God of Mischief | Loki
4 Capítulo 3: Loki 2
Notas iniciais
*Midgard*
Às sete e meia da noite, Jarvis me avisou que Steve me esperava na portaria. Dei uma última olhada no espelho. Eu estava bem. O vestido não era muito curto nem muito longo. O decote era razoável. Minha maquiagem não estava forte, apenas destacava os olhos.
Quando cheguei à portaria ele me aguardava com um grande guarda-chuva preto. Malditas chuvas de verão. Iríamos caminhando para aproveitar que não era longe, mas com chuva isso não seria muito legal. Ele estava bem vestido. Uma calça social preta e uma camisa azul aberta no colarinho.
Me cumprimentou e ofereceu o braço, que aceitei. Caminhamos por três longas quadras, meus pés chapinhando dentro dos sapatos de salto. Ele entregou nossos ingressos na entrada e ali passaríamos as próximas três horas. Me divertia o quanto Steve estava gostando. Pena que essa seria a única coisa que me faria sorrir esta noite.
*Asgard*
Um estrondo. Gritaria nos corredores acima. Loki se sentou no escuro. Acendeu as luzes e para seu choque, sua mãe estava na frente da janela de sua cela vestida apenas com uma camisola longa. Os outros prisioneiros gritavam coisas obcenas. Ele correu até a janela.
— Mãe? – Chamou com urgência na voz sem fixar o olhar em seu rosto. – O que está acontecendo? Você está bem?
— Olhe para mim, meu filho. – Não era um pedido. Era uma ordem. Ele ergueu os olhos para ela. Sabia o que a mulher estava fazendo. Espreitando o futuro, vendo possibilidades. – Prometa que vai ser bom. Prometa que vai voltar em dois dias. Prometa para mim! – Ordenou. Ele não fazia ideia do que ela estava falando. Em dois dias? Aonde ele iria? O que estava acontecendo?
— Frigga. – O deus disse em um tom baixo. Clamava pela rainha e não pela mãe agora. – O que esta acontecendo? – Questionou firme. Ela suspirou, os olhos indo dele para a porta.
— Eu soltei todos os cavalos. Escondi Gungnir. – Loki sentiu seus olhos saltando das órbitas e sua boca se entreabrindo com o choque. Gungnir era o que permitia a Odin controlar tudo ao redor. Sem Gungnir o poder de Odin se tornava limitado. Poderia levar dias até as coisas voltarem ao normal.
— Heimdall? – Perguntou se referindo ao guardião de Asgard. Ele podia ver e ouvir qualquer coisa. Até mesmo a grama crescendo, alguns diziam. O guardião saberia.
— Eu sou a rainha. Ele também me deve obediência. – Ela disse com uma autoconfiança invejável. – Ele não vai contar. Você não pode ficar fechado para sempre. Vai acabar enlouquecendo. – Ela realmente o conhecia. – Prometa para mim que você vai se comportar. Que vai voltar em dois dias. — Ele sorriu. Ela o tratava como uma criança. Mulher tola. Confiar nele não era sábio. Ela era conhecida por sua sabedoria, fazer isso era burrice.
— Filho. – Chamou a atenção dele que estivera encarando a cela por sobre o ombro. – Se você não voltar... serei eu a ocupar essa cela. – Concluiu num tom simples. Isso ele jamais iria permitir. Colocaria os Nove Reinos abaixo antes que ela se tornasse uma prisioneira. Mas o que a mãe estava fazendo por ele era alta traição, se o homem não cumprisse o que ela pedia esse seria o destino dela. E a deusa sabia disso melhor do que ninguém.
— Eu volto mãe. Eu prometo. – Dito isso ele se afastou. Frigga murmurou algumas palavras e a barreira de energia que o enclausurava sumiu. Loki agarrou sua cota de couro e pulou para fora. Quando olhou para trás havia uma projeção de si próprio deitado na cama. Em meio ao caos ninguém iria reparar que aquilo era uma ilusão de Frigga. Ela o havia ensinado a arte da ilusão. Ele havia aperfeiçoado a arte dela. Seus olhos se encontraram e a mãe o abraçou, beijou suas bochechas, apertou seu rosto com as mãos e sorriu para ele.
— Menino lindo. Menino travesso. – Murmurou o abraçando mais uma vez. O homem se permitiu fechar os olhos por um segundo. – Tem um flutuador te aguardando próximo a Bifrost. Dois dias de Asgard é o que posso te oferecer. Se der certo, faremos isso outra vez! – Disse animada, piscando. Loki riu e lhe deu um beijo na testa para então correr pela escuridão, assumindo a forma de um soldado qualquer. Asgard não era segura. Seu único caminho seria Midgard.
*Midgard*
Quando saímos do espetáculo Steve estava muito animado. Ele havia adorado. Mas para murchar um pouco aquela bolha de felicidade a chuva estava pior do que nunca. O Capitão insistia em me levar até em casa, mas eu consegui convencê-lo a pegar um taxi. O loiro apenas se convenceu quando chamei um e fiz uma cara muito boba fingindo estar brava. Eu precisaria andar apenas algumas quadras, não seria justo o fazer ter todo esse trabalho. Ele me entregou o guarda-chuva e combinou que me ligaria.
Abri o guarda-chuva e comecei a caminhar. Peguei o celular na bolsinha de mão para ver as horas. Sem bateria. Tony inventava tantas coisas, não podia fazer um celular com bateria eterna?
Eu caminhava rápido sem olhar muito envolta. Sabia que era tarde e ali haviam muitos pubs e boates cheios de bêbados. De repente, alguém puxou minha mão do guarda-chuva tirando ele de cima da cabeça. Tentei olhar através da chuva. Era um homem de uns trinta anos, os cabelos loiros pareciam cinzas com a mistura de oleosidade e água, vestia uma roupa encharcada e suja. Ele cheirava fortemente a álcool.
— Eu adoro uma ruiva. – Disse estupidamente com a língua enrolada. Puxei meu braço de volta.
— Me larga! – Mandei nervosa. O guarda-chuva ficou no chão e eu comecei a andar ainda mais rápido. Que se dane o guarda-chuva, eu só queria sair de perto daquela coisa. Para o meu susto ele veio atrás de mim.
— Qual o problema ruiva? Eu não paguei direitinho da outra vez? – Perguntou. Olhei indignada para ele. Que nojo.
— Você está me confundido com alguma outra pessoa. – respondi friamente.
Ele não pareceu gostar. Disse alguma coisa ininteligível e cuspiu no meu rosto. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa me segurou pelos cabelos e começou a me arrastar. Eu ouvi uma voz rouca gritando em alemão ‘’ Runter von mir! Runter von mir!’’. Só percebi horas depois que tinha sido eu mesma.
A rua era movimentada e barulhenta, repleta de música àquela hora. Sexta-feira era sempre assim. Ninguém parecia me ouvir e se ouviam pareciam achar que era uma briga de namorados.
Ele me arrastou para uma rua menor e vazia repleta de sacos de lixo e me jogou contra a parede. Eu chorava e murmurava alguma coisa misturando o alemão e o inglês. Ele ria, enterrando o rosto no meu pescoço. Eu estava petrificada. As únicas palavras que me vinham a minha mente eram: ‘’Um arco. Eu preciso de um arco’’. Mas não havia nenhum. Ele forçava as mãos no meu vestido, acabando por arrebentar a costura da alça direita que pendeu para frente, revelando meu sutiã preto. Ele grunhiu como um animal. Eu o queria morto. Uma das mãos daquela besta forçou passagem através do meu sutiã, chegando à pele nua, enquanto a outra procurava levantar meu vestido.
A adrenalina percorria meu corpo. Eu não ia deixar isso acontecer. Eu não sei onde o acertei. Rosto? Orelha? Pescoço? Eu realmente não sei. Apenas me inclinei e cravei os dentes no primeiro lugar que consegui alcançar, só soltei quando senti o gosto de sangue encher a minha boca e ele se afastar com um grito. Recebi um tapa mal calculado, mas forte o bastante para me derrubar no chão. Levantei e corri como uma louca, ele vindo no meu encalço.
Consegui tirar os saltos com um chacoalhão. Eles me tornavam mais lenta. Haviam cacos de vidro no chão e alguns me cortavam os pés, mas eu não sentia a dor. Senti a mão dele raspar em meu braço, antes que eu o acertasse com a bolsinha e ele me largasse de novo. Então eu vi. O Centro de Treinamento da Stark Industries. Disparei para o prédio gritando por Jarvis. Ele não conseguia me ouvir daquela distância. Lá dentro haviam vários arcos. Eu o mataria. Cravaria todas as flechas que houvessem naquela pele imunda. Precisava apenas continuar correndo e atravessar o parquinho que ficava em frente.
Ele era grande e rápido. Me alcançou e derrubou no chão. Acho que gritei. Eu chorava tanto que nem sabia como havia achado o caminho até ali sem enxergar quase nada. Então através das lágrimas eu vi um homem em meio às árvores. Por um segundo senti medo que ele viesse participar de tudo aquilo. Mas era minha melhor chance. Gritei em alemão por socorro e depois me corrigi para o inglês. Ele me viu, mas não se mexeu. Eu estava sozinha. Chutei e arranhei o homem em cima de mim e consegui uma distância suficiente para levantar e voltar a correr. Ele não desistiria.
— Jarvis! Jarvis!!! – Eu gritava, correndo para a porta.
— Boa noite senhori...
— Abre a porta! Abre! – Urrava me chocando contra a porta de vidro. Ouvi a trava destrancar e entrei. Não houve tempo de fechar. Ele se lançou contra a porta atrás de mim. Sua expressão revelava que agora ele queria me machucar muito mais que de início. Eu corri para a sala de treino. Se eu pegasse um arco estaria segura. Se eu pegasse um arco ele estaria morto.
*Asgard*
Ele chegou em segurança até o planador, passando despercebido por vários soldados e até mesmo por Odin que passou rapidamente por ele em meio ao caos. As tropas não conseguiam procurar por Gungnir sem os cavalos. E não conseguiam trazê-los de volta sem Gungnir. Frigga havia planejado bem. Quanto tempo ela devia ter passado refletindo sobre os riscos ele não sabia.
Loki conseguia sentir os olhos de Heimdall enquanto ele ligava o planador. Virou o rosto na direção onde o guardião costumava espreitar, sorrindo provocativo.
Seguiu voando baixo até chegar às montanhas, havia uma região entre elas onde o tempo e o espaço se desdobravam como acontecia na Bifrost. Aquele local era estreito e pedregoso, largo o suficiente apenas para o planador passar. Ninguém nunca vinha ali. O homem havia descoberto aquelas passagens quando sentia-se oprimido demais pela existência do irmão a lhe ofuscar e roubar cada segundo de oxigênio e simplesmente saia andando aleatoriamente por Asgard. Se ficasse perto teria matado Thor. Ele acelerou contra a fenda, um sorriso amplo se formando nos lábios, sentindo os cabelos ao vento.
Sentiu a distorção ao seu redor, não vendo mais do que pontos coloridos e flashes de lugares aleatórios e então tão rápido como havia começado tudo parou. Ele sentiu a umidade noturna sobre a pele mal agasalhada. Assumiu sua verdadeira forma, descendo do planador que se retraiu e encolheu até o tamanho de um cd. Ele o guardou no bolso da cota de couro. Onde estava?
Um parque. Seus olhos correram ao redor, passando por cima das árvores. Stark Industries. Ele riu baixo. Que ironia ter ido parar justamente ali. Caminhou calmamente em direção o prédio. Agora que estava em Midgard não sabia o que queria fazer. Lembrou-se do pedido da mãe para que fizesse as coisas direito. Mulher tola. Lembrou-se da cela onde estivera. Se não fizesse o prometido ela ocuparia seu lugar. Respirou fundo.
Então ouviu um grito agudo de uma mulher a uns trinta metros dele. Havia um homem deitado sobre ela. A mulher chorava e esperneava em desespero. O deus sentiu nojo daquela raça imunda. Eram piores que animais. Ela virou o rosto em direção a ele. Gritou por socorro em uma língua que ele achava ser a versão moderna de outro idioma que ele conhecera centenas de anos antes. Alemão? Em seguida o mesmo pedido, agora berrado em inglês. Sentiu o impulso de acudir. Mas antes que pudesse sequer se mover ela havia se posto de pé e corria para o edifício Stark. O homem foi atrás dela.
Antes que se desse conta, Loki estava entrando no edifício passando pela porta que o homem deixara escancarada. Seguiu o ruído dos passos dos dois pelos corredores. Havia sangue no chão. Chegou a uma porta dupla que havia sido esquecida aberta também. Espiou através do vidro da segunda porta. E então a reconheceu. Liana. Nem sequer havia se lembrado dela nas últimas semanas, mas naquele segundo o nome lhe veio claro como se estivesse o tempo todo em algum canto da sua mente.
Estava próxima a uma pilastra, o vestido verde musgo imundo, uma alça arrebentada revelando o sutiã de renda preta, tinha as pernas esfoladas, os cabelos ruivos emaranhados, sujos, molhados e com grama agarrada. Estava descalça e havia deixado pegadas de sangue pelo corredor. A maquiagem escorria pelo rosto.
Mas a expressão dela foi o que o fez prestar atenção. Tinha um arco com estampa camuflada nas mãos, uma aljava largada ao lado da pilastra. Ela segurava o arco armado enquanto o homem, visivelmente bêbado continuava avançando pelo amplo salão. Ela tremia dos pés a cabeça, mas os olhos eram pura fúria. Tinha encontrado sua fonte de poder. Era exatamente como ele se sentia com seu cetro em mãos. Ele nunca havia visto nada tão fascinante. Pelo menos não em um ser humano. Ela se encontrava frágil como vidro, mas ao mesmo tempo tão afiada quanto um. Liana disparou. Errou a cabeça do homem por vinte centímetros. Ele riu.
— Não seja raivosa ruivinha. Vem aqui, deixa eu te fazer um carinho. – Disse provocador andando calmamente. Ela disparou outra vez e novamente errou. O homem não parecia ser capaz de entender o perigo que corria.
Loki entendeu o problema rapidamente. Aquele arco não era adequado para ela. Era muito maior que o que ele a vira carregando, devia ser de um homem bem mais alto. Isso que ela devia ter 1,80 de altura. Aquilo afetava o ponto de equilíbrio dela, desestabilizando os disparos. O homem a alcançou e acertou um tapa no rosto dela, a atirando no chão. O arco estava longe de mais agora. E então Loki viu vermelho.
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