Good Riddance

18 A soma de tudo


Notas iniciais
Hei, me amem, porque por vocês usei tempo de estudo pra postar, e agora vou madrugar estudando hoje. IUJHUIOAAJAUIOJHUIOAHUIO Obrigada pelas mais de 200 pessoas acompanhando essa história!

Davi olhava para o teto com a mente um tanto em branco pela quantidade de analgésicos circulando por seu corpo. Sua mãe cochilava na poltrona ao seu lado, exausta depois de ficar consigo por todo o tempo. O pai saíra há pouco, garantindo que já estava providenciado um cirurgião plástico de renome no exterior para colocar o rosto de Guilherme no lugar, algo que surpreendera Davi, pois jamais esperaria isso do pai, Edgar.

O namorado não era rico, longe disso, a família era classe média comum e ele trabalhava e estudava, numa rotina complicada. Trabalhava justamente numa das obras da família do Davi, já que ambos faziam Engenharia Civil. Fora Davi que conseguira o estágio pra Guilherme, depois de começarem a ficar. O loiro relutara, mas acabara aceitando, pois precisava mesmo da grana. Ele era dedicado no trabalho, e por isso Edgar não o demitira quando ficara sabendo sobre o namoro.

Davi sentia o coração apertado. Lembrava-se de ter visto pelo menos uns quatro dentes do namorado indo ao chão, junto com uma quantidade alarmante de sangue. Quando pensava nisso, as lágrimas insistiam em brotar, inesgotáveis, mas as reprimia para não preocupar ainda mais a mãe. Guilherme fora quem mais apanhara, tentando protegê-lo. Mesmo assim, ainda tivera um pneumotórax que quase o levara à morte, devido a uma costela quebrada que perfurara um dos pulmões, um pulso e o nariz quebrado, um olho inchado por um soco violento.

Ele sentia vontade de rir de toda aquela ironia. Tivera de apanhar para os pais demonstrarem algum carinho, preocupação e amor no olhar. Desde que contara que era homossexual, eles vinham tratando-o com tanta frieza que saíra de casa e fora morar temporariamente com o amigo Leonardo, o qual vivia sozinho e não se importava de dar-lhe abrigo.

Ainda assim, os pais se recusaram a lhe dar muitas informações sobre Guilherme, ou mandar um recado seu para ele. Provavelmente também vetarão alguma mensagem dele pra mim.

Suspirou, angustiado.

Até mexer a língua doía, ela teve de ser suturada porque a rasgara com o piercing depois de um dos socos. Nunca imaginou que apanharia tanto na vida, doera como o inferno, mas o efeito moral era ainda maior. Apanhar daquela forma, ser ameaçado, ver duas pessoas que amava serem agredidas – uma apanhando ainda mais e outra sendo ameaçada de violência sexual –, só por gostar de garotos, o fazia tremer de pânico, repulsa, ódio, pena. Por que os seres humanos precisavam ser tão intolerantes? Julgavam tudo, apontavam o dedo, torciam os lábios, fofocavam maldosamente, viravam o rosto, chegando aos extremos do ódio sem sentido e da violência.

Eu mesmo já fui um idiota, mas era tudo por medo de me aceitar. Pensou consigo mesmo, tentando se mexer, mas tudo doía. Um dos olhos estava enfeixado, não conseguia abri-lo. O nariz felizmente estava no lugar e não ficaria torto, mas fazia uso de óculos nasal, pois não conseguia mover a caixa torácica adequadamente para ventilar os pulmões.

A polícia estava averiguando. Ao que parecia, havia um grupo de marginais que há meses já vinha agredindo pessoas LGBT. A impunidade alcançava níveis alarmantes, uma travesti fora encontrada morta na Redenção. Edgar, pai do Davi, estava furioso e, talvez agora que um garoto de classe alta sofrera agressões, a polícia se mexesse. Davi lembrou-se de ter de agradecer à Natália por ter conseguido acionar a polícia com uma discagem rápida logo que o grupo se aproximou deles, uma pena que a viatura demorou tanto para aparecer, e quem os ‘salvou’ de verdade foi um grupo de rapazes que também saía da cidade baixa e por sorte pegara o mesmo caminho...

Quero ver o Guilherme. Davi pensou, apertando o único olho bom. Meu Deus, que tu esteja bem, te quero aqui comigo... Acabou fechando os olhos e cochilando não soube por quanto tempo, mas achou ser bem pouco. Reabriu o olho quando sentiu os lábios carinhosos da Kátia, sua mãe, em sua testa, junto com o perfume floral usual dela.

“Como tu está, meu querido?” Ela perguntou, afastando-se com um sorriso doce, mas fraco, enquanto acariciava seus cabelos cor de mel. Davi achava a pergunta absurda, é claro que não estava bem. Sentia-se deprimido, triste, machucado e tudo doía.

“Bem.” Falou mesmo assim, numa voz fraca e rouca.

“Há alguém aqui querendo te ver...” Ela murmurou, os olhos verde-água que Davi herdara, também sorrindo, feliz pelo filho ter amigos que se importavam com ele.

Davi olhou para porta e viu Leonardo, acabou por tentar sorrir, já que até isso era difícil. Leonardo era um garoto engraçado, adorava animais e tinha aquele sorriso mais contagiante do mundo. Não era nem baixo, nem alto, tinha um corpo esbelto e bonito, e Davi já o invejara por viver pegando garotas pela simpatia. Sabia flertar como ninguém.

Davi o adorava.

O pseudo-sorriso sumiu quando alguém apareceu por trás de Leonardo.

“André.” Davi falou com um suspiro. “O que foi, veio falar que eu mereci apanhar por ser uma bichinha desprezível?” Disse, ressentido. Provavelmente não agiria assim se a situação fosse outra, se o loiro não aparecesse em meio àquele sofrimento. Já bastava a raiva que suprimia dos pais. Precisava quase morrer apanhando para que as pessoas entendessem que continuava a mesma pessoa?

“Davi!” A mãe o repreendeu, chocado com o azedume do filho. Davi normalmente era um garoto muito doce.

“O que foi?” Davi rebateu, indiferente.

“Sra. Kátia... Será que a senhora poderia deixar a gente conversar um pouquinho com o Davi?” Leo perguntou educadamente, entrando mais no quarto e cuidando para não demonstrar o quanto estava horrorizado e abalado pelo estado em que Davi se encontrava.

André entrou também, inseguro, mal conseguia olhar para Davi.

“Claro.” Kátia assentiu e, depois de mais um beijo no filho, saiu, fechando a porta atrás de si. Davi desviou o olhar dos amigos, ficando calado. Leo, diplomático, se aproximou para ajudar no início daquela conversa. Já falara com André antes e via como seu estúpido amigo loiro estava arrependido. Resolveu ajudar, pois gostava muito de ambos.

“Que susto tu nos deu.” Leo falou, indo sentar-se na poltrona ao lado do leito do Davi. “Não imagina o alívio de ver que ‘tá tudo bem. Só perdeu o rostinho de emo sofredor. Agora só sobrou o sofredor.”

“Vai se fuder.” Davi replicou, mas acabou sorrindo meio trêmulo.

“Cara, eu chorei noite passada. Então, nada de mocinhos indefesos andarem na rua depois das nove, ok?” Leonardo decidiu, levando a mão para bagunçar os cabelos do Davi. “Não me preocupe mais desse jeito, sua bichinha safada.” Brincou, com um ar fraternal.

“Eu adoraria te dar um soco, não fosse pela minha costela quebrada, meu pulso imobilizado e o fato de que todos os meus músculos parecem estar com cãibras.” Davi retornou amigavelmente.

“Ótimo! Aproveitando que está com esse humor radiante, acho que tu e o André deveriam conversar.” Leo aproveitou a deixa, que de deixa não tinha nada, e se levantou. “Vou esperar ali fora, e quando vocês estiverem novamente trocando figurinhas sob o arco-íris enquanto cantam We Belong Together da Mariah Carey, me chamem pra eu participar também.”

Davi revirou os olhos, e então os manteve fixados na janela, evitando contato visual com André. O loiro sentiu-se coagido. Não sabia como agir, principalmente porque sabia ser o completo culpado por aquele clima péssimo que parecia esmagar suas cabeças e tornar o ar mais espesso.

Coçou o braço e se aproximou alguns passos.

“Davi...”

“Veio aqui se desculpar por ter nojo de mim? Obrigado, mas dispenso. De gentinha homofóbica perto de mim já tive o suficiente. Não te preocupa que Deus aprova tuas atitudes, e a dos caras que me espancaram também, ao menos é o que os religiosos afirmam. Então vocês todos vão pro céu, provavelmente. Só cuidado para não desejar a mulher do próximo.” Ironizou, ácido.

André estacou, arregalando um pouco os olhos. Geralmente ele era o ácido do grupo.

“Eu sei que mereço esse tratamento.” Falou.

“Ah, tu sabe? Que engraçado. O fato de eu ter sido espancado te fez perceber que ainda sou de carne e osso, já que posso sangrar e ser quebrado em dois? E as outras bichinhas do mundo, todas têm de passar pelo mesmo tratamento para receberem algum reconhecimento?” Perguntou, fixando então o único olho bom no loiro.

“Não!” André se aproximou mais, desesperado para que Davi o escutasse, e acabou se ajoelhando à beira do leito do menor. “Davi, olha, eu nunca iria desejar isso pra ninguém...”

“Violência física não, mas emocional ‘tá valendo, né? Porque a única coisa que machuca é um soco na cara, mas todo o desprezo das palavras, das atitudes, não machucam nem um pouco, é claro.” Rebateu, escorrendo ironia. Usava o loiro para descontar a raiva que sentia do resto do mundo, e do próprio André. Apertou os dentes, evitando chorar novamente.

“Eu percebo isso agora. É difícil de explicar, só sei que me sinto idiota. Mas tu também tem de ver meu lado! Até tu falava mal de homossexuais antes! Aí do nada me aparece dizendo que é gay, me pegou de surpresa, caramba!” Exclamou e apertou nervosamente com as mãos o lençol da cama. “Eu sei que sou um idiota, mas... Quero mudar isso. Só que antes tu precisa me perdoar.”

“Preciso?” Davi torceu o lábio inchado. “Preciso te perdoar pra acabar com a tua miséria e culpa? Como sempre, é um mimado egocêntrico, André. Eu não tenho de fazer nada.”

André baixou o rosto. Sabia que merecia aquilo também.

Talvez ele não me perdoe agora, mas com um pouco de tempo...

“Tudo bem.” Murmurou e, buscando coragem, pegou na mão do garoto. Ficou feliz por ele não afastá-la de imediato, apenas a deixando inerte entre as suas. “Eu vou te deixar descansar. Eu desejo melhoras. Também fiquei muito preocupado, e é um alívio te ver bem, apesar de tudo.”

Bem não era exatamente o que definia Davi. André sentia-se nauseado só de olhá-lo, não pela aparência em si, mas por ver o amigo de tantos anos naquele estado. Uma agonia cruel martelava na cabeça com a cena, com a situação.

“Só quero que saiba: me arrependo dos julgamentos que fiz, e ainda te considero meu amigo. Não tenho nojo de ti, mas de mim, porque... Tu tem razão, me sinto tão baixo e covarde quanto os caras que te agrediram, pois eu tinha os mesmos preconceitos que eles. Mas, por ti, quero mudar isso, e aí, na próxima vez que nos falarmos e tu puder me perdoar, nós poderemos continuar nossa amizade de onde paramos.” Falou tudo de uma vez. Eram palavras que ficara remoendo durante toda a noite, desejando mais do que tudo ter a oportunidade de falar. Era em parte egoísta, Davi estava certo – queria se livrar da culpa que sentia. Mas não deixava de ser sincero no que dizia.

Dito isso, se levantou e saiu do quarto rapidamente antes que acabasse demonstrando muita fragilidade na frente do Davi. Não queria atormentá-lo mais. E entendia que o perdão não viria de uma hora pra outra, nem tão facilmente.

Davi ficou encarando a porta depois que André saiu, os lábios entreabertos. Jamais esperaria tudo aquele discurso do loiro. E conhecia André há um bom tempo, sabia quando ele estava sendo sincero. Seu peito se aqueceu um pouco com aquilo e acabou soltando uma risada fraca pelo nariz enquanto balançava sutilmente a cabeça, antes de apoiá-la novamente nos travesseiros.

“Então...?” Leo surgiu sorrateiramente no quarto pouco depois. “Já se amam novamente?”

“Tu é o único que eu amo, tu sabe.” Davi rebateu, naturalmente.

“Claro. Só estava sendo legal. Já te contei meu próximo plano pra me livrar do teu namorado?” Perguntou bem-humorado, entrando no quarto. “Tenho de aproveitar que ele ‘tá lá todo estropiado que nem tu e não pode usar aqueles bíceps de aço pra me esmagar contra uma parede. Aliás, ele mandou eu te dizer que te ama e está louco pra beijar a tua boca, te jogar na cama e curar todas as tuas feridas.”

Davi sentiu lágrimas vindo-lhe aos olhos e dessa vez não conseguiu segurá-las; porém, em meio a elas, também foi capaz de sorrir de uma maneira mais digna.

“Ele disse isso?”

“Talvez eu tenha aumentado um pouquinho, mas não tenho dúvidas quanto a parte do ‘eu te amo’”. Garantiu com um sorriso e já se aproximou para dar algum carinho e conforto ao amigo, que começara a se debulhar em lágrimas.

XxxX

Fabrício aguardava André do lado de fora. Tivera oportunidade de trocar uma palavra ou duas com Leonardo e fora muito com a cara do garoto. Isso só provava que André tinha boas companhias – Fabrício se auto incluía nessa lista, claro. Se levantou da cadeira onde estava sentado, na frente do corredor dos quartos do hospital, quando viu André caminhando em sua direção.

“Tudo bem?” Perguntou cuidadosamente ao ver o jeito cabisbaixo do loiro. André apenas balançou negativamente a cabeça e se jogou no banco no qual Fafá estivera sentado, esparramando-se nele com o olhar voltado para o teto.

“Ele ‘tava todo machucado...” Murmurou, fechando os olhos e apertando os pulsos. Sentia vontade de devolver na mesma moeda o que haviam feito com Davi. “Falei com a mãe dele antes de sair... Ele quase morreu por falta de ar por culpa do pneumotórax. Isso tudo me deixa com tanta raiva.”

“É bom que sinta raiva.” Fafá disse condescendente. “Pior seria se ficasse indiferente, ou achasse que, sei lá, eles mereceram por se ‘exibirem’ juntos em público, coisas assim.” Disse. Conhecia alguns dos absurdos dos preconceituosos, através de relatos dos tios.

André pareceu tremer de indignação diante daquilo.

“Jamais!” Garantiu exaltado. “Não sou tão filho da puta assim!” Sentiu vontade de chorar novamente. Será que não era mesmo? O nojo de si mesmo não havia passado.

“Eu sei.” Falou, sentando-se ao lado do loiro, e inclinou-se para sussurrar perto do ouvido dele. “Não à toa eu gosto tanto de ti, não é?”

André sentiu um arrepio se alastrar da orelha para toda nuca, junto com a ardência nas bochechas. Virou o rosto para Fabrício, sentindo-se um tanto atordoado por aquele comentário. Não era nada demais, não é? Ele apenas está dizendo que gosta de mim, se não gostasse, não seríamos amigos. Dizer isso para si mesmo, no fundo, o machucou, mas não conseguiu entender bem o motivo. Estava tão cansado...

Fafá sorriu largamente, os olhos praticamente fechando, estreitados junto com o sorriso branco, lembrando um japonês. Tal gesto tranquilizou André, que voltou a descansar a testa no ombro do moreno, fungando baixo. Não sabia se sentia bem com o comentário, ou pior, pois achou que não merecia que alguém como Fabrício gostasse de si.

Sentia-se um verdadeiro lixo humano que merecia ser jogado no fedorento Arroio Dilúvio.

Ficaram em silêncio por alguns minutos; porém Fabrício não queria deixar o loiro se afundar em depressão, então teve uma ideia para animar o amigo.

“Sei que não vai deixar de se preocupar com o Davi até ele estar totalmente recuperado.” Fafá falou e se levantou. “Mas ficar aqui se lamentando e culpando não irá ajudar em nada. Vamos.” Estendeu a mão para ele, com um sorriso reconfortador e animado no rosto, tentando contagiar o humor do loiro que parecia abatido demais, com sinais de uma noite mal dormida.

“Pra onde?” André perguntou desconfiado, mas aceitou a mão de Fafá, permitindo que ele lhe puxasse para se levantar. Porém tão logo em pé, tratou de soltar a mão do moreno, experimentando aquele formigamento estranho.

“Tu vai ver.” Fafá garantiu com uma piscadela.

[...]

Fabrício era uma criança peste, na primeira oportunidade, desaparecia das vistas da mãe, ou da dinda, e ainda levava a “prima” Juliana – que não era bem prima pois os padrinhos eram na verdade apenas amigos de seus pais – junto. A menina tinha apenas dois anos e meio, Fafá quatro e alguns meses, e andavam de mãos dadas pelo Parque do Vale, local bem arborizado da cidade interiorana. Fafá de alguma forma fazia a menina rir, falando bobagens e fazendo patetices.

“Para de fazê caretas, Fafá!” A menina xingava e dava tapas fracos no braço do mais velho. Tinha cabelos castanho-negros, pele azeitonada e bonitos olhos escuros, como duas jabuticabas bem maduras. Fafá abriu outra careta exagerada e então exclamou:

“Vamos correr! A dinda deve ‘tá nos procurando!” Exclamou e segurou mais firme a mão da priminha, pondo-se a correr com ela sob protestos aos quais não dava atenção. Juju quase tropeçava nos próprios pés tentando seguir o ritmo do outro e ria até a barriga doer devido aos sons do primo, que parecia imitar ou tiros de uma arma, ou uma galinha assustada – ‘pó-pó-pó-pó’, era difícil discernir.

Quando entraram numa área mais arborizada do parque, seguindo uma trilha de areia com pedrinhas, alcançaram uma ponte por onde passava um riacho tranquilo, repleto de peixinhos. Pararam ofegantes, a menina reclamando e rindo ao mesmo tempo do chinelo havaianas que havia arrebentado pela corrida, enquanto Fafá ajeitava o óculos que escorregara pelo nariz.

“Depois te compro outro.” Fafá falou como se tivesse algum dinheiro guardado em casa, coisa que não tinha, os pais no máximo lhe davam dinheiro pra comprar alguma bala, ou salgadinho, mas ele daria um jeito, tinha certeza.

“’Tá bom.” Juju assentiu, no fundo adorando aquela correria e a fuga da mãe. Quem levaria a culpa depois seria o primo, então ela estava tranquila.

Fafá olhou pros lados. De repente ouvira um som suspeito e pediu silencia à prima, colocando um dedo sobre os lábios e esperando por um momento. Juju abriu uma expressão curiosa, mas se manteve quieta. Sempre acatava os pedidos do primo, praticamente o idolatrava como um irmão mais velho, experiente e esperto.

Fafá logo identificou o som abafado de um choro infantil.

Pediu novamente silêncio à prima, que assentiu com a cabeça, os olhos arregalados. Fafá avançou pela ponte, cuidando para não fazer nenhum barulho enquanto a priminha o seguia com as orelhas em pé, saltitando com cuidado a suas costas.

Quando chegaram do outro lado e contornaram o tronco grosso de uma das árvores, encontraram um gurizinho pequeno, loiro, que também não parecia ter nem cinco anos. Ele estava sentado sob a sombra da árvore, abraçando os joelhos e escondendo o rosto entre os braços. Os ombros sacudiam pelos soluços abafados.

“ELE ‘TÁ CHORANDO!” Juliana exclamou assustada ao ver o garoto aos prantos, tão triste e sozinho no meio do parque. Fafá fez uma expressão de sobressalto e culpa quando o loirinho ergueu, assustado, o olhar banhado em lágrimas para os dois. Fabrício notou que havia sangue nas roupas dele, resultado de um corte no braço e no queixo. Um pouco adiante, havia um patinete caído no chão.

“Vão embora!” O loiro exigiu virando o rosto, sentindo-se mal por ser pego no flagra chorando. Escondera-se ali justamente para chorar em paz. Não queria que a babá-empregada, que costumava trazê-lo ao parque já que os pais não tinham tempo para isso, visse aquilo e contasse para Cíntia ou Heitor. Era pequeno, mas já tinha seu orgulho.

O pai sempre dizia que garotos não choravam por bobagens.

Fafá não acatou a ordem. Desde o início, ele nunca acataria uma ordem do loirinho. No lugar de ir embora, soltou a mão da prima e se aproximou do chorão, ajoelhando-se ao lado dele.

“Tu precisa cuidar desses machucados.” Disse sabido, acostumado a ver sangue já que vivia se machucando desde que aprendera a engatinhar. Juju, por outro lado, parecia meio tonta ao ver o sangue coagulado, mas ainda vivo dos cortes.

“Eu não preciso da ajuda de vocês.” O loiro ergueu o queixo machucado, arrebitando o nariz fino, mas isso lhe doeu o corte e ele fungou, apertando rapidamente os olhos para evitar algumas lágrimas. Tinha um ar esnobe, mesmo tão novinho. Fafá não deu bola, ele nunca daria. No lugar disso, se levantou e foi até a patinete, erguendo-o do chão.

O loirinho o olhou desconfiado enquanto trazia o patinete para perto, e se espantou quando Fabrício estendeu-lhe a mão. Olhou-o com a expressão um tanto abobalhada, de quem não sabe o que fazer. Aquele desconhecido tinha um sorriso diferente de todos que já havia visto – um sorriso que desarmava, e que o desarmaria sempre, mesmo que ainda não soubesse disso.

“Vem! Vamos até a minha casa, eu te ajudo com isso e ninguém vai ficar sabendo que tu ‘tava aqui sozinho chorando!” Fafá disse alegremente. O loiro apertou os punhos em ultraje.

“Eu não ‘tava chorando!” Exclamou, praticamente gritando, mas caiu no choro novamente assim que terminou de falar. Fafá arregalou os olhos, porém Juliana, mesmo nova, já tinha seu jeitinho feminino e se ajoelhou ao lado do loiro, colocando uma mão sobre o ombro dele.

“O Fafá é a melhó pessoa do mundo! Ele sabe de tudo, e vai sabê cuidá de ti!” Ela garantiu defensora e, ainda zonza pelo sangue, se afastou nauseada. “Acho que não gosto de sangue...” Comentou com a mão na cabeça.

Fafá pensou que não daria conta se a prima resolvesse desmaiar, e ainda levaria uns bons tapas da dinda ou da mãe depois. E como que combinado, assim que pensou na dinda, ouviram a voz dela, gritando pelos dois fujões. As três crianças arregalaram os olhos, mas Juju bem que estava com saudades da mãe.

“Vamos antes que ela nos encontre!” Fafá sussurrou apressado, não querendo ouvir nenhum sermão tão cedo.

“Vai vocês, eu não quero mais correr.” Ela disse com um beicinho, já dengosa de cansaço. Queria colo de mãe depois de ver tanto sangue, e o chinelinho ainda estava arrebentado.

Fafá deu de ombros, sabia que a prima era teimosa. O que ainda não sabia que o loirinho sentado no chão era dez vezes mais teimoso, então se virou para ele e esticou o braço, ignorando o que ele havia dito antes sobre não precisar de ajuda.

“Vamos?” Pediu com os olhos pidões.

“Pra onde?” André perguntou desconfiado, mas aceitou a mão de Fafá, permitindo que ele lhe puxasse para se levantar. Era bom ficar de mãos dadas com ele, então não se afastou quando ele começou a puxá-lo meio atrapalhado, levando junto o patinete.

“Tu vai ver! Eu vou cuidar de ti!” Fafá falou acalorado. “Eu aprendi a fazer curativo desde que caí do skate e ralei meus joelhos. Minha mãe me ensinou, ela sabe fazer pão, doces, tortas, aí ela é boa com as mãos! Ela sabe fazer tudo, mas pra ninguém ficar sabendo disso, eu mesmo vou cuidar desses machucados. Sabe que teve uma vez que eu...“

Fabrício não parou mais de falar por todo o caminho. O outro se mantinha calado, apenas escutando. O loiro estava impressionado, o coração batendo agitado. Nunca antes tivera um amigo para ajudá-lo, nem um que falasse tanto, de uma forma tão alegre. Em sua casa, todo mundo parecia carregar uma frieza elegante, e os pais eram duas pessoas de poucas palavras.

Quando chegaram aos fundos da casa do Fabrício, uma residência simplória aos fundos da padaria e confeitaria Vitória, a melhor da região, Fafá apoiou o patinete na parede e se voltou ao menor, que ainda segurava firme pela mão, como que o impedindo de escapar caso tentasse.

“Vamos em silêncio.” Falou e fez um ‘shhhh’ com o dedo sobre os lábios, já que não sabia se a mãe ou o pai estaria em casa ou na confeitaria.

Puxou o menor para dentro e o levou até seu quarto.

O loiro olhou ao redor. Era um quarto pequeno comparado ao seu, porém era aconchegante, com uma bagunça de criança que não encontrava dentro da própria casa. Sentiu-se confortável e aquecido ali dentro e desejou não voltar para própria casa tão cedo.

“Fique aqui, eu já volto!” Fafá saiu voando do cômodo e buscou no banheiro o kit que a mãe lhe ensinara a usar, com gazes, soro, mertiolate, bandeides, micropólio, entre outros. Voltou também correndo para o quarto e encontrou o loirinho sentado comportadamente no chão, as pernas cruzadas enquanto segurava o braço machucado com todo o cuidado e concentração do mundo.

Fafá se ajoelhou na frente dele.

“Isso talvez arda um pouquinho.” Ele disse e colocou soro na gaze para limpar os ferimentos. Nem se importava em molhar ou sujar o chão, que garoto de quatro anos se importaria? “Sabe, eu quero ser médico quando eu crescer, por isso a mamãe me ensinou a fazer curativos, ela disse que eu tenho habilidade pra cuidar das pessoas.”

O loiro ergueu rapidamente os olhos, mirando-o com curiosidade, porém logo voltou a fitar o chão, a cabeça mantida abaixada enquanto sentia o toque suave da gaze em seu queixo. Estava doendo, mas por alguma razão sentia-se bastante calmo perto daquele outro garoto. Ele continuava sorrindo, como se tudo fosse ficar bem. Mesmo quando ele passou o ardido mertiolate não se importou com a ardência, apenas apertou com força os olhos e comprimiu corajosamente os lábios para não emitir nenhuma lamúria. Pouco tempo depois, já estava com um curativo no queixo e um no braço. Não eram curativos tão bons quanto seriam os feitos por um adulto, mas eram melhores do que os de qualquer outra criança de quatro anos.

“Obrigado...” O loirinho sussurrou e um sorriso pequeno brotou no canto de seus lábios.

“Não tem de quê!” Fafá exclamou, satisfeito por ajudar.

Sentiu que poderia mesmo ser um médico no futuro. Havia salvado pela primeira vez a vida de alguém! Olhou para o pequeno loiro com atenção, querendo gravar bem o rosto dele.

“Eu esqueci de perguntar teu nome...” Percebeu.

“É André.” O menor disse, mordendo os lábios. “Tu não vai contar mesmo que eu ‘tava chorando antes pros meus pais, né? Porque eu não ‘tava... Não muito...”

“Eu não vou contar.” Fafá garantiu e ergueu o dedo mindinho. “É uma promessa!”

André o encarou por um momento, não entendendo aquele gesto, mas por instinto ergueu também o dedo mindinho, entrelaçando-o timidamente ao do garoto. E o gesto tão simples pareceu marcar, em si, algo extremamente importante. Algo que não se desfaria tão fácil, algo que duraria pra sempre.

E André pensou que Fafá realmente o salvara.

E os dois talvez já soubessem, mas ali começaria uma grande amizade. Receberam juntos um sermão de Cíntia e Isadora, que não ficaram nada felizes com as fugas dos filhos, os machucados tratados por Fabrício, o fato de terem bagunçado toda a cozinha tentando preparar um lanche, entre outras coisas que eles fingiram nem escutar enquanto se espiavam pelo canto dos olhos e suprimiam sorrisinhos de cumplicidade.

Dizem que amizades surgem exatamente assim – das travessuras e armações, e de aguentar unidos as consequências e castigos. E eles teriam muitos momentos assim pela frente, já podiam sentir o nascimento de um laço forte de amizade, difícil de compreender, apesar de não perceberem isso de forma consciente. Era mais como uma sensação sem formas e sem nome, que apenas se sente, como um formigamento gostoso no peito.

Esse laço pode ter nascido no exato momento em que Fabrício estendera a mão para André no Parque do Vale. Ou no momento em que André abraçara Fabrício impensadamente, logo após a promessa, apenas para corar em constrangimento depois. Quiçá ainda por Fabrício ter quebrado sem querer, certo dia, a caneca que a mãe tinha de lembrança da avó, e André ter tomado a culpa para si, afirmando ter sido ele quem a havia quebrado – para surpresa do verdadeiro culpado.

Quem sabe surgira junto com as tantas vezes em que Fabrício ajudou André a fugir da mansão e o levou para brincar. Da vez em que André o ensinou a jogar videogame, pois os pais do Fabrício não tinham como comprar algo tão caro, e depois lhe deu esse mesmo videogame quando ganhou um novo. Ou quando, como retribuição, Fafá o ensinou a andar em seu amado skate, presente do tio Diogo. Quando André confessou, envergonhado, que sentia medo do pai, para então Fabrício admitir que sentia medo do cachorro da vizinha, o que fez o loiro rir.

O cachorro da vizinha era um chiuaua.

Podia ter nascido dos raros sorrisos do loiro, que sempre faziam Fafá sentir-se especial por conquistá-los, ou dos frequentes e espontâneos de Fabrício que André gostava de olhar de soslaio. Ou de todos os passeios no parque, de todas as descidas na lomba, de todos os machucados que um cuidou do outro, mesmo que Fabrício costumasse ser bem melhor com curativos. Sem dúvidas o fato de que Fabrício sempre arrancava, como um furacão, André de sua rotina rígida estava fortemente envolvido, assim como das vezes em que o loiro arriscava um castigo para encontrá-lo.

Nem Fafá, nem André saberiam explicar como exatamente tudo começou – aquela amizade única, o vínculo extremamente forte, daqueles que se leva pela vida inteira mesmo quando caminhos diferentes são tomados e anos se passam sem nenhuma espécie de contato; anos nos quais apenas se guarda com carinho aqueles dias especiais.

E ali, na confeitaria onde lanchariam tantas e tantas vezes aos finais de tarde, ouvindo suas mães gritarem sobre irresponsabilidade e sobre nunca mais sumir sem avisar, foi que André percebeu que Fabrício era o único capaz de fazê-lo sentir-se vivo e livre, pelos mais diversos motivos.

Porque, na realidade, era uma soma de tudo.

Notas finais
AWN, esses dois crianças ainda me matam. Fala sério. *.* Bem, é isso, 'tô meio sem palavras hoje porque acho que minha cabeça vai explodir, e eu tenho que começar a estudar umas vinte mil coisas! Até final de semana que vem! Beijos, minhas paixões