Good Riddance
19 Acertar no coração
Notas iniciais
André teve de dirigir, já que Fabrício demoraria umas semanas ainda, até conseguir tirar a carteira. O loiro seguiu os comandos de Fafá, sem ter ideia de que caminho eles tomavam; também não perguntou – permaneceu em silêncio, apenas obedecendo. Não estava com ânimo para conversas ou o que fosse, mas seu rosto ganhou uma expressão desconfiada quando chegaram a um lugar um pouco afastado da zona mais urbana da cidade, onde parecia existir uma espécie de minissítio.
“O que é isso?” André perguntou, após dobrar da rua para uma estradinha de chão batido cercada de árvores, arbustos e verde num geral. “Estamos indo pro meio do mato?”
“Pode se dizer que sim.” Fafá riu, mas não deu maiores explicações. Depois de poucos minutos, chegavam a uma casinha de madeira e uns espaços cercados que lembravam uma zona de guerra. Um dos lugares cercados, numa área mais abaixada, porém visível, estava repleto de pessoas usando proteção e segurando armas de tinta, correndo e se escondendo do time inimigo.
André logo compreendeu.
“Paintball.” Falou ao desligar o carro, e se virou para o moreno. “Sério mesmo?” Torceu os lábios, como se acabasse de ver um gordo de cento e cinquenta quilos dançando pelado à sua frente.
“Vamos!” Fafá exclamou empolgado e pulou para fora do carro feito uma criança que foge de um banho. André suspirou, vendo que não tinha alternativa a não ser seguir aquela criatura insana.
Fafá olhou para o loiro.
“’Tá parecendo uma lesma desidratada de tanto que se arrasta. Se tu quiser, te levo no colo.” Comentou jovialmente e piscou pro loiro, logo enchendo os pulmões de ar fresco. André abriu um sorriso forçado, na verdade sentindo mesmo vontade de pegar uma arma de paintball e dar um tiro direto nas fuças do moreno.
“Me lembre de nunca mais deixar tu fazer o que bem entender, sem perguntar nada antes.” André resmungou com um bico, acompanhando Fafá para dentro da casa de madeira onde pagariam pra entrar no jogo. Fabrício passou um braço pelos ombros do loiro, ignorando completamente o novo resmungo que ele soltou – lhe lembrava Cherry, que às vezes reclamava dos afagos, mas sempre acabava se rendendo.
Fabrício riu internamente da comparação mental.
“E aí, parceria. ‘Tá livre agora pra eu e meu amigo aqui?” Perguntou ao atendente e ergueu a mão, já cumprimentando o homem de maneira despojada, as mãos se encontrando mais na altura do peito. Era um homem barbudo com uma barriga de chope proeminente, trajando uma camiseta suja de tinta, e tomava um chimarrão quando os dois entraram na casinha.
“Bah, guri, ‘tá com sorte. O campo ‘tá liberado até as 17h. ‘Cês podem aproveitar uma hora e pouco de paintball.” Ele afirmou. Fafá olhou para André com um sorriso vitorioso, ao que o loiro fingiu comemorar.
André realmente conseguia transmitir uma energia animadora quando queria. Só que ao contrário. Uma sorte que Fafá não se deixava abalar fácil. Estava ali justamente para erguer o humor ruim do loiro.
Se ‘fardaram’ e foram guiados até a entrada da cerca do espaço que estava vazio. Era o maior dali, lembrava mesmo um local de guerrilhas da guerra do Vietnã, por exemplo. André chegou a pensar se não acabaria se perdendo ali dentro, e como eram apenas os dois, se acabariam por nem acharem um ao outro.
“Vocês têm sessenta tiros cada um. Se precisarem de mais, tem de vir até aqui. Mais vinte tiros equivale a mais dez reais, e por aí vai. Bom jogo!” O homem explicou e abriu o portão da cerca alta, entrelaçada, que impedia que qualquer um pulasse por cima dela, já que deveria ter uns três metros ou mais de altura.
Os dois avançaram pela trilha inicial, até chegarem numa área mais aberta, mesmo que repleta de árvores e mato, pequenas trincheiras no meio de tudo isso e restos de guaritas que serviam como pontos rápidos de observação e tiro.
“’Tá, não tem graça se não apostarmos alguma coisa.” Fafá, sempre mercenário, decidiu antes que se separassem. André achou a ideia pouco segura, mas não iria demonstrar receio, afinal, tinha certeza de que ganharia a disputa.
“Vai valer o quê? E quais são os critérios de vitória?” Perguntou, apoiando a arma longa sobre um dos ombros. Fafá abriu um sorriso tão perverso que o loiro se arrepiou inteiro, experimentando uma fisgada nada agradável na boca do estômago. Fafá com aquela expressão não era bom sinal, definitivamente não.
“Quem ganhar pode pedir o que quiser pro outro, no momento que quiser.” Estendeu a mão para André. “E não vale dar pra trás depois.” O loiro hesitou, não gostando nada daquilo, atitude que Fafá captou e, com um sorrisinho malicioso, complementou: “Ou fica com medinho demais pra apostar?” Implicou.
“Rá!” André exclamou com descaso e bateu a mão contra a do moreno, apertando-a com firmeza. “Até parece.” Disse empinando o nariz, mas não deixou barato; resolveu contar vantagem. “Só avisando que já fiz um mini-curso de tiro ao alvo durante minha viagem pela Europa. E pra não deixar só tu escolher, digo que vence quem atingir um tiro diretamente-“ André se aproximou um passo do Fafá, mirando-o olho no olho e pressionando o dedo indicador contra o peito protegido do moreno. “No coração.”
Fafá achou que André ficava muito atraente com aquele ar ameaçador e autoritário, os olhos azuis com um brilho determinado. Sorriu ao ver que ele já parecia mais animado, esquecido momentaneamente do amigo no hospital.
“Fechado.” Aquiesceu, achando justo.
Iria acertar André no coração.
XxxX
André parou, apoiando uma mão no joelho e o antebraço numa árvore de tronco fino. A respiração era ofegante, e ele se perguntava onde todos aqueles anos de natação e vôlei haviam ido parar? Tudo bem que ficara quase um ano viajando sem nem pensar em se exercitar, e só retornara a isso há uns três meses. Mas em três meses deveria conseguir correr o suficiente para vencer do Fabrício! As aulas, os treinos de futebol, vôlei e as corridas vespertinas vinham deixando-o bastante cansado, percebeu puxando fundo o ar.
O calor era irritantemente cruel, e suor escorria por sua nuca e costas. Seria bom cair na piscina de casa naquele momento. Mas primeiro precisava ganhar do moreno. Não queria um ser como o Fabrício, obviamente subdesenvolvido – não importava o fato que passara em medicina –, contando vantagem mais tarde.
Contar vantagem é uma das minhas especialidades. Pensou resoluto, enchendo o peito de ar com um vigor renovado. Já havia atingido Fafá na perna, uma na coxa, duas nos braços, no abdômen e até no capacete. E ele o acertara na bunda (desgraçado!), na panturrilha, nas costas por duas vezes e na mão. A mão doía pra caramba ainda. André o faria sofrer, ah, se faria!
Suas orelhas pareceram se eriçar ao escutar barulhos suspeitos pela mata. Segurou firme a arma e correu em busca de proteção, mas não foi rápido o suficiente. Acabou levando outro tiro na bunda.
“FAFÁ, SEU PUTO!” Gritou furioso, levando a mão à bunda dolorida e olhando pra trás, com sua expressão mais assassina. Fafá soltava uma risadinha, mas ao ver a expressão do loiro, engoliu em seco. Não sei como um rostinho bonito como esse consegue ficar tão assustador de um minuto pro outro! pensou, e teve de correr para trás de uma das tábuas longas pregadas às árvores, que serviam como proteção. Se tivesse ficado ali, não duvidada, teria levado um tiro no saco. E deuses, só de imaginar já se sentiu estéril, incapaz de fazer um filho no futuro.
Então os tiros começaram de ambos os lados. Os dois corriam de um ponto de proteção ao outro, se perseguindo, alternando entre fugir e atacar. Trocavam insultos e implicâncias de ambos os lados, interrompidos em alguns momentos pelas risadas. André achou injusto quando Fafá, correndo, tropeçou nuns galhos seco e caiu de boca na grama. Injusto porque ele caiu na gargalhada, exclamando um “que retardado!” e, com isso, levou um tiro no quadril, bem em seu osso ilíaco, o que o fez dar um pulo de dor nada digno.
Foi a vez de Fabrício gargalhar, ainda estirado no chão. André, ainda sofrendo, ergueu uma sobrancelha e lembrou-se que os dois estavam perdendo o ponto – tinha era de acertar o peito de Fafá! Pegou a arma e mirou, mas Fabrício bem na hora girou e o tiro pegou nas costas. André bufou ao ver o moreno se levantar e correr. Então ele acha que pode fugir? Pensou indignado e se pôs a correr atrás dele. Sem atirar, afinal, de nada adiantaria acertá-lo novamente nas costas.
O que André não previu foi que Fafá se virasse de súbito, com uma velocidade impressionante, e erguesse a arma. Não teve outra opção que não fugir pela tangente para escapar do tiro. Mas o desvio o deixou com pouco equilíbrio e, antes que conseguisse firmar os pés no chão irregular, Fabrício estava correndo em sua direção e, de alguma forma que mais tarde nenhum dos dois saberia explicar, se chocaram e caíram engalfinhados no chão.
“Filho da mãe!” André exclamou tentando chutar Fabrício para longe. Os dois rolaram na grama, meio aos risos, meio ofegantes, meio tentando buscar uma brecha para dominar um ao outro.
“Quieto, loirinho! Facilita aqui pro vencedor!” Fafá rebateu, tentando segurar os pulsos de André.
As armas haviam se perdido em algum lugar entre a grama.
“Um vencedor não fica pedindo pro adversário facilitar, idiota!” André replicou e, com um impulso, conseguiu ficar por cima de Fabrício, sentado sobre a cintura do moreno. “Arrá!” Exclamou vitorioso, mas estranhou o sorrisinho que Fafá abriu.
“E aí, Santa, como vai atingir meu peito sem a arma?” Perguntou e colocou as mãos no quadril do loiro, alargando ainda mais o sorriso. “A não ser que esteja pretendendo me ganhar de outra forma.” Implicou, com uma malícia sutil.
André entreabriu os lábios e corou, notando a posição dos dois. Rapidamente o loiro girou o corpo em busca da arma, saindo de cima do Fabrício. Por sorte ela estava por perto e André conseguiu agarrá-la. Virou-se ágil, rapidamente mirou o moreno e atirou.
E teria dado certo... Caso os tiros não houvessem acabado.
Fabrício gargalhou.
“Cacete!” André exclamou horrorizado com sua falta de sorte e com a injustiça crescente de sua vida, enquanto o outro ria descaradamente. André tentou levantar para pegar a outra arma, porém Fabrício o impediu de se afastar e, no instante seguinte, André estava de cara contra a grama com Fafá sobre si, empurrando um de seus ombros contra o chão com uma mão de ferro. O moreno esticou o braço e conseguiu alcançar a outra arma. Segurando o ombro do loiro, Fafá o virou no chão colocando-o de barriga para cima e, então, segurou-lhe rapidamente os pulsos acima da cabeça, deixando André completamente vulnerável.
“Parece que aquele teu curso de tiro ao alvo não ajudou em muita coisa, já que nem sabe dizer quando os tiros da tua arma acabaram.” Falou trocista, com um sorriso maldoso, e apontou a arma no peito ofegante do loiro. Ele próprio estava respirando com certa dificuldade. A luta dos dois por controle havia sido intensa.
“Essa é a minha arma!” André reclamou. Tinha certeza de que a sua ainda tinha alguns tiros, mas ela estava agora nas mãos do Fabrício. Mais uma injustiça! Nunca mais jogo paintball, pensou emburrado.
“Talvez isso te ensine a deixar de ser tão arrogante...” Fabrício falou num tom baixo, olhando diretamente para os orbes azuis do loiro. André sentiu um arrepio. Fafá estava estranhamente diferente. Mais... másculo com aquele jeito cruel de quem atiraria em seu coração sem dó nem piedade. Quê?! Mas que diabos... Preferiu ignorar suas próprias impressões, e o arrepio em sua nuca e braços.
Filetes de sol ultrapassavam as árvores e atingiam os olhos claros e sensíveis do loiro, então ele os fechou, segundos antes de sentir o tiro contra seu colete protetor, no ponto exato que garantiria a vitória ao adversário. Gemeu pela pressão e dor do tiro tão próximo, e trincou os dentes por isso. Abriu os olhos somente ao sentir, com um sobressalto, a respiração quente do Fabrício contra sua orelha.
“Agora... Tu me deve um pedido.” Fabrício sussurrou de uma maneira estranha, como se já tivesse algo em mente. E algo de que André não gostaria nadinha. “Qualquer um.”
André achou melhor não ter apostado nada. Com um resmungo, puxou os braços e, liberto, empurrou o Fabrício, que caiu para o lado, rindo de sua expressão emburrada.
“Sei disso. O que tu quer?” Perguntou, querendo saber logo para se livrar o quanto antes da aposta. Olhou para o Fabrício, estirado na grama com uma expressão estupidamente satisfeita e um olhar que, de uma maneira igualmente estúpida, pinicou suas bochechas.
“Vou esperar o momento mais propício para dizer.” Fafá falou, dando de ombros com descaso e desviando o olhar. André o encarou com os olhos estreitados, mas acabou se deitando na grama também, cansado de toda aquela correria e adrenalina.
“Tenho medo do que tu vai pedir.”
“É pra ter.” Fafá replicou, sorrindo maroto.
“Não acredito no teu bom-senso.” André reforçou.
“Eu também não.” Fafá concordou, colocando as mãos atrás da cabeça. André revirou os olhos e o socou nas costelas, o que levou Fabrício a atacá-lo e começar uma tortura em forma de cosquinhas que chegavam a machucar de tanto que o loiro ria.
André odiava cosquinhas.
“Para! Eu odeio isso! Para, Fabrício!” Implorava, de uma maneira muita engraçada aos olhos do Fafá. Nunca vira alguém tão irritado rindo tanto ao mesmo tempo. O moreno percebeu que estaria em risco de vida assim que o liberasse da tortura. Mas não podia evitar, afinal, era o máximo de contato físico que podia ter com o loiro por hora... Sem contar que era sempre revigorante irritá-lo até o limite.
Fafá pulou para longe – devido ao risco de levar um chute bem dado na bunda – quando achou que o André estava perto de ter uma asfixia por ‘risada fisiológica exacerbada’. André bem que sentiu vontade de pular em cima do moreno para dar o troco, mas o abdômen todo doía e precisava de ar. Respirou fundo, colocando as mãos sobre a barriga e fechando os olhos pelo cansaço.
“Neste momento, eu te odeio.” Deixou bem claro. Fafá soltou uma risadinha divertida que soou extremamente revoltante aos ouvidos do loiro, pois era uma risada de quem desconsiderava por completo aquela afirmativa. André soltou um ‘hunf’ inconformado, porém continuou deitado, a testa franzida.
Um silêncio agradável se instaurou entre eles. Fafá deitou na grama também, colocando novamente as mãos atrás da cabeça enquanto olhava para o céu parcialmente encoberto pelos galhos das árvores. Pareciam distantes de tudo, ali, ouvindo o barulho do vento contra as folhas verdes, sentindo a maciez da grama sob as costas e apreciando o canto de alguns passarinhos que retornavam agora que o ‘tiroteio’ havia terminado.
“Tu se lembra de como nos conhecemos...?” André perguntou de repente, sendo pego por uma forte nostalgia. Naquela época, não se preocupava com nada. Tentava agradar aos pais, é verdade, mas sempre fugia deles quando tinha a chance. Não se preocupava com orientação sexual, dinheiro, faculdade. Nada. Naquela época, não via nenhum problema em ter uma amizade tão próxima com outro garoto – com Fabrício.
“Tu ‘tava chorando no parque, e eu te arrastei até a minha casa.” Fafá se lembrou de imediato. Engraçado que aquela memória tão distante parecesse tão sólida depois de tantos anos.
André soltou uma risada rasa pelo nariz, um pouco abatido.
“Se eu ainda fosse criança, negaria que estava chorando. Esse era o tipo de preocupação que eu tinha, agora me parece uma grande bobagem se preocupar com um choro, principalmente quando se tem quatro anos.” Falou com a voz um tanto arrastada, pensando seriamente sobre isso. Fafá percebeu um leve desconforto no tom do loiro e virou de lado, voltando o olhar para ele. André abriu os olhos, mas continuou a olhar para cima. “Eu quero que esse preconceito que eu tenho... Ou melhor, tinha contra homossexuais também seja assim, que eu possa olhar pra ele e pensar: que grande bobagem.”
Nem comentou o preconceito contra gente de classe baixa. Nunca se importara realmente com isso, um de seus amigos mais próximos – Lucas – era inclusive o tipo ‘pobretão’. Os pais o incentivavam a andar só com gente de ‘classe alta’, é verdade, mas André só usara isso como desculpa para desmerecer o amigo de infância nos anos em que estiveram separados, e principalmente quando ele pareceu não se lembrar de si no início do semestre. Não havia mais nenhum outro ‘defeito’ no moreno que pudesse levar em conta. E xingá-lo e menosprezá-lo, quando a saudades ou despeito pelo esquecimento eram grandes, era a única forma de apaziguar tais sentimentos.
“Acho que no fundo tu sempre achou isso.” Fafá falou baixo, resgatando o loiro de se afundar em pensamentos sufocantes, porém André negativamente balançou a cabeça.
“Tu não entende... Eu não contei o que eu falei pro Davi quando ele apareceu na minha casa pra dizer que gostava de homens. Eu fui... Mais que um idiota, e quando eu penso nisso... Tsc.” Apertou os olhos não encontrando palavras e balançou novamente a cabeça, os punhos apertados sobre a barriga. “Eu não entendo como alguém como tu, tão livre de preconceitos, pôde querer retomar a amizade comigo, meus pensamentos vão, ou iam contra teus tios que tu adora, contra o que tu acredita, e ainda assim...”
“Eu te conheço desde pequeno.” Fafá interveio ao perceber que André ficava cada vez mais desconfortável. “’Tá certo que passamos quase nove anos sem nos ver, mas fomos amigos por quase sete anos, eu sabia como tu era antes, e eu sabia que tu ia acabar pensando melhor. ‘Tá que éramos só crianças, mas muito do que somos hoje se deve justamente a essa fase, aprendemos muito quando somos pivetes, internalizamos muitas coisas, mesmo sem nem saber.” Explicou. “Eu não sou de julgar, e isso incluiu não julgar alguém antes de tentar entender o que se passou. Justamente porque nos afastamos, eu não sei o que tu passou pra acabar com esses preconceitos que, talvez até já existissem no teu ambiente familiar desde aquela época, mas tu não exteriorizava e nem se importava... E outra, eu vi como tu ficou depois dessa conversa entre tu e o Davi, tu ficou parecendo um zumbi deprimido e ainda mais mau-humorado que o normal por mais de uma semana, e depois ficava do nada com umas caretas de quem ‘tá com dor de barriga e não tem banheiro por perto.”
André soltou uma risada rápida, de um humor que vem e logo se esvanecesse. Apenas Fabrício para fazê-lo rir quando se sentia afundando na lama. Assim que a risada morreu em seus lábios, lágrimas quiseram surgir nos olhos, mas o loiro as segurou, respirando fundo.
A imagem do Davi no hospital era algo difícil de lidar.
“Ou seja, tu já ‘tava arrependido do que quer que tenha dito pro Davi, antes mesmo de ele e o Guilherme apanharem. Só era teimoso demais pra admitir.” Fabrício concluiu.
André ficou em silêncio por um tempo, agora que pensava sobre isso numa nova ótica, percebia que sim, estivera arrependido daquilo desde o momento em que despejara seu preconceito em cima do amigo. Só desejava ter reparado o erro mais cedo...
Esfregou a palma da mão contra a testa por um momento, como se pudesse esfregar para longe os pensamentos ruins.
“Tu é bonzinho demais, Fabrício.” André afirmou, erguendo o canto do lábio superior com um certo desdém. “Não devia ficar vendo só o lado bom das pessoas. Menos ainda quando se trata de alguém como eu.”
Fabrício imediatamente caiu na gargalhada – uma gargalhada alta e gostosa que o fez apertar o estômago e fechar os olhos enquanto ria. Pego de surpresa, André se virou para ele com os olhos arregalados e a boca entreaberta, não entendo aquela reação maluca.
“Qual o teu problema?” Perguntou, meio irritado. Estava falando sério ali!
“Tu fala... como se fosse... um grande vilão...” Respirou fundo atrás de fôlego, o riso o atrapalhando a casa palavra. “Mas se derrete todo... por causa do Sascha... e ainda fica vermelhinho... por qualquer coisa!” Finalizou, rindo-se ainda mais.
André, como dito, ficou vermelho. Mas dessa vez, vermelho de raiva.
“Idiota!” O empurrou pelo ombro. “Para de rir!” Continuou a cutucá-lo, sentindo-se bastante frustrado pelas risadas debochadas do outro. “Hei! Fica quieto!” Exigiu, mas era em vão, quanto mais pedia e mais o cutucava, mais Fabrício ria. Até que André, com um beiço contrariado, desistiu e voltou a se deitar de costas, resmungando algo sobre ‘gente fugida do hospício que não tinha o menor respeito com os mentalmente sãos’.
Fabrício lentamente se acalmou das risadas, até ficar apenas com um sorriso bobo no rosto. Estava feliz pelo loiro estar abrindo os olhos quanto a questão da homossexualidade, apesar de isso ter custado a integridade física de duas pessoas, o que o entristecia pelos rapazes agredidos. Ainda assim, sentia que o loiro eventualmente teria superado aquilo, mesmo que demorasse mais. Sabia que André tinha medo do pai quando criança, e suspeitava que ele ainda sentisse esse medo repressor hoje em dia, mesmo que já fosse independente e nem mais morasse com o Heitor.
“Mais um pouco tu vai perceber que qualquer um pode chorar, tanto quanto beijar e amar quem bem desejar, e que não há nada de errado com isso. Agora talvez ainda seja um pouco estranho e diferente, mas depois vai ser como desejar uma coca-cola bem gelada num dia quente.” Fafá falou agora mais sério, porém dando voz ao vício por coca-cola.
André soltou uma risada airada, quase sem som, pela boca.
“Tuas comparações são péssimas, sabia?” Balançou a cabeça em negação. “Tua comparação tinha de ser com algo que todo mundo gosta e faz naturalmente. Tem gente que não gosta de coca-cola.”
“Essas pessoas têm problemas.” Fafá sorriu sapeca.
“Onde foi parar a parte sobre ‘não julgar os outros’?” André perguntou irônico.
Fafá coçou a barba por fazer, pensativo.
“Talvez eu tenha certo preconceito com quem não gosta de coca e de churrasco... Droga, eu me sinto tão hipócrita agora.” Lamentou, parecendo realmente chateado. “Eu preciso aprender a aceitar os bebedores de água e os comedores de alface.”
André dessa vez riu alto, a ponto de fechar os olhos por uns segundos, o que contagiou o moreno, que acabou o acompanhando no riso. Quando o loiro parou, virou o rosto pro lado e observou diretamente os orbes negros do outro. Fabrício tinha olhos castanho-negros, porém mesmo assim transmitiam uma sinceridade e energia contagiantes, como se houvesse luz dentro deles.
Esticou o dedo mindinho entre os dois, como Fabrício havia feito naquele dia em que se conheceram.
“É uma promessa: eu vou aprender a deixar todos os meus preconceitos idiotas de lado, e tu vai deixar o teu contra ‘bebedores de água e comedores de alface’.” Determinou, com ares de seriedade permeando a vontade que ainda tinha de rir e revirar os olhos.
“Feito.” Fafá aceitou a ‘promessa do mindinho’, entrelaçando o dedo ao do loiro. Um entendimento silencioso se instaurou entre os dois e, depois de vários minutos, os dedos continuavam presos um ao outro.
André sentiu o rosto corar quando Fafá deslizou os outros dedos por sua mão, num carinho lento. Manteve o olhar naquele contato por uns segundos, mas logo voltou mirar o céu, envergonhado demais para continuar a ver, permitindo-se apenas sentir. Evitou pensar além daquele lugar, daquele momento, apenas retribuiu ao carinho, imaginando como se pudesse descobrir, apenas com aqueles toques singelos, tudo que perdera sobre o moreno naqueles últimos nove anos.
O coração acelerava conforme sentia os dedos dele envolvendo os seus, tocando com suavidade. Eventualmente fechou os olhos, num misto de nervosismo e vergonha e de tranquilidade e liberdade ao retribuir ao toque.
Toque este que poderia significar tantas coisas.
Tantas.
Fafá também sentia o coração palpitando pelo contato, porém não fechou os olhos, e alternava o olhar entre as mãos enamoradas e o rosto ruborizado, de olhos ligeiramente apertados, do André. Sorriu pelo canto da boca, suavemente, achando o loiro especialmente fofo daquela maneira.
Ficaram assim, desligados do mundo, conectados apenas um ao outro, até que o tempo que tinham no campo terminasse e tivessem de retornar à realidade, fingindo que não continuavam com as mãos formigando, e com o coração batendo forte.
XxxX
O pôr do sol do Guaíba é considerado pelos gaúchos um dos mais bonitos do Brasil, senão o mais bonito. Bem coisa de gaúcho, mais bairrista impossível. Fafá concordava com aquilo, adorava o pôr do sol dali. Gostava de assisti-lo ali, próximo do Gasômetro, à beira do Guaíba.
Os garotos, depois do paintball, foram pra casa, tomaram um banho, e depois André voltou a pegar o carro para buscar Fafá, Gabi e Natália para irem ao gasômetro. Leo também foi convidado por André, mas o garoto recusou, pois já tinha algo marcado para a noite. Já Natália ainda estava abalada pelo que acontecera, e ficou grata pela chance de desviar os pensamentos dos últimos eventos.
André agradecia a Fabrício por isso. Ter o amigo de infância em sua vida... Realmente fazia a diferença. Sorria internamente, tomando um chimarrão, enquanto tinha um braço ao redor dos ombros de Natália, sentada ao seu lado sobre a toalha que a garota trouxera para colocar no chão. Natália mantinha a cabeça apoiada no ombro do loiro, com uma expressão um pouco distante, triste. Era estranho para ela estar na companhia de Fabrício depois do flagra, mas via que ele era gente boa e resolvera deixar isso pra lá.
Ele e André que se resolvam, pensou ao se lembrar da noite da festa.
(...)
Arrastou André até a moto, enquanto se perguntava como o levaria para casa na carona, visto que ele parecia mal conseguir se segurar. Nunca vira André tão bêbado, mas pelo que o loiro falara, ele já havia bebido bastante durante todo o dia, talvez o fígado já houvesse ficado saturado de tanto álcool. Natália se sentou com ele no chão, ao lado da moto, com a cabeça girando pelo que havia visto, enquanto André deitava a cabeça em seu ombro, sonolento.
“Tu gosta dele?” Perguntou, acariciando distraidamente os cabelos do loiro. “Desse jeito... De beijar?”
André apenas resmungou ininteligivelmente e murmurou o nome ‘Fabrício’.
“Parece que tu gosta.” Riu da ironia daquilo. “Oh, deus, eu tenho um amigo gay, e outro bissexual, e nem fui capaz de perceber isso. Sou tão idiota...”
“Eu gosto...” André voltou a murmurar, parecendo quase dormir, e novamente o nome do moreno escapou de seus lábios. Natália suspirou. Fora bom que o Davi houvesse saído do armário antes, a ajudava a encarar o momento atual já que, de uma pessoa que não agredia nem defendia homossexuais, passara a ser uma espécie de defensora da liberdade sexual e coisas assim depois do Davi confessar gostar de homens.
Acariciou mais um pouco os cabelos do loiro, antes de puxar-lhe a orelha. André soltou um gemido alto de dor e pareceu acordar um pouco, levando a mão até a orelha dolorida.
“Por que fez isso?”
“Não dorme, pateta. Temos de voltar pra casa ainda, e se eu pego um táxi e deixo tua moto aqui, amanhã sou uma guria morta.” O beliscou mais vezes até que estivesse completamente acordado para que voltassem para casa. Uma sorte que não havia bebido até cair, e o susto que tivera ao ver André aos beijos com Fabrício parecia ter eliminado todo o álcool em seu sistema.
(...)
Gabi e Fabrício falavam bobagens aos montes, tentando manter erguido o ânimo dos dois. Fabrício imitava alguns professores que eles tinham, e o fazia de uma maneira tão igual e hilária, que era impossível para todos não gargalharem, até Natália, que nem conhecia quem ele imitava.
“Que tal brincarmos de mímica?” Gabi sugeriu, empolgada. “Com filmes! A gente tem, em duplas, de fazer a cena de um filme, e a outra dupla tem que acertar!” Disse, com um ar infantil.
“’Fechou todas!” Fabrício logo acatou a ideia. “Eu e tu vamos primeiro.” Disse para Gabi e já a fez se levantar, antes mesmo que os outros dois tivessem alguma chance de negar. Os dois cochicharam um com o outro antes de começar a imitação. Começaram com uma imitação complemente capenga de A Era do Gelo.
“Mas o que diabos é pra ser isso?” André perguntou com uma careta. “Um elefante?”
“Dumbo?” Natália sugeriu, em dúvida. Depois de minutos de luta, Fafá, de uma forma nada digna, começou a imitar Scrat, o esquilo.
Gabi gargalhou.
“’Tá muito igual!” Ela riu ao ver Fafá andando de joelhos segurando o celular nas mãos e tentando escondê-lo em qualquer lugar que visse, mexendo o nariz como um ratinho e olhando pros lados para se certificar de que não havia ninguém por perto. Quem olhava de fora obviamente achava que se tratava de algum louco com uns parafusos a menos. E bem... Não estavam enganados.
“Espera! É aquele rato daquele desenho, que esconde a noz!” André disse, estalando os dedos, sem conseguir lembrar.
“Era do Gelo!” Natália gritou como uma leoa que captura sua presa. André não sabia como, mas ela conseguia ser mais competitiva em jogos do que ele próprio. Fafá e Gabi ergueram as mãos para o céu, por eles finalmente acertarem.
“Que cena era aquela?” André perguntou de testa franzida.
“Aquela que o gelo ‘tá abrindo e eles correm, e o mamute joga o Diego, mas cai na lava em cima de um pedaço de gelo, mas aí acaba voltando.” Gabi tentou explicar, gesticulando com os braços.
“Vocês são péssimos imitando.” André declarou sem dó nem piedade, e se ergueu com Natália para imitar algum desenho. Gabi o xingou.
“Mostra aí então, bonzão!”
“Com o Santa, é só ele imitar a Bela Adormecida. É igualzinho.” Fafá implicou de volta, rindo quando o loiro lhe mostrou o dedo do meio. A brincadeira se seguiu até que Natália também estivesse com um humor melhor.
Ao final, ela abaixou o olhar, segurando o choro.
“Obrigada por me convidarem. Foi muito legal conhecer vocês dois melhor.” Ela olhou para Fabrício, que coçou os cabelos. Lembrava-se da lição de moral que ela lhe dera depois de flagrá-lo agarrando André.
Da próxima vez que tentar beijá-lo, seja menos covarde e vê se tenta quando ele estiver sóbrio.
Que braba! Pensara naquela noite. E ela parecia mesmo, mas também era uma garota legal. Sentia-se bastante constrangido por ter agarrado o garoto com quem ela tinha uma espécie de caso, mas se surpreendia por ela ainda ter dito para beijar André de novo, e que tivesse vindo até ali e estivesse agindo naturalmente. Ela parecia importante para o loiro, então era importante pra Fabrício não ser odiado pela guria...
“Foi bem melhor do que ficar em casa, revivendo... Vocês sabem.” Ela murmurou, apertando as mãos sobre o colo. “O Leo me contou que tu visitou ele, Dré. Obrigada mesmo por isso, estou orgulhosa.” Ela disse e abraçou o loiro, apertando os olhos para não chorar.
André, surpreendido, a abraçou de volta, sentindo uma pressão no peito. Por mais que se distraísse, a realidade não mudava. Davi continuava no hospital, por causa de um bando de idiotas. Idiotas preconceituosos, como eu. Era o que sempre lhe vinha à mente, fazendo-o sentir-se uma pessoa de merda.
“Hei. Desculpe atrapalhar, mas o pôr do sol está acontecendo, e eu ‘tô aqui tomando um chimarrão e quero uma música de fundo. Então, Fafá, mãos à obra, porque se eu cantar, espanto até gato morto.” Gabi ordenou cheia de propriedade e tomou mais um gole de seu chimarrão.
“Opa! ‘Tá pra mim, ‘que a voz da Gabi é pior que CD da Xuxa de trás pra frente!” Fabrício falou e pegou o violão que, como sempre, havia trazido. Não sem antes levar um tapa na amiga. Natália sorriu para o moreno de maneira esperta, como se tentasse se comunicar com ele, e se sentou comportada sobre a toalha, reparando na troca de olhares que os garotos tiveram quando Fafá começou a tirar algumas notas do violão.
A menina suspirou. Tão óbvios. E ainda vão perder o pôr do sol. Pensou e desviou o olhar, voltando-o para aquela aquarela de cores que se espalhava pelo céu em tons vívidos que enchiam o peito de uma satisfação inespecífica. Gabi lhe passou um chimarrão em determinado ponto, ao que ela aceitou, enquanto apreciava a música que Fabrício tocava.
Quando eu me perco é quando eu te encontro
Quando eu me solto, seus olhos me veem
Quando eu me iludo é quando eu te esqueço
Quando eu te tenho, eu me sinto tão bem
Você me fez sentir de novo
O que eu já não me importava mais
Você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
Fabrício sorriu para André e então olhou para o pôr do sol, rindo internamente da maneira que o loiro corara apenas com aquilo. Isso quer dizer que tenho alguma chance? É por isso que a Natália parece até nos dar algum suporte? Engraçado que não sentisse ciúmes dela naquele momento, talvez porque a amizade entre ela e o loiro lhe lembrasse a sua com Gabi. Só esperava que eles parassem com a parte colorida da coisa. Mas não tinha por que antipatizar com a guria, aliás, gostara dela, tinha um sorriso bonito e sincero.
Quando eu te invado de silêncio
Você conforta a minha dor com atenção
E quando eu durmo no seu colo
Você me faz sentir de novo o que eu já não sentia mais
Você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
André ainda demorou a desviar o olhar de Fafá, pegou-se pensando como o moreno sempre parecia escolher as músicas certas, nos momentos certos. Afinal, não havia sido Fafá que lhe fizera tão bem naquele dia que tinha tudo para ser tremendamente péssimo? Algo aqueceu dentro de si e, sentindo-se arrebatado por isso, deixou o corpo cair pra atrás, descansando a cabeça numa das coxas de Natália. Virou o rosto pro Guaíba, sentindo-se imerso naquele festival de cores avermelhadas, que acalmavam quem as olhava.
Gabi começou a acompanhar Fafá na cantoria. Os dois formavam uma boa dupla; apesar de Gabi não erguer muito a voz já que não era das melhores mantendo a afinação, eles pareciam já acostumados a cantar juntos em momentos assim, descontraídos.
Você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
Você me faz, você me faz tão bem
Não tenha medo
Não tenha medo desse amor
Não faz sentido
Não faz sentido não mudar esse amor
Você me faz, você me faz tão bem...
Era verdade.
“Vou visitar o Davi de novo amanhã, tu quer vir?” Natália perguntou, num sussurro dominado por uma melancolia calma. O loiro acabou por assentir, mesmo que não soubesse se o Davi iria querer vê-lo assim tão cedo. De qualquer forma, não queria discordar da amiga naquele momento.
André ainda observou Fabrício novamente antes do final da canção. Seus olhares se reencontraram, e os dois sentiram o coração se atrapalhar no ritmo dos batimentos; Fafá ainda dedilhando as últimas notas no violão, enquanto sussurrava “você me faz tão bem”. E quando Fafá sorriu para o André, o loiro, com certa dificuldade, retribuiu com um sorriso acanhado.
“AH! PIPOCA DOCE!” Gabi gritou estridente, quebrando o momento e assustando a todos.
A garota deu um pulo e correu atrás do carrinho de pipoca no calçadão a alguns metros, deixando os outros três rindo do ataque pipoqueiro que ela tivera – André reclamando que havia ficado surdo com aquele berro súbito.
Você me faz, você me faz tão bem...
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