Good Riddance

42 Cuidado em quem confia


Notas iniciais
Agradeço MUITO às pessoas que recomendaram: Charlie, Daychan e Okumura Rin! BABANDO nas recomendações, sério, ai, nem acredito. Obrigada!

André sentia, mas suprimia, certa vontade de imitar a liberdade do Guilherme e Davi juntos – o menor encostado no peitoral do namorado, que mantinha os braços frouxos ao redor da cintura dele. Haviam apanhado, mas decidiram que não iriam se esconder, no máximo cuidarem os lugares por onde andavam sozinhos. Que a sociedade os engolisse trocando carinhos e deixando claro que eram um casal. E, sentados sobre uma toalha na grama da Redenção, pegando o solzinho agradável de inverno de meio de tarde, André e Fabrício estavam ali junto com eles.

Fora ideia do Davi, que queria conhecer melhor o namorado do loiro, e também queria que André conhecesse o Guilherme. O chimarrão percorria a roda, esquentando-os do frio, e a conversa fluía tranquila, enquanto Vilão brincava com Sascha pelo gramado. Apesar de estarem os dois bichinhos sem coleira, nunca se afastavam muito. Ainda que às vezes disparassem correndo um atrás do outro, Sascha sempre voltava saltitando ofegante, até ser novamente ‘atacado’ por Vilão e a brincadeira recomeçar.

“E parece que a maioria foi para a cadeia.” Davi contou sorrindo largamente, sem nenhuma pena. “Pegaram em flagrante.”

“Isso é ótimo!” André ficou verdadeiramente aliviado. “Mas eles mereciam uma surra também.”

“Espero que não sejam simplesmente soltos depois de todas as vítimas que fizeram.” Fafá comentou, mas sabia que no Brasil isso era complicado. “Eles chegaram a matar alguém?”

“Parece que houve uma vítima. Não mataram na hora, mas ele não aguentou os ferimentos no hospital.” Guilherme informou, sombrio, inconscientemente trazendo o Davi para mais próximo de si. “Por um lado, acredito que demos sorte. Afinal estamos os dois aqui, vivos e inteiros, apesar dos dentes que tive de recolocar.” Sorriu amarelo. Perdera um dos dentes, mas os pais do namorado haviam pagado sua recuperação, pois seus pais tinham um orçamento apertado. Fora surpreendente, mas mostrava que os pais do pequeno vinham mudando.

“E serviu pro Dré cair na real e depois conseguir se assumir.” Davi alfinetou, olhando para o loiro, com um sorrisinho.

André abaixou a cabeça, chateado.

“Preferia ter caído na real de forma diferente.” Resmungou e arrancou uma graminha do chão. Fafá deu-lhe um apertão na bochecha. “Hei!” Reclamou.

“Iria acabar percebendo. Eu garantiria isso.” Fafá sorriu divertido enquanto André massageava a bochecha.

Ainda engataram num papo extenso e acalorado sobre preconceito, injustiças sociais, defeitos e qualidades do país, corrupção e só pararam quando Davi os interrompeu, pois não gostava de discutir partidos políticos, mesmo em discussões saudáveis como aquela. Política e religião, duas coisas que lhe entediavam ao extremo.

“Daqui a pouco estaremos discutindo a teoria da relatividade.” Davi reclamou.

“Mudando de assunto então, vocês dois estão pensando em morar juntos?” Fafá perguntou curioso. Achava a ideia fantástica, lhe lembrava de seus tios. Eles haviam decidido morar juntos bem cedo, até pela questão familiar complicado do tio Henrique.

“Sim!” Davi sorriu emocionado. Havia conversado recentemente sobre isso com o Guilherme, e ele também achava uma boa ideia. “Meus pais, apesar de terem se tornado mais tolerantes e estarem me tratado muito bem, pedido desculpas e tudo, ainda guardam certos preconceitos, e não gostam do Guilherme... No fundo o culpam por ter me ‘convertido’ e pela surra. O que é ridículo! Eu que converti o Gui.” Riu convencido.

“O pior é que nem posso discordar completamente disso.” Guilherme revirou os olhos e beliscou a cintura do namorado. “E a surra foi culpa de idiotas intolerantes como eles.”

“Hei, olha lá como fala dos meus pais!” Davi pediu, ficando sério, e o Guilherme suspirou. “Apesar de tudo, eles estão tentando, a cada dia me aceitam um pouquinho mais... Enfim, o Gui conseguiu estágio em outro lugar, e eu já conversei com meu pai, ele disse que posso começar a estagiar na empresa dele, mesmo se me mudar. Apenas minha mãe está relutante, mas ambos parecem respeitar minha decisão.”

“Mas não é meio cedo? Vocês não estão juntos não tem nem um ano...” André perguntou, sem nem pensar se a pergunta era inconveniente ou não. Ainda tinha certa dificuldade para aceitar atitudes inconsequentes do amor, sempre fora bastante cético, tanto que nunca se envolvera amorosamente com ninguém. Até recentemente. Acariciou Sascha, que viera se rebolando todo por cima da toalha querendo carinho. Ele parou lambendo os dedos do loiro, que lhe segurou o focinho, balançando-o de um lado para o outro, implicando, e Sascha rosnou querendo brincar de morder.

Davi deu de ombros, enquanto André movia a mão para escapar das mordidinhas saltitantes do labrador.

“Eu vinha dormindo quase todos os dias na casa do Gui antes, até pra liberar o ap. pro Leo. Não vai mudar muita coisa. E se der errado, volto pra casa dos meus pais.” Davi também precisou dar atenção ao Vilão, que viera tentar lamber-lhe o rosto, enquanto seu parceiro de brincadeira se distraía com o loiro.

“Eles iriam adorar que desse errado entre nós.” Gui revirou os olhos e se inclinou para trás, apoiando as mãos da toalha. “Eles me odeiam.”

“Bah, eu também sou odiado pelo pai do André, entendo o sentimento.” Fabrício ergueu o polegar, num cumprimento de animação debochada. Sascha achou que aquilo era para ele e tentou abocanhar o polegar do moreno. “Eu sinto como se um grupo de assassinos contratados fosse aparecer a qualquer momento pra me matar, esses dias gritei como uma guriazinha quando estava voltando para casa à noite, mas era só um gato derrubando umas latas de lixo.” Fabrício riu junto com os outros.

“Mas como assim?! Heitor descobriu sobre vocês?!” Davi perguntou, demonstrando-se preocupado ao afastar o Vilão, que foi morder o Sascha e o arrastou com ele novamente para a grama. Sascha abriu a boca, mostrando os dentes e virando a cabeça de um lado para o outro. Na primeira oportunidade, pulou e mordeu a orelha do husky.

“Quase. Ele nos flagrou quando estávamos prestes a nos beijar, mas isso já tem umas três semanas, e desde então ele só vem me enchendo os tubos, me lançando indiretas, me sondando, perguntando sobre o Fabrício. Estou até meio assustado, mas ele não pareceu irritado em nenhum momento.” Contou, ressabiado. Não acreditava naquela calmaria do pai.

“Bah, mas o olhar que ele me deu depois do flagra foi de arrepiar. Me senti como um gafanhoto pronto para ser esmagado.” Fafá estremeceu ao relembrar aquilo. Coçou o olho, sentindo a lente seca num deles. Desejou tirá-la, mas não havia como, ali. “Eu tinha me esquecido de como ele é assustador.”

“Não precisa chorar, Fafá. Se ele tentar te esmagar, ou te assustar, pode deixar que eu ajudo meu pai.” André o confortou com deboche, e riu sarcástico quando o moreno o empurrou pelo ombro, fazendo-o cair para o lado.

“Mas tu ficou ainda mais impossível depois que começamos a namorar, ô Bela Adormecida!” Fabrício o puxou antes que ele conseguisse reagir, engatando o braço no pescoço do loiro, fingindo estrangulá-lo.

“Eu impossível?! Olha quem fala!” André exclamou debatendo-se para se soltar do gancho imbatível do moreno. Sascha latiu esganiçado com aquilo, mas quem o labrador atacou foi o Vilão, que novamente disparou correndo, sendo prontamente perseguido. Passaram por uma toalha alheia de um grupinho de jovens, derrubando algumas coisas; foram xingados, mas não pararam de correr.

“Bela Adormecida?” Davi perguntou curioso.

“Não, não conta!” André pediu ainda preso. Maldito braço musculoso. Fabrício riu perverso, e começou a contar o ocorrido no dia do trote solidário. “Não, Fabrício! Não!” Mordeu-o no antebraço, fazendo o moreno soltar um urro de dor e enfim soltá-lo.

“Tu quase arrancou um pedaço de mim, tchê!”

André o ignorou.

“Se Deus existir e for bom, meu pai nunca irá descobrir nada, ao menos não até eu estar formado e morando na minha própria casa, ganhando meu próprio sustento.” Praticamente orou por aquilo. “Do contrário terei de buscar abrigo no apartamento do Fabrício, olha que destino cruel.”

“Eu ia gostar. Ia ter alguém pra lavar as minhas cuecas.” Fafá sorriu cara de pau, ainda massageando a área do antebraço com as marquinhas dos dentes afiados do loiro.

André o olhou perplexo, quase engasgando.

“Vai sonhando, idiota. Quer receber outra mordida?”

“Ei, que injusto! Eu ainda quero saber o porquê de Bela Adormecida!” Davi reclamou, mas o André o mandou ficar quieto. “Sabe, vocês dois parecem que já estão juntos há um tempão, e não há mais ou menos um mês. Serem grandes amigos desde antes deve ajudar, né?” Davi perguntou, sorrindo para as implicâncias. “Eu admito que demorei um pouco pra me sentir totalmente confortável com o Gui.”

“É, eu sofri por três meses, a maior abstinência da minha vida.” Guilherme rolou os olhos. Só de lembrar já sentia um alívio por aquilo ter ficado para trás. Depois que o Davi perdeu a inibição, a vida mudou. Até numa sessão praticamente vazia de cinema já haviam transado. Fetiche seu – transar em lugar público. Davi se tornara bastante soltinho em vários aspectos, aleluia.

“Não estava falando disso, Gui! Ou só disso...” Davi deu-lhe um tapinha no braço.

André se calou, ficando desconfortável por um momento, e o Fafá riu de leve, coçando os cabelos. Tal desconforto de ambos atraiu a atenção do outro casal, que rapidamente compreendeu que certo alguém ainda não havia liberado. Davi o olhou boquiaberto por alguns segundos, antes de explodir em indignação.

“Porra, André! Pra que fui contigo depilar e comprar kit de enema!? Nem usou aquilo ainda? Sofreu pra nada?” Davi perguntou exasperado, não segurando a língua.

André quase o assassinou apenas com o olhar.

“Cala a boca, Davi!” André exclamou, mortificado.

“O que é enema?” Fafá quis saber, mas o loiro o mandou calar a boca também e mudou radicalmente de assunto, começando a falar de modo um tanto aleatório sobre a faculdade e todas as provas finais que viriam pela frente. Dirigiam-se para as últimas semanas de aula.

Para ajudar, Guilherme também contou sobre as da engenharia, e o Davi o acompanhou, até porque sentiu, com um arrepio, que o loiro poderia matá-lo ali mesmo caso desse continuidade àquele assunto. Nesse meio tempo, Vilão se cansou e se deitou na grama perto deles, ignorando todas as mordidas e rosnados que recebia do Sascha, que, mais filhote, não parava quieto um minuto. Sascha havia crescido uns bons centímetros, afinal, já estava com uns quatro meses.

Claro, curioso como era, até o final da tarde o Fafá ainda perguntou umas três vezes o que era esse tal enema que o loiro havia comprado, e por quê. André o ignorou todas as vezes, assim como o Vilão ignorava o Sascha. Só esperava que ele não fosse pesquisar sobre o assunto na internet, corava só de imaginar. A verdade era que o dia dos namorados seria no próximo final de semana, e ele e o Fabrício haviam combinado de passarem o final de semana juntos em Gramado, uma cidade turística muito bonita da serra gaúcha.

E como seria apenas os dois, num hotel, no dia dos namorados...

XxxX

Lázaro saiu da última aula do dia já com um enjoo no estômago. Voltar para casa e conviver com os pais vinha sendo uma verdadeira provação desde que eles haviam descoberto sobre sua orientação sexual. Flávia não parava de falar sobre Deus, e obrigá-lo a rezar junto com ela. Sabia há muito tempo que a mãe era extremamente religiosa, mas ela nunca o havia obrigado a ser também. E agora ela parecia terrivelmente arrependida por isso, culpando-se por ele ter ‘ido para o mau caminho’.

Suspirou e começou a caminhar até seu carro, mas quando chegou lá, tomou um susto ao encontrar justamente seu tio homofóbico esperando-o, apoiado no próprio carro estacionado ao lado do seu. Arregalou os olhos sem entender o que aquilo poderia significar. Ele viera para xingá-lo, era isso? Se for isso, eu juro que vou dar um soco na cara dele, há muitos anos quero fazer isso. Pensou, apesar de perceber perfeitamente que o tio era muito mais forte e sabia autodefesa. Heitor não era o mais alto dos homens, um pouco menos de 1,80m talvez, mas impunha respeito e tinha um físico magro e forte, os ombros rígidos e a expressão praticamente sempre austera e superior.

“Tio Heitor...” Acabou falando ao parar em frente a ele. Pensou em xingá-lo, mas então se lembrou: Não posso dispensá-lo porque ele controla mais da metade dos negócios do meu pai, e o Adriano ainda deve pra ele. Apesar da raiva que sentia dos pais, não queria ferrar os negócios deles. “Estou surpreso.”

“Não fique. Há um bom motivo para eu procurá-lo. Entre no carro comigo um pouco, gostaria de conversar.” Ele pediu e abriu a porta do carro preto, que Lázaro tinha quase certeza tratar-se de um Porsche. Mas não entendia muito de carros. De qualquer forma, acabou entrando, sentindo-me extremamente desconfortável com aquilo.

Logo Heitor estava sentado ao seu lado, e o motorista, separado dos dois pelo vidro negro que isolava a parte de trás, colocou o automóvel em movimento.

“Então, como vai, Lázaro?”

“Tu deve imaginar, é tão homofóbico quanto meus pais. A vida não anda fácil, mas eu continuo a mesma bicha que sempre fui, apesar de tudo.” Disse descarado, cruzando os braços e voltando o olhar para a rua. Não podia falar abertamente com os pais, então falaria com o tio, ao menos um pouco. Era bom poder extravasar um pouco sua frustração, mesmo que falar aquilo talvez trouxesse dificuldades para o Adriano na firma. De repente, Lázaro não dava mais a mínima.

Heitor, no entanto, permaneceu impassível.

“Eu imagino como deve estar sendo difícil para todos. Mas não vim aqui tentar colocar alguma razão na tua cabeça.” Heitor se acomodou também. “O que eu acredito é que tu iria gostar de sair de casa, viver a vida como bem entende sem precisar dar satisfação aos teus pais.”

Lázaro arqueou as sobrancelhas, ressabiado.

“Isso seria ótimo, sim.”

“Posso fornecer isso. Pagarei uma quantia considerável mensal, pelo tempo que precisar. Posso te conseguir um emprego em outra firma.” Heitor cruzou as mãos sobre o colo, olhando diretamente para o sobrinho, seus olhos azuis mais sagazes do que nunca.

Lázaro ficou ainda mais desconfiado.

“E o que eu tenho de fazer?”

“Manter um olho no André para mim. Ele andou... Te defendendo esses dias, e retomou uma amizade antiga com certo rapaz. Mantenha um olho nos dois, se aproxime do meu filho. E depois me conte tudo.” Heitor determinou.

Tentara descobrir por si próprio, mas o André estava mais fechado do que nunca, não lhe obedecia como antes e sumia sem dar explicações. Afogado em trabalho como sempre fora, não tinha tempo para averiguar, mas tal assunto vinha lhe tirando o sono. Também havia uma razão para ‘contratar’ o afilhado – poupar a irmã Flávia de conviver com o filho, ela havia lhe ligado aos prantos implorando para que a ajudasse, pois o marido nada fazia. Heitor não era religioso como ela, mas a irmã se tornara exageradamente, após aquele episódio que toda a família havia enterrado no passado. Dessa maneira, manteria um olho no sobrinho, pela irmã, e daria um tempo para que ela absorvesse aquela história. Talvez dali um tempo aquela rebeldia adolescente do Lázaro passasse e ele se acertasse com alguma moça decente, se casasse e se encaminhasse na vida.

“Tu quer que eu descubra se teu filho é gay?” Lázaro riu daquilo, e continuou rindo mesmo perante a expressão irritada do mais velho. “Sério? E vou ganhar tudo isso até me ajeitar?” Era a chance perfeita.

“Meu filho não é gay. No máximo meteu-se com as pessoas erradas. Se algo estiver errado, o mandarei para a Europa novamente, dessa vez para terminar os estudos, sob os cuidados do avô.” Heitor se levantou e entregou um papel com uma conta recém-aberta para o Lázaro. “Depositarei o dinheiro nessa conta, à qual tens total acesso. Poderá alugar um apartamento próximo da faculdade.”

Lázaro aceitou, apesar da consciência pesada. Era isso, ou viver sufocado pelos pais. Ao menos tinha uma chance de começar de outra forma, com ajuda financeira.

E de qualquer forma, sempre odiara o primo.

XxxX

“Porra, essa prova de histologia prática me quebrou as pernas!” Gabi saiu do ICBS dizendo. A prova era prática, dez questões que poderiam ter subquestões, cada uma em um microscópio preparado pelas duas professoras da cadeira. Um minuto para olhar no microscópio e escrever, e no final entregava-se a folha à professora.

Mas a Gabi era quase sempre assim. Saía da prova dizendo que tinha se ferrado e, quando as notas saíam, lá estava um nove. Pior que ela apenas a Fran, que tirava dez – era a que mais estudava do grupo – e entrava na onda da morena, criando dramas junto. André não sabia se aguentaria aqueles dramalhões todos até o final da faculdade. Poderia até considerar suportar, caso elas realmente fossem mal, mas não quando era pura fachada. Massageou os olhos, ainda estavam esperando o Fabrício. Já o Rafael tinha a prova apenas às 17h30min, ainda nem aparecera de tarde no centro.

“O que tu botou ali na última questão? Eu olhei praquilo e fiquei muito em dúvida.” Gabi perguntou à Fran. As duas haviam se acertado assim que a Gabi retornou de Pelotas, jamais conseguiram ficar brigadas por mais do que alguns dias.

“Acho que coloquei que era astrócito protoplasmático.” Fran informou, e a Gabi deu um gritinho e um pulinho, batendo palmas.

“Então acertei!”

“Não sei se eu ‘tô certa né!” Fran exclamou, e a Gabi deu de ombros dizendo que ela estava sempre certa. Fran rebateu e a discussão começou. André massageou novamente as têmporas.

“Sério, vocês duas sempre estão certas, então parem com essa discussão sem sentido! Amanhã ela deve mandar o gabarito e vocês terão o dez de vocês.” As interrompeu, entediado. Só continuava ali, pois sabia que dali a pouco o Fabrício também sairia. Alguns colegas também estavam ao redor, discutindo a prova, mas poucos. Eles se aproximaram do trio.

“Olha quem fala, outro que só tira dez praticamente. E não estuda quase nada. Uui, eu tenho memória fotográfica.” Gabriella ergueu as mãos pra cima e disse num tom debochado que supostamente imitava o loiro. “Eu passei no vestibular sem fazer cursinho, sou melhor que todos vocês, uuuui.” Continuou implicando.

“Sério que tu passou sem cursinho?” Um dos colegas que se aproximou perguntou, chamava-se Matheus, e era baixinho, lembrava um macaco e ainda por cima adorava se intrometer em todas as conversas. André suspirou, desejando que Gabi fosse um guri apenas por alguns minutos, tempo suficiente para dar uns bons tabefes nela. Estava com dor de cabeça depois da semana com três provas seguidas, só queria ir para casa descansar.

Pelo menos amanhã iria viajar com o namorado e esquecer um pouco aquele final de semestre insuportável. Só de pensar nisso, tinha vontade de sorrir como um bobo, mas obviamente se segurava. Já chega o Fabrício sorrindo feito um bobo nessa relação, pensou com certa diversão cruel.

“Fiz um mês de cursinho, quando voltei da Europa.” André contou, mantendo o tom neutro apesar de, sim, já ter-se gabado disso algumas vezes só pra implicar com os amigos. Gabi e Rafa fizeram dois anos de cursinho, e conheceram a Fran e o Fabrício no segundo ano, sendo que esses dois haviam passado na primeira tentativa.

“Bah, que inveja. Eu tive de fazer quatro anos pra passar.” Informou outra colega, uma loira baixinha, irritadiça, que falava alto e era bastante extrovertida. Tinha um nome estranho que o André nunca recordava.

“Bah, quatro anos?! Mas o importante é que passou! Tem gente que faz quatro, cinco anos, e ainda assim não consegue!” Gabi disse para animar a loira. Ela concordou.

“Sim, eu nem me estresso mais com isso. Estou aqui na faculdade agora, como todo mundo. Posso ter demorado, mas consegui ao menos. Acho que na vida todo mundo tem seu tempo, não dá pra ficar se comparando com os outros.” Ela disse, bem segura de si.

“Isso aí!” Gabi ergueu a mão pra um high five.

Começaram um papo sobre cursinho, professores, aulas, e André nem prestou muita atenção, já que ficara tão pouco tempo naquela vida de pré-vestibulando. Minutos depois, Fabrício apareceu, caminhando daquele seu jeito despojado, de quem não tem pressa de nada, enquanto batia papo com a Ana, que se provara a garota mais inteligente da turma, e a Vanessa. Essa felizmente nunca se lembrara da noite da festa, e das palavras que Fabrício e André haviam trocado bem à sua frente.

Quando eles estavam quase perto, alguém lhe tocou o ombro. Virou-se e tomou um susto ao deparar-se com uma alma penada. No caso, o branquelo esquálido do seu primo.

“Lázaro.” O nome não saiu com muito prazer de seus lábios. “O que quer?”

“Que antipático, André. Como sempre.” Fez questão de ressaltar. “Será que posso falar contigo rapidinho?”

André queria apenas enxotá-lo como um cachorro de rua pedindo comida, mas respirou fundo e, fazendo um sinal para o Fabrício, se afastou um pouco do ICBS com Lázaro. Pararam quando chegaram a um pequeno caminho sob árvores atrás de um depósito longo mais à frente. Lázaro parou, torcendo as mãos. Seu olhar parecia arrependido.

“Desculpa pelas coisas que falei há algum tempo. Eu estava estressado, a situação lá em casa não ‘tá legal. Eu acredito que tu não contou nada, pois senão meus pais teriam comentado alguma coisa.” Disse com um ar triste. “Eu sei que tu também não gosta de gays, mas-“

“Não!” André o cortou. Odiava essa fama, queria mudá-la. “Não penso mais como antes. Não vejo nada de errado. Desculpa se algum dia eu te ofendi com meus comentários...”

Lázaro ficou surpreso, de verdade. Jamais esperaria um pedido de desculpas do primo.

“Quem é você e o que fez com meu primo?” Lázaro perguntou, brincando, mas em parte também sério. André fez uma careta de tédio.

“As pessoas mudam, ficamos um bom tempo sem nos falar... Mas então, tranquilo sobre antes. Eu imagino que deve estar sendo tenso passar por isso. Se eu soubesse que teus pais voltavam na manhã seguinte, não teria-“

“Não tinha como tu saber, de qualquer forma. Mas então... Acho que tu é o único da família que não está me condenando. Obrigado.” Falou abrindo um sorriso que deixou o loiro desconcertado. Quando havia visto Lázaro lhe sorrir dessa forma amigável? Nunca. Chegava a ser assustador e lhe despertar arrepios desagradáveis.

“Bem, se precisar de ajuda em alguma coisa...”

“Ah, obrigado. Sabe, meus pais continuam a não me deixar sair de casa. Estou trancado como um criminoso.” Suspirou com um ar cansado. “Foi bom descobrir sobre esse teu novo lado, André. Acho que poderemos pela primeira vez começar uma relação de primos de verdade.” Sorriu novamente, estendendo a mão.

“É, eu acho... Será um desafio te aguentar, mas acho que aguento.” André concordou irônico e apertou a mão do primo mala.

Lázaro alargou o sorriso. Foi muito mais fácil do que imaginara, o primo realmente havia mudado. Sequer percebia a falsidade de seu sorriso. Ele não conhece meus sorrisos verdadeiros. Pensou, e no fundo sentiu um enjoo no estômago por enganá-lo, considerando que o André, diferentemente de si, parecia sincero naquele aperto de mão.

Notas finais
EEEEEEEEEEE postei cedo! No fim esse meu feriado tá inútil e não ando conseguindo estudar nada. Meu final de semana lotou com as coisas a terminar haha! Próximo capítulo talvez demore porque ainda tenho de escrevê-lo *foge* e preciso ainda reformular os últimos capítulos da história, pois tive um zilhão de novas ideias para o final, e quero ajeitar tudo. Mas não, isso não é um hiatus, apenas demorará um pouquinho mais pro próximo. É isso, até maaaaaaaaaais! (ps.: Durante o findi respondo as reviews do extra, ok? Já respondi as do cap. 40, aí logo respondo as do extra!) Beijos!