Goddess and Monster - Part 1
9 Capítulo 8.5 Bônus - Moa Bandar
Notas iniciais
Lhazar não era para ela. Um lugar quente, onde as pessoas costumam ser tão orgulhosas do lugar que se recusam a conhecer o resto do mundo. Pessoas tão corretas e tão erradas. Moa Bandar queria conhecer o mundo.
Teve a oportunidade quando os Dothtraki atacaram sua vila, queimando o lugar, mutilando os homens e estuprando as mulheres. Não queria ser estuprada por um cavalo Dothtraki, nem escrava em Yunkai. Seu pai, mestre em Lhazar, lhe dava um boa vida e respeitada por todo o resto de Essos. Não era como as rainhas de Westeros, mas eram importantes também. O ataque a motivou a fugir.
Queria conhecer Westeros. O lugar de muitos reis e rainhas, e cavaleiros armados. Conhecer o que os contos lhazarenos que diziam. Não só Essos, como já conhecera e degustara durante sua jornada à Westeros. Queria ser livre e conhecer Braavos como conheceu Pentos, Myr, o Mar Dothtraki, Yunkai, Meereen. Não queria ser mais conhecida como a mulher ovelha.
Depois da viagem de navio que a levou até Porto Real, ela percebeu que respirar outros ares era para ela. O lugar era tão cheio e dava para ver o castelo logo acima. Uma construção que se erguia pelos ares e era de tirar o fôlego.
Mas não durou muito em Porto Real. Não era pessoa de ficar em um lugar só. Foi para Rochedo Casterly, Ninho da Águia, Correrio. Agora queria ir até Winterfell e à Muralha.
Moa se alimentava do que a natureza lhe dava, conseguia dinheiro fácil e até bebida com alguns homens. Quando dava, trabalhava, temporariamente, em alguns locais. Limpava casas e lavava louças. Tudo em troca de um lugar para dormir. Ela conseguiu um cavaleiro rico que lhe dera um vestido e sapatos novos. Ela fazia o mesmo que fazia em sua jornada pré-navio, com a exceção de que em Westeros, os homens pareciam tratar a mulher como ouro.
Estava em Correrio quando conheceu Stavy. Ele era um jovem tão belo, com cabelos loiros e pele tão branca que contrastava com seus cabelos negros e pele caramelizada de tantos anos com o sol de Essos. Os olhos azuis do rapaz se misturavam com os olhos verdes da menina. Ele era uns três anos mais velha que ela, que tinha completado 18 anos durante a viagem de navio para Westeros.
Ele era um rapaz perdido pelo mundo, como ela, e logo trataram de conhecer Westeros juntos. Seriam companheiros de viagem até fora de Westeros, se necessário. Ela se entregava a ele todas as noites, seja nas camas das estalagens, nos estábulos e celeiros, sob o luar numa planície ou rodeados de mata florestal.
Em pouco tempo, Stavy, ambicioso, decidiu que era melhor se fossem bandoleiros. Assaltariam os cavaleiros nobres para que pudessem ter uma vida confortável durante a viagem. Não era má ideia e Moa não hesitou em fazê-lo.
Roubavam todos os cavaleiros que viam, seja nas estalagens, onde arrombavam as portas e praticavam pequenos furtos durante as refeições ou na estrada. Com o tempo, Moa se tornou uma ótima bandoleira. Eles conseguiam criar teatros para enganar os cavaleiros e roubarem. E antes que as vítimas percebessem, eles já estavam longe.
Mas a vida livre que Moa tanto almejava, não era tão livre assim.
Por mais que Stavy fosse um homem tão belo e esperto, ele também era possessivo. Ela nunca entendia seu ciúme quando ele a obrigava a se atirar aos homens para roubar.
Eles combinavam que ela seria como uma prostituta, enquanto roubavam. Ela caía em cima dos homens, dando-lhes beijos e tornando-os fáceis vítimas. Stavy sempre concordava e era sempre sua ideia. Mas quando estavam a sós, comemorando o dinheiro roubado, ele brigava, gritava e discutia sobre como ela não podia se atirar nos homens.
E numa dessas discussões, Moa se tornou uma presa de sua própria liberdade. Ao invés de amor, ele lhe batia todas as noites. Dava-lhe tapas fortes no rosto, socos, quando necessário, em seus braços, pernas. Seu corpo todo marcado com marcas vermelhas e roxos enormes. Ela não chorava diante dele.
Um dia, Moa reagiu, e Stavy lhe prendeu em uma árvore, forçou-a a fazer amor e cortou-lhe os braços com uma adaga. Era sua mais nova diversão: a adaga roubada de um cavalheiro.
Quando Moa não conseguia cumprir seu trabalho ou quando ela se atirava para cima dos homens em troca do roubo, Stavy lhe batia, lhe cortava, lhe empurrava com uma boneca de pano. Ela não entendia seu comportamento. Ele a obrigava a trabalhar e ela apanhava por isso. Apanhava por cumprir e apanhava por não cumprir. Não tinha escapatória.
Logo, Moa se tornou escrava da pessoa que mais confiava e se arrependeu de ter entregado sua alma a Stavy.
Até que um belo dia, Stavy esteve em perigo.
Cavaleiros passavam pela Estrada do Rei, na região d’O Gargalo, e Moa e Stavy se preparavam para atacar. Estavam escondidos entre as árvores, sempre de roupas de cores neutras, apesar de Moa estar de verde e com os seios fartos esbugalhados no vestido.
Ela se aproximou da estrada, quando os cavalos quase a atropelaram. Ela se jogou no chão, se fingindo de sofrida e machucada, gemendo e pedindo por socorro.
Os três homens que estavam sobre o cavalo apenas pararam e observaram. O que estava no meio, que poderia ser visto como líder, perguntou:
–O que foi, senhora?
– Ajuda... por favor. – respondeu Moa, gemendo, fingindo sofrimento.
Um dos homens desceu do cavalo, sendo repreendido pelo líder, e andou até Moa. Ele tinha cabelos negros e pele branca. Se ajoelhou ao lado da menina, lhe oferecendo água. Ela bebeu um gole e tentou dizer.
– Ajuda. Atacaram-me.
– Quem te atacou, milady? – perguntou o homem, ingenuamente.
A ideia era que os homens saíssem em busca dos atacantes, enquanto Stavy matava o que sobrasse e eles roubariam o que tinham.
No entanto, o líder, com seu olhar carrancudo, não deu o braço a torcer. Eles eram cavaleiros nobres e carregavam o manto da Casa Lannister.
– Está ferida? – o homem parecia preocupada e uma ponta de ressentimento brotou no coração de Moa. – Vamos procurar quem te atacou. Quantos eram?
– Não iremos atrás de ninguém! – gritou o líder. – Deixe essa puta aí! Os corvos cuidarão dela.
Ela gemeu mais um pouco, se forçou a chorar, os cabelos negros e lisos desgrenhados, lhe tapando os olhos. Por entre as mechas, ela podia ver que o homem era bonito. Ele lhe tocava as costas, de forma protetora. Tocou-lhe o braço, tentando ajudá-la a se levantar, mas ela se recusava. Depois, tocou-lhe os cabelos para tirá-lo dos olhos.
E antes que ela pudesse encenar mais algum sofrimento, Stavy saltou de uma árvore, pulando ao lado do cavalo, arrancando o cavaleiro e esfaqueando seu pescoço, que jorrou um filete vermelho de sangue. Os outros cavaleiros entraram em ação; o líder, saltou o cavalo, tirando a espada da bainha; o cavaleiro que acudia Moa, a olhou bem nos olhos, buscando confiança e compreensão, no entanto, sua expressão doce se transformou em susto e ele pegou-a pelo braço, levantando-a e colocando uma adaga no pescoço da menina.
Stavy se aproximou, revoltado com o fato da menina estar ameçada, mas antes que pudesse atacar o homem, o líder colocou a ponta da espada em sua coluna, obrigando-o a parar e recuar.
– Largue a adaga. – ordenou o líder. Ele tinha cabelos louros, como os Lannisters e tão pomposo quanto.
Stavy largou a adaga, levantou as mãos e fez sinal de que iria virar.
– Olha, nós só queremos um pouco de ouro – disse Stavy com seu jeito desencanado, como se não se preocupasse que estivessem em perigo. – Vocês são Lannisters... pelo que vejo. Não vai fazer falta.
O líder dos cavaleiros fez um careta de desdém e empinou o nariz. Ele cuspiu nas botas de Stavy, que fechou a cara, exalando ódio pelas narinas.
– Como ousa em mendigar ouro depois do que fez? – perguntou o líder, com sua voz rouca e raivosa. – Matou um dos nossos sem compaixão.
– Então cometa os mesmos erros e tenha compaixão para conosco. – Stavy sorriu. Era o que sempre fazia. Sorria para o perigo.
Moa se desesperada debaixo dos braços e da adaga do outro cavaleiro. Ele mantinha o rosto bem perto do seu, sua respiração passando por seu ouvido. Ela tentou segurar a mão que agarrava sua cintura e então, teve uma ideia.
– Por favor, não me machuque. – sussurrou baixinho, para que só o cavaleiro ouvisse.
– Não o farei. – garantiu o homem, sua voz arrepiando a pele morena de Moa.
– Posso lhe compensar. – disse Moa, alisando os braços do homem, passando pelo corpo, por cima da armadura. Depositou sua mão entre seus corpos e tentou demonstrar interesse em uma parte íntima do rapaz. Ele pareceu hesitar.
Stavy ainda tentava negociar com o líder.
– Então, o que pretende fazer conosco? Leve-nos até seu líder e cumpriremos detenção. Trabalharemos para compensar o que fizemos. – Stavy mantinha uma voz desdenhosa e ao mesmo tempo de falsa súplica. Ele nunca deixava de ser sarcático.
O líder o agarrou, obrigando-o a andar até os cavalos. Iria amarrá-lo.
– Bates, pegue a menina. Vamos levá-los para Lord Lannister. – ordenou o líder.
No entanto, o cavaleiro que se agarrava à Moa, dava passos para trás, carregando a menina, que ainda mantinha a mão entre eles. Moa não entendeu o que ele tentaria fazer, mas suas mãos começaram a se afrouxar, a adaga se afastando aos poucos. A menina aproveitou a deixa, empurrando suas mãos, arrancando a adaga e logo depois, jogou-o no chão. Correu para as costas do líder, se pendurando nele e cortou-lhe a garganta com a adaga. O homem nem teve tempo de pensar e se defender com a espada. Seu corpo caiu ajoelhado, sua mão largou a espada, Moa saiu de cima dele para que o homem caísse em paz no chão.
Stavy pegou a espada e correu para Bates, que estava se levantando para atacar, apesar de estar desarmado.
– NÃO O MATE! – gritou Moa para Stavy, impedindo que o mesmo matasse Bates, que estava ajoelhado. – Vamos levá-lo como refém.
Stavy riu em desdém.
– O que acha que conseguiremos com ele? Não vale nada!
– Podemos conseguir alguma coisa.
A verdade é que ela simpatizou com o homem, que tentou ser tão delicado antes de Stavy atacar, e pareceu gostar de suas investidas, mostrando que ele não resistia à ela. Talvez, ele pudesse protegê-la de Stavy e tirá-la dele. Talvez, ele pudesse se apaixonar por ela e a tomaria como esposa e penduraria a cabeça de Stavy em seu castelo.
– Que seja – murmurou Stavy, jogando a espada para Moa, que pegou-a no ar. – Vamos fazê-lo nosso escravo.
E antes que Stavy pudesse perceber e tirando Moa de seus sonhos, Bates se jogou sobre Stavy, desarmado, agarrando seu pescoço. Ele estava em cima de Stavy, apertando as mãos para enforcá-lo e Moa percebeu o perigo em que estavam.
Ela entrou em um dilema em que poderia deixar Stavy ir embora e fugir com Bates. Poderia deixar que o homem matasse Stavy e realizar seus pensamentos anteriores. Poderia fugir das garras e socos de Stavy e ser tratada com gentileza por Bates.
Mas ela não o conhecia. E não tinha garantia de que ele faria o que ela pensava. Ele agira tão de repente para se defender, e se perguntou por que ele não o fizera antes. Por que ele não a matara antes. Não poderia confiar em um homem que acabara de conhecer e estava matando seu companheiro de viagem que por tantas vezes a protegeu de homens inconvenientes, do frio e da fome.
E quando percebeu que Stavy começando a ficar roxo, Moa se aproximou, enterrando a espada nas costas de Bates, deixando-o cair sobre Stavy. Este jogou o cadáver para longe, se arrastando pelo chão, com as mãos no próprio pescoço, tossindo desesperadamente. Moa apenas o observou, esperando que ele gritasse com ela. Mas ele não o fez. Não poderia, já que estava ocupado tentando respirar.
E só então, que Moa se deu conta que estava se transformando numa dessas donzelas que sonham com cavaleiros que a salvam do perigo. Desejando que os contos que escutara em Lhazar se tornassem realidades, quando na verdade, eles não passavam de apenas contos. Ela nunca acreditara em nenhum deles, apenas se admirava com o cenário que eles se passavam, o que a levou a fugir de suas próprias terras. Estava saindo da prisão de sua terra natal para se aprisionar em um homem sem coração e em suas histórias de donzelas. Estavava dando voltas.
A mulher ovelha estava se transformando em uma mulher fútil que almejava uma vida que nunca teria.
Fale com o autor