Gods World
18 Como Uma Volta ao Passado
Notas iniciais
~Sei que já te desejei os parabéns, mas não custa nada desejar de novo (mesmo estando atrasado): Parabéns, tuuudo de bom, paz, amor e tudo o mais! Aproveite o capítulo!~
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– Tia? Está tudo bem? – Eu perguntei hesitante, mas ela nem se mexeu. – Tia? Não precisa chorar! Está tudo bem agora! – Nada novamente.
Olhei em volta tentando achar algo que pudesse chamar sua atenção, mas não achei nada além de um copo com água e um vaso. Decidi, então, apelar para o teatro. Coloquei a mão na cabeça e fazendo minha melhor cara de dor disse dramaticamente:
– Ai, minha cabeça! Está doendo tanto! Que luz é essa tão perto de mim? Eu preciso chegar até ela... Tocá-la...
Ela pulou para o meu lado na hora. – Não, Jéssica! Não vá para a luz! Fique comigo! Fala pra titia onde dói!
Quando ela chegou perto de mim consegui ter uma melhor visão de como ela estava, e estava muito pior do que eu tinha visto antes. Seu corpo apresentava uma postura cansada, seus olhos e o nariz vermelhos. Seus lábios, que sempre foram perfeitos, agora estavam machucados, como se tivessem sido mordidos inúmeras vezes. Não é como se eu gostasse muito dela, afinal ela passou os últimos três anos acabando com minha vida, mas eu estava com pena dela. Acho que o fato dela ter acabado com minha vida foi mais um castigo pelo que eu fiz com a vida dela. Quer dizer, eu literalmente acabei com a dela também. Quando meus pais morreram, ela era a única responsável que existia por mim, e se sentiu na obrigação de cuidar de mim ao invés de me mandar para um orfanato. Além de tudo, ela estava noiva, e eu nunca a tinha visto mais feliz, mas ele não queria se mudar para cá, e eu não queria ir para a casa dela, então ela rompeu o noivado e veio morar comigo. É claro que eu agradeço por ela ter feito isso, mas às vezes me pergunto se não teria sido mais fácil, e até melhor, ter ido para o orfanato. Depois que ela veio para cá eu não pude fazer mais nada. Não podia sair com meus amigos, ou até mesmo vê-los. Os únicos amigos que me restaram foram Heloísa e Jake, e só porque ela viu que não conseguiria me manter afastada deles. Mas com o tempo eu acabei me irritando. Passei a ignorar tudo que ela falava, e suas regras no geral. Eu fazia o que quisesse quando desse vontade. Claro que com limite. Sou o que muitos chamam de santa: Não bebo, fumo, me drogo, saio beijando qualquer um ou fico fora de casa até muito tarde. Também faço todas as minhas lições e tiro notas excelentes. Sim, até admito que sou santa um pouco demais.
Mas de uns meses pra cá comecei a pensar se ela não fazia tudo isso para me proteger. Quer dizer, a morte dos meus pais a deixou muito mal, e talvez ela só não quisesse que acontecesse o mesmo comigo. Nos últimos meses ela me deu a liberdade que eu queria. A liberdade que eu tinha antes dos meus pais morrerem. E foi isso que me fez mudar a forma de pensamento. Talvez, bem lá no fundo, ela me ame.
– Titia? – Eu sorri. – Sério mesmo?
Ela deu um pequeno sorriso, que não chegou aos seus olhos. – Para você ver o que fez comigo! Me sinto voltando no tempo e falando com uma Jéssica de cinco anos! Eu fiquei tão preocupada com você... Achei que tivesse te perdido para sempre.
Eu balancei a cabeça.
– Mas não perdeu! E eu sinto muito não ter avisado que iria ficar fora por uns dias. Achei que se contasse você não iria deixar.
– Não só não iria como também não vou.
Eu gelei.
– Não vai? Como assim, não vai?
– Você não vai mais a lugar nenhum. E também não vai mais ver esses seus... Novos amigos. Se é que se pode chamá-los de amigos. Afinal, aqui entre nós, amigo que é amigo não deixa o outro encher tanto a cara a ponto de vir parar num hospital.
Eu balancei a cabeça uma vez. Duas. Três. Não conseguia dizer nada.
– Não vou proibi-la de ficar com o Jake e com a Heloísa. São boas pessoas, esses dois. Mas quanto a esses outros... Louis, Haylow, Nyssa, Jason, Paper... Não sei não. Não fui com a cara deles.
– É Leo e Piper! E eu achei que já tivéssemos passado dessa fase de você me proibir de fazer as coisas. Você sabe que não vai me impedir.
– Ah, eu vou sim, Jéssica. Nem que eu tenha que te passar comida por de baixo da porta e colocar grades na sua janela. Você não vai mais vê-los! Sem contar que está de castigo por tempo in-de-ter-mi-na-do! – Ela pronunciou a última palavra bem devagar, dando a impressão de separá-la por sílabas.
– Tia Mel, por favor! Não faça isso de novo! Eu não quero ter que te desobedecer mais uma vez!
Ela fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes.
– A questão, Jéssica, é que você não vai me desobedecer! Eu sou a responsável por você! Sou eu que dito as regras, e não o contrário! – Abri a boca para responder aquela barbaridade, mas ela levantou a mão. – Não quero ouvir mais uma palavra sobre esse assunto!
– É sua decisão final? – Perguntei de má vontade. Ela assentiu. – Que assim seja, então, Majestade.
Ignorei tudo que ela disse a seguir. Eu só conseguia ficar olhando para o nada e pensando em como contaria isso para Leo. Eu não podia simplesmente dizer: ‘Então, não posso mais ajudá-los a salvar o Petrick e Apolo, sinto muito. Beijinhos, até nunca mais’. Era horrível demais pensar nisso.
Então alguém bateu na porta. Só podia ser o Leo. Meu corpo inteiro começou a formigar e eu comecei a suar feito um porco. Eu não estava pronta ainda, não tinha ideia do que dizer. Eu estava me segurando para não sair gritando ‘Hello-u! Não estou pronta ainda! Dá pra tirar ele daqui e me dar mais alguns minutinhos?’. Eu respirei fundo e Mel me encarou.
– Pode entrar. – Ela disse depois de alguns segundos.
E a cabeça de Jake surgiu na porta.
Meu corpo inteiro relaxou, de tanto alívio.
– Posso entrar? Não estou atrapalhando nada?
– Mas é claro que não! – Mel sorriu. – Fique à vontade, querido, já estou de saída. – Ela se inclinou para beijar minha testa, mas eu me afastei. Os olhos dela se encheram de lágrimas, magoados, pedindo que eu permitisse pelo menos aquele beijo. Mas eu não podia. Me afastei mais um pouco, até que ela entendeu e suspirou. – Nós vamos embora depois que você almoçar. Vou... Vou preencher alguns papéis. – Ela disse com uma voz fraca, quase um sussurro, e então se retirou.
Jake então sentou ao meu lado na maca, tirou meu cabelo do rosto e então perguntou o que eu mais temia ter que responder:
– Que é que tá pegando entre você e o garoto maravilha?
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