Good Gone Girl

23 Capítulo 23 – Atenção: Pessoas na Fossa Fazem Merda


Notas iniciais
OIE! Não, não é uma alucinação. Eu estou postando mais cedo sim porque eu fiquei tão hypada com essa história (de repente) que eu adiantei uns quatro capítulos em dois dias (e quatro capítulos com 4mil palavras cada!). É, bizarro né. Amo férias. E pela quantidade de comentários capítulo passado tudo o que eu posso dizer é: vocês se amarram numa treta né? Choquei toda!! Bem, obrigada a quem comentou: > PamyAraújo > uma leitora qualquer > carina darlly > felicitysmok > Letícia > Flávia > Sandrinha > Hanna Ketlen > Lady Sky ♥ > Juliana S 22 > Sophia > Prin > RayRay > Matry-chan ♥ > Olhos Castanhos Bisou ♥ Belle.Époque

Capítulo 23 – Atenção: Pessoas na Fossa Fazem Merda

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Por duas semanas, eu fiquei na fossa.

Não estou nem zoando. Coloquei playlist triste, chorei enquanto tomava banho e, quando Chris voltou para o nosso quarto, eu havia me transformado num casulo: debaixo do edredom em posição fetal. Ela fez um comentário engraçado, mas percebeu que eu não estava para brincadeiras quando pedi para que ela respeitasse o meu momento. E ela respeitou sim: ligando para Sasha e Ellie dizendo que eu estava numa situação de calamidade.

Quando as duas chegaram ao meu socorro, ela apenas disse:

— Já estava assim quando eu cheguei.

E então, houve o furacão na minha vida.

As duas garotas insistiam que não me deixariam ficar naquela bad, porém, nada do que elas tentaram fazer havia adiantado (convite para festas, bebidas ou bares), os discursos de “há mais peixes no mar”... Nada, até que se renderam e se juntaram à minha fossa, e resolveram aparecer com sorvete e filmes melosos.

A verdade é, se você parar para pensar, como começou essa confusão toda? Indo para festas, bebidas e bares, então, por um tempo, eu ficaria longe disso, obrigada. Depois, poderia haver mais peixes no mar... mas eu só queria aquele peixe escorregadio que não queria morder a minha isca.

— Não entendo – Chris disse. – Se você não queria dar um tempo, porque diabos pediu um tempo?

Ela era a única que não se conformava como minha mente complicada funcionava. E tenho certeza que, se algum momento ela achou que eu fosse "normal" agora ela tinha certeza que eu era doida.

— P- porque eu estava me apaixonando por ele... – Eu respondi, apesar de só falar sobre isso já me deixava triste de novo. – E... Não era para eu me apaixonar por ele...

Ela fez uma careta, como se essa desculpa não fosse o suficiente para ela.

— Tá. E quem te garante que ele não estava gostando de você também? – Ela perguntou. – Você é algum professor Xavier que pode ler mentes?

E foi quando Sasha e Ellie olharam para ela com condescendência.

— Você não tá entendendo o nosso amigo... – Sasha disse.

— Pode ser... Mas pelo que a Bell me disse, não é como se todo mundo entendesse ele também – Chris retrucou, enquanto se vestia para a aula. – Mas enfim, né? É só a minha opinião. Gosto de cartas na mesa e de um bom diálogo. Fazem maravilhas.

Eu sabia que Chris estava sendo sensata e adulta.

Mas tinha duas coisas que precisávamos admitir: primeira, eu estava longe de ser sensata. Sendo sincera comigo mesma, eu era uma garota dramática. Muito dramática. Segunda: eu não era adulta. Eu era uma garota pequena de sentimentos frágeis como se fossem feitos de porcelana.

E foi quando eu percebi que não havia mudado nada.

Pelo menos, eu continuava facilmente abalável.

Confesso que, durante a fossa, ir para a aula era uma das únicas coisas que me reconfortavam. Não havia muito o que pensar em Alexander na sala de aula. Eu poderia dizer que nenhum tom ruivo que tivesse ali chegaria aos pés dos seus cabelos, que nenhum cara poderia ser tão gostoso e nem tão tatuado quanto ele... Mas só me faria sofrer mais.

Mais do que eu já estava.

E ainda tinha minha bendita professora cobrando meus contos para o concurso. Perguntando se eu havia continuado a desenvolver aqueles dois que ela havia sugerido que eu trabalhasse. Um deles, iria para o concurso, o outro ela estava querendo meter no livro de contos que uma amiga dela que estava fazendo. Um deles era a história dos meus pais, uma história sobre, afinal, “Aonde foi parar todo o amor de um casal que se separa?”. O outro era sobre... O amor aparecer... Quando menos queremos.

Merda.

Eu não tenho vontade de escrever mais nada.

Na verdade, a única vontade que tenho é de ligar para Alexander e lhe disse que um alien tinha me abduzido e me feito dizer aquelas coisas... Tudo o que eu mais queria era transar com ele e então ouvir mais sobre ele. Ouvi-lo conversar comigo sobre o seu gato, os animais que ele cuida, sobre a banda que ele deixou para trás, sobre a sua família, sobre seus amigos de infância, sobre como ele era na escola...

Eu não queria mais sexo com ele. Acho que nunca quis, na verdade.

Tudo bem, ele poderia ser meio reservado. Ele podia ter cara de poucos amigos e podia dar aqueles sorrisos misteriosos de tirar o fôlego... E ele podia ser do tipo que, como todo mundo dizia, “você nunca conseguiria conhecer de verdade”... Mas era tudo o que eu mais queria desde que eu o conheci: conhecê-lo de verdade.

Mas eu não iria me iludir. Ou melhor, eu não podia me iludir mais.

Eu não era a protagonista de um romance água com açúcar que deixaria aquele badboy caidinho por mim. Ele logo se sentiria desconfortável com meu interesse e então inevitavelmente ele mesmo daria um fim naquilo dizendo: "eu acho que você misturou as coisas, Bell". Porque eu deixaria claro que queria ele. Eu apenas havia antecipado o inevitável, certo?

Então porque eu me sinto tão... deplorável?

— O que tá pegando, Bell?

Eu levanto o rosto da mesa só para assistir John, o meu colega de curso meio maluco do coque samurai e com problemas de concentração, se sentando numa cadeira ao lado da minha. Ele não era bem “meu amigo” mas ele era um cara legal. Do tipo, tão legal que Mike ficava com ciúmes. Mas até então Mike tinha ciúmes de todo mundo.

Acho que Mike tinha ciúmes dele porque ele sempre tinha bom humor (daqueles que parece que não tem nada de ruim na vida, que bate até inveja) e porque ele não era de todo feio. Possuía cabelos castanhos claros que deviam bater nos seus ombros quando soltos, e olhos cor de âmbar.

— Nada – eu respondi.

Jamais daria o braço a torcer e admitir que estava triste do coração.

— Huuuum – Ele disse, mas não parecia entender alguma coisa realmente. – Me parece que alguém está precisando se distrair um pouco.

Soltei um suspiro.

Alguém só precisa deitar em posição fetal e esperar a morte – Eu respondi. — Se encontrar com ela no caminho, passe meu endereço. Obrigada de nada.

Porque esse alguém é tão idiota que não merece nem a vida, eu pensei.

Ele riu do meu drama. Eu sempre o divertia.

— Vai ter um happy hour da turma num bar em Nottingham – Ele disse, como quem não queria nada. – Agora que você não tem mais o namorado babaca “minha namorada não vai para nenhum lugar onde eu não esteja”, talvez você pudesse participar.

Uma vez eu havia percebido que Mike me forçava a ir em todos os lugares que ele precisava de mim (afinal, eu era a “namorada oficial”): festas, jogos e tudo o mais; porém, Mike nunca me deixava ir para onde eu queria (como os Happy hour da nossa turma). E talvez fosse até por isso que a maioria me achava metida à besta. “Nossa, ela namora Michael Furrey, ela se acha boa demais para nosso Happy hour”.

Eu não era a pessoa mais querida da sala de aula.

E agora que Mike rodou (e faz tempo já. Estou na fossa por causa de outro) eu não tinha nenhuma desculpa para não ir. Nenhuma além de: não estou nenhum pouco a fim; estou curtindo umas semanas de fossa braba... Nenhuma que fosse menos patética.

— Não sei... A turma não gosta de mim... E tal... – Eu comecei.

— É uma boa ocasião para fazê-los gostar – Ele rebateu.

— Eu estou mal...

— Nada que uma bebida não resolva...

— E-eu sou evangélica...

— Você não é não, que eu sei. Você é agnóstica.

Eu olhei para ele com raiva. John bem que poderia me ajudar, fingindo acreditar em minhas justificativas. Porém, ele apenas arqueou uma de suas sobrancelhas como se me desafiasse a inventar mais justificativas. Quanto mais tempo em silêncio eu passava, mais um sorriso no seu rosto se formava, fazendo com que o piercing no canto da sua boca reluzisse.

— Okay... Talvez eu não tenha uma desculpa – eu suspirei. – M-mas...

— “M-mas” nada. Deixa de cu doce – Ele disse, dando um empurrão no meu ombro.

— Eu sou a rainha do cu doce – suspirei.

— Tão doce que deve entrar formiga – ele respondeu.

— Eca. Vamos manter o nível.

Ele apenas riu e deu de ombros.

E foi assim que eu fui arrastada para um Happy Hour num bar de Nottingham (que eu verdadeiramente dei graças a Deus por não ser o que Alexander trabalhava). Foi estranho, na verdade. Para começar: ninguém me disse, era que happy hour era de chope.

— Eca – eu reclamei fazendo careta. – Só tem cerveja aqui?

Eu odiava essas bebidas de trigo. Tinham gosto de terra.

John riu como se eu fosse inocente.

— Um drink custa dez libras e o chope está em promoção. Escolha – Ele respondeu.

Obviamente, como estava todo mundo bebendo cerveja, eu não ia ser a fresca que iria no drink coloridinho e doce de dez libras. Eu já havia pagado aquele copo de chope, de qualquer forma. Não me mataria bebê-lo até acabar. Por isso, mostrei-lhe um sorriso falso de “u-hu, divertido isso aqui” e dei um gole na bebida o mais rápido e maior que eu pudesse. Quanto mais cedo terminasse, mas cedo me veria livre daquele troço horrível.

John riu e bateu seu copo no meu dizendo “tin-tin”.

Toda a minha turma era unida, com exceção de mim (a intrusa da vez), então no início eu fiquei por fora das conversas, como sempre. Por mais que John fizesse o trabalho de me incluir, até que, depois de algum tempo, eu consegui me socializar.

Tínhamos alguns pontos em comum, como, por exemplo, falar mal de professores, da falta de reconhecimento do mercado de trabalho para a nossa área e sobre os autores que tem a bola puxada mais do que deviam. O que me fez sentir um pouco melhor, afinal, pelo menos eu senti que eles começaram a me aceitar.

— Bell, nos diz uma coisa – Uma garota do meu curso, Melanie, pediu, debruçando-se sobre a mesa rústica do lugar mal iluminado. – É verdade que seu pai é aquele escritor de suspense americano... Como é o nome dele?

— Paul White! — Alguém respondeu.

Senti meu rosto corar por um momento.

Sabe, havia um motivo pelo qual eu havia escolhido cursar literatura e escrita criativa do outro lado do oceano. E um deles era porque eu esperava que as pessoas conhecessem menos o meu pai na Inglaterra do que nos Estados Unidos. E, é, pelo visto eu estava enganada. Para variar.

Dei mais um longo gole na cerveja.

— Hum... Sim, ele é – eu respondi, um pouco envergonhada.

Meu pai demorou para se tornar um cara “famoso” no mundo da literatura. Antes de ele fazer sucesso, minha mãe já o havia largado e ido embora. Minha mãe o largou porque ele não era capaz de dar uma vida confortável para nós (do jeito que ela estava acostumada e exigia). Na verdade, para a minha mãe, meu pai era um vagabundo que se trancava num escritório dizendo que estava trabalhando, mas não estava.

Eles brigavam muito por causa disso. Muito.

O lado bom é que, depois de ela ir embora, ele utilizou aquela dor e aquele vazio para fazer algo produtivo: escreveu o seu Best-Seller. E então iria fazer minha mãe pagar por suas palavras. Não que a vingança o movesse. Meu pai ainda era louco pela minha mãe, na verdade, mesmo que ela pudesse largá-lo num piscar de olhos.

E é por isso que eu a odeio e eu sinto pena dele.

Talvez eu tenha puxado meu lado carente do meu pai.

— Aquele livro dele é muito bom... “Onde está Laura?”. Na minha opinião é o melhor livro que ele já escreveu – Ela continuou, empolgada. – Ele é capaz de tecer terror psicológico como ninguém.

— Sim! Só não dá para parar de ler! – O outro comentou empolgado.

E então, eles passam o resto da noite falando do meu pai. E dos livros maravilhosos que ele escreveu. Confesso, que falar das obras dele, me causou uma onda de saudades que eu não saberia dizer de onde veio. Eu só... Senti que precisava ligar para ele, de repente, e lhe dizer que o amava.

Quando foi a última vez que eu falei com ele?

Será que ele sabia? Que, foi por amá-lo, que eu me recusei a ir com a minha mãe?

Dei um gole na minha cerveja que parecia mais cheia que antes.

— Essa merda de bebida não acaba? – Eu perguntei indignada.

John se matou de rir ao meu lado, como sempre. Tudo parecia uma piada para ele. Suas risadas chamam atenção de toda a mesa que começa a rir também. Eu me sinto um bobo da corte de repente, e muito inocente. Como sempre.

— É refil, Bell – Ele respondeu, entre gargalhadas. – Quando os garçons veem que está acabando eles enchem de novo.

E eu aqui, bem pateta, jurando que quando eu acabasse o copo teria acabado.

“Você anda muito idiota, Bell” eu disse a mim mesma.

— Eu sendo eu, não é mesmo? – zombei, dando mais um gole no copo.

Por algum motivo, o gosto já não me incomodava mais.

— Já volto – eu disse, levantando-me da mesa.

Eles ainda estão rindo quando eu os deixo, e eu não havia percebido que talvez eu estivesse bêbada até que eu não sinto quando me levanto e não me sinto caminhar até o banheiro. Na verdade, eu sinto que estou pisando em nuvens. E sinto que, talvez o motivo pelo qual eu não me incomodava mais com a bebida, fosse porque minha língua estivesse entorpecida por causa do álcool.

De qualquer forma, entrei no banheiro e então me olhei no espelho.

Não lembro porque eu precisava de um tempo. Eu queria falar com alguém? Ligar para alguém? Não me lembro mais, mas aproveito que estou lá para mexer no meu cabelo e na minha roupa. Eu não era de ir muito arrumada para a aula, mas a melhor coisa que eu havia feito foi aquelas compras com Sasha e Ellie. Parecia que todas as minhas roupas serviam para qualquer ocasião.

Menos para uma missa.

Eu estava com uma regata cinza, com fendas na lateral, para mostrar a minha tatuagem. Por baixo, usava o top de couro que Sasha e Ellie me fizeram comprar, e então calça jeans rasgadas. Eu estava legal até. Como a garota rebelde que eu não era.

Respirei fundo e resolvi voltar para a mesa.

E então, quando eu estou saindo, quem é que eu encontro na mesa de frente para o banheiro? A) Alexander, B) Mike, C) O cara que pediu meu número e não mandou mensagem desde então. Bem cretino ele, já que eu lembrei disso.

Sinceramente, parte de mim queria que fosse Alexander. Eu poderia dizer-lhe que havia cometido um erro, que eu estava pronta para subir pelas paredes com ele, e que se foda se eu me apaixonaria ou não... Mas não, ao invés, era Mike. E sua trupe de garotos babacas e infantis. Naquele momento, dei graças a Deus por estar bonita até. A última coisa que eu queria era me encontrar com ele de moletom e calça jeans.

Com uma blusa preta, rasgada nos lados e uma calça jeans rasgada era O.K.

Tentei lançar o maior olhar de desprezo que eu consegui e saí andando à passos largos até a mesa onde meus colegas do curso estavam. Então percebi o quão irônico era encontrá-lo numa reunião que ele não me deixava ir. O mundo dava voltas, não é mesmo?

Assim que eu sentei, Melanie disse:

— Você viu quem-...

— Vi – eu respondi.

Era inexplicável a raiva que eu era capaz de sentir por um único ser.

Não me surpreendi pelas pessoas que nem eram próximas de mim saberem sobre Mike e eu. Quer dizer era o tipo de coisa que todo mundo sabia. E também que todo mundo sabia quando terminava porque, afinal, fora um “barraco”. Com direito a choro, ofensas e uma garota idiota correndo por aí sem rumo no maior estilo "romance do século XIX".

E então, muita coisa havia mudado.

Peguei o meu copo de chope, o ergui e disse:

— Que se foda Mike Furrey.

Todas as dez pessoas na mesa, levantaram seus copos e disseram:

— Que se foda Mike Furrey!

Parecia um brinde pirata, foi até engraçado. Mas o que mais me fez rir, foi o fato de que não teve como ele não ter ouvido. E parte de mim gostou de deixar claro que eu não era a única pessoa que tinha animosidade por ele. Provavelmente, qualquer pessoa com cérebro não devia gostar dele.

Para ser perfeito, bastava só Alexander estar ali, ao meu lado. Dizendo “Que se foda Mike Furrey” junto. E lá estava o maldito se infiltrando nos meus pensamentos bêbados. E, sabe, há um ditado que diz: “Não pensa no diabo, que aparece o rabo”.

Sempre achei um ditado perturbador. Mas nunca foi tão verdadeiro.

Quando eu olhei para a porta do bar, lá estava ele.

O ruivo.

O Deus do sexo.

Aquele cara que me levou ao céu e depois me atirou ao inferno.

O cara que não sai dos meus pensamentos e do meu remorso.

Nossos olhares se cruzaram e foi como... Não sei, foi como colocar o dedo na tomada elétrica. Um arrepio percorreu o meu corpo porque, bem, os olhos dele continuavam incríveis. Quentes e cinzas, felinos e sexys. Como se prometesse a volta daquele sexo maravilhoso e muito mais. Tudo o que eu queria.

Fiquei sem reação.

E então eu percebi a loira aguada que estava com os braços ao redor do dele, guiando-o para dentro do bar, como se ele fosse um cachorrinho. E nada poderia ter doído mais do que aquilo.

Eu estava a duas semanas na fossa.

E ele estava com uma loira linda e inglesa agarrada à ele.

Ata. Beleza. Be-le-za.

De repente, eu me senti um pouco idiota. Quer dizer, era Alexander, sabe? Era óbvio que ele tinha outras garotas aos seus pés, era óbvio que ele não ficaria na fossa por minha causa e era óbvio... Sei lá. Tudo era muito óbvio. Pergunto-me se ele ficou com outras garotas enquanto a gente estava tendo aquela amizade colorida.

Mas não quero pensar. Pensar nisso doeu ainda mais.

Mas... Será?

— Bell – John me sacudiu de repente. – Estamos de saída.

Olhei para ele, como se de repente, houvesse sido acordada de um pesadelo. Um pesadelo bem real, que estava se sentando na mesa perto da porta. Beleza. Tudo bem que eles não estavam sozinhos. Pode ser que eu esteja errada, mas reconheci os amigos de infância dele (os da foto, da banda de garagem) sentados naquela mesa também...

Junto com a loira aguada e britânica. Que estava com um decote enorme, praticamente oferecendo os seios numa bandeja. Bem na cara dele. Já que eles estavam um do ladinho do outro.

Eu não saberia explicar de onde veio a vontade insana de pular em cima dela e arrancar os peitos dessa mulher. Digo a mim mesma (e para quem perguntasse) que era culpa do álcool. Eu nunca senti uma raiva tão descabida assim em toda a minha vida.

Que beleza de noite, Bell. Michael e Alexander. Segura essa bomba.. Boooom.

Porém, respirei fundo, peguei meu casaco no encosto da cadeira, e disse:

— É. Então vamos.

Meu sorriso deve ter parecido falso, no mínimo psicopata, pela expressão que os outros jovens do meu curso fizeram. Porém, John apenas riu, quase me fazendo sentir feito uma palhaça. Mal ele sabia que eu devia ser uma mesma.

Uma bem idiota e ridícula que sofria por macho.

Era o fundo do poço.

Como eu estava um pouquinho bêbada (e talvez não quisesse ficar por baixo, e até então eu não sabia que era uma garota vingativa, vai por mim), segurei-me no braço de John. E ele não reclamou, na verdade, tenho certeza que ele acharia a situação engraçada... Se ele estivesse entendendo que o cara que me deixou na fossa estava ali.

Quando passei pela mesa dele para ir embora (porra, a mesa dele ficava do lado da saída), dei uma olhada para a garota loira e ergui uma sobrancelha para ele. E como Alexander não parava de me olhar, tenho certeza que ele entendeu. Tipo: “Sério?”.

Eu juro que não era uma pessoa vingativa.

Se ele não entendeu o meu olhar, seu amigo que a Sasha ficou (qual o nome dele? Ah, Oliver. Ele disse quando me mostrou a foto), entendeu porque ele caiu na gargalhada. Como se meu olhar fosse engraçado. Ou como se aquela situação fosse.

De qualquer forma, não ousei prolongar esse momento constrangedor.

Então eu passei reto.

— Que olhar foi aquele? – John perguntou, enfim, soltando uma risada.

Provavelmente a que ele prendeu enquanto segurava a porta para mim.

— Você conhecia aqueles caras? – Ele perguntou.

— Longa história – eu disse.

Nunca admitiria isso, mas eu estava puta da vida.

Acho que só não imaginei que Alexander seria o tipo de cara que sairia com uma garota loira aguada que lhe oferecesse os peitos de tão bem agrado. Ou talvez, não fosse só isso. Se eu fosse sincera comigo mesma, diria que não gostei de ver ele com outra mulher, nem se ela fosse uma freira.

Eu nunca senti nada como aquilo antes.

Era tão... Quente e, não sei.

— Temos muito tempo durante o caminho até o dormitório – Ele respondeu, enquanto caminhávamos. O ar frio daquele fim de tarde, não me ajudava em nada. Eu ainda sentia como se houvesse o calor de mil infernos pelo meu corpo. – Qual é?

Soltei um suspiro.

— Era um cara que eu tava saindo até, tipo assim, duas semanas – Eu respondi.

— Huuum – Ele ruminou pensativamente. – É o motivo da sua depressão?

Eu dei de ombros. Não queria admitir que era.

Eu fiquei quieta o caminho de volta todo. Remoendo a cena em que o vi com aquela garota enroscada nele como uma cobra. E me sentindo uma completa idiota porque, bem, eu estava na fossa por causa dele. Tudo bem que eu mesma havia me jogado na fossa de bom agrado, mas eu certamente não teria coragem de pensar em outro garoto nem que ele aparecesse me chamando de “gostosona do pedaço”.

Mas, enquanto isso, ele estava lá: pleno.

Se deliciando com os peitos da loira.

Pensar nisso me dava raiva. Uma raiva que eu nunca senti, somente, talvez, quando Lauren me traiu com Mike. Então era isso? Eu me sentia traída? Por quê? Quem pediu “um tempo” fui eu, não foi? Fui eu quem bateu no chão e falou: “desisto! Ele é bom demais para eu não me apaixonar por ele!”... Então porque eu me importava tanto?

Resposta: ... Porque eu sou uma idiota carente e sentimental.

Me despedi dos meu outros colegas de sala na estação, e segui caminho com John no meu encalço. Seu dormitório ficava antes do meu, então era normal que seguíssemos pelo mesmo lado. E, com ele havia me levado até lá, talvez ele se achasse na obrigação de me acompanhar em segurança... Ou pelo menos assim pensei.

— Bell, — ele me chamou segurando o meu braço com delicadeza.

Virei-me curiosa (e ainda puta da vida)... Quando o cara me beijou.

É, ele me beijou. Do nada.

Sou uma garotinha ingênua.

E havia duas coisas que eu não havia percebido até então: a primeira, era que eu nunca pensei que beijar uma pessoa com piercing nos lábios fosse igual a beijar uma pessoa sem piercing. Por algum motivo, eu imaginei que fosse algo diferente. A segunda coisa que eu percebo é que... Ai meu Deus, John era um cara e ele estava me beijando.

E até que o danado beijava bem.

Não tão bem quanto Alexander, entretanto, ninguém seria como Alexander.

Provavelmente, a loira perceberia isso também quando eles fossem para a cama aquela noite, mas ela seria mais experiente e esperta do que eu fui. Saberia controlar suas emoções e saberia o que esperar de um cara como ele, certo?

Ela era bonita, então não devia ser carente.

E pensar em Alexander indo para a cama com aquela vagaba me dava raiva. Tanta raiva, que meu lado vingativo recém-descoberto não queria ir para a cama sozinha naquela noite... Bem, e então, se você ligar os pontos, vai descobrir que: naquela noite eu fui para a cama com o meu bom amigo John.

E ainda me achava no direito de chamar a loira de vagaba, né?

Eu era uma puta hipócrita.

Então cheguei a conclusão que: garotas com instinto vingativo recém-descoberto, na fossa, tinha pelo menos 97% de chance de dar merda. Os outros 3% era apenas a margem de erro.

Notas finais
PRÉVIA: "Enquanto ela não pega a minha mão, eu não consigo nem respirar. Mas então ela sorri para mim, e estende a sua mão para pegar na minha. Eu consigo sentir sua pele pegajosa e fria de nervosismo. Consigo sentir o quanto ela treme porque não queria, realmente, estar ali. Não queria fazer aquilo. E eu sorrio para ela. Ia ficar tudo bem. Porém, é nesse segundo que tudo mudou. É neste maldito segundo... Em que ela me oferece a sua mão. Em que eu consigo sentir sua mão na minha... Que o vento forte sopra e ela perde o equilíbrio. Deslizando pelo telhado e caindo."