Good Gone Girl

55 EPÍLOGO – JANTAR DE HORRORES


Notas iniciais
Então.... Primeiramente, bom dia, boa tarde, boa noite. Eu senti pelos comentários no capítulo passado que muita gente não entendeu que foi o último capítulo (e eu mesma não avisei né >.>) estou me sentindo uma pessoa horrível iludidora de leitoras e sinto muito por isso. Juro que não foi a minha intenção. Espero que vocês consigam curtir o epílogo pelo menos. Ficou tão grande que pensei em dividir em dois, só que aí pensei: rapaz, é um epílogo, deixa grandão mesmo, para não ter que fazer "epílogo 1, 2,3..." Obrigada a todo mundo que acompanhou até aqui, e que comentou no capitulo anterior. Sem vocês essa história não teria conseguido ter um fim (que me agradou bem mais que o primeiro) e eu gostaria de pedir para que recomendassem e tal porque eu adoro recomendações *---* (se eu não merecer, tudo bem, eu entendo, vou tentar continuar melhorando até merecer em próximas histórias). Obrigada a todo mundo que comentou capítulo passado: > Revolte Unicornio ♥ > sandrinha ♥ > leticiaAE ♥ > Carina ♥ > paulinha3 ♥ > Juuh Beauchamp ♥ > KK ♥ > Kika Pichsterzy ♥ > Olhos Castanhos ♥ > AELIS WHITE ♥ > Wilma ♥ Prometo que vou passar o fim de semana respondendo os comentários!! ^ ^ Bisou ♥ Belle.Époque

EPÍLOGO – JANTAR DE HORRORES

— Você está nervoso? – Eu perguntei à Alexander.

Ele me olhou pelo canto do olho, como se não entendesse o motivo da minha pergunta. Seu olhar assim me deixou um pouco sem graça. Havia o dia que ele estava um pouco de mau humor, apesar dele jamais admitir isso por mais que eu perguntasse.

— Não – ele responde. – Você está?

— Não... – eu respondi, desviando o olhar e completando: – Mas não sou eu que vou me encontrar com o meu inimigo mortal.

Ele ergueu uma sobrancelha. Nenhuma demonstração de humor.

— Ele não é meu inimigo mortal – ele retrucou. – Ele só.... é uma pessoa que poderia sumir da face da terra que eu não daria a mínima.

Tento não dar uma risada pelo como ele diz isso. Sei que é errado e que, infelizmente, é a verdade, e que isso não é engraçado. Na verdade, chega a ser bem triste ouvir alguém falando assim do próprio irmão. Então eu fico em silêncio, até o elevador chegar e nós entrarmos.

Há dois dias a mãe dele havia ligado e dito que iam fazer o jantar hoje à noite. Ele não pareceu nenhum pouco feliz desde então, apesar de, como eu disse, não admitir isso. Apesar de na maior parte do tempo ele não parecer empolgado com as coisas, dá para ver em seus olhos que algo o deixa desconfortável em tudo aquilo, e o esforço que ele está fazendo hoje parece hercúleo.

— Sabe... sei que eu vou ficar muito nervosa segunda que vem, quando me colocarem frente a frente com Mike durante a audiência... e ele é meu inimigo mortal – eu comentei, tentando fazê-lo entender que era normal se ele se sentisse assim.

Sinto sua mão na minha de repente. É um gesto repentino e leve.

— Sua mãe ainda vem? – Ele perguntou.

— Parece que sim... ela insiste – eu respondi.

Pela primeira vez ele mostra um sorriso discreto. Eu sabia que ele estaria lá e, sendo sincera, isso bastaria muito. Mas minha mãe querer estar lá e acompanhar tudo... era estranho e ele sabia disso. Ainda mais porque sabia que ainda tinha um pé atrás com a senhora Pauline.

— Mas hoje eu quero saber de você – eu insisti. – Você está bem com isso?

Alexander deu de ombros. Seu sorriso sumindo.

— Bell, eu posso não estar confortável com a ideia de ver ele de novo..., mas eu vou me comportar. Nem que seja pela minha mãe e por você – ele diz, parecendo cansado. Provavelmente, cansado das minhas perguntas.

Pergunto-me o que ele quer dizer com “vou me comportar”? Algo como: não vou dar um soco na cara dele nem nada assim? Mas não pergunto porque parece que Alex é uma daquelas pessoas que odeia quando ficam perguntando se ele está bem o tempo todo. Além do que, talvez eu devesse dar esse voto de confiança e não o deixar ainda mais estressado do que ele já estava.

Eu só queria que a minha presença ali fosse o suficiente para tranquilizá-lo, assim como eu sabia que a sua era o suficiente para mim. Bem, se Alex dizia que estava bem, então... ele provavelmente estaria bem, não é? Decido me acalmar com isso e mudar de assunto para tentar aliviar o clima.

— Hum... – eu penso em alguma coisa para dizer. – Seu tio vai estar lá hoje?

— Acho que vai... Ele e a minha tia – ele respondeu, hesitante.

Ah sim, Diana. A mulher que apareceu no apartamento dele e me pegou vestindo apenas uma camiseta dele. Apenas a camiseta dele. Ela iria estar lá, junto com o homem que viu (de longe) eu agarrar o sobrinho pelo pescoço e lhe dar um beijão no meio da multidão quando eu nem o conhecia direito. Ah, que maravilha.

Sério, Bell, o que você fez com a sua vida?

— Preocupada? – Ele pergunta, parecendo divertido pela primeira vez.

Acho que meu constrangimento poderia ser a única coisa que o divertia.

— Nenhum pouco – eu respondi, mas minha risada soou nervosa até para mim. – É só o seu tio... que me viu te agarrando quando nem sabia seu nome inteiro e sua tia... que me viu andando só de camiseta pelo seu apartamento quando nem namorávamos. Pff, isso acontece todo dia comigo.

Ele solta uma risada e segura a minha mão.

— Não há uma pessoa nesse mundo que não goste de você, Bell – ele diz.

— Mike – eu comentei.

— Ele não conta. Obviamente tem problema mentais...

— Sua ex-namorada, Georgia – citei.

— Ela te odeia de tabela, assim como odiaria qualquer outra garota. Próximo.

— Minha ex-quase melhor amiga da oitava série Jeanine Baker – eu citei.

Alex estreitou os olhos, confuso.

— Essa não conheço – ele confessou.

— Bem, ela soube que eu gostava do garotinho que todo mundo gostava, e basicamente espalhou para nossas amigas que ia ao baile de primavera com ele. Ela também perguntou se eu me importava, já que, bem, eu “não teria chances” – eu respondi. – Se isso não é maldade ou ódio, eu não sei o que é.

Alex pensou nisso por um momento.

— Você quase considerou alguém assim como melhor amiga? – Ele pergunta.

Dei de ombros.

— Ela era minha única amiga, na verdade – eu confessei. – Mas tudo bem. Não é como se eu precisasse da amizade de alguém assim. Graças a isso, eu chegava da aula e me trancava na biblioteca do meu pai.

Como se não houvesse o que dizer, Alexander leva minha mão aos seus lábios e dá um beijo no nó dos meus dedos. O contato faz com que arrepios subam pelo meu braço e um sorriso bobo aparecer no meu rosto.

— Amor, acho melhor pendurar seu quadro que representa as amizades tóxicas bem na sua cara. Para você nunca se esquecer de que você é uma pessoa incrível, que merece coisas incríveis – ele comentou, divertido.

.

Pelo menos tagarelar sobre a vida ajudou a melhorar o humor dele e, quando chegamos a casa da sua mãe, Alexander parecia mais relaxado. A casa da mãe dele, por sinal, era incrível. Ficava afastada do centro da cidade, mas era uma daquelas grandes construções da época georgiana ou sei lá o quê. Fiquei observando, por muito tempo, completamente sem chão e então olhei para ele e nem sei como tive voz para perguntar:

— Você morava aqui?!

Ele deu de ombros, como se não fosse nada, enquanto me guiava para a entrada da sua antiga casa. Mas estava óbvio o quanto ele se divertia com a minha reação.

— Os Kensington, caso você não saiba, tinham uma linhagem considerada nobre aqui pelo interior. Mesmo que nunca tivéssemos títulos nem nada assim. Nós só éramos... ricos – ele diz. E o modo como ele fala Kensington, no seu sotaque, é o cúmulo da conhecida babaquice britânica. – E respeitados.

— Ah, perdoe minha ignorância, Sr. Kensington – eu digo, imitando o sotaque.

Ele estreita os olhos para mim, como se percebesse que eu estava tirando com a sua cara e não soubesse ao certo se ele gostava disso. De qualquer forma, qualquer um que olhasse para Alexander jamais iria pensar em algo assim. Sério. Não que ele fosse rico agora, acho que não era, mas era óbvio que ele tinha o suficiente para viver bem. E a mansão moderna da família de Mike era nada perto da casa antiga e histórica dele.

— Só para você babar mais, essa é apenas a casa da cidade. Antigamente costumávamos ter um palacete afastado, mas algum parente endividado vendeu séculos atrás – ele comentou. – Eu nunca cheguei a conhecer, mas dizem que ficava na floresta de Sherwood ou perto dela.

Foi a minha vez de estreitar os olhos para ele.

— Tipo... a floresta do Robin Hood? – Perguntei desconfiada.

Ele olhou para mim como se eu fosse uma pessoa muito desinformada.

— Sim... a floresta que fica ao norte de Nottigham – ele diz, virando-se para tocar a campainha. Ao voltar-se para mim de novo, e ver a minha expressão confusa, ele diz desconfiado: — Você sabe que Nottinghan é considerado o berço de Robin Hood..., não sabe?

Sinto meu rosto ficar vermelho..., bem, não, eu não sabia. E isso fica tão claro na minha cara que ele tem que fazer um esforço sobre-humano para não rir da minha ignorância. Provavelmente com medo de que isso me ofendesse.

— Você é uma caixinha de surpresas, Isabelle – é tudo o que ele consegue dizer.

Antes de, claro, cair na gargalhada.

— Como é que eu não sabia disso? – Pergunto a mim mesma.

— Talvez você tenha se focado tanto em se divertir com Sasha e Ellie pelos bares por aí que tenha perdido um pouco da referência histórica – ele comentou, tentando parar de rir. – Mas tudo bem, um dia eu te levo para fazer um passeio bem turístico.

Sinto que ele está sendo condescendente comigo e lhe dou um empurrão, que apenas o faz rir ainda mais. Quando sua irmã abre a porta, é isso o que ela encontra: uma Isabelle constrangida e um Alexander incomumente morrendo de rir. E a cena é tão estranha para Alexis que ela apenas arqueia as sobrancelhas.

— Bell! Alex! Tudo bem? – Ela pergunta.

— Manda o seu irmão parar! – Eu acusei. – Ele está rindo de mim!

Ela parece confusa, mas então dá uma risada como se isso fosse engraçado e me dá um abraço e o abraça também. Assim que entramos no hall da casa (ou será que eu deveria chamar de “vestíbulo”?), somos recebidos pela mãe dele que o abraça calorosamente e me cumprimenta educadamente. Ela pega os nossos casacos e os guarda num armário de casacos e nos guia para a sala de estar.

O ambiente é decorado com o que parece ser uma reminiscência de períodos antigos, com uma mistura sutil da modernidade. Onde móveis antigos e bem conservados eram orgulhosamente exibidos, juntos à aparelhos de televisão e caixas de sons. A sala em si não é um grande salão, o que a torna aconchegante. Há sofás e poltronas confortáveis para um grande número de pessoas, uma lareira antiga que ostentava uma televisão moderna grudada à parede e uma estante antiga de livros em outra parede. Apesar de ser decorada em tons escuros, há algo incrivelmente acolhedor naquele lugar.

— Você parece uma criança na Disneylândia – ele me provoca.

Talvez porque eu estivesse sem palavras.

— Eu me sinto em um dos romances da Julia Quinn – eu respondi.

De repente, eu me dou conta que, meu deus, estou na casa dele e a família dele está reunida na sala de estar, me olhando como se eu fosse uma maluca ou idiota. Sinto meu rosto ficar vermelho e então dou a devida atenção aos outros familiares sentados no sofá. Reconheço seu tio, Kev, e sua tia, Diana, mas junto à eles estão um homem e uma mulher que eu nunca havia visto na vida.

Quer dizer, o homem era familiar. Era muito parecido com Alexander, mas com o cabelo mais curto e rosto mais amigável. Reconheço-o da foto de família no rack do meu namorado e isso me causa certo estranhamento. Ele..., bem, não parece o tipo de cara que você imagina batendo na sua melhor amiga. Ele parece incrivelmente mais simpático e sociável que Alexander. O mesmo posso dizer de sua namorada, tipicamente britânica, com cabelos loiros escuros, olhos azuis e sorriso gentil.

E por algum motivo, o clima fica incrivelmente tenso quando eu percebo o casal ali e eles me percebem. Não sei se a família de Alexander está esperando ele me apresente ao irmão e a namorada dele, mas ele parece bem determinado a fingir que não há mais ninguém ali. Isso é óbvio só pelo como ele evita olhar para Alexiel.

Olho para Alexis e ela apenas dá de ombros. Como se não soubesse o que fazer ou dizer desde a primeira vez que eu a conheci. É com esforço que ela diz:

— Bell, esse é o meu irmão mais velho, Alexiel... e a namorada dele, Holly. Alexiel, essa é a Isabelle. Namorada do Alex.

Estendi a mão para ele, mas ele parece ocupado demais para retribuir o gesto, já que ele está me medindo com o olhar com o que parece ser...., bem, incredulidade.

— Você só pode estar brincando comigo – ele solta em tom de deboche.

O.K. Não era isso o que eu esperava ouvir.

Nem Alexander, que parece ser capaz de soltar raios pelos olhos. Seus músculos estavam tão tensos que acho que ele só relaxaria depois de dar uns socos no irmão. A ideia deixa de ser escandalosa para incrivelmente convidativa.

— Alexiel! – A mãe dele briga, como se fosse uma criança fazendo coisa errada.

Holly, sua namorada, parece incrivelmente envergonhada pelo comportamento dele e olha para mim como se pedisse desculpas. Não que ela tivesse alguma culpa de algo, mas como conheço essa sensação apenas dou um sorriso educado e vou para o lado do meu namorado. Fingindo que não aconteceu nada e não ouvi nada.

Pelo menos eu era boa em fazer isso.

— Então... se passaram 5 minutos e nenhum soco ou agressão verbal – Observou tio Kev, olhando no relógio. – Bom. Isso é bom.

— Para mim parece um progresso – Tia Diana concordou, pegando a mão do marido. – Bem melhor do que as últimas... 18323 tentativas.

— Vamos esperar o jantar começar antes de termos esperança – ele a lembrou.

— Meu deus, o jantar! – A mãe dele se levanta da cadeira em um pulo. – Eu já volto. Tenho que vigiar o fogão. Alexis, vem me ajudar!

A garota protesta e revira os olhos. Ajudar na cozinha obviamente não é seu afazer favorito naquela casa. Para sua sorte, Kev diz:

— Deixa que eu ajudo, Barbara. Eu me lembro muito bem da última vez que comi algo feito com Alexis na cozinha... E preferia não lembrar.

A garota dá de ombros e eu tento não rir.

Barbara! É assim que me descubro o nome da mãe de Alexander. Ufa. Pensei que nunca mais saberia de novo.... Agora... qual era o nome do pai dele? Eu queria que ele tivesse escrito no porta-retratos quando ele me indicou cada membro. Também queria que não estivesse bêbada para poder me lembrar com clareza.

Então, na sala de estar ficamos: Alex, Alexiel, Alexis, Holly, Diana e eu. No que só podia ser descrito como o clima mais tenso de toda a minha vida.

— Então você é a “nova” namorada do Alex – Diana comenta, virando-se para mim. Sinto meu rosto ficar vermelho quando ela dá um sorriso divertido e pergunta provocante: — Então... o que era que faltava?

Sei que ela está brincando comigo, porque Alexis ficou perguntando o tempo todo “o que faltava” para eu namorar com o irmão dela. E isso faz com que Alexis se mate de rir na poltrona onde está acomodada. Diana ri também quando me vê ficar sem jeito, deixando claro que ela não esperava uma resposta para aquela pergunta. E que seu senso de humor tem muito a ver com o seu marido.

Olho para Alexander, esperando que ele diga algo engraçado para a tia (porque eu não podia), mas ele está encarando o irmão. Seu bom humor desaparecido por completo, atrás de um olhar hostil que era retribuído da mesma forma. Eles pareciam dois cachorros, brigando por um território. Estavam na fase de se encarar, e então, a qualquer movimento, um rosnaria para o outro...

— É um prazer vê-la de novo – É tudo o que eu consigo (posso) responder.

Ela retribui com um sorriso gentil.

— Alex, por que não mostra o resto da casa para a sua namorada? – Diana sugere.

Alexander solta um suspiro de alívio por ter um motivo para sair daquele lugar, e faz um gesto como se perguntasse se eu quero. Respondo com um dar de ombros, porque toda a minha agitação havia se esfriado com aquela situação. Aceito porque acho que sua tia quer se livrar de nós, ao menos por um tempo, e porque ele obviamente está desesperado para sair dali.

Quando ele pega a minha mão, Alexis grita desesperada:

— Me leva também, por favor!

— Shh. Você fica aqui – Diana diz, colocando a mão sobre o ombro dela.

Alexis parece tão desapontada que acho que ela também quer evitar a presença de Alexiel. Só me pergunto como alguém pode ser tão desagradável a ponto de nem os próprios irmãos quererem ficar por perto dele.

.

Alexander mal fala alguma coisa enquanto me guia para a escada e para o segundo andar. O hall do segundo andar possuía um tom de madeira escuro e austero, parecendo ser a parte mais antiga e conservada da casa. Suas paredes são completamente decoradas com fotos de família, tantos antigas, quanto atuais.

Eu as observo com curiosidade, enquanto ele caminha pelo corredor.

— Quem são vocês? Os Blossoms? – Eu tento brincar. – Só há ruivos na sua família desde quando? É tipo uma seita? Você entra para os Kensigtons e fica ruivo?

Eu insisto e continuo até ver um sorriso querer aparecer no seu rosto. Fazia muito tempo que eu não o via tão sério e agora era estranho. Quando suas expressões enfim relaxam um pouco, eu sorrio e seguro a mão dele (porque minhas verdadeiras intenções com ele não eram tão puras quanto um segurar de mão).

— Deve ser. Minha mãe pinta o cabelo desde que me entendo por gente – ele respondeu.

Tento não parecer chocada. Mesmo assim um “SUA MÃE PINTA O CABELO?!” Escapa da minha boca e ele sorri, levando o indicador aos lábios como se pedisse para eu manter segredo. Eu concordo com a cabeça e ele para em frente a uma porta no fim do corredor.

— Alex, espera. Acho que precisamos terminar – Eu digo com uma voz dramática, fazendo ele arquear uma sobrancelha. – Porque eu não ficaria bem ruiva!

Ele enfim solta uma risada. Me sinto uma vitoriosa.

— Você ficaria linda de qualquer jeito. Até se raspasse o cabelo – ele responde. – Mas não se preocupe. Podemos quebrar essa tradição da família. Ir contra o sistema.

Então ele abre a porta do quarto.

Por algum motivo, me sinto ficar animada de novo e dou uma espiada lá dentro do cômodo. É obviamente um quarto abandonado: com o colchão nu e os grandes armários e escrivaninhas vazios. A única coisa que mostra que algum dia ele foi ocupado, eram os numerosos pôsteres nas paredes. Eram tantos, que mais pareciam um papel de parede. Foi assim que eu descobri que o quarto havia sido de Alexander.

“Falling in Reverse”, “Three Days Grace”, “Bring me the horizon”, “Sleeping with sirens”, “Black Veil Brides”...— Tento não rir quando digo: — Meu deus você era muito emo! Você pegou todas as bandas emos possíveis e encheu seu quarto com isso... Olha lá “My Chemical Romance”! Não podia faltar.

Não consigo mais segurar e eu começo a gargalhar.

Alexander apenas revira os olhos quando me vê rindo e entrando no quarto. Em questão de espaço, era grande, com paredes brancas e piso de carpete azul com algumas manchas escuras espalhadas. Ele se encosta ao batente enquanto me vê analisar tudo como uma perita criminal. Caminho até a janela e analiso a paisagem do seu jardim.

Tento imaginar o Alexander emo de 13/15 anos de idade morando ali e um sorriso divertido surge no meu rosto contra a minha vontade.

De repente, sinto ele atrás de mim. Primeiro sinto o seu calor, depois sinto suas mãos subindo pelos meus braços e sua respiração em meu pescoço, até que enfim me abraça, colocando o queixo sobre a minha cabeça. Era sensual, sentir seu corpo perto do meu. Sentir seu calor aquecendo minhas costas.

— Por que você parece tão perfeito? – Resmunguei.

Não sei se ele riu ou suspirou.

— Bell, eu não...

Virei-me para ele e, quando nossos olhares se encontram, ele se cala. Olho para os seus lábios e o beijo de leve. Mas nada leve parece o suficiente para ele, então Alex me segura pela cintura e me puxa contra o seu corpo e sinto sua língua entrar pela minha boca, quente e aveludada. Sensual. Dispersando fogo por todo o meu corpo.

— Nunca desejei tanto... que esse quarto ainda fosse meu – ele fala, geme e lamenta, ao mesmo tempo e esse tom de voz me faz rir.

No entanto, tento fingir estar ofendida quando digo:

— Meu deus Alex... sua família está lá embaixo!

Ele dá de ombros, com aquele meio sorriso misterioso que eu adoro. Seus braços me puxam contra o seu corpo novamente quando ele murmura:

— Eu te falei, quando estávamos nos conhecendo, que eu não tenho hora nem lugar.

Sinto meu rosto corar... porque eu me lembrava daquela cena.

— Mas já que você não quer... vem, vou te mostrar o resto – ele muda de assunto, puxando-me para fora do ambiente pela mão.

Quase sinto vontade de choramingar um: “quem disse que eu não quero?!”, mas tudo o que sai da minha boca é:

— Mas... mas...

Que ele não ouve. Ou finge que não ouve.

Aponta-me onde eram (são) os quartos de Alexis e sua mãe. Como não aponta o quarto de Alexiel, deduzo que sei qual é por eliminação. Então descemos escadas novamente e ele me mostra o escritório.

Por fora, é uma porta discreta no hall de entrada. Por dentro está mais para “depósito” do que escritório. Há estantes de madeira cheias de livros nas paredes, uma escrivaninha pesada, com três cadeiras (ocupadas por caixas grandes e cheias de velharias). Alexander hesita na porta, mas estou empolgada e entro sem ele.

Não sei porque coisas velhas me fascinam.

Parece que quanto mais poeirento, melhor.

— Era o escritório do meu pai – ele diz, enfim entrando no cômodo. – Agora parece um porão...

Ele dá aquele meio sorriso misterioso.

— O que o seu pai fazia? – Eu pergunto, analisando os livros abandonados no escritório. Espalhados por todas as partes: prateleiras das estantes, nas caixas sobre as cadeiras, pela escrivaninha...

— Era arqueólogo – ele respondeu.

— Tipo Indiana Jones? – Eu brinquei.

Ele sorri.

— Mais chato – ele confessou. – Quando não estava viajando, ficava trancado aqui. Era o único que usava esse escritório. Quando eu era menor, ficava de baixo da escrivaninha, fazendo dever de casa, e ele ficava estudando seus livros.

Eu ri e me virei para ele.

Pela primeira vez, Alexander estava encolhido e parecendo desconfortável. Seu olhar varria o ambiente com nostalgia. Por algum motivo, eu queria pegar ele no colo e cuidar. O que era uma ideia maluca porque, onde já se viu, eu tendo que cuidar de Alexander? Mesmo assim, eu queria.

— Você sente falta dele – eu observei.

Ele deu de ombros, aproximando-se devagar. Ele senta-se na ponta da escrivaninha e seu olhar ainda é nostálgico. Como se ele estivesse se lembrando de como as coisas eram antes do pai ter morrido.

— Ele era foda – ele afirmou com um suspiro.

— Deve ter sido – eu concordei. – Você e Alexis são fodas também.

Ele dá um sorriso fraco. Quando vejo, estou me encaixando entre suas pernas e colocando a cabeça no seu ombro. Abraçando-o. Eu sentia que daria qualquer coisa para não ver tantas saudades nos olhos dele. Era tão intenso, que eu sentia como se eu mesma houvesse perdido alguém importante.

— Ele foi quem deixou eu fazer minhas tatuagens, mamãe queria matá-lo por isso – Alexander comentou, sorrindo. – Era engraçado, ele não tinha problemas com isso, mas não gostava nada de eu ter uma banda. Ficava dizendo que músicos não prestam.

Eu tento não rir.

— Como não? Devem ter músicos bons por aí – eu protestei.

— Me diga um aí – ele pediu.

— Selena Gomes – eu respondo. – A garota é tão boa que parece uma fada!

Ele ri, meneando com a cabeça.

— De rock? – Ele pergunta.

Eu penso sobre isso.

— McFly! – Eu respondo. – Os caras eram super fofos e hoje em dia estão casados e com filhinhos fofinhos.

Ele revirou os olhos e me provocou:

— Volto a repetir: de rock?

Eu o empurrei chamando-o de babaca. Ele segura o meu braço e me beija com intensidade. Apertando-me contra o seu corpo, roçando seus lábios nos meus, fazendo com que todo o meu corpo se aqueça. Sinto como se o seu calor migrasse para o meu corpo, excitando-me. Quando vejo, estou passando meus braços pelo seu pescoço e o querendo perto de mim. O mais perto possível.

Ficamos sem fôlego e ele se afasta, mas seus lábios não. Eles deslizam pelo meu pescoço, fazendo-me soltar um suspiro e fraquejar como uma mocinha de livros românticos. Seus braços continuam me apoiando, enquanto seus dentes roçam na minha pele e eu perco toda a capacidade de discernimento. Sinto-o afastar a alça do meu vestido pelo ombro e sinto seus dentes lá, ainda em minha pele.

Aquilo era tão excitante.

Levo minhas mãos para os seus cabelos e me afogo nas sensações excitantes que sua boca provocam em mim. Ela desce pelo meu colo, e ele puxa meu decote para baixo o suficiente para conseguir levar os lábios aos meus seios e mordiscar a pele macia. Solto um gemido baixo e deslizo minhas mãos por ele, descendo até chegar no início de uma ereção em sua calça jeans. Ele solta um suspiro baixo de expectativa.

A única coisa que nos fez parar, foi ouvir Alexis gritando do hall:

— Alex! Bell! O jantar está na mesa!

Solto um suspiro de frustração e acho que ele também. Mas há um riso constrangido preso na minha garganta enquanto coloco minha roupa no lugar. Onde ele me mordiscou e me beijou ainda arde, como se estivesse cravado em minha pele.

— Bell... – Alex diz, antes de deixar que eu me afaste. – Me desculpa pelo como Alexiel te tratou... lá na sala. – Quero lhe dizer que não há nada para ele se desculpar, mas Alex continua: — É provável que ele diga muitas coisas como aquelas só para te perturbar. Porque ele sabe que isso me irritaria... só... não leve a sério, tá bom?

Eu não sei porque ele diz isso assim (como se eu fosse levar a sério algo que o irmão babaca do meu namorado fala), mas eu concordo com a cabeça. E sorrio para que ele não se preocupe. Quer dizer, não é como se fosse uma guerra e eu tivesse que escolher um lado, mas entre acreditar em Alexiel ou na minha amiga agredida por ele e no meu namorado, parece que não há muito o que pensar.

Sendo assim, voltamos para o hall e Alexander me leva direito para a sala de jantar. É um lugar completamente decorado naquele mesmo estilo do hall do segundo andar: madeiras escuras e pesadas, decorado com peças antigas que estão bem conservadas. A enorme mesa está com sete lugares postos. A mãe dele está na cabeceira, onde de um lado está Alexiel e o outro lado está reservado para Alexander.

Parece uma cena dramática e me pergunto se a organização da mesa foi proposital. Vejo a relutância do meu namorado em se sentar de frente para o irmão. Eu me sento ao lado dele, de frente para Holly, e ao lado de Alexis.

— Eu preciso dizer isso: vocês têm uma casa incrível – eu digo à Barbara. – Principalmente o escritório. Eu podia passar horas lá.

Alexander me olhou como se quisesse saber que eu o estava provocando. Pior que eu não estava, mas então ele me olhou daquele jeito, e eu quis estar.

Kev e Barbara sorriem.

— Ah, você não mostrou o escritório para ela, Alexander – A mãe dele reclama. – Está tão bagunçado e empoeirado.... Eu devia ter arrumado.

— Não, não. Perderia o encanto – eu protesto. – Quanto mais poeirento melhor.

— Mas não era você que tinha um TOC com limpeza e arrumação? – Alexander me provoca. – Você não pode ver nada fora do lugar que já fica nervosa.

Sinto meu rosto ficar vermelho enquanto tio Kev e Diana riem de mim, junto com Alexis. Queria dizer que não era bem assim, mas a verdade é que eu não sabia como explicar. Então apenas deixo o assunto morrer e um silêncio desagradável recaí no cômodo. Talvez porque Alexiel estivesse olhando para mim e para Alexander com aquele misto de indignação e incredulidade, que Holly tentava fingir não perceber.

Eu estava começando a ficar com pena dela.

— Bem, Isabelle, Barbara e eu fizemos uma comida tipicamente inglesa. Esperamos que você goste – Tio Kev diz, colocando uma última vasilha com o que parecia ser ensopado sobre a mesa.

— Parece que minha família te adora – Alexiel observou de repente.

Não entendo o seu tom de voz, mas eu sorrio e digo:

— Vocês que são gentis.

Por algum motivo, acho que ele me odeia. Digo a mim mesma que, talvez como Georgia, tenha sido um ódio por tabela. Ele odeia Alexander, então é claro que iria odiar a namorada dele, certo? Ou pelo menos decidir que não ia gostar dela de jeito nenhum.

— São mesmo – Holly concorda.

Acho que é a primeira vez que a ouço falar desde que entrei naquela casa.

— Não sei o que você leu sobre a culinária inglesa, mas esqueça tudo! Como você é uma garota esperta, tenho certeza que vai apreciar – Diana diz, como se seu sobrinho não houvesse dito nada.

Eu tenho quase certeza que ela está comentando sobre os rumores que dizem que a comida típica inglesa é..., bem, insossa. Todo mundo diz que é sem graça e que, obviamente, a França possui a melhor gastronomia do mundo. Essa rivalidade sempre existiu e escolher um lado parece injusto quando minha mãe e minha irmã estavam morando na França e quando eu tinha sobrenome francês.

— Bem, eu gosto de Fish and Chips— eu respondi, fazendo-os rir.

No entanto, a comida é HORRÍVEL.

Eu não disse nada porque seria deselegante eu dizer algo assim no primeiro jantar com a família do meu namorado. Agi como se nada estivesse errado: comi tudo sem fazer careta (como se faz careta quando a comida tem gosto nenhum?!), fui a pessoa mais simpática do mundo, conversando com todo mundo (menos com Alexiel e Holly que não pareciam fazer muita questão de conversarem), mas por dentro eu estava querendo me perguntar onde havia ido parar o meu paladar.

— Eu nem perguntei, Isabelle, como está o seu ombro? Se recuperou bem? – Diana perguntou com curiosidade. – Da última vez que nos vimos, tinha um hematoma enorme, horrível.

Alexis abafa suas risadas com o guardanapo quando vê o espanto no rosto da mãe e de Holly. Eu mesma sinto meu rosto ficar vermelho de vergonha.

— Ah... sim. Está novinho em folha – eu respondi, sem graça, mostrando-lhe.

— O que aconteceu com o seu ombro? Hematoma? – Barbara pergunta.

Eu faço um gesto como se fosse nada demais.

— Ela tentou arrombar uma porta emperrada! – Alexis me dedurou, rindo muito. – Ficou horrível. Ficou roxo daqui até aqui – Ela diz, apontando o tamanho do estrago.

Quase murmuro um “obrigada” sarcástico para ela.

— Por que você tentou arrombar uma porta? – Holly perguntou desconfiada.

Era a primeira vez que ela se dirigia diretamente a mim.

— É, Isabelle, por quê? – Tio Kev também quis saber, interessado.

Ah, merda. Olhei para Alexis querendo saber se ela estava satisfeita agora.

— Bem é uma história meio triste... minha amiga estava planejando se matar porque meu ex-namorado, com quem ela saía pelas minhas costas, havia terminado com ela – eu respondi. – Aí ela foi para o terraço do prédio da universidade e a maldita porta estava emperrada.... Por algum motivo, achei que conseguiria arrombá-la com o meu peso.

— Meu deus, ela está bem? – A mãe de Alexander pergunta preocupada.

— Sim, está – eu respondi. – Tudo terminou bem. Mas aí eu fiquei com aquele enorme hematoma no ombro... porque eu não pensei direito na situação.

A mãe dele, a tia e o tio parecem impressionados e assustados, mas quando olho para Alexander, seus olhos sobre mim são muito intensos. Como se ele se lembrasse muito bem daquele dia, apesar de parecer fazer muito tempo desde que ele acontecera.

— Parece um casal de super-heróis. Saindo pela cidade e salvando pessoas – Alexiel comenta com sarcasmo. – Nottingham precisa de vocês.

Tio Kev dá uma risada que é repreendida por Diana.

Mas Alex começa a ficar puto de verdade.

— Parece bem melhor do que ser o cara que espanca a namorada até fazê-la ir parar no hospital – Ele responde irritado.

— Quem quer sobremesa? Vou pegar a sobremesa – Barbara muda de assunto automaticamente. Levantando-se da cadeira de maneira apressada.

— Eu acho melhor ir com você – Alexis diz rapidamente.

É a primeira vez que ela dá sinal de não querer ficar no mesmo ambiente que Alexander e isso me assusta muito. As duas parecem estar querendo fugir. Sinto como se Barbara não quisesse ver os filhos discutindo porque não saberia como fazê-los parar, então ela provavelmente apenas optou por sair dali antes que a briga estourasse e ela acabasse desapontada. Assim como Alexis.

Kev e Diana observam aquela situação pensando no que fazer.

— Melhor do que ser o cara que dá em cima da namorada do irmão?! – Alexiel retruca. – Você não tem moral nenhuma para falar comigo. É um sem-vergonha!

— Alexiel... – Holly diz baixinho, segurando o braço dele.

Ele puxa o braço da mão dela, como se não quisesse ser encostado.

— Eu falei que ele faria isso, não falei? – Ele disse para ela. – Você entende agora o que eu te disse, não é? Esse moleque é um nojo!

— Ah, é? E o que ele te disse?! – Alexander pergunta, levantando-se da cadeira. – Ele te disse que BATEU na namorada dele, minha amiga, até DESFIGURÁ-LA?! Até ela ir parar num HOSPITAL e precisar da ajuda de aparelhos para RESPIRAR?!

Holly está com seus grandes olhos claros arregalados, como uma criança assustada. Não sei se ela sabia da história, mas eu sinto pena dela. Não a conheço, mas parece errado envolver as pessoas nos problemas familiares dos outros assim.

— Garotos... – Diana tenta intervir.

— Se é para falarmos sobre o que não contamos às nossas namoradas, me pergunto se a sua sabe do seu CASO com Sasha! – Acusa Alexiel, levantando-se também. – Do como você dava EM CIMA DELA PELAS MINHAS COSTAS e do como vocês me enganaram!

— Você é doente! – Alexander grita. Acho que nunca o ouvi gritar antes em toda a minha vida e isso é muito assustador. A cena é muito assustadora. – Eu nunca dei em cima dela nem tive nada com Sasha! Ela era minha amiga, porra!

— Ah claro.... Por isso que você ia com ela para o MALDITO SHOW que eu não queria que ela fosse! Por cima do que HAVÍAMOS DECIDIDO!

— VOCÊ havia decidido! VOCÊ sempre decidia tudo por ela! – Alexander responde, apontando acusatoriamente para o irmão. – Isso não era justo. Então eu a chamei sim para vir comigo e ela aceitou porque QUERIA!

— Você é um nojo! Tenho asco de você! – Alexiel diz. – Você fica aí pagando de “melhor pessoa do mundo”, julgando todo mundo o tempo todo! Achando que pode se meter no relacionamento de alguém e ditar o que é certo ou o que é errado, quando nem é da sua conta!

Em algum momento durante aquela discussão, Kev e Diana se retiraram e sobraram apenas Alexander, Alexiel, Holly e eu na sala de jantar. Não que eles houvessem percebido isso. Holly olha para mim, com aqueles grandes olhos claros como se não soubessem o que fazer, mas a verdade é que nem eu sabia.

— É da minha conta quando você está machucando uma pessoa inocente! – Alexander respondeu, furioso. – Quando minha MELHOR AMIGA aparece com hematomas e com DESCULPAS RIDÍCULAS para CADA UM DELES!

Meu lado de ser amiga de Sasha diz que eu deveria dizer alguma coisa para Alexiel, porque eu simplesmente odiava ele só por saber o que ele havia feito para a minha amiga. Mas outro lado meu, um lado civilizado, pede para que eu não compre briga pelos outros, no entanto, eu olho para Holly, encolhida na sua cadeira e eu só tenho certeza de uma coisa: nenhuma de nós duas éramos para estar ali ouvindo aquilo.

— Tem uma coisa que eu sempre quis olhar na sua cara e dizer – Alexander continuou encarando o irmão como um predador feroz. – Sabe porque você bateu nela e não em mim?! Por que você é um filho da puta covarde!

Foi quando a briga estourou.

Alexiel pulou em cima de Alexander como um animal violento e Holly deu um grito desesperado, pulando da cadeira e se encolhendo como uma mocinha indefesa, enquanto observávamos nossos namorados irem trocando socos no chão da sala de jantar. Que cena... puta merda.

— Ah, merda – Ouço Kev dizer, aparecendo na porta da sala de jantar.

Ele tenta separar os dois rapazes, mas eles estão muito atracados em si.

Eu não consigo ver quem está batendo em quem, quem está ganhando ou apanhando. Eles parecem ser um emaranhado de socos e chutes. E eu não sei o que fazer para separar eles, nem mesmo Kev está conseguindo, até que ele consegue puxar Alexander de cima de Alexiel. Há marcas vermelhas pelo seu rosto que, provavelmente, irão escurecer, e um corte em seus lábios.

Dona Barbara observa aquela cena, estupefata, segurando uma travessa de chocolate nas mãos. Sua expressão era um misto de várias coisas: tristeza, decepção, estupefação e raiva. A raiva fica bem visível quando ela coloca a travessa de chocolate na mesa com força.

— PAREM COM ISSO VOCÊS DOIS! – Ela grita para eles, furiosa. Com lágrimas nos olhos e tom de voz trêmulo. – VOCÊS GANHARAM, ESTÃO SATISFEITOS?! NUNCA MAIS TENTO JUNTAR VOCÊS DOIS DE NOVO, AGORA PAREM COM ISSO! Por favor...

Ela solta um soluço que é de cortar o coração. Incrivelmente, eles reagem ao choro dela e os dois parecem muito culpados de repente.

— Mãe... – Alexiel tenta dizer.

— Você! Você foi grosseiro A NOITE INTEIRA com a Isabelle, como uma criança birrenta desesperada por atenção! – Ela reclama, apontando para ele. – Você é vingativo, agressivo e eu te amo..., mas essa não foi a educação que eu e o seu pai te damos!

Ele parece ofendido e incrédulo.

— Você está tomando o lado dele, é isso?! – Ele pergunta, com incredulidade.

— Esta noite, estou! – Ela respondeu batendo o pé.

Alexiel olhou para ela como se não acreditasse. Como se não pudesse imaginar algo como aquilo nunca: sua mãe contra ele. Apontando seus erros quando ele já era adulto. E sua reação é tão explosiva como quando ele brigou com Alexander.

— Foda-se – ele diz entredentes. – Fica com o seu queridinho aí. Não preciso.

Não sei o que ele quer dizer com “não preciso”, mas ele não se explica para ninguém. Ele apenas puxa seu braço da mão de seu tio e vai embora, para o hall. Holly observa aquilo sem saber se deve segui-lo também ou o que fazer e eu sinto pena dela. Até que ele a chama da porta de entrada, como se ela fosse um cachorro que ficou para trás.

É quando ela percebe que eles estão indo embora... antes da sobremesa.

Ela parece muito envergonhada por tudo e só consegue murmurar um pedido de desculpas antes de segui-lo para o hall. Eu acho que fico com pena dela e por isso a sigo também. Eu me simpatizo por ela, porque sinto como se tivéssemos passado pela mesma situação constrangedora. Seu rosto está vermelho e os olhos cheios de lágrimas quando ela se vira para mim.

— O que acabou de acontecer aqui? – Ela me pergunta como se não entendesse.

— O maior barraco da história, eu acho – eu respondi tentando ser engraçada.

Ela parece pequena e perdida, como um filhotinho perdido na chuva.

— Ele não é assim, sabe? Ele é um cara muito legal e atencioso é só que... bem, ele havia me falado que não gostava do irmão... ainda mais porque ele havia dado em cima da namorada dele – ela explicou, com lágrimas nos olhos.

Ela quer me fazer acreditar na imagem que tinha dele.

— E Alexander me falou que não gostava do irmão porque batia na ex-namorada – eu retruquei, dando de ombros. – Na verdade, eu sou amiga da ex-namorada dele, então posso afirmar que ela me contou a mesma coisa.

Holly parece assustada e... surpresa.

— Não faz sentido... Ele é muito bom para mim – ela murmura, confusa.

— E você vai ficar com ele até descobrir o quão bom ele pode continuar sendo? – Eu perguntei com medo. Medo por ela. – Eu não teria coragem de arriscar...

Ela ainda parecia confusa, como se não quisesse entender.

— Ele nunca me agrediu... – ela respondeu.

Ainda — eu completei.

Ela olha para mim, desconfiada. Eu sei que deve ser estranho, ouvir uma estranha, falando mal do seu namorado, sendo que o namorado dela odeia o seu, por isso, não pressiono Holly com o que eu sei. Não quero que ela saia dali acreditando em tudo o que ouviu de Alexiel, mas quero que ela saiba que pode contar com alguém quando precisar. Se as coisas ficarem... fora do controle. Quero que ela saiba que tentaram avisá-la, e que ela podia procurar nossa ajuda... se precisasse.

Deus queira que ela não precise.

— Ei... não é porque Alexander não gosta de Alexiel que nós precisamos ser inimigas tá? – Eu digo. Só não queria que ela me olhasse com aquela desconfiança. – Eu quero ser sua amiga.

Eu estendo minha mão para ela em um pedido de paz e ela sorri concordando.

Ela aperta minha mão rapidamente, até que ele a chama novamente e então ela vai embora. Eu fico preocupada por ela, mas eu só espero que ela fique bem. Quando volto para a sala de jantar, parece uma imagem da destruição. Alexander está jogado numa cadeira, com uma compressa de gelo na maçã do rosto, Alexis parece muito infeliz, assim como a sua mãe, e Kev e Diana parecem completamente perdidos.

— Parece que seu jantar conseguiu ser pior que o meu almoço – eu comentei, tentando fazer Barbara sorrir.

Deu certo. Ela mostrou um sorriso frágil no canto do rosto.

— E eu achando que a cota de barraco da minha família já havia se esgotado – ela diz com um suspiro cansado, apontando a travessa sobre a mesa pergunta como se nada tivesse acontecido: – Sobremesa?

— Quero, parece muito boa – eu confesso, sentando-me no meu lugar de antes. – E eu acho que a sua criança malcriada aqui deveria ficar sem sobremesa. De castigo.

Alexander arqueia uma sobrancelha para mim e eu o ajudo segurando o gelo em cima do seu machucado. Não concordava em sair brigando com as pessoas, mas eu confesso que Alexiel parecia ter tirado a noite para ser babaca.

— Parece uma ótima ideia – Barbara concorda, mostrando mais um sorriso.

— Pelo menos eles duraram até o fim do prato principal – Kev comentou.

— Talvez mamãe devesse fazer uma regra em casa não se discute: política, religião futebol e passados obscuro das pessoas durante o jantar – Alexis comentou com tristeza.

Eu meio que discordo com Alexis. Acho importante comentar os “passados obscuros” das pessoas durante o jantar. Melhor do que a sufocante sensação de fingir que nada aconteceu; fingir que tudo é perfeito. Mas eu não tenho como dizer isso para alguém que provavelmente só quer voltar a ver a família unida de novo.

.

— Esse deve ter sido o pior jantar de toda a história – Alexander suspirou, quando entrou no carro. – Eu devo ser o pior filho da história.

— Sei não, você já ouviu falar de Édipo? – Eu respondi.

Ele revira os olhos, tentando não rir.

— Eu estou tentando me sentir culpado, Bell – ele pede.

— Espero que seu irmão babaca também esteja tentando se sentir culpado porque numa escala de culpa ele meio que tem alguns pontos na sua frente – eu respondi. – Ele foi babaca a noite toda. Pedia por um soco na cara.

Ele riu, esfregando os olhos.

— Não acredito que você está incentivando uma briga – ele suspirou.

— Não estou incentivando... estou justificando a briga – eu respondi. – E se ele justificou a agressão de Sasha com “ela estava me traindo”, então eu posso também.

— Maluco né? – Ele perguntou irritado.

— Um pouco – eu concordei. – Você percebeu que ele... nem negou?

Em nenhum momento, Alexiel negou que tenha batido em Sasha e isso foi o que eu achei mais assustador. Ele apenas... ficou acusando Alexander, como se a culpa houvesse sido dele. Meu namorado solta um suspiro, percebendo isso e concordando com a cabeça.

Então ele olha para mim e deu um sorriso triste, antes de ligar o carro e podermos seguir caminho de volta para o seu apartamento. Fazemos o percurso em silêncio, porque estamos cansados e com muita coisa na cabeça, mas é um silêncio confortável. Eu fico olhando para ele o tempo todo. Observando-o dirigir e o modo como o hematoma em sua bochecha vai ficando azulado.

— Sua mãe ficou do seu lado – eu observei.

Hoje — ele completou.

— Tanto faz, nosso trato era: se você se saísse bem com a sua mãe e eu me saísse bem com a minha... – Eu sorri olhando para ele. – Quer dizer que somos um casal incrível.

Alexander me mostrou aquele sorriso misterioso.

— Você acha que eu te salvei, mas você não faz ideia do como me salva todo dia — ele respondeu, pegando minha mão na sua e beijando a costa dela.

Notas finais
OBSERVAÇÕES IMPORTANTES: O processo de se escrever uma história/fanfic é muito longo e nós mesmos evoluímos muito como autores e leitores durante todo o tempo em que estamos/estão publicando. Vou usar esse cantinho rapidinho só para fazer uma observação só para não espalharem que eu fiz merda: Na Inglaterra não tem esse mesmo lance de fraternidade como nos Estados Unidos (descobri isso muito depois), porém, vamos fingir que há uma exceção, tudo bem? Eu também não pretendia ambientar em uma cidade real porque eu nunca fui para lá, não sei como é, não pesquisei sobre... mas para mim é muito difícil falar sobre lugares que não existem. Não citar nome de cidades, estados, países... Enfim, então, só para esclarecer mesmo. Fish and Chips é um prato que ficou popular principalmente na Inglaterra do século XIX, durante a revolução industrial. Vendia-se em todo lugar para os operários famintos e consiste em peixe frito e batata frita. Era fácil e rápido de comer e era tão “do povão” que era servido enrolado em JORNAIS! É ISSO AI OBRIGADA PELA COMPANHIA BISOU ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!