Good Gone Girl

8 Capítulo 8 - Gostar "De verdade".


Notas iniciais
Antes que eu me esqueça (rs) obrigada pela recomendação Lady Sky ♥ Obrigada a quem comentou no capítulo passado: — Sophia — Matry-chan — Lady Sky — uma leitora qualquer — Mari Campos — Flávia — Paulinha3 — Greetings from Califournia ESSE CAPÍTULO É PARA VOCÊS ♥ Bisou ♥ Belle.Époque

CAPÍTULO 8 – GOSTAR “DE VERDADE”.

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Nada mudou na minha vida depois da festa. Eu nem mesmo vi Alexander ou falei com ele depois de ele ter me deixado no meu dormitório (mesmo que eu ainda não me lembre dele o fazendo). Na verdade, não sei se fico feliz por não o ver pelo campus, todavia, não ver o ruivo fazia parecer que eu só o usei para não ficar sozinha no Pub Irlandês e isso me faz me sentir culpada. Todavia, não saberia como reagir se eu o visse na minha frente de repente.

Parte de mim, fica aliviada por não se encontrar com ele.

Mas eu tive coisas com que me distrair.

Como por exemplo, hoje a professora de Escrita Criativa me pediu para esperar um pouco mais na sala de aula. Fazendo todos os outros alunos do curso me olharem com um ar de curiosidade, e me sentir envergonhada. Estou me perguntando se fiz alguma coisa de errado (mesmo que eu não me lembre de nada) quando ela sorri para mim e diz:

— Eu adorei o seu trabalho.

Eu não sei se solto um suspiro de alívio ou fico vermelha de vergonha.

— Ah... Mesmo?

— Foi um dos melhores trabalhos que eu recebi – a professora responde, sentando-se em sua mesa. Ela é bonita. Tem toda aquela pose de mulher culta e vivida. Sempre dava aulas vestindo terninhos, e uma faixa para os cabelos cacheados estilo black power não cair no rosto. – Na verdade, já tem um tempo que acho os seus trabalhos muito interessantes... Eu sinto muita emoção no que você escreve.

Eu dou um sorriso contido.

— Deve ser porque eu abuso de metáforas e comparações – eu respondo.

Ela sorri.

— Sim, pode ser isso... – ela concorda, pensativa. Então ela volta sua atenção para mim e diz: — De qualquer forma, você é uma das alunas que mais me chamou atenção e eu gostaria de perguntar se você não estaria interessada em participar de um concurso.

— Concurso? – Eu repito feito uma retardada.

Ela me mostra um pequeno panfleto de uma editora nova que abriu recentemente e me explica que eles estão fazendo um concurso de contos românticos. O tema mexe um pouco comigo porque, desde que me entendo por gente, eu não tinha um bom histórico sobre “amor”... Nem mesmo na minha família eu tinha bons exemplos disso: meus pais eram divorciados e minha irmã havia brigado com o seu marido e ido embora.

— Como você é uma garota sensível, você tem grandes chances de se sair bem nesse concurso – a professora diz. – Pense nisso e me dê uma resposta até a próxima aula. Leia o regulamento no site e me pergunte se tiver dúvidas.

Eu confirmo com a cabeça e sorrio.

— O.K. Hum... Obrigada – eu digo, levantando-me da minha cadeira. – Vou pensar.

Ela sorri e eu saio da sala, pensativa.

Sempre pensei em participar de concursos, mas eu nunca senti que tinha potencial para me sair bem. Na verdade, a ideia de ter uma história avaliada sempre me deixava apreensiva (só depois de alguns meses me acostumei com a ideia de que minhas histórias estavam sendo avaliadas no meu curso). Além do que, eu sempre pensei que tinha que escrever algo “verdadeiro” em concursos. Algo que eu realmente tenha sentido, ou vivido.

Estou pensando nisso, enquanto caminho pelos corredores amontoados de alunos de vários cursos. Geralmente, essa professora sempre liberava um pouco mais cedo, então era estranho sair junto com os outros alunos. Inclusive os de jornalismo...

— Bell?

O meu coração para por um instante.

Minha respiração também.

Eu tenho evitado Lauren há exatamente um mês e três semanas, com sucesso. Perdi fins de aulas evitando-a e agora tudo tinha ido por água à baixo. Lá estava ela: encarando-me como se estivesse vendo um fantasma. Com seus olhos claros arregalados e a pequena boca vermelha entreaberta.

Eu sempre havia percebido o como Lauren era bonita, todavia, de repente, eu me dei conta do como eu devo parecer nada perto dela e isso me deixa mais insegura. Ela está vestida impecável, como sempre, enquanto estou parecendo uma nerd solitária usando uma blusa de lã e uma calça jeans com uns rasgos feitos pelo uso (sinceramente, parecia muito que eram de propósito, então era usável).

Uma vontade tremenda de sair correndo dali e fingir que não a ouvi toma conta de mim... Porém, eu já olhei para ela. E ela sabe que eu já a vi. Não consigo simplesmente virar as costas e ir embora (que ERA o que eu devia fazer). Talvez eu devesse responder, talvez eu devesse dar um aceno? Talvez eu devesse dar um olhar malvado de: “não quero papo com gente da sua laia” que minha mãe sempre dava, mas eu nunca consegui imitar?

Eu começo a transpirar de tensão. O que fazer? Nada parece certo.

Estou em curto-circuito, e como não fujo, ela acha que está tudo bem se aproximar.

— Podemos conversar? – Ela pede.

Eu não consigo mais olhar para ela. Estou encolhida e fitando meus tênis.

— Sobre? – Eu pergunto.

Minha voz soa tão baixa que nem eu consigo ouvir.

— Você sabe sobre o quê – ela responde. – Na verdade, acho que todo mundo sabe.

Ela tem razão. Vários alunos estão olhando para nós com, no mínimo, curiosidade. Não que fosse uma novidade: “Ex-namorada de Mike Furrey conversa com a amante nos corredores”, era como dizer: “água é molhada”, “fogo é quente” e “Isabelle é idiota”. Sou idiota porque, diferente das outras ex-namoradas de Mike, eu não estou pulando em cima da amante e puxando-a pelos cabelos e chamando-a de vadia para todo mundo apreciar a cena. Talvez seja isso que chame atenção.

Eu estou encolhida e acuada. Sem saber o que fazer ou o que sentir.

Estou perdida.

— Eu não sei se quero falar com você – eu respondo.

— E quando você vai querer? – ela pergunta. – Já faz um mês, Bell.

Eu respiro fundo, mas, antes que consiga responder alguma coisa, ela me puxa pelo braço para um canto mais privado. Eu não quero, mas não tenho coragem de resistir ao puxão dela, então eu somente a sigo. Entramos numa sala vazia e ela se vira para mim e diz:

— Sei que o que eu fiz não tem perdão, e sei que você tem todo o direito de estar com raiva de mim... Eu não sei porque eu fiz e eu juro que quando comecei a me dar bem com Mike não estava nos meus planos eu me envolver com ele... – Ela dispara, sem parar para respirar nas vírgulas. – Mas aconteceu, tá? E eu me arrependo muito por isso. Eu traí a sua confiança, nossa amizade e... Eu realmente sinto muito.

“Mas aconteceu, tá?” essa frase me faz estremecer.

Ela soa como se simplesmente fosse uma coisa que ela não podia evitar. Como se fosse um animal que simplesmente não conseguia controlar sua vontade... Todavia, também me soa verdadeira. Ela pelo menos não está em busca de desculpas para me dar. Pelo menos ela está assumindo a responsabilidade pela traição que cometeu.

— Há quanto tempo? – Eu pergunto.

— O quê?

Eu ergo o olhar, encontrando coragem não sei de onde, e tento olhar nos olhos dela. Ela parece assustada, ou chocada. Mas tudo o que eu vejo, é a minha melhor amiga que me traiu com meu namorado e olhar para ela machuca tanto quanto álcool numa ferida. Ela parece a mesma pessoa, exceto o fato de que não era mais minha melhor amiga. Lembrar-me disso, era o que mais doía.

— Há quanto tempo vocês se pegavam pelas minhas costas? – Eu pergunto.

Ela abre a fecha a boca várias vezes. Como se não soubesse responder ou como se ela não esperasse minha pergunta. A questão é que fazia tempo que eu não conseguia dormir, só pensando nesse tipo de perguntas: a quanto tempo eles ficavam? Eles haviam transado? Eles pretendiam me falar? Por que pelas minhas costas?

Se ela respondesse, talvez eu ficasse um pouco em paz.

— Três semanas, mais ou menos... – Ela respondeu, olhando para o chão.

Novamente, se tivessem enfiado uma faca no meu peito, não teria doído menos.

No meu caso, haviam enfiado uma faca nas minhas costas. Bem naquela parte que dói quando respira. A dor é tão real que eu solto um suspiro e sinto vontade de gritar.

— Você transou com ele? – Eu pergunto.

Ela morde o lábio e, de repente, eu percebo que estou furiosa.

— Você transou com ele? – Eu volto a perguntar, dessa vez com a voz trêmula.

— O que você pretende com essas perguntas? – ela retruca, dessa vez encolhida.

Uma parte maldosa de mim acha irônico essa troca de papéis: em um momento estou me sentindo acuada e um lixo perto dela, e no outro, ela assume essa postura defensiva. Mesmo que ela não tenha motivos para isso. Afinal, sou “Isabelle, a idiota”, “a ingênua”, “a de bom coração”...

Mas o que me dói, é saber da resposta bem na minha frente. Pelo modo com que ela está encolhida com os braços cruzados e em como não me olha nos olhos. Estava escrito nela: “Sim, ela transou com Mike. Várias vezes. Tantas, que ela nem consegue me olhar no rosto”. Isso me faz abaixar o olhar e balançar a cabeça em incredulidade. E perceber que estou chorando quando uma lágrima escorre pelo meu rosto.

— Meu deus, eu te conheço tão bem – eu digo, piscando para afastá-las dos meus olhos. – O seu jeito já me disse tudo... É claro que você transou com ele. Não pôde evitar. Afinal, era Michael Furrey... Obviamente, alguém tão perfeito quanto ele é o suficiente para fazer esquecer da sua “melhor amiga”...

— Não é bem assim... – ela diz, mas então morde o lábio.

— Como assim? – Eu pergunto. – Então como é?

Ela morde o lábio novamente e sinto que há alguma coisa que ela não está me contando. É um pressentimento que vêm com uma frase inacabada e aquela mordida apreensiva que cria uma reticência no ar.

— O que você não está me contando? – pergunto.

— Eu gosto dele – ela diz.

— O quê?

— Eu gosto dele – ela repete, seu rosto ficando vermelho, e ela se encolhendo ainda mais. – Gosto dele... De verdade. Eu me apaixonei por Mike. Me desculpa.

Ela gostava dele “de verdade”.

Eu não sei o que sentir, além de uma onda de compreensão. Se ela gostava dele de verdade, então não era como se ela tivesse feito só por vontade e só para me mostrar que ela podia. Isso me deixa um pouco aliviada, todavia, não muda um fato: eu gostava dele também. E isso indica que ela foi egoísta e colocou sua prioridade antes da minha. Ela foi como todo mundo. E como eu deveria ser.

Ela foi egoísta e humana.

Mesmo que eu não diga nada, ela me conta sobre como se aproximaram, que ela só queria ser amiga dele porque assim arrumaria um namorado e seríamos dois casais que envelheceriam juntos e fariam várias coisas juntos... Mas que então, ela se apaixonou por ele. E quando ele demonstrou que também gostava dela, ambos não sabiam como contar. Ele pediu para que ela não me dissesse nada, porque ele que iria contar e estava pensando como fazê-lo até eu pegá-los.

Essa enrolação durou três semanas. E por que eu descobri.

E se eu não os tivesse pegado?

— Por favor, diz alguma coisa – ela pede, quando percebe o meu silêncio.

Mas eu não sei o que dizer. Não sei o que sentir.

Só há uma coisa que eu não entendo: porque Mike não se afastou de mim aos poucos se ele gostava tanto assim de Lauren? Por que ele continuou sendo aquele namorado de todas as noites e não foi se afastando aos poucos? Por que ele não se tornou frio? Parte de mim quer acreditar que talvez ele me ame um pouco também, outra parte, diz que ele somente estava disfarçando porque não sabia como me dar o fora.

De qualquer forma, parece que eu não tenho o que dizer.

— O que você quer que eu diga? – Eu pergunto. – Se você gosta dele de verdade... E se ele gosta de você, o que eu posso fazer? Você já ganhou.

Seus olhos estão irritados, acho que ela vai chorar. Isso é estranho, porque Lauren nunca chora. Eu era a chorona de nós duas. Eu chorei nas primeiras noites longe da América, e longe da minha família, e eu chorei em várias outras situações. Lauren era aquela garota forte, que somente me fazia um chá quente e me deixava dormir com ela.

— Não fala assim – ela pede. E não percebi que talvez minhas palavras tenham sido duras. Só estou sendo sincera. – Você não faz ideia de como estamos com isso tudo...

Eu quero perguntar se ela parou para pensar, por um momento, que eu podia “gostar dele de verdade” também. Todavia, não quero feri-la mais do que ela já parece estar sofrendo. Não quero fazê-la chorar. Então eu respiro fundo, fecho os olhos e tento encontrar alguma parte dentro de mim que não tenha se partido. Que continue sendo forte e constante. Não há, mas tento fingir que existe.

— Se você gosta dele de verdade... Não é mais como se eu estivesse no seu caminho, certo? – Eu digo, olhando para o chão. – Pense pelo lado positivo, vocês demoraram três semanas pensando em como me contar... E agora eu sei. Não precisam mais se preocupar com isso... Eu não sou mais um empecilho no caminho de vocês.

“Pense pelo lado positivo”? Meu Deus, ela foi quem roubou meu namorado! Por que está parecendo que eu estou tentando consolar ela?

O que há de errado comigo?!

— Acredite, Bell, você está sempre no meio da gente... É quase como um fantasma de algo que não acabou – ela responde com ar de culpa. – Ele está se sentindo tão culpado que não consegue mais falar comigo...

Eu franzo o cenho. Isso não fazia sentido já que o Facebook dele continuava bem movimentado: cheio de fotos sorridentes no meio de festas e de seus amigos. Todavia, não tenho porque contar para ela, uma vez que ela deveria ver o face dele também.

— Escuta... Eu estou realmente cansada – Eu solto um suspiro. E volto a enxugar meu rosto marcado por lágrimas. – Cansada de pensar em vocês dois, em você, em Mike e tudo o que eu quero... É um longo tempo sozinha. Um tempo para mim.

Ela abaixa o olhar e morde o lábio.

— Você acha que um dia vai me perdoar? – ela pergunta.

Pelo seu tom de voz, sinto que aquela é a última pergunta que ela quer me fazer.

— É provável que sim – eu respondo à contragosto. – Afinal, eu sempre perdoo.

Ela dá um sorriso fraco, mas é o suficiente para eu me sentir que talvez haja uma parte que não está quebrada. Havia algo muito bom em fazer uma pessoa sorrir. Mesmo achando que esse não era um bom momento, eu sempre tive uma fascinação por esse sentimento de satisfação ao ver uma pessoa sorrindo.

Eu sinceramente queria ser do tipo de pessoa que se sentia feliz vendo a pessoa que me magoou sofrendo. Mas não consigo.

— Eu tenho que ir agora – eu digo.

Na verdade, eu não tinha. Eu só queria ir embora agora.

— Me desculpa... De verdade – Lauren pede, uma última vez.

Eu apenas confirmo com a cabeça e começo a me afastar. Quando caminho para longe, o ar preso em meus pulmões vai saindo aos poucos. Como um balão que você segura a boca para sair o ar devagar e fazer aquele som engraçado. Me sinto um pouco melhor, ao mesmo tempo que me sinto um pouco destruída. Talvez a palavra seja que, apesar de tudo, estou aliviada.

Todavia, isso não muda a minha cara de enterro.

Meus olhos ainda estão um pouco úmidos enquanto faço minha longa caminhada até meu novo dormitório e algumas pessoas me olham com curiosidade quando passo. Um cara chega a me parar no meio do caminho e perguntar se estou bem. Pergunto-me se pareço tão ruim assim, que quando chego ao dormitório paro um instante no salão comum para checar minha aparência.

Tudo bem que estou desleixada, mas não pareço morta.

Meus olhos estão só poucos inchados e vermelhos. Fora isso, pareço normal.

Estou soltando os meus cabelos e os ajeitando (tentando parecer menos “uma nerd solitária” e ficar com um ar mais “cool”) quando percebo uma figura ruiva sentada na poltrona do salão atrás de mim. Eu o vejo pelo espelho e ele está me olhando também. Não sei a quanto tempo e não sei porque eu não o notei antes.

Alexander acena quando percebe que eu já o vi.

Era a última coisa que eu queria no momento.

Notas finais
PREVIEW: "- Conversas difíceis podem magoar, mas são inevitáveis. Eu concordo. — O problema... É que eu não agi como a maioria das pessoas normais agiriam – eu digo fazendo uma careta. Pareceu que eu era uma pessoa maluca. – Se eu te explicasse, você não ia entender... — Por isso você nem tenta – ele retruca. Quando olho para Alexander, ele está com aquele sorrisinho que não é bem um sorriso, é mais uma vontade de sorrir. Percebo que ele está me provocando e isso me faz relaxar, só um pouco, e rir."