Gods and Monsters
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não saber o que sente não é o mesmo que não sentir nada.
— Jason Gideon
O céu em seus domínios tem a proteção divina do senhor, o Pai que tudo protege e zela pela segurança, mas o pai de todos pode parecer justo e sábio, o ser antigo que merece respeito e assim o tem com os meros mortais, humano a sua imagem feita.
Em livros escritos pelo homem, em provérbios e passagens o mesmo fez justiça com aqueles que queriam o caos, que cometeram pecados e injurias aos inocentes, mas sempre havia suas criações, osanjos. Criaturas belas que em qualquer religião eram adoradas, a mudança apenas acontecia em seu nome, mas a aparência divina era a mesma.
Altair não era como seus irmãos, era um dos arcanjos mais neutros e desconhecidos do reino dos céus e ainda que pudesse reclamar – mas não o faria – tinha o reconhecimento de um dos anjos mais próximos do Pai, Miguel. Não direcionava sua palavra a um anjo de tão reconhecido, seria olhado torto por sua ousadia, não por ser um arcanjo desconhecido e sim pelas suas asas e seu olhar, assemelhando-se a uma criatura do mundo terrestre, uma águia. Seria tolice julgá-lo por tal, não é? Sendo que até seu nome vinha de significado próprio de uma águia.
Admirava junto aos querubins o que ocorria ao mundo mundano, humano tendo a graça de ter sentimentos por seus ancestrais e dando a graça a si mesmos com a morte. Mas os querubins não admiravam o que se tinha fora dos domínios e sim guardavam o que era lar do Pai.
Tendo autorização para deixar lar seu e de seus irmãos, Altair se viu numa situação que notou em solo o olhar desafiador de um impuro, alguém que tinha a malicia que transbordava em seu olhar escuro, o olhar de um demônio. Afinal de contas, qual o problema de sair dos céus se até Gabriel o fazia e sem questionamento?
Como um demônio, Malik admirava os céus, não era tolo o suficiente para se aproximar ou até mesmo encarar os portões do céu que a olho mundano era impossível de ver. Mas Malik era um demônio, não um de baixo status como fazedor de contratos e pactos e sim íncubo de fome sempre desperta.
Mas um íncubo sempre deveria saciar sua fome, seu apetite, não olhar com desejo algo inalcançável como um arcanjo tão certinho e formoso em seu palácio de cristal com seu papai e irmãozinhos.
Terno preto e olhar devorador, mulheres e homens o contemplavam sem disfarçar o que queriam dele, mas passavam por si, seguindo com suas vidas curtas e monótonas de sempre, como se fosse um ciclo e quando podia, Malik se alimentava do desejo de algumas delas.
Vagando a noite adentro da cidade grande e adentrando um beco escuro que o mesmo achava que não seria encontrado pelo olhar feroz da águia, mas foi e assim teve a presença de um elegante homem trajado de seu sobretudo e capuz branco, os detalhes em ouro puro tracejavam suas vestimentas e Malik sorriu com escárnio ao ver tanta beleza num tão poderoso e que provavelmente seria arrogante, Malik já tinha ouvido de um superior o quão arrogante eram alguns anjos.
Não era idiota ao provocar diretamente, apenas dirigiu-se próximo do arcanjo de casca humana, vendo o olhar de águia transparecer sua atual forma.
Um arcanjo e um demônio, que bela visão seria para os superiores de seus reinos, um seria punido enquanto o outro seria alvo de chacota. Só um toque traria desconfianças quando pisasse nos céu e o cheiro adocicado do anjo traria perguntas seguidas de perguntas entre os íncubos, mas Malik não deixava de imaginar aquele olhar brilhante lhe olharia com luxúria e desejo, de como aquele pequeno corpo se manteria perfeitamente de quatro enquanto Malik se alimentasse carnalmente do outro e lhe tirava sua pureza angelical, afinal, sonhar nunca era demais e o súcubo o queria, mas o teria apenas em pensamentos.
— Um ser divino, que honra tenho em tê-lo a minha frente — Sorria com escárnio.
O breve brilho das suas íris mostraram o tom avermelhado e mesmo o outro ser não lhe falando nada, pensou que talvez a criatura estivesse com vontade de mata-lo, mas com qual objetivo se Malik era um mero íncubo?
Apenas erguendo a mão para poder tirar o capuz branco, Malik pode ver que o mesmo recuou pouco e por tal o tecido deslizou, mostrando sua face, os contornos de seu rosto que facilmente poderia ser traçados com o dedo, mesmo sendo a casca, o arcanjo mantinha beleza nela.
— Quão belo é para pisar em terras dominadas pelo caos, parecendo uma ovelha perdida do rebanho — Provocou.
Um banque na parede ecoou pelo beco, a distância não fazia mais diferença entre ambos, suas essências pareciam não ter importância e o senso de humor de Malik também não. Altair não o fitava com fúria e sim curiosidade, os grandes corredores da biblioteca sagrada nunca foram o suficiente e o escrivão tinha levado grande parte de placas informativas consigo, deixando a maior parte de anjos novos sem informações além das que eram passadas por seus superiores.
— Sou Malik, um íncubo.
— Sei o que és — Sua voz não tinha tanta emoção, mas de tal forma fez o Malik sorrir sem um motivo aparente — Um ser que atrai humanos ao pecado com sua luxúria carnal, mulheres principalmente.
— Mas posso me alimentar do prazer de um homem também — Lambia os próprios lábios — Sua casca é um exemplo — Cauteloso, o afastou pelo ombro, sentindo pelo lado literal a pureza de arcanjo — Só não entendo um cavaleiro do Senhor em domínios de uma cidade perdida, chega a ser comovente... — Sussurrou e Altair franziu o cenho — Veio ser a salvação de alguma alma? Oh, erro meu, arcanjos não cuidam de almas, pois se fosse esse o caso, a minha não teria vagado para o inferno.
— Se foi para o julgamento e colocado no inferno, a culpa cai diretamente sobre tu e não aqueles que fazem apenas seu dever — Respondera de forma ríspida.
— Seu nome arcanjo, gostaria de saber qual seria — Pediu, sem sorriso ou risada, pouca malicia no olhar e poderes demoníacos em mãos caso o outro se tornasse hostil, mas se fosse para ser hostil, teria feito algo em relação a si, mas até momento não tinha motivo.
— O meu nome pouco seria de importância para você.
Pela primeira vez Malik viu com a luz do luar um sorriso marcar a face do arcanjo e soube que nem seus poderes adquiridos no próprio inferno poderiam atingir a arrogância de tal ser, pois se pudesse o mesmo não teria voltado a vê-lo depois e muitas outras vezes, sempre encarando com o olhar de águia que tinha laços e significado de seu nome. Altair. Soava até doce, até nos momentos em que Malik conseguiu possui-lo, em vê-lo gemer e suplicar, assemelhando-se a uma harpa com suas cordas afinadas apenas para uma função e tal função agradava por demasiado Malik.
Altair parecia um poço limpo se comparar a Gabriel, perambular pelas cidades mundanas depois de encontrar o olhar avermelhado do íncubo, o seguindo até poder descobrir o que não deveria, de ser possuído e possuir o que não poderia. Ouvir o barulho da carne batendo e o calor que sentia na casa mundana, o lacrimejar dos olhos e os pedidos que se perdiam em palavras desconexas. Selos de proteção os cercando, selando o pecaminoso e difamado ato entre ambos.
Ambos não estavam em seus reinos e sim num mundo de deuses e monstros.
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