Good Riddance
49 93 milhões de milhas
Notas iniciais
Just know
that wherever you go
No, you're never alone
You will always get back home
Fabrício estacionou o carro em frente à confeitaria e padaria dos pais, chamada Trufa Branca. Ela havia sido reformada e estava melhor, inclusive fazia entregas para cidades vizinhas, pela fama e reconhecimento que recebeu. Fafá se orgulhava do trabalho duro dos pais, era graças a eles que pudera ir fazer cursinho na capital e continuar morando lá até completar seus estudos. Claro, tio Diogo ajudara desde o início.
Olhando para a fachada simpática do estabelecimento, com as cortininhas e as roseiras nas janelas de vidro, Fafá chegou a sentir saudades de trabalhar ali ajudando os pais. O cheiro de pães recém-tirados do forno, doces, tortas, bolos caseiros, entre tantos outros quitutes que a mãe preparava com ajuda dos funcionários, era algo que aprendera a amar.
Mas o mais importante de tudo: estava morto de saudades dos pais – os visitara apenas uma vez ao longo do semestre. Isadora ficaria louca ao vê-lo. Fabrício estampou o rosto com um sorriso e caminhou os poucos passos que faltavam até a entrada; porém ouviu alguém chamando seu nome antes que entrasse de fato.
Reconheceu aquela voz.
“Daniel!” Fabrício sorriu ainda mais largamente. Aquele louco era um de seus amigos de infância, do seu grupo de amigos dali que o acompanhara durante toda a adolescência.
“Aaaaaaahhhhhh é que tu ‘tá aqui?! Malandro, falou que ia ‘tá fora esse final de semana!” Exclamou. Foi até o amigo, que também se aproximava sorrindo, e deram aquele abraço típico de duas pessoas que se conhecem há muitos anos e tem muitas histórias na bagagem.
“Porra, Fabrício, como senti tua falta, maluco! Nem aparece mais!” Daniel reclamou. Era pouquíssimo mais baixo que o Fabrício, um ano mais velho. Seu rosto era anguloso, e o nariz seguia essa tendência sendo fino e comprido, mas nem por isso grande demais. Mantinha os cabelos castanhos curtos, assim como a barba. Sorriu assim que se afastaram, mantendo uma mão sobre o ombro do amigo. “Descobri que a Letícia me traiu e então nem viajei pra São Paulo, obviamente.”
Fabrício quase se engasgou.
Daniel e Letícia namoravam desde a adolescência, mas ela também havia deixado a cidade para cursar a faculdade, em São Paulo. Daniel continuou ali, trabalhava na oficina mecânica do pai desde garoto, era comum vê-lo com as roupas meio sujas de graxa, e ele não tinha intenção de se mudar. Queria envelhecer na cidade, era um rapaz de ambições baixas que só queria curtir a vida na paz e dar aos futuros filhos uma infância tranquila e feliz na cidade interiorana.
“Cara... Nem sei o que te falar. Que merda! Mas ‘tá bem?” Fabrício perguntou, também com a mão no ombro dele. Nem conseguia sentir raiva da Letícia, já que a conhecia de anos, mas não entendia aquela atitude da garota. Relacionamentos à distância eram perigosos.
Daniel encolheu os ombros.
“Sobrevivi, fazer o quê. Só me resta aguentar os chifres, já que não irei viajar pra São Paulo só pra dar uma surra no desgraçado.” Disse suspirando, mas mantendo o humor nas palavras. Daniel era assim, da paz, raramente perdia a cabeça, e talvez por isso ele e o Fabrício se dessem tão bem. “Mas e aí? Veio pra ficar quanto tempo?”
“Acho que uma semana, talvez mais.” Fafá contou. “Quem mais ‘tá aí?”
“Pois tu deu sorte, parece que o Danilo e o Fábio também vão vir visitar por esses dias! O grupo todo reunido de novo, cheio de novidades! Só eu que continuo aqui, ‘tá louco, fiquei pra trás trabalhando, e as dondocas tudo virando gente estudiosa.” Daniel brincou, debochado.
“Bah, que ótimo! E tu sempre foi o mais vagabundo né, nunca estudou, só te interessava por carros.” Fabrício o lembrou, sorrindo maroto. Não falava nenhuma mentira.
“Falou o nerd.” Daniel rebateu, irônico. Fafá percebia que, por mais que disfarçasse, ele estava com um humor meio melancólico, o conhecia há muito tempo para não perceber. Teria de conversar com ele sobre aquele término depois, porém agora, sua mãe aparecia na porta da confeitaria com uma expressão nada feliz.
“Filho desnaturado! Chega e fica na porta conversando, em vez de entrar e abraçar a tua mãe!? É assim? E eu que fique morrendo de saudades e ansiedade para que tu apareça! Não basta ter me feito esperar mais cinco dias?!” Isadora perguntou cruzando os braços e batendo o pé. “Ah, olá, Dani! Tem bolinho novo, se quiser entrar e tomar um cafézinho.” Mudou completamente o tom.
“Que mãe braba!” Fabrício exclamou e imediatamente a abraçou, erguendo-a do chão e a enchendo de beijos. Isadora riu abraçando o filho em retorno, contente como qualquer mãe saudosa que recebe mimos do ‘seu bebê’. “’Tava morto de saudades, mãezinha! Chorei todas as noites lá em Porto Alegre.” Garantiu, mentiroso.
“Ah, ‘tá bom. E mais essa pra eu fingir que acredito.” Isadora revirou os olhos, segurou o rosto do filho e o beijou na testa assim que o moreno a colocou no chão. “Entrem vocês dois. Teu pai foi fazer uma entrega, porque o motoboy ‘tá doente, mas já deve estar voltando.”
Os dois garotos entraram, rindo. Isadora era daquelas mães joviais e energéticas, e era mesmo nova. Engravidara cedo, com vinte anos, então nem passara dos quarenta. Tinha os olhos e cabelos negros como os do filho, compridos mas geralmente mantidos amarrados. Era alta para uma mulher, ainda que mais de dez centímetros mais baixa que o filho. Tinha pouquíssimas rugas, e quem não a conhecia lhe dava uns trinta e poucos anos de idade.
“E a Luísa, mãe?” Perguntou, referindo-se à irmãzinha. Era outra que morria de saudades, adorava aquela pequena briguenta. Luísa era nova, quase dez anos, mas poderia causar grandes estragos.
“Tua irmã ‘tá na casa de uma amiguinha.” Isadora informou, indo para trás do balcão enquanto os meninos se sentavam. Havia outras pessoas tomando café, lanchando na confeitaria. Fabrício as cumprimentou por cima, cidade pequena é assim, mas Isadora disse que agora o filho era somente dela pelas próximas horas.
E então todo aquele papo de mãe iniciou: como foi a viagem? Como estão os estudos? E as novidades? E os romances? E isso? E aquilo? Fabrício respondia tudo, empolgando-se em alguns momentos. Evitou falar sobre sua vida amorosa, por hora, e também encheu a mãe de perguntas. Daniel se intrometia em alguns momentos, mantendo-se na conversa.
Era de casa, afinal.
XxxX
“O meu filhão apareceu!” Lucas exclamou assim que entrou na confeitaria, com Luísa empoleirada num dos ombros do pai. Ela soltou um gritinho e sacudiu as pernas, querendo descer. Lucas a colocou no chão e a menina correu para abraçar o irmão.
Fabrício riu se levantando do banco e capturou a menina em meio à corrida. Ergueu no ar e a jogou por um de seus ombros, dando a impressão que a deixaria cair de cabeça para baixo pelas costas. Luísa gritou reclamando e socou algumas vezes as costas do irmão mais velho, até que ele a soltasse, enquanto ela brigava que ele demorara demais a aparecer.
Lucas se aproximou e abraçou ao filho. Eram praticamente uma cópia um do outro, a exceção de que Lucas tinha os olhos mais claros e os cabelos não tão negros, também era alguns poucos centímetros mais baixo. Tinha quarenta e três anos e também se mantinha jovial, quase sempre sorrindo.
Aquela família parecia estar sempre de bom humor.
“Como vai, filhão? Quase mata tua mãe de saudades demorando tanto tempo para aparecer!” Reclamou. Obviamente também se referia a si próprio quanto a saudades. “Daniel também vive perguntando de ti, depois do pé na bunda, anda todo carente.”
“Só não mando se ferrar porque já é um senhor de idade.” Daniel murmurou e recebeu um tapa na parte de trás da cabeça do ‘tio Lucas’. “Ai!”
Fabrício riu, sentira saudades daquilo.
“Eu ‘tô bem, pai. Como eu ‘tava dizendo pra mãe, acabei ocupado com a faculdade e nem vi o tempo passar. As horas parecem voar na capital!” Disse, soando como um verdadeiro interiorano. “E tu, nanica, incomodando muito o pai e a mãe?” Perguntou à Luísa. Era uma coisinha pequena, magrela e adorável – pele amorenada, nariz arrebitado e cabelos iguais aos da mãe, negros e compridos.
“Eu nunca incomodo!” Ela reclamou cruzando os braços magros. “Mas depois que tu se mudou, as coisas ficaram chatas!” Fez um beicinho.
Fabrício sorriu e fez carinho no topo da cabeça dela.
“Então temos de aproveitar esse tempo que tenho aqui, hãh?! Ou não?” Perguntou, e Daniel gargalhou.
“Eu ‘tava com saudades dessa tua mania de falar ‘ou não?’ depois de 95% das tuas frases.” Contou, apoiando-se ao balcão com um sorriso debochado, ainda que genuíno. “É o mesmo pateta de sempre.”
“Nem é tanto assim.”
“Ou não?!” Os outros perguntaram em uníssono, e riram juntos. Voltaram a conversar, alternando aqui e ali em atender aos clientes. Logo a confeitaria fecharia, já havia anoitecido. Fabrício resolveu deixar a conversa mais séria para o dia seguinte.
No momento, queria apenas matar a saudades dos pais, da mana, e do amigo de longa data.
XxxX
Fabrício sentou no sofá e, de imediato, Luísa subiu e sentou em seu colo. Haviam terminado de jantar, e agora Lucas lavava a louça e Isadora a secava. Enxotaram Fabrício da cozinha quando ele se ofereceu para ajudar, afirmando que ele deveria ter ficado cansado da viagem de quatro horas até ali.
“Mano, tu vai me levar pra passear de carro?!” Luísa adorara a ideia de um irmão motorizado, apesar de o carro ser do tio. Fabrício a chamara de Maria Gasolina e recebeu uns tapas por isso.
“Claro que levo, Lu!” Fafá garantiu. “Até te ensino a dirigir.”
“Tu ‘tá louco, guri? Tua irmã tem só nove anos!” Lucas se aproximou secando as mãos em um pano. “Tem que esperar os dez anos, ao menos já vai poder sentar no banco da frente.”
“Mas eu só faço dez em outubro!” Luísa exclamou infeliz, mas o pai foi irredutível. Irritada, Luísa deu de ombros. “Eu quero ser motoqueira mesmo.” Resmungou emburrada.
Os outros riram.
“Mas e aí, filho. Última vez que veio aqui, tu nos contou que havia reencontrado aquele amiguinho de infância, o André. E hoje nem tocou no nome dele.” Isadora perguntou ao terminar de arrumar a cozinha e também se juntar aos três. Fabrício não sabia se estava paranoico, ou o que, mas achou o olhar da mãe um tanto afiado e perspicaz demais, como se ela conseguisse ler seus pensamentos.
“Ah é... Não, é que... ‘Tamos de boas, passamos bastante tempo juntos.” Sorriu sem graça, meio nervoso. “Nos entendemos ainda melhor do que antes.”
“Mãe, o Fafá ‘tá com febre, o rosto dele ficou vermelho e ‘tá mais quente.” Luísa falou colocando a mão nas bochechas do irmão, olhando preocupada para a mãe. Lucas foi para a janela e tirou um cigarro do bolso, olhando para a rua tranquila em frente à padaria. Moravam no segundo andar.
“Pai, tu tinha dito que havia parado!” Fabrício reclamou, era totalmente contra cigarros, já havia várias vezes tentado convencer o pai a parar. Conseguira que ele diminuísse a quantidade, e ele lhe afirmara que não fumava há meses, mas ali estava ele, tragando na janela. Velho sacana, pensou soltando o ar pelo nariz.
“Oh, desculpe, desculpe. Só me senti querendo um cigarro de repente.” O apagou, sorrindo culpado. “E teu tio e o Henrique, como vão?”
“Ah, esses dois são outros que não visitam! Irmão desnaturado.” Isadora reclamou bufando. “Será que eu terei de me deslocar até Porto Alegre pra conseguir ver vocês?”
“Eles estão bem! Estão até pensando em adotar uma criança!” Contou.
“Eles podem me adotar! E aí eu vou pra Porto Alegre também!” Luísa sugeriu sem pensar que assim ficaria longe dos pais. “Hein, mãe?! Posso!?”
“Outra filha desnaturada. Quer ficar longe da mãe?”
“Mas tu vem junto!”
“Até que já estava na hora, apesar de eu temer por essa criança, com um pai como o Diogo.” Lucas comentou pensativo, alisando sua barba bem feita que já tinha alguns fios brancos, como havia nos cabelos. Mas tudo muito discreto. “E tem conversado bastante com teus tios? Eles têm te aconselhado, ajudado lá em Porto Alegre?”
Fabrício estranhou a pergunta, mas assentiu.
“Tirando as ideias loucas do Diogo...” Deu de ombros. “Mas sim, me ajudam sempre, com tudo.”
“Isso é bom, isso é bom. São boas influências. Nessa época da vida, faculdade, novos amigos, novos compromissos. Sim, sim, muito bom.” Lucas afirmou, andando de um lado para o outro com o olhar baixo, parecendo como um doido que conversa consigo mesmo. Luísa e Fafá se entreolharam, concordando que tinham um pai que já não batia muito bem das ideias. Talvez fosse a idade. “E o André?”
Fafá olhou-o perdido.
“O que tem o André?”
“Não, não, esqueça, esqueça. Estou apenas aqui pensando comigo mesmo.” Lucas dispensou, enquanto a Isadora revirava os olhos.
“Não dê atenção ao teu pai, ele anda cansado e... Preocupado. Quando os filhos estão afastados da gente vivendo coisas novas longe das nossas vistas, acabamos preocupados e de cabeça cheia.” Isadora sorriu amável para o filho. “Não quero nem imaginar como será quando a Luísa resolver bater as asas.”
“Asas? Mas não tenho asas.” Luísa não entendeu a expressão.
“Anjinhos sempre têm asas.” Fafá garantiu e começou a fazer cócegas na irmã, que se contorceu, soltando gritinhos agudos e rindo abertamente, tentando atingi-lo com tapas e chutes, que não surtiam efeito.
Demorou um pouco até que ela fosse convencida a ir dormir, mesmo que já bocejasse. Quando ficaram apenas pais e filho na sala, Fafá já estava um tanto sonolento também, mas seus pais estranhamente pareciam bastante alertas, olhando-o em expectativa. Fafá os observou com estranheza, e a Isadora pigarreou, aprumando-se no outro sofá, com o marido sentado ao seu lado.
“Então, alguma novidade para nós?” Ela quis saber, ansiosa. Torcia o tecido da roupa com uma mão e a outra segurava a do marido. Lucas assentiu como se o incentivasse, e o Fabrício já quase discava para o hospício. O que dera em seus pais?
“AAaahnn... Já contei as novidades.” Coçou os cabelos. “O que deu em vocês?”
“Fabrício, meu filho, acho que sempre lhe demos toda a liberdade e confiança para que conversasse conosco sobre tudo, não é? Eu e teu pai... O que mais nos importa é a tua felicidade, e que sejamos o suporte para ela, sempre que tu precisar de nós.” Isadora o lembrou, parecendo até um tanto irritada com as evasivas do filho. Ela era a mais impaciente daquela casa, característica herdada pela filha.
Fabrício se sentiu tocado com tais palavras.
“Eu sei, mãe. Vocês são demais.” Concordou.
“Sim, nós somos. Então, o que tem pra nos dizer?” Ela incentivou novamente, mas novamente o moreno ficou confuso. “Não precisa ter medo, filho, jamais te julgaríamos.”
“Sim, sim, estamos todos ouvidos.” Lucas falou, naquele ar de pai incentivador, mas o Fabrício realmente não entendia o que estava acontecendo ali.
Os olhos de seus pais brilhavam atenciosos em sua direção, como se esperassem um doce. Na verdade, uma notícia importante. Estava se esquecendo de contar alguma coisa? Prometera algum presente a eles? Alguma promessa que tinha de cumprir que havia feito antes de entrar na faculdade, ou antes de ir para Porto Alegre? Vasculhou a mente atrás de alguma coisa, mas não se lembrou de nada. Que coisa estranha!
Sentindo-se um péssimo filho, perguntou:
“Não tenho ideia do que vocês estão esperando de mim.” Admitiu piscando em confusão. Seus pais também piscaram, aturdidos e nervosos, antes de virarem a cabeça um para o outro e, baixinho, começarem a sussurrar entre si, excluindo o filho do diálogo. Porém o mais novo conseguiu captar as palavras ‘Diogo’, ‘nos enganamos?’, ‘André’ e ‘namorados’.
Fabrício se ergueu do sofá num rompante.
“Ele contou pra vocês?” Praticamente gritou. De repente não gostava mais tanto do tio, queria jogar a Cherry em cima dele e deixar que sua gata se vingasse em seu lugar. Os pais o olharam constrangidos e um tanto confusos. “O que vocês sabem?” Exigiu saber.
“Filho,” Lucas respirou fundo. “Da última vez que tu veio aqui, tu falou sobre o André. Até pode existir pai que é cego, mas eu não sou um. Lembro-me de como vocês eram na infância, e me preparei para no futuro, bem... Confirmar que meu filho era gay. Perdão se esse não é o caso, apesar de eu achar que isso não é motivo para pedir perdão, já que não se trata de nenhum xingamento. Mas quando tu disse que se reencontram, com toda aquela alegria e empolgação, eu fiquei com a pulga atrás da orelha e liguei pro teu tio.” Lucas torceu as mãos, parecia envergonhado de ter-se metido na vida pessoal do filho daquela forma. “Teu tio não contou nada, mas tu sabe como ele é indiscreto e acaba entregando uma coisinha ou duas só pela forma de falar.”
“Querido, nos preparamos por quase três meses para a notícia, então, se é o caso, apenas nos conte. Não queremos mentiras entre nós.” Isadora falou, calma.
Fabrício ficou surpreso por um momento, mas então se lembrou de como nunca houvera segredos entre ele e os pais, e de como conheciam um ao outro bem, pois a relação era aberta e repleta de confiança. Se seu tio, em poucas visitas, havia percebido algo diferente em sua relação infantil com o André, como que os pais não perceberiam? E como a mãe não notaria sua empolgação ao falar no telefone com ela sobre o loiro? Ou mesmo não notariam quando os visitou? E, claro, com o empurrãozinho inconsciente do Diogo...
Acabou rindo, quase gargalhando. Sentia-se aliviado, compreendido, e meio pateta. Ok, muito pateta, mas isso já aceitara que era há muito tempo. Até gostava, fazer o quê. Foi até os pais e os abraçou, ambos, apertado, e foi retribuído com o mesmo carinho.
“Eu amo vocês, sabiam?” Falou com contentamento.
“Nós também te amamos, filho. Agora, nos conte logo de uma vez, isso já está me matando, odeio ser a última a saber sobre meu próprio filho!” Isadora falou, irritada.
Fabrício se afastou e respirou fundo.
“Eu e o André estamos namorado... Há dois meses. Eu amo ele.” Simplesmente admitiu, coçando a parte de trás da cabeça, mas depois sorriu.
“Isso é ótimo, filho. Eu fico feliz que vocês se reencontraram.” Lucas colocou a mão sobre o ombro do filho. Não fora uma aceitação de uma hora para outra. Percebera quando o filho era mais novo e voltara a pensar sobre isso quando soube do reencontro. Teve mais três meses para conversar com a esposa sobre o assunto. Não seriam hipócritas, é claro que achariam mais fácil para o filho se ele fosse heterossexual, mas ele era o que era, então lhes bastava aceitar e tentar protegê-lo do preconceito do mundo. Ali, naquela casa, ele sempre teria apoio, carinho e aceitação.
“E quando vai trazer o namorado?” Isa quis saber, brincalhona.
“Na verdade, ele vai vir visitar segunda-feira.” Fabrício abriu um sorrisão de moleque arteiro. Os pais ficaram um tanto surpresos, mas então ficaram felizes com a notícia.
“Me sinto estranho, terei de falar para ele não te magoar ou quebro a cara dele? Sempre que um cara namora uma filha falamos isso, não?” Lucas afagou a barba, ponderando.
“Mas e os pais dele, Fafá? Eu lembro de como eram... Complicados.” Isadora perguntou preocupada, e então o Fabrício se sentou e começou a contar algumas coisas, do princípio. Os pais compartilharam outras, e se revoltaram com o que escutaram sobre a atitude do Heitor. Isadora tapou a boca, e precisou segurar as lágrimas. Era muito sensível para ouvir tal relato sem se sentir abalada.
“Ele será mais do que bem aceito aqui. Vou preparar meus melhores doces!” Isadora garantiu, seu tom misto de tristeza e carinho, já preocupada com o namorado do filho como se ele fosse parte da família há anos. E, bem, ela podia dizer que conhecia o menino desde que ele era uma criança pequena. Lucas concordou com a esposa.
E Fabrício nunca agradeceu tanto por ter pais como aqueles.
XxxX
Quando André desceu na estação na cidade vizinha, não demorou muito a encontrar o moreno lhe esperando. Este o levaria de carro até o destino final. Não viera de moto, pois viajar tantas horas de moto numa estrada poderia ser perigoso. Fabrício estava apoiado ao carro estacionado em frente à estação, usando o óculos-escuro branco e atraindo os olhares das moças que saíam ou entravam no lugar. André quase sentiu vontade de mandá-lo parar de se exibir – por mais que ele não estivesse fazendo nada.
Fafá abriu um sorriso ao ver o loiro e se desencostou do carro.
“Esperando há muito tempo?” André perguntou e, na maior naturalidade, parou em frente ao namorado e lhe deu um beijo rápido. Fabrício chegou a se perguntar se aquele era o loiro certo.
“N-Não, menos de dez minutos.” Informou e pegou as malas do namorado para guardar no porta-malas. Depois o puxou e deu-lhe mais um beijo, um pouco mais demorado, satisfazendo-se ao vê-lo corado quando o soltou. Não queria perder o ‘poder’ de fazer o loiro avermelhar.
“Não seja tão óbvio em público, também não gosto de chamar atenção.” André reclamou e foi entrar no carro.
“Tu quem começou!” Fabrício o acusou. Ah, quando estivesse sozinho com aquele loiro... Só um final de semana, e já estava morrendo de saudades. Que vício era esse? E isso que haviam se falado por celular.
“Tem certeza que teus pais estão ok em eu aparecer lá? Quero dizer, tu recém se assumiu e eu chego lá pra filar boia e dormir no teu quarto...” Falou inseguro quando o carro já estava em movimento. “E tem certeza que eles aceitaram de boa mesmo? Tipo, vai que falaram só pra não te chatear, mas-“
“André-“ Fabrício o interrompeu antes que o loiro tivesse um colapso dos nervos e lhe segurou uma das mãos em um aperto confortador, enquanto mantinha o olhar na rua. Achava fofo o nervosismo do namorado. “Vai dar tudo certo.” Afirmou.
André acreditou.
XxxX
Entrar na confeitaria gerou uma nostalgia no peito do loiro. Mesmo que o lugar houvesse passado por uma reforma, ainda retinha aquele mesmo ar de acolhida aconchegante de antes – talvez por isso se sentisse tão melhor ali, do que em casa, quando mais novo.
Olhou ao redor com os olhos abismados, relembrando até mesmo momentos dos quais havia se esquecido por completo. Como a vez que Fabrício quase o beijara depois de cantar a música do Tribalistas. Torceu o nariz ao lembrar que o pai os havia impedido e, surpreso, recordou também os tapas que levara em casa. Reprimira aquilo? E sempre se gabara tanto da própria memória... Porém, não era momento para memórias ruins.
“André?” Alguém o chamou, e notou que deveria ser a mãe do Fabrício. Ela envelhecera muito pouco, o que era surpreendente. Continuava uma mulher bonita e vibrante, ligada na tomada. Ela se aproximou sorrindo e lhe deu um abraço apertado, que o surpreendeu por transmitir tanto carinho. Quando ela se afastou, segurou-lhe o rosto. Isadora ficou consternada ao ver o rosto ainda arroxeado do garoto; Fabrício lhes contara sobre aquilo, mas pedira para não tocarem no assunto. “Como tu cresceu! Olhe para isso, ficou ainda mais bonito do que era! Oh, meu filho tem tanta sorte.”
“O-Obrigado. A senhora continua muito bonita.” André inevitavelmente sentiu-se constrangido e nervoso, mas gracejou educado, retribuindo ao cumprimento enquanto o Fabrício ria ao seu lado.
“Oh, que isso, mudaria de ideia se me visse quando eu acordo! Mas muito obrigada. Venham, venham, sentem-se aqui à mesa. O movimento está parado agora e a Laís cuida de atender os clientes por enquanto, não é Laís?!” Gritou para a garota que apareceu correndo ao balcão e assentiu nervosamente. Ela tinha o rosto corado, e a Isadora concluiu com um suspiro que ela deveria estar de amassos com o Pedro, um de seus confeiteiros mais novos, de novo. Tão jovens e arteiros!
“Mãe, melhor ir largar as malas lá em cima primeiro, aí já descemos.” Fabrício deu um beijo na bochecha da mãe e indicou ao loiro que o seguisse. André sorriu sem jeito para a Isadora e seguiu o moreno.
“Mas estão com fome? Já posso ir separando alguma coisa.” Disse apesar de estar perto do horário de almoço.
Fabrício olhou para o loiro numa pergunta muda.
“Eu não estou com fome, obrigado. Só se o Fafá estiver.” André falou, encolhendo os ombros. Não gostava de comer aperitivos logo antes de almoçar, depois acabava não comendo nada.
“Eu não ‘tô, mãe, valeu.” Fafá informou.
“Mas não querem um salgadinho?” Isa ainda tentou, porém de novo os garotos negaram.
“Já comi mais cedo.” Fafá falou.
“Umas bolachinhas?”
“Não, mãe, depois almoçamos.”
“E a minha torta especial?”
“Mais tarde comemos.”
“Está bem, vão subindo que eu vou fazer uns bolinhos para vocês.” Isadora concordou e foi para a cozinha. Fabrício revirou os olhos e, quando o loiro o olhou abismado, ambos riram de leve.
“Como tu conseguiu continuar magro com uma mãe dessas?” André perguntou enquanto subiam as escadas aos fundos.
“Ah, ela enlouquece quando vem alguém visitar, no resto do tempo ela é normal.” Fafá torceu o nariz. “Ou quase normal.”
“Tu não pode falar muito.” Disse o loiro e, quando chegaram ao segundo andar, olhou novamente ao redor, impressionado. “Uau, isso não mudou nada!” Havia um brilho em seus orbes azul-claros. Era estranho estar ali de novo; até um tempo atrás, jamais imaginaria que teria tal oportunidade.
O segundo andar era composto por uma sala ampla, que até mesmo possuía uma pequena lareira, e também tinha o espaço para a mesa de refeições. Uma porta levava à cozinha com lavanderia, e um corredor para os quartos que ficavam na parte da frente, para a rua.
“Minha mãe mudou uns quadros e plantas de lugar, trocou alguns móveis, mas de resto... Bem, não é nenhuma mansão, mas sempre gostei daqui.” Fabrício falou e indicou com a cabeça para que o loiro o seguisse.
“Eu também. Era tipo um refúgio.” Murmurou, e o outro sorriu. Largaram as malas no quarto do moreno. André o analisou de novo, esse sim havia mudado do que se lembrava. Mas qual quarto não sofria mudanças quando seu dono entrava na adolescência? Porém era um quarto bastante simples ainda.
Havia a cama de solteiro, uma TV velha com um videogame igualmente velho, e uma escrivaninha com livros e um computador também mais antigo. Havia muitos CDs numa estante, onde também encontrava-se um pequeno rádio, e uma coleção de carrinhos de vários tamanhos. Um outro skate, mais novo, estava pendurado a um canto, junto ao antigo que André devolvera, e o violão estava ali junto. O armário de roupas era de madeira comum, apenas duas portas. Nas paredes, havia alguns quadros esportivos e decorações musicais.
“Tu parece que fez o estilo ‘adolescente pouco rebelde’, né? É bem a tua cara.” André sentou a cama, testando o colchão. E não por motivos maliciosos, que fique bem claro. Fabrício o olhou com certo divertimento e se sentou ao seu lado.
“Nunca fui de dar muitos problemas aos meus pais, se é isso que quer dizer. Por quê? Tu fez o estilo rebelde inconsequente?” Perguntou aproximando-se. Agora que estavam em seu quarto, queria matar um pouco das saudades do loiro. Tocou os fios loiros enquanto o olhava.
“Mais ou menos. Tive minha fase.” Deu de ombros. “Sou pavio curto, tu sabe, e aí arrumava umas encrencas, no colégio peguei muitas detenções.” Deu de ombros, e se arrepiou com aquela aproximação. Virou o rosto para o moreno, sentindo-se meio estranho com a ideia de beijá-lo ali, sendo que recém chegara, e a porta estava aberta, qualquer um poderia aparecer. “Teve uma vez que-“
“Aham... Me conta depois.” Fabrício murmurou antes de segurar-lhe a nuca e beijá-lo. André ficou ofendido por ter sido interrompido sem a mínima consideração, porém assim que o moreno afundou a língua em sua boca, despertando as borboletas em seu estômago, não conseguiu reclamar.
Fechou os olhos aceitando o beijo e não ofereceu resistência quando ele o empurrou para o colchão, querendo dar uns amassos. Claro, alegria de visita dura pouco, então alguém apareceu à porta. Alguém com metade do tamanho de um adulto, e com um olhar bastante curioso e insatisfeito sobre os dois.
“Esse é o teu namorado, mano?” Luísa perguntou, e os dois quase saltaram na cama e bateram as cabeças no teto. Os pais da menina já haviam conversado com ela mais cedo sobre o assunto. Luísa apenas dera de ombros e comentou que o mano era como o tio Diogo. Não havia nenhum preconceito nela, apenas uma aceitação inocente e natural dos fatos. “Vocês vão morar juntos como o tio Diogo e o tio Henrique?” Seu tom era ciumento.
Fabrício coçou os cabelos e se levantou da cama, indo pegar a irmã no colo.
“Ainda não moramos juntos, mas ele é meu namorado sim. Bonitão, hãh?” Perguntou, e a menina olhou bem pro André, analisando-o como faria uma crítica de arte ao encarar um quadro duvidoso. André não sabia onde meter a cara, mas depois de uns segundos Luísa torceu o nariz, concordando relutante.
“Ele é bonito, porém isso não é suficiente para eu aprovar. Ele vai ter que se esforçar, viu?!”
“Que cancha essa guriazinha!” Fabrício exclamou largando-a enquanto André se levantava. “E se tu não aprovar, o que acontece?”
“Ah, isso é segredo!” Luísa informou. “Mas eu dou um jeito de me livrar dele!” Exclamou com uma risada de peste e saiu correndo.
Fabrício balançou a cabeça.
“Viu só? É melhor me tratar bem nesses dias, ou vai arranjar uma inimiga.”
“Acho que gostei mais da tua irmã. Ela não parece tão pateta e boba que nem tu. Pelo contrário, é esperta.” Ponderou. Gostava de pessoas assim. “E admito que ela me deu um pouco de medo.”
“Não sei se fico feliz por elogiar minha irmã, ou ofendido por me chamar de pateta e bobo.”
“Tu já ‘tá acostumado.” Deu de ombros. “Até tua irmã sabe o irmão que tem, e fica de olho.”
“Ela te achou bonitão. Devo ficar preocupado?” Apenas brincou.
“Ah, claro. Irei ficar contigo por enquanto, e quando ela crescer, te chuto e namoro com ela. Meu futuro ‘tá garantido.” Ironizou, revirando os olhos.
“Até ela crescer, vou te deixar tão louco de amor por mim, que não vai conseguir nem pensar em outra pessoa. Teu único pensamento o tempo todo vai ser: Fabrício, Fabrício, Fabrício...” Repetiu o nome de forma meio maníaca e riu quando recebeu um soco no braço. Abraçou o loiro por trás, beijando-o na nuca. “Vamos descer que minha mãe queria nos empurrar um bolo...”
“Oh, Deus...” André suspirou ao se lembrar disso. “Se eu recusar, vai ficar muito chato, né?”
“Vai.”
“Certo.” Deu-se por vencido.
XxxX
Quando André já estava entupido de bolinhos e sentindo o estômago revirar, Lucas apareceu na confeitaria carregando algumas caixas. Ficou feliz ao ver o loiro e o cumprimentou depois de largar o carregamento sobre o balcão. Algumas pessoas almoçavam na confeitaria – que em realidade sempre fora uma mistura de café, lanchonete, padaria e confeitaria –, e a Laís e Isadora ajudavam servindo-os. Fabrício até precisou atender a alguns clientes.
“André, como cresceu, rapaz.” Lucas apertou-lhe a mão. “Eu jamais imaginaria que ficaria dessa altura, quando criança era tão mirrado.”
André não se sentiu particularmente contente em saber que fora uma criança mirrada, mas agradeceu mesmo assim. Lucas lhe lembrou do Fabrício de uma maneira absurda, eram definitivamente pai e filho, e ficou satisfeito, ao menos podia ver que o Fabrício continuaria bonitão com o passar dos anos. Não acredito que estou pensando isso, se repreendeu constrangido.
“É um prazer revê-lo, senhor.” Falou repleto de pompa. “Ficou ótimo o que o senhor fez nesse estabelecimento.”
Lucas adorou o que ouviu. André, no primeiro comentário, ganhou o sogrão. Lucas começou a contar sobre as mudanças, as reformas, sobre os planos para o futuro, e o André ouvia tudo com uma atenção polida, mas também interessada. Lucas falava como o filho, empolgado e descontraído, e tornava qualquer assunto interessante. De repente os dois já haviam engatado em um assunto sobre futebol, com o Fabrício se metendo em alguns momentos de folga, contente de ver o namorado causando uma boa impressão.
“Ai, que papo mais interminável! Lucas, pare de alugar teu genro dessa forma!” Isadora exclamou baixinho, para que o resto do estabelecimento não os escutasse. Do contrário, André poderia ser encarado como um pedófilo por acharem que ele estava namorando a Luísa, em vez do Fabrício.
“Tudo bem, tudo bem! Me calarei!” Ergueu as mãos para cima, mas logo voltou a atenção ao loiro. “André, sei que é cedo, mas já tem alguma ideia de que especialização vai seguir? O Fabrício sempre fala em cirurgia.”
“Ah... Eu ainda não sei também, mas eu acho que vou pegar algo que não tenha tanto contato com pacientes, tipo anestesiologia.” Disse com certa dúvida.
Isadora o encarou surpresa.
“Mas por quê? Não que eu tenha algo contra anestesiologia, mas eu me lembro de como tu era uma criança adorável que sabia cativar qualquer pessoa, apesar de bastante mimado.” Sorriu sabida, e o André corou.
As coisas haviam mesmo mudado.
“Acho que a adolescência me modificou.” Sorriu sem jeito, e ignorou o outro bolinho que a Isadora empurrou sobre o balcão em sua direção. Eram deliciosos, mas sentia que o estômago explodiria a qualquer momento. “Eu sou meio ruim lidando com outras pessoas, acho que não conseguiria ser um médico muito carismático.”
“A verdade é que ele quer ficar sempre pertinho de mim, então vai trabalhar de anestesiologista nas minhas operações.” Fabrício concluiu por ele próprio, abrindo um sorriso malandro para o olhar de ‘tu é mesmo idiota’ que recebeu do loiro. “Quê? Vai dizer que não?”
“Se eu tiver o mínimo de bom-senso, ficarei bem longe de ti com um bisturi.” André falou sarcástico, e a Isadora riu com o marido.
“Oh, esses meninos.” Se divertiu.
Na hora do almoço, mais gente apareceu na confeitaria. Entre eles, Daniel. Junto, vinham outros três amigos do Fabrício: Juliana, sua prima mais nova, Fábio e Danilo. André reconheceu todos – sua memória era mesmo fabulosa –, já havia brincado de queimado, pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão com eles todos. A nostalgia aumentou, era surpreendente vê-los todos ali. Sentiu-se voltando ao passado.
Fabrício ficou empolgado ao vê-los.
“Pooooorra! Que merda de primo que vem visitar e não avisa. A gente tem de ir atrás pra ficar sabendo das coisas, ô puto!” Juju exclamou. Com o tempo, havia se tornado uma desbocada de marca maior. Os pais viviam reclamando disso, mas ela não se importava. Era baixinha, acima do peso e de pele morena, cabelos negros e, pela personalidade, lembrou ao André da Tatiana, apesar da Tati não falar muitos palavrões. “Odeio essa gente que vai pra capital e perde a humildade. Ah, oi, tia Isa, oi tio Lucas!” Ela cumprimentou alegremente.
“Juju! Eu ia te procurar hoj-“
“A porra que ia. Passou o final de semana aqui e nem me avisou, vadio! E daí que sábado e domingo eu ‘tava lá na casa da dinda? Nem venha com desculpas, seu merda.” Ela o cortou e abraçou forte, estalando-lhe as costas e lhe tirando o fôlego.
Fábio e Danilo seguiram nos cumprimentos.
“Que loucura, gurizada! Todo mundo reunido de novo.” Fafá exclamou dando tapinhas nas costas do Fábio. Era um rapaz alto – 1,90m –, magrão e branquelo, sem ser desengonçado. Todos os traços do rosto eram afilados e as maçãs do rosto pareciam sempre avermelhadas. Era bem apessoado e se mudara pra Santa Maria para estudar Direito.
“É bom te ver, cara.”
“Mas tu fica mais feio cada vez que te vejo, ô Fabrício!” Danilo exclamou, o abraçando efusivo. Ele fechava o grupo. Alto, boa pinta, ela mulato com um rosto ainda mais escurecido pela barba. Mais velho de todos, tinha 22 anos e também se mudara para Santa Maria, mas estudava História.
“E esse loiro, quem é?” Juliana perguntou curiosa, mas com uma olhada mais atenta, seu queixo caiu. “Espera... Tu é aquele menino loiro rico que morava na mansão e brincava com a gente! André!? É André não é? Puta que pariu, o que tu ‘tá fazendo aqui?”
“André?” Daniel perguntou. “Cara, o loirinho chorão! ‘Tô ligado!” Riu-se com isso. “Tu e o Fafá não largavam um do outro, eu até ficava com ciúmes.”
“Ele veio rever a cidade. Acreditam que nos encontramos na UFRGS? Ele também ‘tá fazendo medicina.” Fabrício contou passando um braço pelos ombros do loiro.
“Sério que eu sou lembrado como o ‘loiro chorão’?” André perguntou insatisfeito.
“Meninos, por que não vão dar um passeio? Pode deixar que eu me viro aqui com a confeitaria, filho. Vai curtir teu tempo com os amigos.” Isadora o incentivou, piscando. “Eu ligo quando o almoço estiver pronto.”
E foram, acabando no parque da cidadezinha onde já haviam brincado milhares de vezes na infância.
“André chorava por qualquer coisa e o Fabrício que tinha de consolar.” Danilo implicou, enquanto passeavam.
“Ele e a Juliana, mas hoje a Juliana é mais macho que todos nós juntos.” Daniel concordou.
André aturou os comentários sobre suas choradeiras de criança, acabou meio mal-humorado, mas logo sorriu maldoso e resolveu recordá-los de coisas bastante constrangedoras que eles haviam feito.
“Só lembrando que o Daniel se mijou nas calças naquele Halloween que fomos nos aventurar na mata e sofremos um susto dos adolescentes.” André falou, e todos pararam por um segundo, boquiabertos, até explodirem em gargalhadas, a exceção do Daniel.
“Caralho, eu tinha me esquecido disso! Nem eu que era mais nova me mijei!” Juliana quase se engasgou de tanto rir.
“Depois ele ficou dizendo que tinha tropeçado numa poça d’água!” Danilo se curvou apertando o abdômen que passou a doer pelas contrações dos risos.
“Ele tentou nos ameaçar depois pra que não contássemos a ninguém. No dia seguinte, toda a cidade sabia.” Fabrício riu junto, e o Daniel, ultrajado, pegou o André e deu-lhe uma chave de braço.
“Tu fez todos se lembrarem disso de novo!” Daniel reclamou e lhe apertou uma bochecha, conseguindo uma exclamação indignada do loiro. “Agora conta uma de outra pessoa, todos te chamaram de chorão!”
André se aprumou passando as mãos pelos cabelos quando foi solto, e empurrou o Daniel pelo ombro.
“Teve uma vez que o Danilo tirou as calças e correu pelado pelo parque quando o Fabrício falou que ele ia perder o ‘pinto’ por sentar sobre um formigueiro.” Os lembrou sorrindo torto. “Aí ele se jogou no lago e ficou lá chorando até que os pais aparecessem. Por dias ele abaixava as calças para ver se o pau ainda estava ali.”
“Mentira!!!” Danilo exclamou, mas os outros acabaram lembrando também e a gozação foi generalizada enquanto andavam pelo parque, até pararem num pequeno quiosque onde se sentaram e continuaram a relembrar ‘os velhos tempos’.
André também ouviu bastantes histórias sobre a adolescência deles, da qual não participara, e se viu sorrindo leve ao escutar as bobagens e maluquices. O loiro internamente não gostou ao perceber, pelas histórias e até mesmo agora, como Daniel e Fabrício eram próximos e, em dado momento, chegou a resmungar isso para o namorado quando voltavam a caminhar e os dois ficaram estrategicamente para trás.
Fabrício gargalhou daquele ciúme sem sentido, e o André cruzou os braços emburrado. Passou um braço pelos ombros do loiro, aproximando o rosto dele.
“É só amizade, Santa. Ou será que eu deveria sentir ciúmes da tua amizade com o Davi? Olha que tem maior probabilidade até, já que o Davi é gay também.” Fabrício sugeriu, e o loiro fez uma careta. Nem em mil anos conseguiria se imaginar beijando o amigo.
“Era com eles que tu tinha uma banda?” Mudou de assunto, e o Fafá assentiu.
“Sim. Fábio no baixo, Danilo na bateria, e Daniel na guitarra. A Juju às vezes participava, ela toca violino, aprendeu com a mãe dela.” Contou. “Acabou quando eu me mudei para fazer cursinho em Porto Alegre. Danilo tomou vergonha na cara e decidiu ir estudar também, assim como o Fábio. Só o Daniel e a Juju continuam por aqui, ele na mecânica do pai, e ela no salão de beleza da tia-avó.” Narrou por cima. Havia muita história pelo meio, mas isso poderia ser contado outra hora.
Tinham muito tempo.
“É engraçado interagir com eles de novo...” André admitiu e ergueu mais a gola do casaco que usava. Estava um vento frio naquela tarde de julho. “Estou até com aquela sensação estranha no peito... É difícil descrever.”
“Eu também estou, ‘tava com saudades desses malucos.”
“Hei!? Vocês não vem?! Vamos, temos uma ideia para vocês.” Juliana gritou fazendo gesto com o braço para que os seguissem.
XxxX
André olhou para a lomba, achando-a maior e mais íngreme do que nunca. Havia algo de errado aí. Ele crescera, deveria estar achando aquilo menor. Da onde tirara a coragem quando mais novo para descer aquilo? Realmente havia mudado, a cidade grande o transformara numa pessoa pouco dada a aventuras.
Fabrício riu e se negou também.
“Vocês endoidaram? Eu não caibo mais deitado num skate, e aquela água deve estar gelada pra caramba.” Fabrício dispensou, mas se calou e surpreendeu ao ver o loiro subindo na bicicleta de um dos rapazes.
“Não precisamos cair na água, e tu pode ir em pé.” Disse enquanto o vento batia em seus cabelos e abria um sorriso largo, que quase deixou o moreno boquiaberto. Era um sorriso tão infantil, diferente de todos os outros, um sorriso que Fabrício não via há muitos anos.
Acabou aceitando o skate do Daniel e o largou na beirada da ladeira, um pé sobre ele. Só esperava não cair e dar de bunda no chão.
“Certo, se eu morrer, por favor, não se esqueçam de deixar flores sobre o meu túmulo.” Fabrício pediu, e o André desconsiderou, apenas foi, e o Fabrício se apressou para segui-lo, empurrando-se para frente e então colocando os dois pés sobre o skate assim que iniciava a descida abrupta em alta velocidade.
O vento atingiu o rosto dos garotos com força, bagunçado os fios e enchendo os olhos de lágrimas. Um frio intenso causava uma fisgada nas entranhas conforme ganhavam velocidade. Eles gritavam um para o outro e voltavam a rir, aproveitando aquela sensação de liberdade e voo.
Era, definitivamente, como voltar ao tempo, voltar a ser criança, a não ter problemas, nem preocupações, nem nada. Suas únicas preocupações eram buscar formas de manter os sorrisos no rosto.
Dessa vez, antes do fim e de caírem na água, André freou e colocou a bicicleta de lado, assim como o Fabrício tentava fazer o mesmo com skate. Detalhe que o moreno perdeu o equilíbrio e caiu de bunda no chão. Seus amigos riram lá de cima, Juliana gravara tudo com o celular. André desceu da bicicleta e foi acudi-lo, ajudando-o a se levantar, também rindo com as bochechas coradas.
“Mas é muito mané esse Fabrício!” Ouviram o Danilo gritando lá de cima.
Não demorou muito, e a Isadora ligava para o filho ordenando-o – porque ela adorava dar ordens, ou fingir que as dava – voltar para o jantar.
XxxX
Após a janta e um tempo batendo papo, André e Fabrício foram para o quarto, enfim ter um momento apenas para os dois. Ficaram deitados na cama um tempo, cansados, conversando amenamente, o moreno contando mais histórias sobre os amigos. Até que o loiro recebeu uma ligação e, com um olhar incrédulo para o visor do celular, dirigiu-se à pequena sacada do quarto sem dizer nada. Fafá inclinou a cabeça para o lado, como Sascha faria num momento de curiosidade como aquele, mas resolveu matar o tempo tocando violão, enquanto o loiro falava ao celular.
Sorriu distraidamente, lembrando as vezes em que André aparecia sob a sacada e o chamava. Corria para vê-lo, e então descia correndo até o primeiro andar, já com o skate embaixo do braço. Tinham um ponto de encontro, mas não era sempre que conseguiam determinar os dias. No fim, o loiro acabava passando por ali quando conseguia dar uma escapulida de casa.
Alguém bateu à porta.
“Entra!” Fafá exclamou, e a Isadora colocou a cabeça para dentro do quarto.
“Tudo certo, meninos? Estão precisando de alguma coisa?” Ela perguntou, e olhou ao redor. “Onde está o André?”
“Na sacada ao celular. E ‘tamo bem, mãe. Tudo tranquilo.” Piscou-lhe, mas nesse momento um furacão em miniatura entrou no quarto e se jogou na cama. Luísa ainda sentia saudades do irmão.
Isa resolveu voltar à sala deixando a porta entreaberta.
“Mano! Amanhã me ensina a andar de skate?!” Ela pediu espevitada, abraçando o mais velho pelo pescoço. “Tu prometeu!”
Fafá não se lembrava de ter prometido nada, mas riu e bagunçou os cabelos dela.
“Quem a senhorita está tentando impressionar, hah? Skate é perigoso.” Falou sério.
“Mas-!” Luísa já queria contrapor.
“E por isso vou te ensinar direitinho pra tu não te machucar!” Completou malandro, e a Luísa soltou um gritinho de empolgação e se abraçou mais ainda a ele. Fabrício largou o violão e começou a fazer cosquinhas na pequena, que esperneou e reclamou, mas estava adorando. Adorava receber atenção do irmão.
Ela ficou ofegante e, aproveitando o momento de fraqueza, Fabrício começou a perguntar-lhe da escola, dos amiguinhos, do que andara aprontando, até conseguir a confissão de que um tal de Julian a pedira em namoro. Fabrício quase infartou. Eles tinham só nove anos! Onde essa juventude iria parar?!
“Mas eu falei para ele que éramos só amigos.” Luísa explicou rápido ao ver o irmão estático, com a mão sobre o peito. Fabrício não era do tipo ciumento, achava que não seria um irmão ciumento, mas já estava imaginando maneiras de ir ter uma conversa séria com esse gurizinho precoce.
Suspirou aliviado com o que a irmã disse e acariciou-lhe o topo da cabeça.
“E que continue assim. Deixe-o na friendzone por no mínimo mais uns cinco anos. De preferência, para sempre.” Fafá proclamou, solene, mas a Luísa olhou-o cheia de incompreensão.
“O que é friendzone?” Ela perguntou, a palavra saindo de forma um pouco atrapalhada de seus lábios. Fafá coçou os cabelos, se perguntando como explicaria isso para a irmã, e se deveria explicar.
“Erm...”
“Mano.” Luísa o interrompeu. “’Tô ouvindo alguém chorar. É o teu namorado?” Ela perguntou preocupada, colocando o dedo indicador sobre os lábios do irmão. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos e conseguiram ouvir um choro abafado.
Vinha da sacada.
Fabrício se levantou e foi imediatamente para lá. Luísa ficou atrás de suas pernas, e espiou o que acontecia. André estava sentado no canto da sacada, costas contra a parede, joelhos dobrados e braços estendidos sobre os joelhos. A cabeça baixa, enquanto segurava o celular com força. Fafá arregalou os olhos, cheio de preocupação, e a Luísa contornou o irmão e correu até o loiro.
“Onde ‘tá doendo?” Ela perguntou ajoelhando-se. André os olhou, só então notando a presença deles. Limpou as lágrimas enquanto a menina o encarava em busca de machucados; ao não encontrar, Luísa tocou-lhe o peito. “É aqui?”
André soltou uma risada fraca, entrecortada.
“É... É aí mesmo, mas... É uma dor que também tem felicidade no meio.” Explicou, mas a Luísa novamente ficou sem entender. Por que os mais velhos sempre falavam coisas que não compreendia?
“Como pode doer se ‘tá feliz?” Quis saber, aproximando-se mais do loiro. Fafá também se aproximou e se ajoelhou próximo aos dois. André manteve o sorriso leve. Era sua segunda noite ali, mas havia se afeiçoado à irmãzinha do namorado. E isso que sequer gostava de crianças, mas ela era muito esperta, diferente do irmão.
“É difícil dizer... Mas prometo que algum dia eu tento explicar.” Garantiu.
“Tudo bem. Mas pra te fazer parar de chorar, eu digo que tu também é legal, então pode namorar meu irmão. Pessoas que choram sem medo de demonstrar o que sentem, são boas pessoas! Papai me disse isso!”
André riu de novo.
“Obrigado. Significa muito pra mim.”
Luísa o abraçou, e o loiro sorriu para o namorado, que retribuiu levemente o gesto, apesar da preocupação pelo choro.
“Eu já sei!” Luísa exclamou então. “Eu vou morar com vocês em Porto Alegre quando eu for mais velha!” Ela decidiu por si mesma, levantando-se com um pulo como se a altura lhe desse alguma autoridade.
“Acredite, quando tu for mais velha, vai querer ficar bem longe do teu irmãozão aqui. Agora se manda, espoleta, que eu quero conversar com esse loiro.” Fafá falou puxando-a pelo braço e dando-lhe um tapa na bunda para que seguisse para fora da sacada.
Luísa gritou ultrajada.
“Chato!” Exclamou, mas corou e correu para dentro ao ver que o loiro a olhava sorrindo de leve.
“Então...” Fabrício se sentou ao lado do namorado, porém com as costas voltadas para a rua. “O que aconteceu, loiro?”
“Minha mãe me ligou.” Contou após uns segundos de silêncio. “Ela... Ela disse que estará aqui amanhã. Com meu avô.” Engoliu o choro que quis brotar novamente. “Disse que é hora de conversarmos. Eu nem acredito que meu avô veio da Inglaterra até aqui. E estou feliz que ela ligou, mas com um pouco de medo...”
Fabrício se aproximou mais e o abraçou.
“Não fique. Eu sinto que será uma conversa especial.” Garantiu com uma satisfação sem igual pela possibilidade de mãe e filho fazerem as pazes, maior até do que a que sentira com seus pais. Sabia como o loiro estava sofrendo por isso naqueles dias, por mais que ele se fizesse de forte e fingisse que não. Por mais que estivesse ao lado dele. “Fica tranquilo.”
Esperava que desse tudo certo.
“Eu sei... Tu tem razão. Sei que ela ainda vai demorar um tempo para se acostumar totalmente, mas... O simples fato de ela querer vir até aqui e conversar é um começo, não é?” Ergueu o rosto e sorriu para o namorado, acariciando-lhe a mão. “Obrigado por estar comigo, sempre. Eu-“
“Não agradeça.” Fafá sorriu também. “Eu abri teus olhos, né? Seria sacanagem fazer isso e me mandar. Eu quero ‘tá ao teu lado pra tudo.”
“Já te chamaram de romântico antes?”
“Já. Bastante.” Sorriu ameno.
“E de exagerado?”
“Tenho quase certeza de que tu já me chamou disso.” Afirmou pensativo.
André concordou.
“Vem.” Fafá o puxou para o quarto, pois estava frio ali fora e os lábios do loiro já começavam a ficar arroxeados. André o seguiu para dentro e se deitou na cama. Poderiam colocar um colchão no chão, mas era uma cama de solteiro que, com jeitinho, permitia que dormissem juntos.
Fafá chaveou a porta e foi se deitar também, ficando de lado com a cabeça apoiada na mão e o cotovelo no colchão. Sua outra mão fazia carinhos nos cabelos do namorado, enquanto o olhava. André se acomodara de lado também, olhos fechados apreciando as carícias. Quando os abriu, olhou para o moreno um tempo, antes de erguer o rosto e beijá-lo.
Os momentos seguintes rolaram com naturalidade, sem pressa. Apenas seus lábios se tocando, suas mãos buscando um ao outro. Foram silenciosos para que ninguém os escutasse, mas isso não fazia com que a intensidade de seus corpos unidos fosse menor.
Pelo contrário, a cumplicidade e carinho apenas cresciam a cada nova experiência.
93 million miles from the sun
People get ready, get ready
Cause here it comes, it's a light
A beautiful light, over the horizon
Into our eyes...
Fale com o autor