Godlin
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Notas iniciais
Seus lábios eram como ferro contra os meus, eu nem perdi tempo me perguntando o quanto doeria nele quando mordi com força eles. Ele se afastou com os dedos nos lábios, como se tivesse acabado de achar atlântica. Eu não entendo porque ele parecia tão fascinado com um beijo que nem durara dois segundos. Só sei que a sonolência estava ficando demais pra aguentar e eu tombei na parede quente que imediatamente queimou minhas costas. Loki olhou para mim assustado e agachou, jogando o manto preto que lhe cobria para trás e pegando minha mão.
Ele fechou os olhos com força recitando coisas em outras línguas. Arregaçou as mangas e pareciam minhocas saindo da minha pele e indo para a dele, soltou um grunhido fosco enquanto as coisas pretas passavam de mim para ele. Meu braço parou a ardência na hora em que Loki tombou para trás ofegando.
Só depois de um segundo dei conta do que ele acabará de fazer por mim. Ele tirou o veneno de cobra da minha corrente sanguínea trocando pela dele. É estranho achar isso mais do que justo, mas fico me lembrando como ele ainda nem passou a informação sobre como aquela cobra me envenenou. Sobre como, em todo esse tempo em nosso aqui dentro das cavernas, refletiu na minha mente.
— Me de um pouco de água. — ele grunhiu ainda com os olhos fechados — Admiro você ter aguentado isso por tanto tempo, formosa mea.
Saí de perto da parede sentindo minhas costas pinicarem por causa da queimação, esperava que não ficasse com as costas tão ruins quanto o Freddy Krueger. Com insistência — do meu próprio corpo, não de mim — aproxime-me dele.
Seu rosto antes branco estava suado e gesso.
— Não tem água em lugar nenhum — era a coisa mais óbvia, ele sabia disso, a única forma que temos de abastecer água era com ele mesmo. — o que eu faço?
— Eu vou ficar bem. Só vai demorar alguns segundos mais sem água.
— Como pôde?! Não pode sair me beijando dessa forma. Seu louco. Será que não entendeu ainda que eu amo o Alex? — explodi.
— Desculpa por salvar sua vida, Jane, garanto que esse maldito hábito será revogado em breve. Afinal, você tem um imã para morte incontrolável e eu já estou farto de tanto me sacrificar por salvar sua vida. Se eu te beijei? Beijei! E faria de novo. E de novo. Por que é isso que eu faço, procuro um ponto para um meio e eu precisava saber que... Bah! Não interessa agora. Você está bem, novamente, e eu, por outro lado, tenho que suportar do veneno. Raramente minha vida é perfeita, Jane. Quase nunca na verdade. Mas você está praticamente tornando-a no maior inferno!
Rosnei para ele, mas permanecemos calados. Que bom que estou tornando a vida dele um inferno! Assim ele ao menos sabe que o sentimento é recíproco. Com a barra da minha blusa limpei meus lábios e olhei para longe. Era bom ele estar preparado para um gelo. Que ódio!
Ficamos sentados ali por algumas horas antes de ele levantar abruptamente e começar a andar para o outro lado. Loki parecia um zumbi enquanto caminhava freneticamente, nem ligando se eu estava, ou não, lhe seguindo. Então está concluído, Loki tem sérios problemas em controlar sua mente.
Senti-as antes de vir de verdade, as plantas, a mata, o cheiro delas se impregnou nas minhas narinas. Alex teria adorado esse lugar. Sempre tão escoteiro como era, provavelmente estaria pulando de alegria com a possibilidade de achar outra floresta que não fosse a do Oregon. Ou do campo florestal. Alex está sempre num estado de êxtase, ou quando está comigo ao menos.
— De olhos vermelhos. De dentes branquinhos. É um trapaceiro. Porém é o Lokinho. — uma voz cantou e a caverna se fechou tampando a única saída para floresta.
— Ah, não. Isso só pode ser brincadeira. — Loki grunhiu pegando meu braço com força.
— É muito esperto. Porém é guloso. Por uma humana já fico manhoso. — a voz continuou com uma gargalhada.
— E ele conhece a cultura popular. — soltou entredentes.
— Essa é a história se repetindo, irmão?
— Não sei do que está falando. — Loki largou meu braço, cruzando os seus no peito. — Vai aparecer ou vou ter que jogar uma maldição nessa maldita caverna?!
— Ele pula para frente. Ele pula para trás. Ele é o Lokinho. E é muito capaz! — depois disso a música parou — Bonjour, mademoiselle. — alguém pegou minha mão girando até eu estar nos grandes braços de um homem enorme! Ele estava dançando comigo, e contra a vontade — O que faz com o ogro ali?
— Me solta. — eu disse rispidamente.
— Ela é bem bonita, Lothur. Odin sabe sobre... Oh, céus, seus olhos irmão. — seus olhos castanhos avermelhados quase saltaram da órbita enquanto ele olhava para Loki. Tive um leve fleche de dourada quando olhei para trás, mas ele havia sumido outra vez, e o cara que me segurava sumiu atrás dele. Não sem antes olhar para o céu e sussurrar: Asgard.
A passagem se abriu dando lugar para floresta, nela, havia muitas árvores escuras e alguns cervos que andavam despreocupados pelos arredores. Pesarosa, arrastei os pés para longe da caverna. Quando coloquei os pés para fora dela àquela passagem se fechou novamente. A boca da caverna era, literalmente, uma boca cheia de dentes de alguém muito grande e congelada. Estremeci.
Abaixo daqueles negócios vários formatos estavam pintados em vermelho. Eu já vi esses desenhos. Ou ou ou ou! Isso não é nadinha bom mesmo. A única vez que vi esses desenhos eu estava com meus três amigos na porta do hotel Asher, sobre a luz fraca do celular de Mia mal podíamos diferenciar as coisas, mas agora, de frente com a claridade solar, podia ver os corpos. Almas. Não qualquer alma, eram almas perdidas. Isso, por algum motivo estranho, me fez lembrar o que Jord dissera na visão que tive "Morta não. Perdida" e se houvesse uma forma de ressuscitar Heath? Arght! Esse lugar está mesmo mexendo com minha mente e não está à levando para nenhum lugar bom.
Amisit animas nunquam vere perdidit.
Outra gravura em latim. Por que será que eu escolhi aprender russo na escola? Isso ainda me escapa da cabeça, é extremamente uma língua desnecessária em minha vida, mas convenho, eu era louca pelas pessoas russas. Também não sei por quê. Talvez seja por que meu pai era russo e minha mãe inglesa e o romance dos dois tenha levado ela as alturas (palavras dela). Eu sonhava anos atrás em casar com um russo. Iludia-me achando que poderia viver em outro país. Mas, então, eu conheci Alex. Adeus russos super salados e gostosos; olá irmão postiço lindo.
Achei que fosse encontrar muitos bichos na floresta. Mas me deparei apenas com alguns cervos e, de vez em quando, lobos que só assustavam mesmo. Adentrar naquela floresta tinha sido minha única opção quando não se tem nada a se fazer. Não podia esperar Loki. Não iria deixar que Alex continuasse preso com algum... Como Loki o chamou mesmo? Jarls, talvez.
No fim da tarde, quando meus braços e pernas doíam a morte, eu sentei no tronco de uma árvore pensando nas antigas premonições que tinha, era engraçado não ter mais elas desde que coloquei os pés em Godlin. Imaginei tudo o que poderia ter acontecido caso aquela baboseira toda tivesse sido real. O mundo estaria morto. E todos que eu amo iriam se enterrado com ele, era tudo o que acontecia, todos os lugares que olhava eram como se tivessem se deteriorando em pó preto. Morrendo. E tinha almas perdidas. Pessoas mortas. Eu era a causadora daquilo, só não sabia como, mas sabia que causará.
Escutei sons vindos por entre as árvores e me arqueei limpando todas as lágrimas mornas que marchavam meu rosto com facilidade. Mesmo sem nenhum motivo aparente, eu ainda me sentia dormente e inerte do resto do mundo.
— Querida, querida, querida. Estás são coisas que ajudaram em sua jornada durante os dias nas terras de Godlin... Não, você não está escutando essa voz em sua mente. Sou eu. Aconselho que não mostre muitas dessas coisas para os godlinianos, eles não são muito receptivos há coisas novas. Sinto muito não poder ajudar mais do que isso. Estarei sempre por perto, mas não tão, é como dizem... Num passe de mágica!
Natacha só podia estar em minha mente, não, não, ela falou num som oco batendo entre as árvores e soando leve em minhas orelhas. Uma mochila apareceu de frente aos meus pés, agachei olhando dentro dela rapidamente. Ao todo: duas garrafas de água; barras de proteína; blusa térmica; um Ipod; fósforos; dois livros em capa de couro (pretendo olhar melhor eles mais tarde); protetor solar e um caderno em espiral com caneta dentro.
— Natacha? O que quer que eu faça com isso? Sua louca! — berrei para a floresta escura, como esperado a resposta foi o mais lindo silêncio. Comecei a tremer outra vez perdendo o ar e os sentidos, não podia ser de novo não... ei, ter duas crises de pânico na mesma semana não era exatamente o sonho de todos os adolescentes procurando achar seu lugar no sol. Respira fundo, vai tudo ficar bem, vou encontrar o Alex e sumir daqui antes que possa chegar a imaginar, se por acaso, minha sanidade já foi abalada. Respira Jane. De novo não.
Deitei no chão lamacento entrando em estado de choque, inspiração e suspirar tornou-se meu mantra durante quase dez minutos, eu só consegui me acalmar depois disso. E olhe, não estava sendo nada fácil mim. Quando consegui estabilizar meus batimentos cardíacos e controlar a respiração, fiquei dentro do meu casulo por mais um tempo antes de levantar e buscar galhos para fogueira. Não sabia se era uma boa ideia fazer isso, não durante essa viagem, e eu nem ao menos queria testar a teoria de lobos selvagens e sanguinários. Mas, se eu ficasse esperando até anoitecer para acender uma fogueira, estaria morta congelada ao amanhecer.
Em seguida, observei a faísca ganhando vida e se torna maior conforme o vento batia. Me encostei na árvore e abri o primeiro livro e advinha. Era um dicionário de Latim para português e vise e versa, por algum motivo isso me intrigou, achava que a língua viking fosse outra, mas outra. Devo ter me enganado. Peguei a caderneta e escrevi nela as palavras do muro da caverna, depois pesquisei no dicionário ainda mais a fundo para tentar encontrar sentido nas palavras.
Amisit animas nunquam vere perdidit. Ou seja: almas perdidas nem sempre estão perdidas. Ou algo assim.
Quais foram às palavras que Loki usou na caverna mesmo?
Formosa mea: minha bela.
As outras palavras boiaram na minha mente se desvencilhando facilmente da coerência. Lembrar coisas estranhas nunca havia sido meu forte.
Com medo dos bichos da noite, me acomodei em um galho no topo de uma árvore, não tinha medo de altura, pelo menos não tanto quanto de ser comida viva.
Alex,
Eu provavelmente estou sendo boba em escrever o que tá na cara que você vai ouvir varias vezes saindo da minha boca, mas sabe como é né, estou sozinha na merda de uma floresta!
Viva a natureza!!
Loki é uma das pessoas mais perversas que já conheci na vida, ele te sequestrou, se ainda não contei. E depois fez o favor de ir para "Asgard" com o homem que gosta de cantar. Eu, sinceramente, espero te encontrar logo. Se é que já não tenha virado comida se gigantes ou escravizado por um Jarls (não esquenta, também não sei o que isso quer dizer). Escrevo porque eu nem sei se minha sanidade mental está em estado perfeito — não, não conte esses últimos anos como referência — e acho que Deuses nórdicos realmente existem, dá pra acreditar? Eu conheci Loki. Saiu fogo das mãos dele. Fogo, Alex! Isso é indício que estou me tornando vovó!
Encontrei dois lobos negros esse dia, eles não me atacaram, mas também ficaram rondando-me por horas. Ta, não quero atrasar meu sono falando com você por uma carta, então boa noite meu... Amigo. Eu te amo. Sinceramente, suplicantemente e emocionalmente espero que esteja vivo. E não dentro de uma barriga.
Uma lágrima caiu na folha antes de mim fechara com força e enfiar dentro da bolsa.
Na manhã seguinte e na seguinte e na outra fiz o mesmo percurso, sempre escrevendo o que me vinha há cabeça quando tinha vontade, passando várias horas chorando pelo Alex. Minhas pernas doíam, todo o corpo doía na verdade, só não entendia como meu subconsciente continuava insistindo para que continuasse andando. Tive que escarar pedras grande duas vezes para conseguir entrar em cavernas, onde eu andava mais e encontrava tais saídas bem estranhas.
As barras de proteína nem faziam mais efeito no meu corpo, tudo o que conseguia fazer era beber e comer algumas vezes no dia, e ficar olhando para o nada da floresta negra. Sabe o quanto é difícil? Achar ser a única pessoa na terra e, ainda por cima, fitar o céu todas as noites imaginando o que poderia estar acontecendo com o amor da minha vida? Se ele pode estar morto. Se esta sobre sentença de morte. Se virou comida de algum animal. Se ele pensa em mim. Se, em algum momento, já considerou suicídio. Se esta sendo bem alimentado. Se tudo o que acontecia ela culpa minha. E esses "se" estavam me queimando por dentro como lava. Eu perdia a vontade de viver. Podia ser só frescura minha, sabe, nem sempre acho que estou acordada. Ah, e tem isso também.
Eu não consigo dormi há dias. Tenho fleches onde durmo calorosamente, então estou acordada, depois alucinando com Alex andando pela floresta. Estava ilícita. Meus olhos pesavam e eu não distinguia a realidade do enlouquecimento. Mas eu tinha que me prender a alguma coisa, e fiz isso ao diário, me prendi de corpo em alma naquele pequeno e surrado caderno em espiral.
4° dia dentro do inferno da floresta negra.
Alex,
Hoje eu quase fui picada por uma cobra. Quase pude ver o ódio dela por mim pulsando naqueles pequenos olhos negros, ela se manteve ali, parada vendo qual era a qualidade do produto. Sabe o que aconteceu? Ela foi embora. Eu não valho nem uma picada mortal, acredita nisso?
Estou tendo pesadelos sobre o apocalipse e acho que ele se aproxima a cada dia que estou nesse inferno. Godlin. Godlin. Godlin. Será que essa terra realmente existe? Ou é apenas um sonho maluco de uma adolescente cheia de hormônios, eu irei acordar, perceber que estou em casa e que, Natacha, Loki, Fany e tudo envolvendo Deuses nórdicos não passou de maldito pesadelo. Eu iria me declarar para você. Iria ignorar todos os olhares daqueles que achavam nós dois irmãos postiços perfeitos e passaria o ano todo dizendo o quanto sinto por ter ignorado a meleca do sentimento, depois te mataria, você não deveria ter pulado naquele buraco! Seu louco. Mesmo sendo um sonho. (Estou rindo) meus olhos estão arregalados e minha jaqueta vermelha está surrada e aos trapos. Espero que não me encontre assim. Não quero que tenha a visão de uma eu acabada e fraca em sua mente, nunca, nunca, nunca, nunca...
Eu estou alucinando na maior parte do tempo. Não sei distinguir o que é real ou o que não é. Não durmo há dias. Não como nada que barras de proteínas. A boa notícia é que não estou assada! Natacha fez o favor de colocar um protetor solar dentro da porra da bolsa. Ela só esqueceu-se da lanterna, kit de primeiros socorros, comida, mais água, faca, arco e flecha, qualquer coisa que me permitisse se defender, mapa, bússola, e o mais importante. Ela simplesmente esqueceu de me dar esperança de que daqui tenha alguma saída. Ela não deu motivos para continuar.
Respirei profundamente apoiando as mãos nos joelhos e puxando-as até virar uma bola no chão. Senti um puxão na barriga e arqueei alto sentido algo se mexer em baixo de mim. Horrorizada olhei para a cobra que se enrolava em volta ao meu corpo, ela me olhou com aqueles olhos negros e, como se alguém normal, aconchegou a cabeça pequenina nos meus cabelos. Era a mesma de hoje cedo, era vermelha listrada em couro preto, olhos negros, e mais ou menos um metro.
Fiquei imóvel olhando-a, sabia que isso era possivelmente impossível de se acontecer, cobras não interagem com seres humanos dessa forma, não que eu saiba. Mesmo assim, mostrando o tamanho na minha insanidade mental, passei os dedos pela pele viscosa e adormeci sendo abraçada por uma cobra. Talvez haja esperança que ela me matasse durante o sono, isso poderia tirar minha dor, eu preferiria morrer assim.
Acordei com um bafo de grama na minha cabeça, olhei para cima e pulei para trás abruptamente. Um cavalo. Negro e grande estava parado olhando para mim, curiosamente.
— Eai amiguinho, sabe onde posso encontrar água? — mostrei a garrafa vazia — estou precisando me hidratar um pouco. Vida natureba não é minha praia, meu caro, como você consegue fazer isso? — eu disse, levantando e aproximado a mão lentamente do seu rosto, fiz carinha nos seus cabelos e ele ronronou. Cavalos podem ronronar?
O cavalo negro cheirou meus dedos e começou a andar na direção oposta, intrigada, eu o segui pelos calcanhares. Ele bufou quando parou, então abriu passagem para mim e... Era um riacho.
Abracei forte o pescoço do cavalo.
— Obrigado, lindo. — agachei e peguei um pouco de água nas mãos, mas fui interrompida com um estrondoso de algo pulando em cima de mim, não conseguia me mover, não conseguia fazer nada por baixo daquele grande corpo. A primeira coisa que veio há minha mente foi Alex. Mas o sentimento de déjà vu passou quando a pessoa se levantou.
Um homem. Uns vinte e cinco anos. Cabelos castanhos claros e olhos caramelo; tinha dois metros de altura, e seu rosto estava parado em uma carranca horrenda. Parecia bravo.
— Está louca moça! Queria morrer? — ele apertou os lábios e me analisou com o cenho franzido — não que você esteja muito longe desse caminho.
— É real? — sussurrei me erguendo para perto dele, toquei de leve seu tórax e apertei. Ele arfou dando vários passos para trás. — É real. É real. Real.
— Real. O que está fazendo na floresta está hora, moça. Tem muito louco por aí, e é a floresta negra, o que faz na floresta deste porte essa hora? — ele parecia atordoado. Não pude deixar de observar suas roupas estranhas, eram pesadas e feitas de pena de algum pobre animal.
— Estou perdida.
— Fugiu do seu povoado?
— Sim. De certa forma, sim.
— Aí, meu Odin. É uma dos cinco. — ele arregalou os olhos castanhos claros, apontando para mim.
— Hmm, eu não sei do que está falando.
— Você sabe. A profecia.
— Não. Não sei. — disse exausta, caindo no chão. — Quem é você?
— Como não sabe sobre isso? É uma das lendas mais faladas dês da peste negra, e nem foi isso, eles estão predestinados... — estava sentindo que isso ia dar em um longo e, infelizmente, enorme sermão.
— Oh, agora isso está muito bom, quer dizer que estamos em Nárnia? — caçoei arfando baixo.
— Nárnia? — ele inclinou a cabeça para o lado, confuso.
— Você sabe dois filhos de adão, duas filhas de Eva, rainha branca, armário.
— Ainda não sei do que está falando.
— Esquece. Eu quero água. — arrastei meu corpo até a beira do riacho e coloquei os braços dentro da água, ele me puxou mais uma vez tirando minhas mãos de dentro do riacho fundo. Por que será que eu acho isso tão familiar.
— A água e venenosa. Não pode beber dela, nunca. — resmungou largando minhas mãos no chão, nada delicadamente. — Vai dizer que não sabe sobre essa lenda também?
— Não.
— Que Odin dei-me paciência.
— Era viking? Deus, que isso, não dá para acreditar. — disse, colocando as mãos no rosto e tentando controlar minha respiração rápida que só piorava a cada palavra que saia daquela boca. — Mas não é real.
— Você está bem? — perguntou cauteloso.
— Eu pareço bem? — respondi com raiva.
— Parece que passou um meteoro de rebanhos por cima de você, depois uns cervos passaram caca no seu cabelo, então você começou a nadar nas plantas. — informou apontando para mim, enquanto eu ia e vinha no chão.
— Qual é seu nome? — procurei desviar o assunto, ele não parava de falar! Quanto assunto.
— Você não está com nem um pouco de cor no rosto. Deixe-me ver — ele olhou dentro de uma bolsa meio ameaçada que carregava, era branco barro. — Vai ter que ser isso mesmo.
Ele abaixou e colocou uma garrafa gelada e prata na minha boca, meus lábios se abriram involuntariamente com desespero por algo que fizesse a queimação parar. O liquido era horrível e desceu queimando a garganta, eu fiquei fitando o homem por todo o tempo, procurando qualquer indício de que iria morrer por suas mãos e que estaria dopada demais para se defender.
— É rum — disse ele sorrindo.
— Eu acho que vou desmaiar.
— Nesse momento?
— Não. Estou marcando para fazer isso semana que vêm. Claro que é agora. Eu preciso saber...
— O que? Saber o que?
— Que não vai me machucar. Eu quero seu nome. — meus olhos estavam revirando.
— Enzo. Enzo Shor.
— Não me machuque, Enzo Shor, se o fizer... — e aí desmaiei.
Acordar novamente foi uma das tarefas mais difícil que já fizera nesses tempos.
— Ela não pode ficar aqui — uma voz grossa soou perto do meu ouvido.
— Ela não tem para onde ir. Pode ajudar para viver, vamos Kilian, seja gentil homem rabugento. — era Enzo.
— É confusão. Não sabemos de onde ela veio, pode trazer os Jarls para cá em dois tempos. Voto por mandar ela para a clareira e queimar. — dessa vez há voz ela fina, de garota.
— Eu prometi. Não posso machucá-la. — defendeu-me Enzo.
— Deixe que eu faça então, não sinto remorso. — vociferou a garota.
Tentei abrir os olhos, mas não consegui.
— Parem vocês dois! Eu sou o dono dessa casa, eu sou quem decido quem fica e quem vai. E ela...
— Kilian. — repreendeu Enzo.
— Pode cuidar dos porcos, é o melhor que posso fazer agora. Mas vou avisando, vocês dois sabem as regras da casa. Enzo, não se aproxime dela, de nenhuma maneira, eu não vou ser avô de uma criança pária, e você Tereza, pare de tentar matá-la com os olhos. Ninguém vai chegar perto dessa garota, entenderam? Qualquer tipo de envolvimento emocional e sexual vai resultar nela sendo expulsa e vocês também.
— Mas eu nem quero ela aqui? — rosnou a voz feminina.
— O que está feito, está feito.
— Posso matar o cavalo pelo menos?
— Que cavalo? — perguntou outra voz. Kilian, suponho.
— Ele a seguiu até aqui. Não queria largar ela.
— Exatamente pelo motivo que deveríamos matar! — disse Tereza.
— É um Frísio. Deve ser fácil domá-lo.
— Creio que não, esse é diferente, ele tem algo estranho nos olhos quando me aproximei quase me mordeu. Vamos sacrificar. — concluiu Tereza cética. — Eu compro as balas.
— Não vai sacrificar nada, Tes, para de ser tão sanguinária. — Enzo disse ríspido.
— Depois veremos o que iremos fazer com tal cavalo, o assunto agora é a garota, quando acordar, fale as regras para ela e mande direto para o chiqueiro, aqui não é lugar de gente preguiçosa. Enzo preciso falar com você um instante, é sobre o Barna...
— Tá bom. — disse rapidamente, antes de Kilian poder terminar o nome. — Não encoste um dedo nela, Tereza. Vai acabar fazendo algo com qual se arrependerá amargamente.
Isso era uma ameaça? Sim. Só que bem sutil.
A porta se fechou com um estrondo, escutei sussurros abafados pela porta, então senti a cama afundar com o peso de algo, e algo pegou minha mão. Sua mão era fria e áspera.
— Pode enganar a todos com esse rostinho bonito. Mas eu vejo o quão nojenta você é, e logo, todos verão o que realmente é. — a mão se apertou tanto no meu braço a ponto de pensar que poderia quebrar, doía demais e eu deixei um gemido de leve escapar-me pelos lábios. — Espero que você morra enquanto dorme, boa noite.
A mão soltou e ela saiu do quarto.
Agora estou quadruplamente ferrada.
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