Good Charlotte
2 Gênese
Era meu primeiro dia no colégio local, e como de praxe, o nervosismo me tomava conta. Tinha medo das pessoas estranharem meu sotaque, embora eu aparentasse ter mais conhecimento sobre a língua inglesa que os nativos.
Eu tinha uma tatuagem em meu braço esquerdo, aproveitei o clima gelado da época para escondê-la. Não sei o quanto as pessoas daqui seriam receptivas ao meu estilo. Maquiei-me como sempre, olhos bem marcados por um delineador preto. Não fazia questão de rímel, batons, ou qualquer outra coisa, desde que meus olhos estivessem marcados.
Vesti um sobre-tudo preto por cima de um vestido de tecido grosso avermelhado, meia-calça preta e um coturno de cano longo. Mesmo escondendo minha tatuagem, ainda poderiam me achar esquisita.
Caminhei até o ponto de ônibus que me levaria ao colégio e esperei por 7 minutos. No caminho, me deparei com a cena de um acidente de carro. Embaixo da roda de um caminhão, havia uma mulher ensangüentada, imaginei ter visto a pele de seu rosto descolada. Rezei por ter sido apenas uma impressão.
É triste como a vida pode ser tão frágil. Em um momento estamos ali, e no outro, fomos esmagados pela roda de um caminhão. Esse tipo de coisa geralmente rodava por minha mente com freqüência, o que causava a maioria de meus ataques de ansiedade.
Depois de alguns minutos sentada no banco do ônibus, finalmente cheguei ao colégio. A fachada era agradável, aparentava ser um ambiente limpo. O que provavelmente me incomodaria naquele lugar, seriam as pessoas.
Logo de cara, me deparei com um grupo de meninas caçoando de outro grupo de meninas. Infelizmente não sabia dizer se isso era algo típico do universo feminino, já que sempre convivi mais com pessoas do sexo masculino.
Caminhei rapidamente até a secretaria para me orientar das salas de aula. Descobri que a minha ficaria no ultimo andar, ou seja, subir lances e mais lances de escadas. Ainda faltava alguns minutos para o sinal tocar, mas como havia nada pra fazer nem ninguém para conversar, decidi que esperaria dentro da sala. Prefiro causar a primeira impressão de “Garota nerd, excluída e metida”, do que chegar do nada na sala com todos os alunos já lá dentro, parando de rir e conversar com seus amigos para me fitar.
Sentei-me em uma carteira no canto da janela, mais ao fundo da sala. A professora já estava lá, ela usava roupas justas, uma camisa decotada que valorizava muito seus seios, e uma saia tão justa que deixava evidente seu corpo em forma de violão.
- Bom dia! Minha primeira aluna no ano. Como se chama, meu bem?
- Charlotte – Respondi com timidez.
- Prazer, sou a professora Alexandra, dou aula de biologia.
- Prazer.
- Você é nova aqui? Parece tímida.
- É… Me mudei pra Chicago há pouco tempo, nunca estudei numa escola americana, antes.
- É mesmo? Morava em outro país?
- Sim, no Japão com meu pai.
- E resolveram se mudar pra cá por qual motivo? O Japão sempre me pareceu tão melhor que aqui.
- É que era somente eu e meu pai, então ele sofreu um acidente e… — Senti uma lágrima quente escorrer tímida por meu rosto, quando percebi que estava chorando, tentei esconder o máximo possível, mas foi inútil.
- Meu bem, não fique assim – Ela se aproximou de minha carteira – Está morando com quem agora?
- Uma tia.
- E sua mãe?
Abaixei a cabeça, como se esse gesto pudesse falar por mim. Aparentemente tive sucesso, pois Alexandra começou a passar a mão levemente em minha cabeça, como se estivesse me consolando.
- Vai tudo ficar bem agora, só é difícil no começo, certo?
- Certo. – Respondi enxugando as lágrimas.
O sinal tocou e o barulho dos alunos marchando para suas respectivas salas ressoou pelos corredores, atravessando as portas. Alexandra levantou-se, soltando com delicadeza minha mão, sempre com um sorriso doce no rosto, e se afastou em direção de sua mesa.
Aos poucos os alunos foram entrando, notava-se pequenos grupos formados de pessoas, sentavam-se sempre juntos. Uns poucos estavam avulsos, sentavam o mais afastado possível dos grupos já formados.
Minha atenção voltou-se totalmente para um garoto que entrava, também sozinho. Ele estava vestido com uma jaqueta de moleton verde escuro e uma touca listrada bem discreta que cobria metade de seus cabelos castanhos. Sua barba estava relativamente grande e ele usava um óculos de armação negra, o tamanho parecia ser maior que o padrão. Ele entrou ouvindo qualquer coisa em seu celular, com fones de ouvido. Para minha surpresa, sentou-se uma carteira à frente da minha.
A aula havia oficialmente começado. Alexandra apresentou-se para a turma, escreveu algumas coisas na lousa e introduziu os alunos à Biologia. Até o momento, o rapaz da touca não deu um sinal de sua voz e imaginei que permaneceria desse jeito, até que ele se vira, olhando meus olhos.
- Você tem olhos azuis.
- Sim – Esbocei um sorriso tímido. Foi algo inesperado, confesso.
- É nova aqui?
- Sim.
- Qual o seu nome?
- Charlotte.
- Ah, achei que fosse responder “Sim” também.
Soltei um riso abafado, senti meu rosto corar.
- Já que você não perguntou, não digo meu nome. – Ele me fitou nos olhos.
- Desculpe, como se chama?
- Edgard, prazer.
- O prazer é meu.
Ele esboçou um sorriso largo, tão lindo.
- Seu sotaque é engraçado, de onde veio?
- Eu vim do Japão há algumas semanas.
- Japão? Que legal, eu sempre quis ir pra lá.
- Ah, lá é normal. Logicamente prefiro viver lá do que aqui, embora eu tenha chegado há pouco tempo.
- Até eu.
Ri baixo, olhando para minhas pernas. Ele parecia não parar de me fitar, a timidez me consumia.
- Você vai gostar daqui, as pessoas são bem legais, exceto pelos alunos – Ele riu um pouco mais alto do que estava acostumada a ouvir – Estudo aqui há três anos e ainda não fiz nenhum amigo de verdade. Espero que isso muda na faculdade.
- Dizem que amigos de faculdade são os que duram pro resto da vida.
- É, deve ser mesmo…
- Eu tinha poucas amigas no Japão, mas eram ótimas. Sinto saudades.
- Amigos não servem pra muita coisa. Olhe só pra mim, consegui me virar sozinho para tudo. Sinto orgulho de tudo o que conquistei.
- Meus parabéns. Mas ter amigos é uma coisa boa.
- Bom, se você não se importar, posso tentar substituir suas amigas japonesas.
- Eu não me importo.
Ele sorriu e virou-se para frente, quando percebeu que a professora elevava um pouco mais a voz, afim de chamar a atenção dos alunos.
Comecei a rabiscar na última folha de meu caderno, com um sorriso largo estampado no rosto.
As coisas poderiam se tornar boas, afinal.
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