Godan
12 Estrela
Notas iniciais
Takahama, Godan — 07 de Junho de 741 D.C.
Kazuno Takahashi caminhava sobre os campos do oeste de Takahama, era cedo e os primeiros raios de sol aqueciam a parte de trás do elmo de metal folgado em sua cabeça, e simultaneamente os ventos invernais que sopravam ainda mais a oeste esfriavam seu nariz e fazia com que os pelos de seus braços arrepiassem, ele ainda vestia as mesmas roupas do dia em que deixou seu lar, um casaco preto de botões feito de algodão, uma calça marrom e sapatos de couro preto, a bolsa em seu ombro dada por Akemi já não pesava tanto quanto o dia em que partiu, sua garrafa de água que fora enchida num bar ainda na parte urbana de Takahama estava quase vazia e suas costas doem por ele ter dormido durante um mês inteiro na rua junto à mendigos.
Ele havia caminhado por horas, e só se deu conta do quanto tinha andado quando encontrou uma placa de madeira velha apontando para duas direções, a que apontava para esquerda dizia “Holda” e a que indicava o lado oposto estava escrito “Bifrost”. Ele pensou um pouco, não era uma escolha difícil, no entanto ele deveria decidir se iria crescer em uma cidade desenvolvida como Fulla, localizada em Bifrost, onde seria bem mais fácil de conseguir informações sobre o tal William mencionado por Akemi ou ir para Holda e ficar no meio de Goblins os quais ele não sabia nada a respeito. Ao contrário de sua mãe, Kazuno nunca teve um verdadeiro espírito aventureiro, talvez tenha puxado mais a curiosidade de seu pai, mas nada sobre querer se aprofundar em coisas pouco conhecidas ou até desconhecidas, como Annabel costumava fazer; então, indiretamente seguindo esse princípio, Kazuno escolheu o caminho da direita e seguiu para Bifrost.
Olhando no mapa, Bifrost fica um pouco acima de Takahama e de Holda, assim, quanto mais Kazuno adentrava no território, mais frio ficava, e era inverno na metade sul de Godan.
O garoto ruivo chegou em segurança nos campos de agricultura de Bifrost; as pessoas que lá trabalhavam lembravam os Vikings das histórias do norte que seu pai lhe contava, eram em sua maioria altos, loiros e com olhos profundamente azuis.
Ele caminhava com seu corpo cada vez mais cansado, mesmo tendo acordado há poucas horas, e estava com medo devido aos olhares das pessoas enquanto ele andava, mas não havia como não chamar atenção, uma criança caminhando nos campos de Bifrost com um elmo de metal enorme na cabeça.
—Ei! — Disse um homem que arava a terra com um ancinho. — Garoto!
Kazuno hesitou para responder, mas o homem insistia:
—Moleque!
—Sim? — Respondeu ele olhando para o homem alto sem levantar muito a cabeça para não mostrar seu rosto ou até para o elmo não cair.
—Pode pegar aquele saco de sementes ali, por favor? — Disse ele sorrindo apontando para um saco de pano que se encontrava do outro lado do caminho dentro de um tipo de estábulo encima de um banco. Então Kazuno foi até lá e pegou o saco, caminhou de volta e entregou-o na mão do homem.
—Obrigado… — Disse ele se abaixando e colocando as sementes no chão. — São sementes de laranja, você gosta?
—Um pouco… Prefiro maçãs.
—Maçãs não são muito comuns aqui em Bifrost, geralmente plantamos melancia, laranja, manga, não temos muitas plantações de maçãs. — Continuou ele enquanto enterrava as sementes brancas. — Quantos anos você tem?
—Que dia é hoje?
—Hoje é 07 de junho.
—Então farei nove anos em uma semana. — Disse Kazuno com uma fisgada de tristeza pois lembrou que será seu primeiro aniversário sem os pais.
—Interessante… Uma criança da sua idade andando pelos campos… Você se interessa por agricultura ou está só de passagem?
—Eu não entendo muito sobre agricultura, na verdade não me interesso, só estou passando mesmo.
—E pra onde você está indo? — Continuou ele a perguntar, e foi quando Kazuno percebeu que não sabia andar ali.
—Eu estou indo para Fulla, mas eu não sei onde fica, eu estava fazendo trilha com meu pai e me perdi dele, combinamos de nos encontrarmos lá, você sabe onde fica?
—Bem… Fulla é bem longe daqui, se quer saber… É indo para o norte! Se daqui você seguir sempre ao norte, encontrará Fulla, não tem erro.
—Norte? — Perguntou Kazuno desanimado. — Me parece meio longe… O que tem a oeste daqui?
—Bem… Tem a cidadela de Urd, é a cidade mais próxima, na verdade.
—Então é melhor eu esperar o papai lá.
—Vai esperar seu pai em Urd? Garoto eu não aconselho uma criança ficar sozinha ali… É nossa cidade menos desenvolvida, fora que tem ladrões e assassinos a solta.
—Eu não tenho muita escolha… Qual o seu nome?
—Eir Takahama.
—Sou Kazuki, obrigado pela ajuda. — Mentiu Kazuno.
* * *
Kazuno andou por toda a área agrícola e finalmente chegou a uma cidadela, realmente não era nada desenvolvido, havia muita lama, o triplo de mendigos de Takahama; comparar as duas cidades era quase impossível, em Takahama os mendigos pareciam ninjas, só apareciam pela noite. Kazuno sentiu uma pontada de raiva por ver uma cidade tão pobre num território que tem fama de ser tão desenvolvido, a desigualdade absurda, a injustiça que não se encontra apenas em Bifrost, mas em Godan inteiro, e a culpa disso tudo seria de quem? Kazuno não conseguia pensar em muitas alternativas, mas talvez seja dos governadores do estado, ou até dos Magos, que deveriam aconselhar os governadores nos tempos difíceis, mas quando então seriam estes tempos, já que as coisas estão assim desde sempre… É… A mente de uma criança é realmente inocente.
O menino ruivo caminhava atentamente sobre a lama que sujava seus sapatos; começou a sentir fome e retirou a bolsa do ombro para pegar um onigiri, então de súbito um garotinho de cabelos castanhos pegou sua bolsa e saiu correndo.
—EI! — Gritou Kazuno correndo atrás do menino. — Minhas coisas!
Kazuno correu atrás do garoto por dois quarteirões e o perdeu de vista no terceiro, ele corria em alta velocidade e de repente recebeu uma pancada no rosto que fez seu corpo cair pesadamente no chão e seu elmo rolar para longe, era um garoto mais velho.
—Esqueça a bolsa, agora é nossa! — Disse ele enquanto Kazuno tentava se levantar depois do soco.
—NÃO! É tudo o que eu tenho?
—Que pena! — concluiu o garoto mais velho socando Kazuno repetidas vezes.
O jovem ruivo tentava sair de todo o jeito, mas o outro menino subiu encima dele enquanto o enforcava, e foi quando Kazuno levou sua mão ao seu cinto por impulso e quando percebeu as mãos do outro garoto se afrouxaram e um filete grosso de sangue escorreu de sua boca e caiu no rosto machucado de Kazuno, então ele caiu do lado.
Kazuno havia cravado seu punhal na barriga do outro jovem, ele estava assustado, frustrado. Retirou o punhal de onde o mesmo fora cravado e guardou em sua bainha em seu cinto.
—ALI! — Gritou o pequeno ladrão da esquina. — Ele matou o meu irmão.
Então cerca de seis crianças altas vieram correndo atrás de Kazuno, que fugiu pelas vielas que pareciam um grande labirinto escuro e fétido, e como em todo labirinto, ele se deparou com uma rua sem saída e foi lá que ele apanhou até desmaiar.
Após algumas horas Kazuno acordou, ele não tinha ossos quebrados, por exceção do seu nariz, seu casaco fora roubado, seu punhal continuava em seu cinto, todo o seu corpo doía.
Coberto de lama e sangue ele conseguiu se levantar, caminhou perdido no labirinto suburbano por várias horas, então encontrou um homem vestindo uma capa preta saindo de uma taberna pobre.
—Adeus, Felix! — Disse um homem que estava na porta da taberna. — Você é um grande mensageiro e um valioso amigo!
—Ora, não puxe meu saco Barney, mas você também é, digo, um valioso amigo, bem, vou andando, Tenho uma entrega para o extremo oeste de Godan: Auvandir.
* * *
Kazuno acordou com um barulho de chuva no teto da carruagem, seu estômago doía e sua boca estava ressecada com uma sede insuportável, ele se sentia desidratando, havia cerca de três dias que não bebia nada e só se alimentava das escassas mercadorias do interior da carruagem. Ele sentiu o movimento parar e um barulho de passos no asfalto molhado. Um barulho na porta e quando ele percebeu um homem negro encapuzado abria a porta.
—O que porra aconteceu aqui?! — Gritou Felix nada satisfeito ao observar a bagunça que Kazuno fizera. — Malditos ladões de Urd, terei de notificar aos superiores…
Então ele virou as costas e se foi deixando tudo aberto, o que Kazuno achou no mínimo estranho. Mas mesmo assim agiu com indiferença perante a situação e se levantou de onde estava, pôs os pés para fora do veículo e sentiu os pingos da chuva fria de inverno em seu peito nu, caminhou numa rua movimentada com pessoas que só olhavam para frente, como cavalos sendo guiados por uma rédea que tapava sua visão periférica; ignoraram a existência da única criança suja de sangue e lama da rua, que cambaleava e caia no meio do caminho.
Enquanto Kazuno sentia seu corpo pesar e sua visão escurecer, ele observava as pessoas que ali andavam, onde ele está? Talvez em Auvandir, como o mensageiro disse na porta da taberna em Urd.
Porque não olhavam para ele? Aquele lugar era bem mais desenvolvido que Urd, desenvolvido o suficiente para ser absurdo uma criança morrer de sede no meio da rua. E durante seus pensamentos raivosos um homem com um capuz semelhante ao do mensageiro Felix se abaixou e pegou Kazuno. O homem misterioso o levou para uma viela na qual havia um estabelecimento fechado com coberta, ele colocou Kazuno sentado lá e se sentou ao lado do ruivo.
—Eu tenho sede… — Sussurrou Kazuno com seus lábios ressecados. Então o homem pegou uma bolsa de água e derramou um pouco na boca de Kazuno.
—Toma, garoto, pode ficar. — Disse o homem entregando o recipiente na mão do garoto.
—Quem é você ? — Perguntou Kazuno se sentindo um pouco melhor.
—Sou William Darkwood. — Respondeu ele abaixando o capuz e revelando ser um homem de aparência jovem, cabelos e olhos negros, barba rala e pele parda.
—Por que as pessoas são assim? Tão cruéis… Me ignoraram como se eu não existisse… Como se minha vida não tivesse importância alguma, ou menos que a deles… É tão injusto…
—Sim… A sua vida não tem importância para os outros… É melhor aprender a se acostumar com isso, não são só estas pessoas, o mundo é assim: injusto… Cruel. Poucas pessoas tem a boa índole para ajudar outros necessitados como você, e eu acho que isso nunca mudará, dizem que o mundo está em constante mudança, mas eu discordo. O mundo sempre foi assim e sempre será, ou até tender a piorar. Cabe a você ter cuidado consigo mesmo e seguir seus objetivos sendo tão cruel quanto eles… Entende?
—Eu acho que sim... Você realmente acha que não há esperanças?
—Bem… Minha opinião não é muito relevante. Por que você não tenta descobrir? — Concluiu ele sorrindo e recolocando o capuz. — Sinto que ainda nos encontraremos, garoto. Seja forte, sobreviva.
E se foi…
Kazuno ficou ali até a chuva passar, ele tremia de frio, levantou-se e caminhou até um local que parecia um restaurante, foi para os fundos do lugar e comeu algumas coisas que se encontravam na lata de lixo, a comida lhe dava nojo e ânsia, mas não havia jeito.
Ele notou que vez ou outra pessoas encapuzadas passavam seguindo rua a frente. Então perguntou a uma delas:
—Olá! Poderia me dizer aonde estou?
—Em Golden Shire, garoto.
—Domínio de quem?
—Como assim?
—Domínios de que clã? — Perguntou Kazuno curioso.
—Bem, geralmente eu não diria, mas como é uma criança… São os domínios do clã dos Mercenários.
—Mercenários?!
—Fale baixo! — Sussurrou ele com tom de censura. E então seguiu seu caminho.
Kazuno passou algumas horas reunindo informações perdidas e finalmente descobriu que se ele seguir a rua em linha reta para o norte, encontrará um castelo de tijolos negros, e lá ele poderia se tornar um Mercenário.
Ele seguiu as instruções das informações e realmente se deparou com um castelo enorme e preto, mas sua frente estava vazia, não havia ninguém e a porta estava entreaberta; Kazuno caminhou até lá e de súbito um homem encapuzado com um nariz que transpassava a sombra projetada pelo capuz preto bloqueou seu caminho.
—Aonde pensa que está indo, criança? — Perguntou ele com sua voz grave. — Este castelo é propriedade privada, local restrito a funcionários!
—Propriedade o quê? — Perguntou Kazuno impaciente. — Não me chame de criança, eu vim aqui para ser um Mercenário e não minta para mim, pois eu sei o que tem aqui!
—Eu irei te chamar do que eu enxergar em você, e agora é tudo o que eu enxergo: uma criança suja, perturbada e talvez um pouco corajosa…
—Não cheguei até aqui para ouvir você me chamando de perturbado, eu quero ser um Mercenário e vou conseguir o que quero!
—Determinado… — Disse o homem parecendo interessado. — Diga me de onde veio.
—De Takahama, cruzei metade do país para chegar até aqui e irei me tornar um Mercenário!
—É a primeira vez que uma criança entra pela porta da frente e fala assim comigo… Qual o seu nome?
—Sou Kazuki! Kazuki Takahashi!
—Pois bem, Kazuki, tenho uma proposta a lhe fazer: se você derrotar um de nossos guerreiros, lhe tornarei o mercenário mais jovem da história desde Keiph Takahama, caso contrário, você passará por um treinamento de anos até amadurecer o suficiente para fazer os verdadeiros testes para se tornar um de nós.
—Desafio aceito!
* * *
Kazuno andou com o narigudo até um pátio aberto onde o chão era feito de terra e algumas pessoas encapuzadas estavam ao redor cuidando de seus próprios assuntos.
—Namaru! — Gritou o narigudo que guiava Kazuno. — Namaru Myamoto!
Então um garoto oriental um pouco mais velho que Kazuno apareceu e fez reverência.
—Às suas ordens! — Disse ele com um sotaque pesado.
—Este garoto será seu oponente. — Disse o professor colocando a mão na cabeça de Kazuno.
—Esse garotinho? — Disse Namaru com tom de desprezo. — Está me subestimando, Professor?
—Faça o que eu digo, criança. E é bom terminar isso rápido. — Retrucou o Professor. — Siga-o, Kazuki.
Namaru Myamoto caminhou até o meio do local e Kazuno seguiu-o, os dois ficaram frente a frente e o Professor disse:
—Escolham uma arma, tentem não se matar.
Kazuno andou até uma das extremidades do local e pegou duas Katanas que ele mal pudia levantar, o tal Namaru pegou um bastão de madeira e os dois voltaram a ficar frente a frente no meio do pátio de terra ao ar livre.
—Lutem! — Gritou o Professor.
Kazuno gritou e correu para cima de Namaru, que por sua vez se esquivou e bateu o lado do bastão com força na testa do ruivo, que desmaiou instantaneamente.
* * *
Kazuno Takahashi que agora atende pelo nome de seu pai acordou em uma cama macia, sua testa doía e havia uma atadura enrolada no meio da sua cabeça que cobria o nariz, ele olhou ao redor e viu o tal Professor.
—Você é esperto… Sabia que não havia como eu vencer aquele cara… — Disse Kazuno irritado.
—Você que foi burro demais de enfrentar Myamoto sem nem saber há quanto tempo ele treina aqui. — Concluiu ele se retirando do quarto em que Kazuno está hospedado.
Ele se levantou e olhou pela única janela do quarto, ele podia ver toda Golden Shire, era uma cidade pequena, ele sequer sabia se aquilo era a capital de Auvandir; e então seus pensamentos foram interrompidos pela porta que se abria novamente e desta vez era Namaru Myamoto.
—Posso entrar? — Disse ele com seu sotaque carregado do oriente.
—Agora que já entrou, não há como te impedir. — Resmungou Kazuno.
—Desculpa por hoje mais cedo… Eu não queria fazer aquilo, é que foi uma ordem direta do Professor, e ele é meu treinador… Sem ressentimentos?
—Tudo bem… Todo mundo chama ele de Professor?
—É, ninguém sabe o nome de verdade dele, ele meio que está aqui desde sempre.
—Não sei como vocês sobreviveram tanto tempo.
—Como assim? — Perguntou Namaru achando a afirmação estranha.
—Ele deve roubar o ar do castelo inteiro com aquele nariz.
Então eles riram bastante, Kazuno disse um pouco de sua história para Namaru e esperou o garoto contar a dele.
—Bem, eu não nasci aqui, sou de Ishikawa, lá do outro lado do mar. — Disse ele pensativo agora também olhando para o horizonte pela janela com Kazuno. — Minha família começou a se envolver com uma areia esquisita, ouvi dizer que eram drogas, um tal de ópio, mas eles não usavam, vendiam para os mais pobres, isso além de bebidas proibidas como Sake do sul.
—O que do sul?
—É uma bebida de Ishikawa, abstraia. — Disse ele indiferente. — Enfim, as coisas começaram a sair do controle e um piscar de olhos depois minha família já estava fazendo coisas terríveis, então eu saí…
—Tipo de casa?
—Tipo do país… Gondir inteira está contaminada por Samurais e famílias torpes camponesas, mas aqui não está muito diferente. Demorei bastante para chegar até aqui e sofri muito, menti, roubei, até matei… Mais de uma pessoa.
—Eu também acabei matando uma pessoa em Urd.
—Não cheguei a passar por Urd, ouvi os conselhos dos agricultores e fui para Fulla, que foi onde eu me reabasteci e encontrei uma passagem secreta que dava até aqui.
—E foi assim que se tornou um Mercenário?
—Ainda não sou um mercenário, só estou aqui há um ano.
—E quantos anos você tem?
—12.
* * *
Passaram-se dois anos desde que Kazuno saiu de Takahama, era Junho de 741, seu treinamento de Mercenário já estava em andamento, o de Namaru já havia sido completo no verão passado. Os dois cada vez mais empolgados com a sensação de receber autorização do Professor a qualquer momento de poder seguir em uma missão, e bem profetizado, pois neste mesmo dia o professor bateu na porta de Kazuno onde o mesmo jogava xadrez com Namaru.
—Tenho boas notícias, crianças.
—Às suas ordens. — Disse Namaru se levantando e juntando seus braços ao seu corpo.
—Já disse mil vezes que detesto quando me chamam de criança.
—Tenho a primeira missão para os dois. É um contrato de duas partes, vocês podem lê-lo, vocês só tem autorização para cumprir a primeira parte, sejam sensatos e obedeçam ao código. — Concluiu o Professor jogando uma carta encima do tabuleiro de xadrez derrubando algumas peças, então ele saiu e fechou a porta.
Namaru pegou o envelope e desembrulhou-o, retirou uma carta e disse:
—É para encontrar um cara.
—Assim tão vago? — Perguntou Kazuno se reacomodando em sua cadeira de madeira. — Quais as informações adicionais?
—Homem de meia idade, perigoso, pele parda, careca, deve estar nos arredores de Urd, 100 Golds por sua localização exata, 500 por sua cabeça… É um bom preço…
—Ai só tem dizendo que é em Urd? Aquela cidade parece um labirinto!
—Não se procurarmos corretamente, podemos ir numa taberna e pedir informações, sou bem persuasivo, confie em mim. — Concluiu Namaru sorrindo.
* * *
Os dois foram até a zona pobre de Bifrost em Urd, encapuzados com capas pretas e o símbolo do escudo heater cinza com uma faixa vermelha cruzando-o sendo preso como pingente em suas capas, caminharam pelo local enlameado procurando por informações nas tabernas mais sujas da cidadela.
Após várias horas finalmente encontraram pistas do tal homem que procuravam, de acordo com as informações ele estaria em um tipo de acampamento na floresta entre Urd e Dag, que fica a sul de Urd, ainda em Bifrost.
Ambos seguiram pelas copas das árvores usando o treinamento que receberam de correr pelos galhos de árvores, finalmente encontraram fumaça de fogueira; seguiram até lá e encontraram o tal homem que estava só sentado num tronco comendo uma coxa de algum animal avícola em frente a uma fogueira e entre duas cabanas.
—Só pode ser ele… — Disse Namaru.
—É, é ele sim.
—Vamos voltar, já podemos pegar nossos 100 Golds. — Disse Namaru virando as costas sorrateiramente, contudo Kazuno segurou seu ombro.
—Vai dispensar 400 Golds assim?
—O Professor disse que…
—Foda-se o Professor! — Sussurrou um pouco mais alto Kazuno. — Vamos construir nosso legado, matar esse desgraçado e jogar a cabeça dele nos pés de quem nos deu a missão, receberemos nossa estrela de Mercenário imediatamente.
—Hm… — Sussurrou Namaru pensativo. — Podemos tentar, mas é arriscado, se não der certo ele com certeza irá sair daqui e nós não ganharemos nem 500 e nem 100 Golds.
—Você pensa muito, vamos atacar.
Então Namaru sacou sua faca e Kazuno o punhal que fora de sua mãe e desceram da copa das árvores caindo em pé de frente ao careca procurado.
O homem jogou a coxa que estava comendo na cabeça de Kazuno e chutou Namaru, Kazuno levantou e tentou apunhalá-lo no flanco direito, mas ele esquivou e empurrou Kazuno.
—O QUE PORRA É ESSA? — Gritou o careca rindo. — Mercenários anãos?! Só podem estar me subestimando, é impressionante… Só porque sou gordo não significa que não possa com dois anões.
—Não somos anões, e só pra te humilhar mais: somos crianças. — Disse Kazuno debochando apontando seu punhal. — Quando te matarmos receberemos bem mais respeito do que temos atualmente.
Então Kazuno atacou novamente e o careca gordo o imobilizou, colocou o punhal de Kazuno sobre o pescoço do garoto e sorriu satisfeito.
—Não querem repensar? — Disse ele com seu hálito fétido próximo ao ouvido de Kazuno.
—Eu não me importo. — Disse Namaru. — Corte a garganta dele.
—Qual é Namaru?! — Exclamou Kazuno. — Você só pode estar blefando…
—Não estou.
—Sim está! — Retrucou o homem. — E pensa que eu sou otário, eu conheço gente da sua laia, são espertos, mas sei como contornar vocês.
Então ele apertou o punhal no pescoço de Kazuno, o que fez sangrar um pouco.
—Não! — Gritou Namaru. — Podemos negociar…
—Você não está em posição para negociar comigo.
—Eu já disse que não me importo com esse moleque, solte-o e eu te deixo em paz, iremos embora e não será seguido por ninguém.
Com isso ele afrouxou sua mão do pescoço de Kazuno, que por sua vez socou o nariz do homem com força e gritou:
—Agora!
Namaru deu um chute de duas pernas no homem e colocou sua faca em seu pescoço.
—Parece que o jogo virou… — Falou ele esboçando um sorriso.
—O dobro… — Sussurrou o homem com a faca no seu pescoço. — O dobro do que te pagarão pela minha cabeça para você atacar o outro garoto enquanto eu assisto… É… Eu conheço seu código… Miserável.
Então Namaru abaixou sua faca e atacou Kazuno, seu golpe fez um corte no braço do menino ruivo, que por sua vez chutou Namaru, fazendo-o cambalear para trás e no momento da ação o careca pegou o braço do garoto oriental, chutou suas dobradiças das pernas, pegou um espeto de ferro que estava esquentando na fogueira e pressionou a parte em brasa contra o braço direito de Namaru como se fosse um cavalo sendo marcado, o que o fez berrar alto.
Kazuno correu com velocidade pela floresta, ignorando os gritos de Namaru, fugiu para a área menos pobre de Urd onde encontrou a carruagem com o símbolo do clã dos Mercenários, embarcou sozinho e voltou para Golden Shire.
* * *
O careca gordo de meia idade o qual Kazuno e Hoshi perseguiam se chama Max Bergenthal, ele era considerado perigoso pois prendia orientais, geralmente de origem Camponês, e marcava suas vítimas em alguma parte do corpo com um ferro à brasa com a insígnia de uma estrela de cinco pontas em referência a adimiração que os Camponeses tem pela astronomia. Max tem ódio de orientais por sua família ter sido exterminada por Camponeses quando estavam de férias no norte de Kuribayashi, que por coincidência era um local ameaçado pelos constante combates entre Camponeses e Samurais.
Namaru Myamoto conseguiu se livrar das mãos de Max Bergenthal, cortou sua garganta com frieza e voltou para o clã, desde então ele e Kazuno nunca mais se falaram, exceto para provocações; Namaru estava farto das pessoas em geral, já não confiava em mais ninguém, e passou a estudar espionagem tornando-se o espião mais famoso do clã dos Mercenários, Hoje, em prol de sua cicatriz no braço direito ele atende por outro nome:
Hoshi.
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