Notas iniciais
E se Sandor ficasse sóbrio?

Passaram o dia cavalgando, novamente. Sansa já sentia seu traseiro doer de tanto que ficava naquele cavalo. Não gostava de cavalgar, ainda mais perto de Sandor. O movimento do cavalo fazia os dois se encostarem mesmo quando Sansa tentava evitar. Por duas vezes, Sandor segurou a cintura dela para ajeitá-la sobre o cavalo, deixando-a ainda mais perto dela. Nesses momentos, ela sentia parte de sua coxa se encostar em partes muito íntimas do Cão. Sansa ruborizava só de pensar.

Sandor andava rabugento. Resmungava a cada pio que Sansa dava. Quando ela pedia para fazer suas necessidades, ele ameaçava ir atrás. E resmungava. Quando ela reclamava de fome, ele bufava e lhe enfiava um pedaço de queijo velho na boca. E resmungava. Ela se afastava dele sobre o cavalo, ele a puxava de volta. E resmungava.

E além disso tudo, ele ainda investia contra ela. Por mais de uma vez, Sansa o flagrou fungando os seus cabelos como um cachorro. Ela só percebia quando sentia a respiração do Cão em sua nuca. Ele fingia que nada acontecia quando ela o flagrava.

Estava começando a sentir falta do Sandor não sóbrio. Pelo menos, ele não resmungava, ficava quieto. Aquele era o estado normal dele. Meio sóbrio, meio bêbado. Era o estado que ela conhecia. Também conhecera o Sandor verdadeiramente bêbado. Tentando investir furiosa e violentamente contra ela, agarrando-a pelos corredores da Fortaleza Vermelha. E agora, estava conhecendo o Sandor sóbrio.

– Será que encontraremos uma estalagem? – perguntara Sansa.

Sandor não respondera. Por vezes, ela fazia perguntas e ele apenas bufava. Nunca a respondia.

Pelo menos, o Sandor bêbado costumava me responder.

– Sor, quais são os seus planos?

– Eu não sou nenhum sor! – Sandor quase gritara, assustando a menina.

Cavalgavam há 2 dias e não tinha certeza de que Sandor sabia o que estava fazendo. Ele não diziam seus planos, nem seus objetivos. Só sabia que iriam para Winterfell. Queria encontrar logo uma estalagem. Quando passara ali com a comitiva do rei, havia algumas estalagens pela estrada do Rei. No entanto, eles não seguiam pela estrada, mas pela mata adentro, sem rumo e sem garantia de que estavam indo pelo caminho certo.

Sansa queria parar e descansar. O entardecer chegava. Não queria deitar no peito de Sandor para descansar.

– Podemos parar para descansar? – tentou Sansa.

Sandor nada respondeu. De novo. Sansa estava começando a se irritar.

– Podemos, pelo menos, parar para nos hidratar?

Silêncio. Ela jamais seria grossa com Sandor. Isso não era atitude para uma lady. Mas ele nunca a tratara como uma lady e ele não era nenhum sor. Ele não estava tratando a ruiva da forma como ela deveria ser tratada.

– Você não responde nenhuma de minhas perguntas! – brigou Sansa. – Você é um estúpido! Eu odeio você!

Não esperava que Sandor reagisse de forma tão violenta como agiu. O homem agarrou seus dedos entre os cabelos ruivos de Sansa e puxou para trás, para que ela pudesse olhá-lo nos olhos.

– Estúpido, mocinha? – perguntou Sandor, puxando com força os cabelos da menina. – Estou te levando para casa, e eu sou estúpido?

– Você está me machucando. – choramingou Sansa. A dor lhe enchera os olhos de lágrimas que ela se recusava a deixá-las cair. E ao dizer isso, Sandor puxou mais ainda seus cabelos, arrancando um gemido baixo de dor da ruiva.

– Quem se importa se você está machucada? – perguntou Sandor, sarcástico. — Quem irá lhe proteger agora? – Ele estava com o rosto muito próximo do de Sansa. – Você estava bem acostumada a apanhar às ordens do rei. Que diferença faz agora?

Sansa queria chorar. Quando esteve em Porto Real, presa na Fortaleza Vermelha, Sandor nunca levantara uma mão para machucá-la. Apenas os outros guardas reais batiam nela e Sandor apenas observava. Ele estava sendo estúpido e violento sem motivos. E Sansa estava assustada com o novo lado de Sandor. O lado que fazia jus ao seu rosto queimado.

– Por favor, me solte – implorou Sansa, sentindo uma lágrima lhe escapar. Sentia o couro cabeludo quase ser arrancado.

Sandor aproximou o rosto. Ele encostou o nariz próximo à orelha de Sansa, na nuca, e a menina sentiu que ele fungava seus cabelos e pele. Aos poucos, ele soltou os cabelos de Sansa, que sentiu a área se aliviar, apesar de ainda estar dolorida. Estranho parara de cavalgar e le estava muito concentrado em seus cabelos.

Sansa aproveitou a deixa, se livrou de seus braços com violência e saltou do cavalo, caindo de joelhos, mas apoiando as mãos no chão. Levantou-se e começou a correr. Ouviu Sandor xingar e amaldiçoá-la rudemente. Ela correu por entre as árvores, segurando o vestido rasgado e ofegante. Ouviu o trotar do cavalo e amaldiçoou a si própria pela burrice de acreditar que fugiria do homem violento.

O trote do cavalo parou e ela pôde ouvir Sandor saltar e correr atrás dela. Os passos dele eram rápidos e violentos. Ela correu o mais depressa que pôde, meio cambaleante.
Sandor a agarrou pelos braços e Sansa caiu de joelhos, com o Cão, finalmente, a agarrando por trás. Ele estava apertando seus braços com força e gritou em seu ouvido, deixando-a surda.

– Você ficou maluca? – gritou o homem. – Nunca mais faça isso!

Lágrimas começaram a sair dos olhos de Sansa. Ela gemia a cada grito que o Cão dava.

– Acha que conseguirá chegar a Winterfell sozinha, menina tola?

Sansa chorava e não se importava com isso. Estava assustada demais para se mostrar forte. Sandor a levantou com violência e a virou para que Sansa o olhasse nos olhos. Em sua cicatriz.

– Olhe para mim! – Sansa o olhou em meio às lagrimas. – Acha que conseguirá vencer todo esse trajeto sozinha? Sem que um espião a reconheça? Sem que um homem livre a estupre? É isso que você quer?

Ele colocou uma mão nos seios de Sansa, apertando-os.

– É isso que quer? Que um homem livre lhe possua? É por isso que tentou fugir de mim? – Sansa tentou se desvencilhar, mas ele a agarrava forte pela cintura, com uma das mãos em seus seios. Seu rosto estava próximo e ela não o olhava mais. – Eu deveria ter te deixado ser estuprada naquele vez que te salvei em Porto Real? Era o que queria? Ser violentada por vários homens?

Sansa uniu toda a força que tinha para tentar empurrá-lo.

– ME SOLTE! – gritou. Ele afrouxou o braço e ela finalmente o empurrou, correndo para trás.

Sansa se ajoelhou e continuou a chorar. Abraçou a si mesma, tentando se proteger. Ele havia lhe tocado os seios e ela se sentiu invadida. Como ele poderia acreditar que ela, uma lady, gostaria de ser estuprada?

– Eu só quero voltar para casa. – sussurrou mais para si, em meio ao choro.

– Eu vou te levar para casa – ele confirmou, com a voz mais calma, mas ofegante. – Você não conseguirá fazer isso sozinha, mesmo que quisesse.

Sansa se amaldiçoou por aquilo. Ela chorou mais ao perceber que o que Sandor falava era verdade. Ela não era capaz de se proteger sozinha. Nunca aprendera a se virar, a se defender. Não era como sua irmã Arya que lutava para se defender e era independente. Sansa sempre necessitou de amas perto de si e sempre usou suas cortesias e boa educação como defesa. Aquilo não lhe serviria de nada.

E por ainda ter a boa educação como virtude, Sansa se recompôs. Ela parou de chorar, se levantou, batendo a terra, folhas e grama de sua capa e vestido, ajeitou seu cabelo e fora até Sandor. Ele a olhou curioso.

– Eu quero voltar para casa – começou a ruiva. – Sã e salva. Mas também quero comer, me hidratar e descansar durante o caminho. E preciso de você para me garantir proteção.

Sandor quase riu da menina. Decidiu fazer isso apenas internamente, quando percebeu que ela falava sério. Era claro que ele a protegeria, mas não poderia garantir conforto a ela.

– Não posso lhe dar bolos de limão e um banho quente – disse Sandor sarcástico.

Sansa tentou não se irritar ou começar a chorar.

– Não quero bolos de limão. Quero apenas o suficiente para a minha sobrevivência. – disse com firmeza. Ela esperava que aquilo soasse sensato e que ele a respeitasse. Era a única coisa que poderia fazer para quebrar o clima pesado e aguentar a volta para casa.

Sandor suspirou. Ela realmente falava sério. Poderia lhe proteger, poderia lhe garantir comida, caçando animais e colhendo frutas. Poderia lhe garantir água se encontrassem uma fonte. Poderia lhe garantir proteção para dormir. Poderia até mesmo lhe garantir que ela se esquentasse ao dormir.

Sandor se abaixou para pegar a adaga que ficava em sua bota. Ficou de joelhos, se aproximando de Sansa, pegou a barra do vestido dela e cortou um pedaço de tecido. A ruiva tentou quase ia protestar quando Sandor se levantou de supetão, ficando de frente para ela, muito próximo dela.

Sandor pegou a mão da menina e lhe fez um corte rápido na palma.

– Ei! – gritou Sansa, surpresa, vendo o filete de sangue da palma de sua mão começar a crescer. Ela poderia ter desmaiado se fosse mais nova. Mas depois de tanta violência vista em Porto Real, um filete de sangue não a assustava mais.

Sandor também fez um corte em sua própria mão. Ele fez a menina apertar sua mão. Sansa sentiu uma ardência no corte pelo aperto que ele lhe causou.

– Esse será o nosso pacto. – afirmou Sandor.

Duas mãos cortadas se unindo. Dois cortes se unindo. Dois tipos sanguíneos se unindo. E duas casas se unindo. Um Cão e um Passarinho. Ou seria um Cão e uma Loba?

***

Já era noite quando, finalmente, estavam acampados em outro trecho do riacho anterior. Estranho estava preso em uma árvore, o manto de Sandor estendido no chão, uma fogueira pequena instalada.

Antes de anoitecer, Sandor tinha conseguido caçar um coelho. Sansa colhera algumas frutas fáceis de alcançar. Ela olhava para o pedaço de vestido enrolado em sua mão a todo minuto. Se Sandor tinha lhe feito um pacto para lhe proteger, ela deveria ajudar em alguma coisa. As frutas foram uma opção. Decidira escovar o pelo de Estranho enquanto Sandor preparava o coelho.

Sandor tinha uma pressa em comer, já que ficar com uma fogueira acesa à noite era muito perigoso. Denunciava onde os dois estavam. Ele decidira que iria trocar o dia pela noite, no dia seguinte, para evitar riscos.

Sansa se aproximara do cavalo. Ele não gostava muito da presença dela quando Sandor não estava por perto. Ele era um cavalo muito selvagem para um cavalo, supostamente, domesticado. Apenas Sandor se entendia com ele.

Ela tentou ir por trás do cavalo, mas ele era desconfiado. Relinchou e se virou para ela, desafiando-a.

Sandor vendo a trapalhada de Sansa, decidiu se levantar, aos risos, para ajudá-la. Não queria que ela se machucasse. Já bastava o corte que ele lhe tinha feito como promessa.

– Estique sua mão, passarinho – instruiu Sandor, puxando a mão cortada da menina para que se estendesse. Ele lhe tocava com a mão cortada também. O pedaço de seu vestido estava enrolado lhe protegendo o ferimento. Sandor estava muito próximo. Ela o olhou, tentando entender o que ele lhe disse. – Olhe-o nos olhos e estique a mãos.

Sansa não retrucou. Fez o que ele lhe disse. Olhou nos olhos do cavalo que brilhavam pelas faíscas da fogueira.

– Aproxime-se aos poucos – sussurrou Sandor. – Para que ele possa saber que você não o machucará. Ele lhe dirá quando confiar em você.

Com medo, Sansa foi se aproximando aos poucos. De vez em quando, olhava para baixo, amedrontada. Mas voltava a olhá-lo. Aos poucos, ela ia para perto, quase o tocando. Se perguntou como que ele lhe diria que confiava nela. Cavalos não falavam.

Mas ela entendeu. Estranho se aproximou dela e abaixou a cabeça para que ela encostasse a mão em seu focinho. Sansa olhou para trás, em expectativa, para que Sandor lhe instruísse o que fazer.

– Pode tocá-lo.

Sansa voltou a olhar o cavalo. Se aproximou mais um pouco e, finalmente, tocou no pelo macio do animal. Ela o acariciou e ele não reclamou. A ruiva olhou novamente para Sandor, que já estava voltando para cozinhar o coelho. E, quando o homem sentou, olhou para ela e lhe esboçou um leve sorriso.

Sansa escovou o pelo de Estranho. Estava contente por se sentir útil. Talvez, a jornada não seria tão cansativa e entediante como ela pensava. É claro que ela preferia estar em estalagens em uma cama quente e macia. Ainda não suportava ter que deitar no chão.

Os dois comeram em silêncio e Sansa se afastou para fazer suas necessidades. Sandor costumava mijar próximo a ela, sem se incomodar com sua presença. Mas Sansa se recusava a fazer isso perto dele. Não era atitudes de lady. E isso só mostrava que ele não era um cavaleiro de verdade.

Ela não fora tão longe. Conseguia ver a luz da fogueira há umas 4 árvores de distância. Estava próxima ao riacho.

Depois que urinou, ela ouviu um barulho que gelou seu coração. Pareciam passos esmagando folhas secas. E não eram de uma única pessoa.

Sansa se virou para correr para dar de cara com algo duro. Seus braços foram agarrados e ouvira risadas masculinas. Pareciam 3 ou 4 pessoas. Estava preparada para gritar quando uma mão tapou sua boca com força.

– Se a donzela gritar, eu lhe corto a garganta. – ameaçou uma voz masculina. Ela nada enxergava. A luz da lua era fraca e a luz da fogueira estava distante. Seu coração não parava de bater e seu Cão estava tão perto...

Tinha medo de gritar e eles lhe cortarem a garganta como prometeram. Alguém lhe prendera um pedaço de pano em sua boca. Ela tentou se desvencilhar e esperneava. Amordaçaram a garota e ela teve a chance de ganir alto. Se ao menos Sandor ouvisse seus gemidos de socorro.

Ela sentiu agarrarem sua cintura e ser colocada no ombro de alguém. Os homens riam baixo e ela continuava gemendo alto, tentando gritar para que Sandor a ouvisse. Esperneava, mas o homem que a carregava lhe deu um beliscão em seu traseiro. Ela entendeu isso como sinal para parar.

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela queria voltar para Sandor. E só então, percebeu como ele tinha razão em lhe garantir proteção.

Notas finais
Gostaria de agradecer a quem está acompanhando, quem está comentando e quem está favoritando. Fico feliz que vocês estão gostando! Isso me motiva a escrever mais! Não precisa me deixar um comentário, só de saber que minha fic está sendo visualizada, eu fico muito feliz! Mas você pode deixar um comentário para sugerir alguma ideia, reclamar, criticar, elogiar, cobrar, dizer um oi! Agradeço pelo apoio de todos! Se tiver algum erro na fic que deixei passar, podem me avisar e brigar comigo! Obrigada! Beijocas, até a próxima!