Gomen ne Watashi
1 One Shot
Enquanto eu estou agora abaixo desse céu.
Ei, oque será que você está fazendo agora?
Ainda há tempo? Ou é tarde demais?
Na verdade, isso não foi por vontade de ninguém.
"Desculpa"quando foi que essa palavra se tornou tão difícil?
Quando essa grama irá se espalhar nesse sol de verão?
"Desculpa" quando foi que nos tornamos tão hesitantes?
Eu quero falar, mais não falo.
A noite caía sobre a floresta, uma das poucas que ainda sobravam na Europa, um grupo com cerca de vinte integrantes se movia rapidamente por ela, tanto por terra quanto pelas árvores. Eram todas garotas trajadas como se inda vivessem nos séculos antes de Cristo, túnicas gregas que alcançavam seus joelhos e capas com capuz que cobriam seus rostos. Na frente do grupo se movia a mais graciosa delas, ao se mover, mesmo estando ela adornada com pulseiras, braceletes, praticamente não fazia nenhum barulho e uma luz prateada e serena dançava ao seu redor. Ela parou de repente, as outras a imitaram, ela levantou a alva mão pedindo atenção.
— Ficaremos aqui esta noite meninas. – a voz soou baixa, porém autoritária e a luz prateada diminui bruscamente, mas não sumiu. – Montem o acampamento.
.-*-.X.-*-.
Em quinze minutos minhas caçadoras já haviam montado as barracas e se preparavam para descansar. Então um barulho ao longe, à esquerda mais precisamente, me chamou a atenção. Movi-me rapidamente e encontrei um dos meus cães de caça.
— Tânia? – Eu chamei, e uma garota baixa, de cabelos negros longos e olhos castanho-chocolate apareceu e se curvou. – Pode se levantar querida. – os olhos ainda estavam um pouco inchados, ela provavelmente ainda chorava pela irmã. – Vá descansar, as meninas estão te esperando.
Ela deu um sorriso fraco e foi para o acampamento. Eu ainda fiquei um momento, sozinha e decidi ir até onde as meninas montaram o acampamento. Recostei-me num galho de uma árvore e acabei ouvindo a conversa de uma das barracas.
- Como você está?
- Melhor de certo modo. – a voz de Tânia saia mais como um sussurro. – Não é fácil, mas pelo menos fiz as pazes com ela antes de tudo isso.
- Não sabia que vocês tinham brigado.
- Quando entrei na caçada, ela achou que eu a estava abandonando, e acabamos discutindo feio. De qualquer modo, fiz as pazes com ela e agora ela estar num lugar melhor.
Senti uma ardência no meu braço esquerdo, olhei para o bracelete que mais se destacava entre os que eu usava feito de prata e topázio entrelaçados. Segurei as lágrimas ao olha-lo. Quantos anos, quantos séculos fazia? Há quanto tempo não nos falávamos? Se eu sentia falta dele? Claro que sim. Todos esses anos eu senti uma falta enorme de Apolo, mas não me atrevia a mostrar meu rosto a ele de novo depois daquela briga.
Senti um arrepio nas costas, como se fosse minha própria mãe me olhando com aquele olhar de repreensão. Sentia isso toda vez que me pegava pensando no meu irmão. Durante esse tempo todo fora ver minha mãe umas poucas vezes e, mesmo vendo a tristeza em seu olhar, já havia declarado minha decisão. Só que... Já não era hora de eu enfrentar aquilo? Eu não precisava encarar de vez aquele problema? Olhei as estrelas, em busca de ajuda e tomei minha decisão enquanto me dirigia a uma das barracas.
- Agnes. Chamei com cuidado para não acordar as outras.
- Sim minha senhora. Agnes disse assim que saiu da barraca.
- Oriente as meninas, estou de deixando no comando por enquanto, tenho assuntos para tratar.
- Sim senhora.
- Logo estarei de volta. Disse com um breve sorriso e me lancei floresta adentro.
Mal havia começado a correr e senti uma estranha presença, certa raiva brotou em mim. Parei ligeiramente assustada e comecei a olhar em volta. Voltei a pensar no meu irmão, mas agora com raiva, com rancor, percebi que não era eu.
- Quem está aí?
- Huhuhu, se acalme cria de Zeus... Ou não. – a voz era claramente feminina. Um tom levemente rouco e que me fez ficar mais alerta.
- Se apresente. Ordenei e minha luz prateada ficou mais forte, iluminando poucas árvores a minha volta.
- Ei! Sabia que filhos da Noite não gostam muito de luz. – Ela saiu do meio das árvores, a pele num tom doentio de branco, os cabelos de um tom azulado e oleosos caiam sobre seus ombros, os olhos eram inteiramente negros, como todos os filhos da noite, sua túnica num tom de vermelho escarlate se arrastava no chão da floresta. – Não tem como apagar a luz?
- Não. – Disse enquanto aumentava minha luz. – E o que você está fazendo aqui Éris?
- Na verdade. – outra voz veio de trás da Discórdia, assim que a ouvi percebi que era ela que estava me deixando nervosa. – Estávamos falando sobre você. – Ela apareceu, cabelos ruivos curtos e repicados, olhos igualmente negros, ao invés de sua tradicional roupa, ela estava com uma jaqueta de couro preta, da mesma cor da camiseta e do coturno, e uma calça com estampa de camuflagem. – E que eu me lembre é Apolo que tem essa mania de brilhar, você sempre foi mais discreta.
Só de ouvir a deusa da vingança falando o nome do meu irmão senti o sangue ferver.
- Nemesis. – Eu praticamente rosnei o nome dela. Éris riu novamente, estava se divertindo com a minha postura. Quando percebi o que estava fazendo respirei fundo e minha luz prateada voltou a sua forma calma e serena. – Falando sobre mim?
- Estávamos vendo como você ia matar seu irmão. Éris declarou.
- Você sabe, depois daquilo. Completou Nemesis.
Fiquei sem ar, meu coração doía parecia que iria parar de bater a qualquer instante. As lembranças inundaram minha mente, o corpo dele se desfazendo em estrelas, junto com o escorpião e a presença de Apolo atrás de mim, tudo naquela praia.
.-*-.X.-*-.
A deusa, agora de pé, olhava o mar, as lágrimas banhavam seu rosto, Órion se fora, iria para onde merecia, para junto das estralas, eternizado num quadro pintado pela noite. Ela sentiu que havia alguém atrás dela, não precisava de ninguém para saber quem era. Ela cerrou seu punho e virou na direção do “estranho”.
Sua mão foi parada antes que acertasse o rosto do deus do Sol. Os olhos de ambos se encontraram, o azul gelo e o azul celeste. A brisa que vinha do mar fazia com que seus cabelos ricocheteassem, o loiro dourado e o loiro pálido.
- Ártemis, por favor. – Apolo começou com a voz séria. – Me escute. Eu...
- Eu não vou te escutar. – Ártemis estava se segurando para não elevar muito o tom de voz. — Você me desafiou a acertar aquele ponto no mar. Você sabia que era ele. Você sabia!
- Eu estava apenas te protegendo. Como se você se recriminasse por matar homens. – Apolo soltou a mão dela.
- Homens que me olhavam com luxúria. – As lágrimas voltaram ao rosto dela. – Com desejo impuro, que me olhavam como seu fosse mais uma peça frágil. Uma coisa que eles usariam e descartariam. Como se eu não soubesse me defender. Ele... Órion nunca me olhou assim. Ele nunca me tocou desse jeito.
- Mas de qualquer modo ele era um homem! – Agora ele era quem elevara o tom de sua voz. – O que eu faria se ele a violasse? Iria te ver ser jogada no Tártaro quieto, sem poder fazer nada? Iria jogar tudo fora por um mero homem?
- Você não tem o direito de falar assim dele!
Apolo respirou fundo e colocou a mão sobre o ombro de Ártemis.
- Ártemis me ouça...
- Não toque em mim. Sou intocável não? Ela o acusava com o olhar.
Ele retirou a mão e lançou um olhar desacreditado para Ártemis.
- Será assim então?
Sem resposta ambos deram as costas um ao outro, e essa foi a última vez que se viram em séculos.
.-*-.X.-*-.
- O que aconteceu comigo e meu irmão não deveria ser assunto para vocês. – Eu dei às costas as duas, me direcionando a floresta. – Muito menos o que irei fazer agora.
Antes de voltar a me embrenhar na escuridão da noite, pude ouvir a voz de Éris:
- Tudo por um homem não?
Continuei minha viagem, não estava com pressa, na verdade eu avaliava cada passo meu. Sabia que não seria como antes, quando nos encontrávamos naturalmente, e nem sei se ele estaria disposto a falar comigo.
Após três dias de viagem, minha mente já havia sido preenchida de lembranças nossas. Eu me surpreendi ao sentir toda aquela saudade. Como pude ignorar aquilo por tanto tempo?
Quando estava chegando ao Templo de Apolo, no fim da tarde, ouvi uma melodia causada pelo próprio vento. Tive que me conter para não começar a dançar ao som daquela melodia, era como voltar aos velhos tempos em que eu dançava com as Musas ao som da lira de Apolo. Pensar que aquele som seria uma melodia dele me fez parar. Mais alguns metros e estaria ao campo aberto onde se encontrava o templo. Eu sabia e sentia que não poderia adiar mais as coisas e me forcei a andar em direção a ele.
Assim que avistei Apolo meu corpo travou. Ele estava longe, mas sabia que seria questão de tempo até ele sentir minha presença. A voz de Éris ecoava em minha mente: “Tudo isso por um homem?”. Recuei alguns passos e senti novamente aquele arrepio nas costas, como se Leto estivesse atrás de mim, como se me olhasse com repreensão e um pouco de súplica, como daquela vez.
.-*-.X.-*-.
- Até quando vocês vão ficar com essa rixa sem sentido Ártemis? Leto perguntava descrente que seus filhos ainda estivessem brigados.
- Até ele decidir pedir desculpas. – A deusa responde de braços cruzados enquanto olhava sua mãe. – Não adianta o que ele disser, foi uma morte desnecessária e cruel.
- E esse orgulho de vocês dois também não é cruel? Pessoas morrem todos os dias Ártemis. E você também tem sua parcela de culpa nessa história.
- Eu sei, mas...
Leto se aproximou de Ártemis e colocou a mão sobre seus ombros, os olhos repreendiam a filha, ao mesmo tempo em que pediam por um momento de compreensão.
- Ártemis, filha, eu sei que você ainda se sente magoada por isso, e sei o quanto seu irmão quis te proteger. Ambos estão errados nessa história, mas apenas quero que vocês se entendam. Eu sei o quanto vocês não gostam de ficarem separados um do outro. Principalmente você filha.
-Mãe...
.-*-.X.-*-.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Lá estava seu irmão, sentado a sombra de uma árvore, olhando para o céu com sua beleza imaculada. Se fora meu orgulho que me impedira de me reaproximar dele, era isso que faltava para tudo se consertar.
Comecei a andar em direção a ele, vi que ele sentira minha presença, mas não parei. Tirei minha capa prateada e minha tiara, naquela hora não precisava ser a melhor das caçadoras. Tirei meus braceletes e meus adornos, não precisava ser uma olimpiana. Não precisava ser divindade alguma, só precisava ser Ártemis irmã de Apolo. Precisava voltar a ser a pequena Ártemis que não se desgrudava do irmão e que adorava ver aquele sorriso todos os dias. Conforme andava não via mais nada a minha frente com minhas lágrimas embaçando minha visão.
Não percebi quando parei e comecei a chorar um pouco mais alto, só me dei conta de tudo isso quando meus joelhos encostaram-se à grama verde e eu me debrucei. A saudade, a dor da separação, a dor que ainda sentia daquele dia, tudo me consumia e eu não aguentava mais. Entre meu irmão e eu, sempre fui a mais delicada sentimentalmente, foi até por isso que com o passar do tempo fui criando uma imagem mais fria e rígida. Só que tudo aquilo era demais pra mim, tudo eu acumulei durante esse tempo já estava me deixando sem forças. E sempre nessas horas Apolo era meu porto seguro. Mas e agora que estávamos separados, brigados? Como pude ter sido tão idiota esse tempo todo?
Meus olhos se abriram surpresos quando senti um abraço, não precisava de ninguém para reconhecer aquele calor tão familiar. Surpreendi-me ao ouvir que ele estava chorando também. Agarrei-me àquela chance e minha voz saiu num sussurro junto com a dele:
- Me desculpa – sussurramos em uníssono.
.-*-.X.-*-.
A luz do Sol incomodou meus olhos, mas não os abri. Senti que estava encostada em uma árvore, entretanto, quando fui me espreguiçar senti que havia alguém em meus braços. Forcei-me a acordar completamente quando ele se moveu e comecei a afagar seus cabelos.
- Eu te acordei? Apolo perguntou enquanto sentava-se ao meu lado.
- Na verdade não. Respondi sorrindo, era tão ouvir sua voz novamente. Tive que me segurar para não chorar de novo.
Ele olhou para mim sério, e eu suspirei, uma hora teríamos que falar sobre aquilo.
- Sobre o que aconteceu aquele dia Ártemis...
Coloquei um dedo sobre seus lábios e ele me olhou confuso.
- Somos deuses, temos uma eternidade para discutir isso. – Olhei para baixo. – De certo modo aquilo ainda me machuca Apolo. – Olhei para ele de novo, sorrindo. – No momento quero apenas recuperar todo esse tempo.
Ele se levantou sorrindo, aquele sorrindo caloroso de sempre, e me estendeu a mão. Eu a peguei me senti de novo como a pequena Ártemis, que nunca gostou de se separar com seu irmão.
.-*-.X.-*-.
Em algum momento as musas presenciaram aquela cena, e escreveram uma música. Mostraram a música a Apolo. E ele a toca toda vez que Ártemis vem o visitar. Ninguém além deles podia ouvir a música, porque mesmo que outros ouvissem ninguém além do Sol e da Lua entenderiam.
Notas finais
Ta aí minha primeira fic no fanfiction... pretendo trazer minhas outras fic do socialspirit pra cá.
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