Em janeiro deste ano ainda, quatro amigos e eu resolvemos viajar rumo à Lituânia, na casa de uma tia distante do Virbickas, o membro mais velho da comitiva.

A viagem não foi das mais confortáveis a qual tive, mas foi engraçada, graças as piadas de Rupert e com as lembranças desconfortantes a qual Virbickas nos lembrava de filmes com quedas de aviões. Demoramos cerca de quatorze horas até chegarmos ao aeroporto de Kaunas, uma cidade bastante bonita do interior de Respublika, principal cidade turística de lá.

Fomos andando à beira estrada até um casarão bastante antigo, porem limpo e bem movimentado, lá era a residência de Audra Jadvyga Virbickas e... mas uma porção de outros nomes estranhos, chuto uns cinco sobrenomes a mais. Ela era a mais velha de nove irmãs, porém por mais bizarro que seja, fora a unica irmã que sobreviveu à um incêndio estranho que aconteceu a muito tempo, sua mãe adoeceu em depressão e seu pai sumiu, tornando-a assim legalmente proprietária do casebre antigo, rica e pomposa como as madames do século XIX, portadora de um sorriso que arrepiava a alma, e tão louca como nós, na hora de degustar uma boa Vodka das ameixeiras.

Não tardou para que começássemos a beber, e os contos logo foram fluindo, desde fantasmas que guardavam a casa, até animais da criptozoologia que corriam por toda a Lituânia, mas uma história em particular me chamou não só a minha atenção, mas como a do grupo também, que se tratava de um bar, localizado em Gomel, uma das cidades vizinhas de Pripyat, cidade fantasma juntamente com Chernobyl. Esse bar era conhecido como Goluboye nebo bar, ou em bom português, "bar do céu azul". Segundo Audra, esse bar possui um observatório em sua parte superior, composto por nada mais que sete telescópios e algumas lunetas, todos eles inclinados para Pripyat e para a antiga usina que permanecia em Chernobyl, há quem diga que é possível ver pessoas que andam desordenadamente em uma certa hora da madrugada, obviamente nos alegramos com a ideia de observar zonas fantasmas e locais proibidos por toda a "Ucrânia".

Amanheceu. O café era composto por crepes, tortas de maçã e um suco de batata, o que não foi tão ruim quanto a vitamina de berinjela com morango que a tia fizera pra nós antes de dormir, o interessante que essa gororoba de coisas deixava-nos sóbrios quase que instantaneamente. Ao crepúsculo, fomos viajar no Volga de Vladmir, filho adotivo de Audra, e claro, convencemos o sujeito a nos levar nesse tal bar-observatório, a viagem foi demorada, estrada ruim, declives e buracos, era um tiro no escuro construir um bar localizado quase que no meio da estrada, se não fosse o fato da curiosidade de todos que por lá passam, não fomos diferentes.

Eu esperava um lugar feito de madeira mal pregada, placas caindo e uma iluminação improvisada com piscas natalinos, nunca estive tão enganado! O local era bonito demais, grande, escuro, no entanto as luzes neon faziam bem seu trabalho luminoso. Ah, as garotas! Não estavam errados em falar que as "eslavas" são 110% mais sexys que qualquer outra mulher, entramos no clima de uma musica folclórica remixada, típica da Bielorrússia. Quando o relógio do bar bateu as três da manhã, um barulho de porta metálica com dispersões a vapor pode ser ouvida, olhei para cima, e uma escada em caracol descendo até um canto do ambiente, e percebi que algumas pessoas já estavam subindo, agarrei meu copo de Balkan e segui também.

Uma brisa forte, um cheiro estranho percorria por todos que estavam no topo do bar, e estrelas, muitas estrelas, de fato era um lugar fantástico, logo a minha frente, algumas lunetas encostadas, não demorei até destravar a liga de cobre que ficava envolto, coloquei de frente ao meu olho esquerdo e pude ver, um carro empoeirado, prédios com vidros quebrados, uma rua vazia, uma praça morta, e um parque de diversões desativado, era uma sensação única ficar vendo aquilo, chegava até ser bonito, se não fosse a história catastrófica que aquela cidade carregava, virei para observar a usina e por um instante, poderia jurar que vi o que parecia ser uma senhora, correndo pra dentro da mata que ficava em volta do quarto lacre da antiga usina. Logo chegaram Rupert, Virbickas, Altair e o Margarethi, contei do que acabei de ver, ficaram atônitos e tomaram a luneta de minhas mãos e pareciam quatro crianças brincando.

Já amanhecia, exausto Vladmir nos convidou para retornar até a casa de Audra. Seguimos em silêncio, até um trecho que a estrada cortava uma floresta ao meio, e me recordei da cena e perguntei para alguém no carro, queria saber mais sobre as "pessoas que caminham por lá", a resposta que obtive foi do condutor, dizendo-me que se tratava da Baba (forma que as crianças dirigem-se a avó), um ser que segundo a superstição russa, tomava conta das matas e dos perdidos na floresta, dizem que ela usa um véu que impossibilita de ver seu rosto, ninguém nunca ouviu sua voz, mas quando escutam-na a chorar, é como se a morte cantasse, todos os sentimentos de medo são alertados e seu corpo fica em pura adrenalina, mas não há relato ou conto algum de que ela tenha feito mal a ninguém... mas na noite de vinte e seis de abril de mil novecentos e oitenta e seis, pessoas que residiam próximo as áreas florestais, foram todas internadas com pânico e choque convulsivo violento, no entanto não haviam resquícios de radiação, ou qualquer intoxicação alimentar, apenas o mais puro medo, e algumas noites posteriores, todos os hospitais que recebiam esses pacientes em choque, entraram em um estado de emergência, pois TODOS os enfermos, gritavam e choravam gritando "Baba". Alguns cometeram suicídio, outros sumiram, e outros calaram-se, há apenas a incerteza, do que ocorreu, nesse dia de vinte e seis de abril de mil novecentos e oitenta e seis.

Notas finais
Necessito de café, é serio.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!