moto agora?”

“Não, amanhã. É claro que agora!” Exclamou, estressado. “Mas antes tenho algo para te dar...”

Fafá ergueu as sobrancelhas.

“Me dar?” Um sorrisinho safado surgiu em seus lábios.

“Não! Isso- Ah, vai se ferrar.” André entendeu a malícia e subiu para o quarto, gritando um “Espere aqui!”. Fafá obedientemente esperou, sentando-se também no chão para dar carinhos no Sascha, que se aproximou sacudindo o rabo.

Quando André desceu, trazia um skate velho. Fafá, sem entender nada, primeiro o olhou como se André estivesse com o corpo coberto por bolhas de pus. Depois acabou reconhecendo o skate velho, ao ver a inscrição que havia feito na parte inferior dele: Fafá e Dré, amigos para sempre. Lembrava que, quando mostrara aquilo ao loiro, ele corara, sorrira e o abraçara, dizendo que não queria que se separassem nunca.

“Não ‘tô acreditando! Tu guardou mesmo isso? Por nove anos?” Se aproximou, embasbacado, pegando o skate para dar uma olhada nele. Uma emoção forte se alastrou em seu peito, e acabou rindo entrecortado. “Sério... Isso é... Nossa!” Nem encontrou palavras enquanto passava a mão com carinho pelo skate. “Nunca imaginei que tu havia encontrado ele.”

“Deixou na frente da minha casa, claro que encontrei.” André coçou os cabelos, envergonhado. “Era a lembrança mais vívida que eu tinha daquela época...”

Fafá sorriu ainda mais largamente, e largou o skate apoiado ao balcão. Aproximou-se do loiro, que o olhou tímido, e o puxou pela cintura, capturando-lhe os lábios. O abraçou com força, tomado pela emoção de saber que o André sempre o manteve, de certa forma, por perto. O beijo se tornou intenso rapidamente, mas quando Fafá se empolgou demais e prensou o loiro contra o balcão, este o afastou, ofegante.

Sascha começara a brincar com a bolinha que o loiro comprara para ele.

“Não podemos aqui.” Murmurou, olhando por cima do próprio ombro para as escadas que levavam à garagem. Se Cíntia aparecesse... Estava ferrado até a alma. “É melhor eu te levar em casa.”

“Okay...” Fafá disse, apesar de somente querer voltar a beijar o loiro. Mas sabia que ele tinha toda razão. “Tu quer que eu fique com o skate?”

“É teu... Eu guardei para algum dia te devolver. Eu meio que...” Massageou a nuca, desviando o olhar. “Acreditava que iríamos nos reencontrar algum dia. Mas mantinha isso só para mim, evitava pensar, mas no fundo...”

Fafá voltou a rir e acariciou o rosto do loiro, encostando sua testa à dele.

“Tu é tão fofinho.”

“Cala a boca, a última coisa que eu sou é fofo.” André reclamou, avermelhado. “Vamos, vou pegar um capacete pra ti.”

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“Por que fui convencido a isso?” André perguntou pela quadragésima vez, quando eles se dirigiam a certa casa do bairro.

“Não foi tu que falou que gostaria de assustá-lo só de sacanagem?”

"É perigoso." André retrucou alguns momentos de silêncio depois, enquanto ponderava os prós e contras de largar o moreno no meio da rua.

Fafá riu.

“Vai dar tudo certo!”

“A casa dos meus tios." André disse, parando em frente a uma casa enorme, a apenas algumas ruas de distância de sua casa. Uma cerca viva impedia uma boa visualização do pátio.

Fafá pulou da moto, como se agradecido com a oportunidade, e caminhou até a cerca.

"O que você está fazendo?" Sibilou André, estreitando os olhos para o moreno. Fafá se virou com um sorriso travesso. Um sinal de que ele estava prestes a ter uma ideia maluca.

"Tem uma piscina ali. É gigante!" Falou Fafá, apontando entre a cerca. André desligou a moto e caminhou até o Fafá, olhou calmamente entre a falha na cerca viva e então olhou de volta para o moreno.

"E?"

Fafá se agitou.

"Eu adoro piscinas."

André praguejou internamente.

“Fafá, não...!" Arregalou os olhos. Fabrício estava escalando a cerca.

Algumas pessoas verdadeiramente não deveriam ser deixadas soltas na sociedade.

"E se tiver alarme! E se eles compraram um cão de guarda e eu não ‘tô sabendo? Fafá...?" Chamou baixo, nervoso. Tudo bem que eram seus tios, mas eram tios que o odiavam por ter caído na briga com o filho deles três anos atrás, deixando Lázaro com um olho roxo. E o primo intragável o odiava ainda mais por esse e vários outros motivos. Seria uma confusão se fossem pegos.

O moreno pulou para o lado de dentro e sorriu para o André.

"Vem logo, não tem perigo."

André blasfemou contra todos os Deuses que conseguiu lembrar, algo em torno de três. Onde estivera com a cabeça quando decidira mudar o rumo? Deveria apenas ter largado o moreno em casa. Não se lembrava de ter tomado substâncias ilícitas. Diferentemente do Fabrício e seus cogumelos.

Começou a escalar e então pulou para o pátio também, lembrando que os tios haviam retirado momentaneamente a cerca elétrica por uma falha após um raio que caiu numa tempestade recente. Fafá estava na beira da piscina, tirando a camiseta.

"Eu tenho piscina em casa, sabe? Tudo bem que ela tem um terço do tamanho dessa, a água ‘tava suja e ela ‘tava tapada, mas não precisávamos estar aqui invadido a casa deles. A ideia não era apenas pregar um susto no Lázaro?" Sussurrou, mas tirou a camiseta também. Agora que repetia a ideia, via como ela era ridícula, ainda mais ridícula do que invadir a casa e fazer uso da piscina. Tinham uma prova na manhã seguinte, por Deus!

"Tu deveria ter me impedido antes, então." Retrucou Fafá e entrou na água, tentando fazer o menor barulho possível.

André olhou para suas calças de marca de trezentos reais. Não entraria na piscina com ela. Reclamou algo como a dificuldade de se fazer amigos decentes e tirou-as também, ficando apenas com a cueca preta. Iria matar Fafá por isso. Quem sabe afogá-lo?

Fafá assobiou.

"Cale a boca." Resmungou André e entrou na água. Estava bem fria e ele sentiu todo o corpo se arrepiar. Fafá boiava relaxadamente no meio da piscina.

"Como se sente?" Perguntou Fafá, quando André começou a boiar ao lado dele.

"Como um delinquente. Mas um desses ruins que invade a casa dos próprios tios, em vez de invadir de algum desconhecido mesmo." Afirmou o loiro, e Fafá riu.

“Lá na cidade, eu e uns amigos invadimos o clube pequeno de lá, à noite, pra tomar banho de piscina. Lembra daquele clube?” Perguntou.

“Lembro. Era bem chinelão.”

“E continua o mesmo.”

Ficaram em silêncio alguns instantes, observando as estrelas borradas pela poluição da cidade.

"Mas é uma sensação boa. Né?"Fafá sorriu de lado e André fechou os olhos, flutuando.

André pensou sobre aquilo.

"Sabe, desde que, bem... Desde que eu me mudei para cá, tentei fazer de tudo para virar o filho que meu pai queria. Não que eu não tenha aprontado algumas, mas... Eu não sei, é diferente com tu aqui comigo, de novo. Eu me sinto diferente, como se resgatasse uma parte de mim..."André não poderia ter ouvido o coração de Fafá parar, contudo, Fafá tinha certeza que ele parara. Por que André tinha que falar aquelas coisas?Por que André tinha que falar aquelas coisas quando estava só de cuecas?

André corou ao perceber o que recém admitira. O que havia sobre o moreno que o fazia admitir em alto e bom tom esse tipo de coisa?

"Também estou feliz por estar aqui contigo, loiro." Fafá disse, parando de boiar e olhando para o André, que parou também e o fitou com as batidas do coração parecendo estremecer a água que tocava em seu peito, tão fortes eram.Fafá se aproximou e o abraçou pela cintura, e o loiro apoiou os braços em seus ombros, olhando-o também. “Fiquei completo quando te reencontrei...” Admitiu num sussurro, e as orelhas do loiro pegaram fogo.

“Bobo...” André reclamou baixo, mesmo que tivesse sido ele a tocar naquele assunto primeiramente. A noite não estava quente, e ambos já tremiam de leve pelo frio. Roçaram os lábios fracamente, os olhos apenas entreabertos, por vários minutos, alternando entre beijos rápidos e mordidas leves.

“Não me contou por que não curte teu primo.” Fafá perguntou em determinado momento, a curiosidade surgindo novamente, porém se arrependeu ao ver o loiro ficar subitamente indignado.

“Porque ele é chato, já tentou me ferrar no colégio, já contou mentiras sobre mim, é fofoqueiro, dedo-duro, trapaceiro... Já teve uma vez que até pagou três outros guris na escola para irem bater em mim, no Leo e no Lucas, e com isso pegamos uma suspensão. Ele é pior que eu, acha que dinheiro compra tudo, que compra até amizades... Acredita que uma vez ele tentou comprar a amizade do Davi? Ofereceu dinheiro para ele, o sem-noção. Quando se tocou que o Davi já é rico, tentou com o Lucas, que é o mais... pobre do grupo. Ele sempre teve inveja de mim, e sempre me odiou. E eu odeio ele também.” Bufou ao final, com uma raiva latente.

Desde que se formara, não precisara mais olhar para a cara do primo, depois de viajar então, quase o esquecera por completo. Mas aí ele e o Fabrício, no rápido espaço entre irem da sala até a garagem – onde descobriram que o Sascha fizera coco e o loiro teve de limpar –, começaram a falar sobre primos. Fafá comentou sobre a Juliana, com quem costumavam brincar quando mais novos, e André falou do primo mala, comentando algo sobre ‘algum dia ainda prego uma peça nele, só por diversão’.

E de alguma forma acabaram ali, naquela piscina.

“Wow. Vocês são parecidos.” Fafá se fez de surpreso, debochando. André deu-lhe um soco no braço que latejou e lhe arrancou um gemido baixo.

“Vai se foder.” André resmungou, realmente ofendido.

“’Tô brincando, loiro...” Fafá murmurou divertido e sorriu, abraçando-o mais forte como num pedido de desculpas. André ainda relutou, virando o rosto, tentando se soltar, mas Fabrício não permitiu, rindo baixo da chateação do outro.

Fabrício roubou-lhe um beijo, contra vontade. André ainda tentou resistir, mas rapidamente acabou cedendo; era um beijo lento, escorregadio pelos lábios molhados. Ambos os corpos estavam frios pela temperatura mais baixa da noite e da água, mas naquele abraço pareciam protegidos, dividindo o mesmo calor. Fabrício gemeu baixo ao puxar mais o loiro para si, um prazer gostoso culminando do encontro gostoso e sensual de suas línguas, e da carícia que o André fazia em sua nuca molhada. Abraçaram-se com mais força, suas línguas entrando em maior contato.

E levaram um susto quando a luz da sala da casa foi acesa. Arregalaram os olhos, desviando o olhar para a fonte de luz. Fazendo um sinal para que ficasse quieto, André indicou para que nadassem até a borda, espiando o cômodo iluminado. André deixou o queixo cair ao ver através das portas de vidro o primo sendo furiosamente agarrado por um homem mais velho, desconhecido para si.

“O que é isso? O mundo é gay e eu não sabia?” Se perguntou. Os tios haviam viajado em uma segunda lua de mel, justamente por isso escolheram aquele dia para tentar pregar uma peça.

Fafá estava surpreso também, apesar de nem conhecer o tal Lázaro.

“Bem, isso explica por que ele te odiava, já que é gay e tu era homofóbico.” Comentou, pensativo.

“Filho da mãe enrustido! Eu ainda quero dar um cagaço nele.” André nadou até a borda onde tirara a calça e, ocultando seu número, ligou para a casa dos tios.

Foi hilário ver os dois rapazes levando um baita susto com a chamada, o mais velho chegando a cair de bunda no chão. André, segurando as risadas, fez sinal para que Fafá o seguisse. Enquanto do lado de dentro os dois se agitavam como baratas tontas, André e Fafá saíram da água na surdina, pegando as roupas e correndo de volta para a cerca.

Ocultando novamente o número, André mandou uma mensagem para o celular do primo: Acabamos de voltar, mas teu pai esqueceu as chaves de casa. Depois disso, André, já vestido, tocou a campainha da porta da frente e correu para a moto. Fafá, pulando num pé só tentando recolocar as calças, fez um malabarismo para pegar o capacete que o loiro lhe jogou, pegou a mochila que não tinha quase nada dentro, o skate preso a ela e pulou na carona da moto. Inconsequente da parte deles terem deixado aquilo tudo desprotegido na rua, à noite, mas aquele bairro tinha um índice baixíssimo de roubos.

André acelerou.

"Prefiro acreditar que ele não nos viu."

"Dois adolescentes seminus e molhados pulando a cerca? Deve ser bem corriqueiro. Tu deveria avisar ele que a casa ‘tá mal de segurança, antes que eles sejam roubados." Fafá comentou alegremente.

“O que foi roubado é a dignidade do Lázaro. Queria ter visto o desespero dele quando a companhia tocou.” Riu maldosamente, estilo vilão de desenho animado, e Fafá acabou rindo do som de sua risada. “Ainda não acredito que ele é gay... Talvez devesse me desculpar com ele. Os meus tios são insuportavelmente evangélicos, deve ser difícil pra ele. Deve ser por isso que ele é chato pra cacete.”

“Mas agora que tu sabe que ele vive uma situação parecida com a tua, vocês poderiam virar amigos.” Fafá ponderou, como sempre com aquele jeito de ‘temos de ser amigos de todos’.

André achou a ideia ridícula.

“Só porque sou... gay, não quer dizer que eu vá virar amigo de todos os gays no mundo.” André objetou, pela primeira vez conseguindo admitir aquilo. Não era bissexual, só havia ficado e transado com garotas para se autoafirmar. Ou talvez fosse mesmo bissexual, já que ainda achava garotas bonitas e atraentes. Não entendia muito bem dessas definições. O que sabia era que nunca antes fora como era agora com o moreno. Nem perto disso. E, se parasse para relembrar certas memórias, conseguiria recordar vezes em que se sentira atraído por outros rapazes, reprimindo tais sensações de imediato, fingindo com toda certeza do mundo que jamais havia acontecido.

Mas preferia não pensar no quanto se fizera de cego naqueles anos todos.

Mordeu os lábios.

“Segure-se firme, vou ir mais rápido!” Avisou e acelerou quando sentiu o moreno segurar-se com mais força à sua cintura.

E deliciou-se com aquela sensação de liberdade.

Notas finais
Excepcionalmente dessa vez não respondi aos reviews, pois estou sem tempo... Porém irei respondê-los assim que todas as minhas provas passarem, junto com os que eu vier a receber. Me sinto super mal fazendo isso, mas achei que, para vocês, valia mais à pena uma atualização, do que três semanas sem cap. novo até ficar um pouco livre de novo. Espero que não se chateiem, irei responder tudo assim que possível! A parte final desse capítulo é meio "WTF?", mas sei lá, essas zoeiras fazem parte da vida. JUJAOUAIJAAOIAHAIUOA Beijos, gente querida!