God of Mischief | Loki
30 Capitulo 28: Incêndio
Notas iniciais
Abri meus olhos. Senti o sol da manhã tocando minhas pernas, entrando pela janela lateral com cortinas finas. Aquele era meu quarto na casa de Tony. Senti um cano muito estreito que entrava pela minha narina e descia até o estômago. Olhei para o recipiente a que ele levava. Alimentação enteral. Me senti confusa por um breve segundo. Então tudo me veio à mente.
Tiros, explosões, os Avengers, os gritos de Natasha, as Joias e a Manopla do Infinito, eu sendo baleada. Loki.
Onde eu estava? Senti o pânico me percorrendo como veneno. Onde estava meu arco? Onde ele estava? O que tinha acontecido? Me sentei e puxei a sonda de qualquer jeito, sentindo a bile a acompanhar, enquanto eu engasgava. Achei que fosse vomitar, mas me controlei no último segundo. Tinha agulhas nos braços levando soro e medicações e um respiradouro no rosto. Arranquei tudo aquilo e pulei para fora da cama, limpando o sangue das agulhas no lençol. Olhei meu corpo vestido em uma fina camisola de hospital. Intacto. Perfeito. Como? O que estava acontecendo? Precisava do meu arco. Se houvessem agentes me vigiando estaria completamente indefesa.
Eu tremia enlouquecida. Revirei gavetas o mais silenciosamente que pude, mas havia apenas roupas. Vi uma pequena maleta a um canto, e dentro dela achei uma lâmina de bisturi. A coloquei na base. Teria que servir.
Me preparei para sair do quarto, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a porta se abriu. Uma menina de uns oito anos entrou. Vestia calças jeans e uma blusinha com a estampa da pequena sereia. Cabelos negros e muito lisos, olhos asiáticos. Anong. Mas ela tinha crescido quase 10 centímetros. Me olhou surpresa. Chocada. Eu abaixei o bisturi.
– Liana?! Pai! Depressa! Você não vai acreditar! – Gritou num inglês perfeito. Eu a olhei chocada. – Pai! – Ela chamou ainda me olhando. Eu recuei alguns passos para longe da porta. Banner entrou no quarto e seus olhos me encontraram se arregalando tanto que poderiam cair das órbitas. Sua boca se entreabriu em choque e ele fez menção de me apoiar pelos cotovelos temendo que eu caísse. Recuei três passos para longe dele.
– O que está acontecendo? – Perguntei agitada.
– Meu Deus... – Ele murmurou me encarando. Parecia realmente estarrecido. Por que? – Me deixe te ajudar. – Pediu se aproximando. Eu recuei mais alguns passos, nervosa. – Liana calma, por favor. Você não está em perigo. Eu garanto. – Eu confiava cegamente em Banner. Recuei alguns passos e me sentei na cama novamente. O bisturi continuava firme nas minhas mãos. – Como você se sente? — Perguntou gentil e embasbacado.
– Bem. – Respondi sem entender como isso era possível. Eu tinha acabado de levar seis tiros. Eu tinha morrido. – O que está acontecendo?
– Como eu vou te explicar isso? — Começou passando as mãos pelos cabelos. — Liana... nós esperávamos que se você fosse acordar muito debilitada. – Acordar? Mas eu tinha morrido. Me lembrava do rosto da Morte com tanta clareza que doía. Eu estava cada vez mais assustada. O que diabos estava acontecendo? Eu não queria conversa mole. Queria respostas.
– Você é meu amigo? – Perguntei de supetão o surpreendendo. Ele assentiu lentamente. – Então me diga alguma coisa objetiva. Alguma coisa que me faça entender tudo isso. – Falei seriamente. Ele suspirou.
– Sua morte foi confirmada. Por mim e mais um médico da S.H.I.E.L.D. – Começou. Me senti estremecer involuntariamente. – Você foi levada a uma sala para o preparo do corpo para o enterro. Eu cheguei para fazer algumas suturas e fechar o estrago. Deixar você apresentável. – Falou com a voz trêmula. Me senti muito grata ao ver como aquelas memórias eram doloridas para ele. – Foi quando percebi que as feridas ainda sangravam. Muito pouco. Mas sangravam. Mortos não sangram. – Explicou breve. Sem circulação sanguínea, sem sangramentos. Uma lógica simples. – Pode imaginar o desespero que foi? A gritaria e a correria. Você havia morrido. E estava de volta. Doze horas depois. – Concluiu. Eu o olhei chocada. Doze horas. Eu devia ter danos cerebrais irreversíveis. Eu devia ter morrido em função desse tempo todo. Eu devia ter morrido em função dos tiros. Olhei para Anong que me encarava curiosa. Mais alta. Dominando o inglês.
– Quanto tempo? – Questionei assustada.
– Uns dez meses. Achamos que nunca sairia do coma. – Falou parecendo novamente chocado. Eu olhei para minhas mãos de um jeito nervoso. Dez meses. Eu devia estar toda atrofiada. Mesmo que Tony tivesse me mandado fisioterapeutas eu estaria. Minha voz não devia soar tão natural. Por isso o choque. Eu estava intacta. Mas não era isso que me fazia tremer.
– Loki? – Perguntei enfim. Ele tinha conseguido? Onde ele estava?
– Asgard. – Banner me respondeu. Como rei? – Digamos que ele não ficou muito bem... – Falou ponderado. E...? – Odin pegou a Manopla e o levou. – Ele resumiu. O bisturi caiu da minha mão, quicando no chão algumas vezes. Minha expressão devia ser indescritível.
– Não. – Falei numa voz oca. Eu tremia. — Quando foi a última vez que você o viu?
– Dez meses atrás. – Falou segurando minha mão de forma consoladora. Não. Não. Não. O que estava acontecendo não podia ser verdade. Se Odin o tinha levado... Frigga não estava mais lá... Dez meses... Não. Um gemido angustiado escapou pela minha garganta, enquanto eu desabava. Era minha culpa. Se eu tivesse sido mais rápida. Se eu tivesse corrido no primeiro tiro. Não. Eu enterrei o rosto nas mãos chorando tanto que mal conseguia coordenar a respiração.
Eu nunca tinha me preparado para isso. Sempre eu seria a primeira a ir. Nunca ele. Loki apenas sairia das minhas vistas, mas estaria bem. Odin o tinha levado. Desejei ter morrido. Banner e Anong me abraçaram um de cada lado.
– Jarvis. – Ele chamou.
– Senhor Banner?
– Avise Tony, Pepper e Steve. – Ele disse por fim. Eu soluçava alto. Odin devia tê-lo executado como tanto tinha desejado fazer. Eu estava dez malditos meses atrasada. Era minha culpa. Eu teria ido atrás dele. Teria colocado Asgard abaixo. Meus olhos encontraram o bisturi aos meus pés. Banner acompanhou meu olhar e o chutou para longe. – Nem cogite.
– Me deixe. – Minha voz soava fraca.
– Você tem noção do quanto todos sofremos nesses últimos meses? – Ele perguntou repreensivo. Eu estava sendo egoísta. Eu não me importava. Tudo estava quebrado. Eu estava quebrada.
– Por que eu não morri? – Perguntei entre soluços. Anong beijou minha bochecha. Tentei sorrir para ela, mas tudo que eu consegui foi um esgar. Como tudo podia ter dado tão infinitamente errado? Banner não tinha uma resposta para aquilo. Mas não havia necessidade. Eu conhecia a resposta. – E a S.H.I.E.L.D.? – Perguntei enfim.
– Tentando se reerguer. – Disse breve. – Muitas coisas aconteceram nesse meio tempo. – Eu não questionaria. Não estava interessada de verdade. Ouvi a porta da casa bater. Passos apressados subindo as escadarias e vindo pelo corredor. Tony entrou no quarto. Seus olhos se arregalaram ao me ver.
– Oi. – Eu disse apática. Ele correu até mim e me envolveu num abraço apertado. Parecia chocado, mas ria de orelha a orelha, as lagrimas escorrendo por seu rosto. Continuei parada, tentando o mais próximo de sorriso que eu conseguia.
– Pepper não vai acreditar! – Ele exclamou, olhando de mim para Banner. Ambos riram. Eu queria ficar sozinha. – Você está bem? Como isso é possível? – Questionou aos risos. Eu encarava o chão. Enfim Tony pareceu notar.
– Posso ficar sozinha? – Pedi. Aquilo era egoísmo da minha parte. Era cruel que eu pedisse algo assim. Era cruel que eles me quisessem feliz. Se entreolharam. Banner assentiu levemente, levantando e pegando Anong pela mão. Ele teve o cuidado de pegar o bisturi do chão e a maleta de onde eu o tinha pego. Tony o seguiu relutante.
Fiquei encarando a parede por quase uma hora. Vazia. Eu escutava a conversa animada na sala, no andar de baixo. Pepper e Steve estavam ali. Eu não queria vê-los. Eu os tinha visto ontem, antes de dormir. Poucas horas tinham se passado desde a última vez em que os vi. Pelo menos assim me parecia.
Eu havia desabado em seus braços. ‘’Você sabe que sim’’. A frase martelava em meus ouvidos como se dita há poucas horas. Eu era parte da felicidade dele. Por isso ainda estava ali. Meu desejo combinado às vontades dele e dos outros tinham permitido aquilo. Tinham me restaurado à perfeição. Suas vontades tinham me roubado das mãos da Morte. E
le nunca soube. Odin o tinha levado a Asgard. Ele teria me procurado. Eu havia morrido em seus braços. Ele tinha chorado por mim. Ele teria me procurado se soubesse. Se pudesse. Odin o tinha levado para Asgard e tinha a Manopla. Só havia um motivo para sua ausência. Um soluço engasgado me veio. Dez meses de ausência era muito tempo para que eu supusesse algo diferente.
Abracei meus joelhos. A camisola fina escorregou e eu não tinha nenhuma cicatriz na perna. Olhei meio boba para aquilo. Até ontem uma fina linha branca subia pela minha coxa. Nem isso havia restado. Me levantei e caminhei trêmula até o espelho. A pequena linha que eu uma vez tivera embaixo do olho, não estava ali. E mesmo o corte que Loki havia feito na minha testa e havia inflamado não tinha deixado marcas. Eu estava refeita. Perfeita. Intacta. Inteira. Quebrada.
Abri o armário e peguei um short jeans e uma regata preta. Me vesti e sentei mais um pouco na cama. Me olhei no espelho. Eu tinha o rosto inchado de chorar e os cabelos presos numa trança que devia ser obra de Anong. Tudo tinha dado errado. O que eu faria agora? O que tinha restado para mim? Eu tinha planejado isso por tanto tempo... mas as coisas simplesmente tinham perdido o sentido. Ele não estava mais ali para que eu soubesse que tinha valido à pena. Eu dormi em seus braços e acordei sozinha.
Eu precisava de respostas. Precisava que alguém me direcionasse. Que me dissesse o que eu devia fazer a seguir. Estava perdida. Na mais completa escuridão. Eu só tinha uma ideia em mente. Afinal eu era filha do meu pai. Mas isso seria egoísmo. Aquelas pessoas na sala não eram egoístas. Tinham largado suas vidas por mim. Sempre que eu chamava elas vinham no meu socorro. Eu caminharia por elas. Mas precisava que alguém me ajudasse ou eu cairia.
Desci as escadas e vi os rostos voltarem-se na minha direção. Pepper soltou um gritinho e cobriu a boca com as mãos, chorando. Steve se pôs de pé, os olhos muito arregalados. Todos sorriram. Tentei retribuir e senti meus músculos protestarem imensamente. Consegui algo frágil o suficiente para os convencer.
Todos vieram me abraçar assim que cheguei ao patamar. Todos estavam felizes. Eu desejei a felicidade deles. Não a minha. Que coisa curiosa. Eles falavam agitados e eu mal entendia. Estava aérea e distante. Em Asgard mais precisamente.
– Ninguém vai vir me pegar? – Perguntei soando como uma criança. Vi olhares penalizados em resposta. Eu odiava ser digna de pena.
– Não, Liana. – Steve falou, beijando minha testa. Eu recuei dois passos por puro instinto. Ele pareceu constrangido. – Nos últimos meses muita coisa aconteceu. A S.H.I.E.L.D. caiu. – Era a segunda vez que eu ouvia aquilo. Me sentei na poltrona que Loki havia usado uma vez.
– Me expliquem. Eu quero entender. – Falei fria. Eu sabia que eles provavelmente queriam aproveitar minha volta do mundo dos mortos, mas eu queria e precisava de respostas. Tantas quanto pudesse ter. Eles começaram com a primeira informação que quase me fez cair da poltrona. Natasha estava viva e fora do país. Eu esperava que Loki a tivesse matado. Ela e Steve tinham se envolvido em uma missão recentemente. Olhei para ele indignada. Ela tinha me matado.
– Ela não se lembra de nada. O procedimento que foi feito em você para apagar sua memória, foi aperfeiçoado. Fury achou que seria melhor assim. – Pepper me explicou, alisando meus cabelos como uma irmã. – Ela pensa que Clint morreu em uma missão. Passou por dezenas de cirurgias. Nenhuma marca ficou. – Me explicou. Senti raiva. Ódio. Eu queria que todas as marcas tivessem ficado. Queria que aquela cadela se lembrasse de mim a cada vez que se olhasse em um espelho. Eu havia morrido por causa dela. Ele não estava mais ali por causa dela. Era bom para segurança de Natasha que ela não aparecesse na minha frente, ou eu a ajudaria a lembrar de tudo. Do meu jeito.
Eles me narraram a queda da S.H.I.E.L.D. pelas mãos da HYDRA. Tudo havia ruído em alguns dias. Nós tínhamos desestabilizado a organização e antes que eles pudessem sequer se acostumar ao prédio novo, tudo havia saído de controle. Agora Nick Fury lutava para eliminar agentes duplos, ataques ao sistema e a desconfiança redobrada do novo conselho.
Tony confidenciou que se aproveitou da bagunça e do caos e destruiu todos os dados sobre a Batalha do Infinito e mais alguns dados aleatórios apenas para manter a descrição, incriminando a HYDRA pela perda das informações. Eu estava inocentada de todos os crimes pela simples falta de dados sobre eles. Não existiam mais provas. Apenas relatos de agentes. O governo jamais aceitaria atacar uma cidadã sem ter provas. Ainda mais quando ela é uma atleta olímpica de renome, herdeira da Stark Industries e irmã do Iron Man. Se fizessem algo assim a polêmica política seria gigantesca. Chamariam atenção demais para as fragilidades do sistema de defesa do governo no atual momento.
No entanto Fury precisava ser avisado. Certamente eu passaria a ser vigiada de perto. Era mais simples me manter domada. Loki não estava mais ali. E com a S.H.I.E.L.D. precisando se reerguer tudo que eles não queriam era eu dando trabalho. Eu era fogo brando agora. Fácil de abafar. De qualquer maneira qual era o sentido de protestar? Aquilo era tudo que tinha me restado. Eu aceitaria.
– E Thor? – Perguntei após algum tempo.
– Nunca mais voltou. – Steve respondeu. Eu precisava procurar Jane Foster. Odin realmente devia ter separado os reinos. Ela me entenderia. Ou quase.
– Quando posso voltar a treinar? – Perguntei repentina. Eles pareceram desconcertados com a pergunta. – Onde está meu arco? – Questionei.
– Achamos que você não fosse mais querer mexer com isso... – Pepper comentou. – Depois de tudo...
– É a única coisa que eu sei fazer. – Cortei.
– Pode voltar a treinar quando quiser. — Tony falou de um jeito simpático. – Seu arco está na oficina. Eu o desativei para poder carregar e fazer alguns reparos. Você quer que eu pegue as pulseiras?
– Não. – Respondi breve. Eu não queria ver aquele arco, percebi repentinamente. Eu poderia usar o composto que estava em meu apartamento. Não o arco de guerra. Eu não queria tocar aquilo.
– Vai ficar tudo bem, Liana. – Steve disse segurando minha mão. Senti o impulso de afasta-la, mas não tinha vontade nem para isso.
– Posso ir para casa? – Perguntei sem muito tato. Eles se entreolharam e por fim voltam-se para Banner esperando o aval dele.
– Ela está em perfeitas condições. – Ele disse como uma justificativa. Não havia motivo para me manter ali. Me pus de pé.
– O carro pode ter levar. — Tony falou, sua voz soava preocupada.
– Não precisa. – Cortei. – A gente se vê. – Falei simplesmente saindo pela porta. Eles que me desculpassem. Eu queria ficar sozinha. Queria me afundar em mim mesma e esquecer tudo. Todos eram ótimos, mas eu não aguentaria ficar olhando para os rostos felizes e satisfeitos deles e ouvindo novidades dos últimos meses. Para mim tudo tinha acontecido ontem. Eu estava sozinha. Eu queria continuar assim.
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Segunda. Quinta. Segunda. Sábado. Quarta. Domingo. As semanas se seguiram com os dias misturando-se na minha cabeça. As horas nunca passavam. Os dias se sobrepunham uns aos outros me esmagando numa profusão de compromissos. Eu era o milagre da America.
A S.H.I.E.L.D. havia inventado um acidente de carro que quase tinha me matado para justificar meu coma. Eu estivera quase morta, mas havia retornado sem nenhuma sequela. Eu era a distração da America. Posava como exemplo de superação e distraia os americanos. Mantinha os olhos longe da organização. Não me incomodava. Isso ajudava a manter os dias cheios. Quase não sobrava tempo para pensar.
Eu tinha retornado aos treinos e vários jornais tinham noticiado isso. Mas havia dobrado minha carga horária. Fazia doze horas todo dia. Às vezes ajudava os novatos. Anong estava aprendendo e era bem atrapalhada.
Esporadicamente surgia alguma entrevista em um ou outro programa de televisão. Sempre as mesmas perguntas idiotas. ‘‘Como você se sente por ter voltado da morte? Como foi a recuperação? Como está sendo se restabelecer na rotina? Você se sente preparada para as Olimpíadas?’’ Minhas respostas eram sempre as mesmas ensaiadas e decoradas. Sempre mentiras. Estava tudo ótimo. Tudo perfeito.
Eu ainda preenchia meus dias com duas horas de aula de violino e piano. Eu precisava ocupar minha cabeça. Chegava em casa com tempo apenas para tomar um banho, alimentar meu gato, jantar e tomar os remédios que Banner tinha me passado para tentar dormir a noite toda. Não havia uma única noite em que eu não encarasse os frascos pensando em uma overdose. O terror noturno me atacava como nunca. Não havia uma única noite em que eu não acordasse aos gritos. Seu rosto em minha mente. Seus gritos em meus ouvidos. Mas eu estava sozinha. Ele não me abraçaria e me lembraria que era apenas um sonho. Eu estava completamente sozinha. Havia caído no silêncio eterno. Mas a vontade de esquecer não existia. Paz não era algo que eu pudesse comprar.
Me obrigava a sorrir em fotos e acenar para jornalistas em eventos. Me obrigava a visitar os Avengers nos finais de semana. Me obrigava a continuar viva. Raramente eu notava que estava sendo seguida e vigiada. Raramente eu notava que as pessoas reparavam na minha magreza cada vez mais acentuada e nas fundas olheiras. Raramente reparava que ainda estava viva.
Eu estava tentando manter um mínimo de autocontrole. Eu estava tentando. Em alguns momentos a situação se tornava tão insuportável que me pegava por horas na madrugada, vendo fotos dele tiradas na Batalha de New York. Às vezes tinha a impressão de ouvir a voz arrastada, que saboreava as palavras. Aquilo me deixava agitada. Se eu estivesse em público precisava me retirar. Era apenas minha mente me dando alguém com quem eu quisesse conversar. Eu não podia me esconder de mim mesma.
Os momentos mais tranquilos eram quando eu podia ficar em casa sozinha. Deitava na varanda, livre da minha máscara. Ficava por horas encarando as estrelas, me perguntando qual seria ele. Eu não tinha forças nem para chorar. Mas na manhã seguinte sorriria e seria simpática com todos. Eu era o milagre americano. Eu era o motivo da alegria de muitos.
Aquela semana eu viajaria para o Brasil. Tony e Pepper iriam comigo. As competições começariam logo. Eles estavam animados. Tinham muitas expectativas. Eu já sabia que ganharia a medalha de ouro. Não era convencimento. Era noção do quanto eu tinha evoluído por causa dele.
Eu sabia que precisava falar com Jane Foster antes de ir ao Brasil. Depois tudo ficaria ainda mais agitado. Ela tinha abandonado suas pesquisas de anos, sem nenhuma explicação. Apenas estava se retirando dos estudos. Era no mínimo esquisito.
– Jarvis.
– Senhorita?
– Preciso falar com Jane Foster. – Pedi.
– Devo avisar que seu telefone foi grampeado há dois dias. – Informou. Inacreditável. – Devo completar a ligação?
– Sim, por favor. – Eu não estava planejando jogar um avião no Triskelion ou algo do tipo. Mesmo porque, acho que o prédio novo não cairia tão fácil.
– Alô? – Uma voz feminina respondeu do outro lado. Eu podia ouvir a linha estalando.
– Oi Jane. É a Liana. – Falei simples. Ela arfou do outro lado. Já devia saber que eu tinha sobrevivido, mas o choque era por me ouvir mesmo.
– Você está bem? – Perguntou com preocupação sincera. Eu precisava falar livremente. Precisava que ela pusesse aquele cérebro fantástico para trabalhar.
– Mais ou menos. – Disse num tom cuidadoso. – Ultimamente tenho me sentido como uma participante de reality show... Muitas entrevistas. Olhos por todos os lados. Entende? – Perguntei num tom sugestivo. O silêncio tomou o outro lado da linha. Então ela retomou a palavra num tom próximo ao meu.
– Entendo sim. – Afirmou lentamente. – Muita pressão para aguentar sozinha não é? Nenhum milagre cai do céu... – Falou rindo nervosamente. Eu também ri. Ela não tinha notícias de Thor.
– Completamente sozinha é bem complicado mesmo. – Respondi indicando que sabia tanto quanto ela. Eu a invejava. Muito. Ele estava em algum lugar. Ainda existia espaço para esperança no coração dela. – Às vezes nem o trabalho basta não é? – Perguntei. Queria saber o motivo de ter abandonado suas pesquisas.
– Não. – Ela disse soando levemente tensa. Jane não era feita para esses jogos. – Às vezes cansa. Trabalhar torna-se inconveniente, mesmo com você tão perto da resposta. Ainda mais sem dinheiro. – Falou numa voz cansada. Eu estava entendendo corretamente? Ela havia sido coagida a encerrar suas pesquisas? Estava quase conseguindo respostas? Deviam ter lhe tirado o patrocínio. Realmente não era conveniente que uma mulher como ela abrisse passagem para os outros reinos. Não depois de toda bagunça que apenas dois irmãos tinham causado. Não depois do caos que eu mesma tinha instaurado circulando por eles. Era melhor que não se obtivessem respostas. Mas Thor ainda estava lá. Eu desejei ajuda-la. Eu entendia muito bem a solidão.
– Bom você sabe que aqui dinheiro não é problema! Quando precisar, estou à disposição. – Falei forçando uma risada. Eu patrocinaria suas pesquisas. Ela riu nervosamente. – Meu problema mesmo são os paparazzi. Me seguindo por todo lado. Quero ver como vai ser nas Olimpíadas. Você poderia ir torcer... a menos que já tenha resolvido torcer pelos britânicos. – Disse, tentando fazê-la entender. Ela refletiu por um segundo.
– Eu ainda torço pelos americanos. – Sua voz soava firme. Ela iria ao Brasil. — Você não fica nervosa? – Perguntou em seu tom habitual.
– Não. – Respondi confiante. Eu a ajudaria. Não tinha nada a perder. Tudo já estava perdido para mim, mas não para ela. – Vai dar tudo certo. Vou ganhar esse jogo. – Afirmei. Ela suspirou pesadamente. Eu podia sentir o desejo dela de se agarrar às minhas palavras. – Estou bastante animada. Vai ser fácil. – Ela riu. – Nos falamos qualquer outra hora, ok? – Falei voltando ao meu tom habitual.
– Claro, e obrigada por me ligar. Fico feliz por ter você como amiga. É bom saber que não estamos sozinhas. – Ela afirmou, desligando. Senti um músculo se contrair em meu rosto. Uma tentativa de sorriso. Eu trazia esperança e alegria às pessoas.
Eu não estava ansiosa. Eu não estava animada. Apenas cansada. Do silêncio. De tudo. Mas eu continuaria vivendo naquele turbilhão de dias. Eu continuaria caminhando e me apoiando em sorrisos. A máscara continuaria sobre o meu rosto. Eu continuaria vivendo horas confusas entre a dor e as farsas. Eu continuaria trazendo esperança. Eu era o milagre americano.
*Asgard*
Ele não dormia há dois dias. Não conseguia. Ela estava viva. Estava em Midgard. Estaria bem? A S.H.I.E.L.D. teria feito algo a ela? Sua mãe e Thor haviam precisado de muita boa vontade para convencê-lo a não sair correndo em meio a tudo. Ainda havia precisado de mais paciência para não discutir com a mãe. Ela devia saber. Mas Frigga tinha alegado que se tivesse contado ao filho, ele teria interferido no que ela havia predito e isso mudaria tudo. Tinha afirmado que assistir a tristeza havia sido tão dolorido para ela quanto para ele. O futuro não pode ser controlado. Tudo era causa e efeito. As coisas precisavam seguir um curso. Se ele tomasse uma atitude diferente do que ela tinha visto, mesmo a morte de Liana poderia se tornar definitiva. E ele não poderia protegê-la. Ela havia se calado com algum objetivo que jamais revelaria. Ela o forçaria a seguir o curso, por mais que houvesse pedras no caminho.
Era um inferno estar preso em Asgard. Tinha guardas o seguindo quase em tempo integral. Tinha privacidade apenas quando estava com a mãe. Mesmo na biblioteca era constantemente seguido. O deixavam apenas a noite, quando a guarda ficava nas entradas do castelo. Se tentasse sair passaria por eles de qualquer forma.
Levara um ano para conseguir uma maldita espada e ir a Valhala. Ir a Midgard poderia levar muito mais tempo e esforço. Odin o cercava por todos os lados. A menos que sua mãe fosse bem sucedida.
Ela convenceria Odin de que Loki vinha tendo um comportamento exemplar. Que mesmo o mais perigoso dos prisioneiros recebia benefícios por bom comportamento. Alegaria que o deus da trapaça não desmerecia aqueles benefícios e ainda era seu filho. E não era prisioneiro. Pelo menos não em uma cela. Não havia motivo para mantê-lo isolado. Além disso por quê Thor não poderia ir a Midgard? Qual era lógica disso? Proibi-lo de ver Jane Foster apenas trazia sofrimento.
O homem estava sentado na ampla cama de dossel, com um livro nas mãos. O encarava seriamente, mas os olhos não moviam-se acompanhando as linhas. Os ouvidos atentavam-se a qualquer ruído vindo do corredor. A mãe demorava, mas os gritos na sala do trono eram audíveis. Os gritos do pai. Frigga era muito ponderada. Ele tinha vontade de ir até lá e manda-lo calar-se. Era dono de sua própria vida e iria de qualquer jeito. Mesmo se a resposta fosse negativa Ele faria o que quisesse. Mas a mãe o tinha convencido de que tomar uma decisão impulsiva como aquela poderia ser prejudicial à Liana. Se fugisse e a encontrasse a colocaria em risco. Ela estaria mais uma vez com um fugitivo. Seu medo era de que poderia não saber quem ele era. Loki já tinha experimentado essa sensação e se lembrava do ódio que havia sentido. Se tivessem feito isso novamente, ele os faria pagar.
O silêncio chegou aos seus ouvidos. O deus fechou o livro impaciente. Encarou a porta com seriedade. Por fim a mãe entrou no quarto limpando as lagrimas do rosto. Loki franziu as sobrancelhas e pulou da cama correndo para ela.
– Mãe..? – Começou, antes de ser interrompido.
– Foi o melhor que eu consegui... – Ela murmurou numa voz chateada. A briga devia ter sido feia. Ele sabia que Odin não cederia a esse desejo da esposa com tanta facilidade. Mas a mãe mais uma vez tinha conseguido dobrar o rei. Mulher tola. Ela amava o marido mesmo com tantos defeitos. Ela o amava mesmo com tantos defeitos. Detestava brigar com o Pai de Todos, mas pelo filho faria aquilo todo dia se precisasse. Ele beijou-lhe a testa, grato.
Odin entrou pela porta o encarando com certa frieza. Os olhos pousaram na mulher e sua expressão amoleceu infimamente. Estava irritado com, o que ele denominava, os caprichos dela. No entanto era incapaz de lhe negar qualquer coisa. Voltou os olhos ao filho.
– Vamos. – Disse seco. Por fim o deus mais jovem entendeu. O pai o levaria. Ele não teria liberdade de ir a Midgard sozinho como o irmão. Continuaria sob vigilância e o pai confiava tanto nele que o próprio iria se dignar àquela tarefa. Sentiu-se encarcerado e ao mesmo tempo orgulhoso. Odin o considerava perigoso e ardiloso o suficiente para que merecesse seu esforço. Odin o temia. Ao menos nisso era superior a Thor.
Loki não tinha tempo, interesse ou disposição para discutir sobre a ideia ridícula de ser escoltado. Ele não apenas queria ir a Midgard. Ele precisava independente de qualquer imposição daquele velho.
Beijou a testa da mãe e seguiu o homem. Seguiram pelos corredores em silêncio e quando dobraram a um canto o velho o empurrou contra a parede. Loki não estava desprevenido e o empurrou com o corpo para longe.
– Você não vai chegar perto dela. Não vai falar com ela. Vai ver que a mortal está bem e vamos embora. Entendeu?
– Espera que eu concorde com isso? – Rebateu venenoso. Estava tão ansioso que seu humor antigo se fazia presente como se nunca o tivesse deixado. – Ah, majestade. Você anda muito equivocado. Não acha que está na hora de abdicar? Para alguém mais jovem e capaz? O que exclui meu irmão, já que as capacidades mentais dele são duvidosas. – O velho o encarava com superioridade não se deixando afetar pelas palavras.
– Vamos deixar as coisas as claras, Loki. – Falou o empurrando de volta contra a parede. – Vocês dois significam problema aos nove reinos. Essa humana não conhece limites. Não é dócil como se espera de uma mulher. Não é domável. – O moreno não pode reprimir um sorriso irônico e orgulhoso. Liana era como o fogo. Podia aquecer e confortar as mãos corretas. Ou queimar e destruir. Ele a amava por esse temperamento tão incontido como o dele. – Eu seria tão senil como você supõe se permitisse que se encontrassem de fato. Eu vou proteger os nove reinos. – Afirmou, deixando que Gungnir surgisse em suas mãos. – Você vai proteger essa mortal? – Loki sentiu o chão desaparecer embaixo de seus pés. O pai mataria Liana se precisasse. Se ele não se mantivesse servil. O moreno duvidava que as Joias mantivessem a realidade se alterando apenas para agrada-lo. Ainda mais separadas. Ele não tinha opção.
– Se você tocar nela... – Começou num rosnado ensandecido.
– Eu sou seu rei. Cuide suas palavras. – Alertou. Loki quase engasgou retraindo sua raiva. Odiava aquele velho. – Se estamos entendidos, ótimo. Vamos.
Saíram para os jardins e Sif, Volstagg e Fandral treinavam. A mulher duelava com os dois ao mesmo tempo, usando sua espada dupla. Ela fazia parecer fácil. Interromperam-se para fazer uma breve reverência à passagem do rei. Loki sorriu debochadamente virando levemente o corpo para eles, numa insinuação de que deveriam manter o tratamento. Ele precisava descontar em alguém. Os três estreitaram os olhos para o moreno. E sorriram quando Odin fez algemas surgirem em seus pulsos. Loki lançou um olhar fulminante contra a nuca do velho. Tinha certeza de que Frigga não sabia desse detalhe. De nenhum deles.
Atravessaram a Bifrost e entraram no salão de vigília de Heimdall. O guardião inclinou a cabeça em deferência ao rei. Odin tomou posição para ser levado. Quando Loki passou por ele, um sussurro ínfimo saiu por entre os lábios do negro.
– Ela é vigiada. – Alertou. O moreno lhe lançou um olhar de esguelha e assentiu infimamente. Heimdall estava proibido de falar diretamente com Loki. Mas era uma informação importante que apenas um aliado de Frigga lhe passaria embaixo do nariz de Odin. Não sabia o que faria com esse dado, mas simplesmente correr em direção a ela não era uma opção.
O deus da trapaça se posicionou ao lado do Pai de Todos. Com um floreio do homem, ambos vestiam roupas midgardianas. Odin trajava uma calça social preta e uma camisa social listrada em azul claro e branco. Não fosse o tapa olho dourado seria um idoso comum. Loki vestia uma calça jeans de cor escura, uma camiseta branca e uma jaqueta de tecido macio e preto, com uma gola de lã.
– E Thor? – Atreveu-se a perguntar.
– Já foi. – O pai lhe respondeu sem muita atenção. Claro. Jane Foster era mansa. Não era problema.
– Vocês vão passar calor. – Heimdall avisou, empurrando sua espada ainda mais fundo no suporte. O portal se abriu e enfim os levou.
*Midgard*
O calor era tanto que me perguntei se eu havia dormido em Midgard e acordado em Musphelheim. As coisas mudarem bruscamente durante o meu sono era algo comum.
O verão no Brasil era realmente quente. Me perguntei se Loki se sentiria confortável aqui. Muito provavelmente não. Esse pensamento me tirou o resto de sono. Minha prova seria hoje. Olhei para o relógio. Faltava menos de duas horas. Me perguntei o que aconteceria se eu resolvesse simplesmente ficar dormindo. Ou se resolvesse levantar e fugir pelas ruas do Rio de Janeiro. Mas para onde eu iria? Não havia como fugir de mim mesma. E eu ainda precisava encontrar Jane.
Levantei e me obriguei a tomar um banho e comer um pão de queijo. Era gostoso. Nunca tinha provado. Mas não foi o suficiente para me fazer comer mais. Eu não tinha fome. Apenas queria fazer a prova, pegar a medalha, falar com Jane e ir para casa.
O som de guitarras encheu meus ouvidos. Revirei minha mochila e achei o celular que Tony tinha me dado. Atendi as pressas, ao ver que era ele. Seu rosto me encarava da tela de acrílico. Eu estava hospedada na Vila Olímpica e ele e Pepper em um hotel próximo à praia.
– Lia, acabamos de chegar ao prédio da prova. – Ele falava animado. Estava cheio de expectativa.
– Aah.. legal. Eu já vou. – Falei numa tentativa de animação.
– Tudo bem? – Perguntou preocupado. Pobre Tony.
– Claro, só estou nervosa! – Afirmei, com uma risada forçada. Claro. Tudo estava sempre maravilhoso. Minha vida era perfeita.
– Vai dar tudo certo! Você é a melhor! – Me incentivou com simpatia. Eu era a filha única com o melhor irmão do mundo.
– Obrigada... eu já vou indo... – Falei olhando o rosto na imagem. Ele sorriu e Pepper acenou por cima da cabeça dele. Eu desliguei e me preparei para sair. Me abaixei para pegar a mochila e tive a impressão de ter visto através da janela, uma luz colorida pelo canto dos olhos. Como se a Bifrost estivesse aberta. Quase quebrei o pescoço me virando e debruçando para olhar a rua movimentada lá embaixo. Nada de diferente. Mais uma vez minha mente me atacando.
Peguei minhas coisas e desci pelo elevador. O arco ficava guardado com a organização do evento. Um carro me aguardava. O motorista era um rapaz loiro que eu já tinha visto me seguindo semanas antes. Forcei um esgar para ele.
– Como vai? – Perguntei em inglês. Ele fingiu não falar o idioma. – E Nick Fury? Muito trabalho? – Alfinetei, olhando pela janela enquanto ele arrancava. Ele corou furiosamente.
– Ele veio assistir a prova. – Afirmou após um tempo. Eu o observei de esguelha e vi que ele me olhava pelo retrovisor. Sorri de um jeito afetado. Como eu encontraria Jane, com Nick Fury caindo em cima de mim?
Rodamos por quase quarenta minutos no trânsito caótico do Rio de Janeiro. Uma cidade bonita que não me empolgava em nada. Algumas pessoas passavam com uniformes de diversos países, cantando muito animadamente. A janela do carro me mantinha isolada delas.
Chegamos a um enorme ginásio construído em um bairro vizinho. Ele abriu a porta do carro para que eu pudesse sair e havia uma assistente brasileira, morena e muito baixinha me esperando. Antes que eu a seguisse, o rapaz falou comigo.
– Senhorita Stark?
– Sim?
– É verdade que a senhorita matou mais de duzentos agentes na Batalha do Infinito? – Perguntou timidamente. Pensei por um segundo. Eu estava virando uma lenda dentro da organização? Fury não ia gostar. Mas duzentos era um número muito alto... Pelo menos eu achava. Talvez uns cem.
– Eu sofri um acidente de carro, lembra? Não sei que batalha é essa. – Falei. Ele riu, antes que eu acrescentasse. – Mesmo porque duzentos é um número muito baixo para alguém com a minha mira. – Conclui o fazendo arregalar os olhos. Um sorriso se formou lentamente no rosto dele. Devia ser mais novo que eu. Muito impressionável.
Acompanhei a garota que me levou a área de concentração junto aos outros atletas. Mais duas meninas da equipe americana estavam lá e me cumprimentaram animadas. Em seguida o silêncio enquanto ouvíamos as instruções de prova recorrentes. Ficar na marcação, disparar com autorização do juiz, respeitar o tempo limite, verificar se eram realmente os nossos equipamentos e se tudo estava nas condições em que havíamos entregado. O de praxe.
Uma gota de sangue foi coletada para os exames de dopping corriqueiros e fomos liberadas para subir para a área aberta, destinada a arquearia. Banner era cuidadoso e meus remédios não me incriminariam.
Chegando ao campo, reparei instintivamente no sol que iluminava fortemente o lugar e queimava minha pele, no vento que era suave e não desviaria as flechas e nos alvos de sessenta centímetros, facilmente atingíveis. Olhei ao redor e por fim encontrei Tony e Pepper em uma arquibancada acenando para mim. Levantei a mão ao lado da cabeça, para indicar que os tinha visto.
Fomos posicionadas e instruídas a aguardar o sinal. A disputa seria nos moldes Animal Round com três torneios, um para cada distância dos alvos. Eu estava na disputa para os alvos com maior distância dos atiradores, cerca de oitenta metros. Seriam quatorze alvos em duas rodadas e as médias de pontuação de cada uma formariam a média final. Algumas meninas pareciam nervosas e recebiam últimas instruções de seus treinadores na beirada da pista. Eu apenas tensionava e soltava minha corda. Estava tranquila. Estava vazia. Como sempre.
Ergui os olhos novamente procurando por Jane que devia estar na plateia em meio às pessoas que chegavam, mas eu não a achava. Estava muito cheio. Arquearia era popular em função dos filmes, mas ainda assim não era exatamente empolgante. Acabava rápido. Mas a presença de Tony devia ser motivo para encher o ginásio.
O hino do Brasil foi cantado e em seguida um narrador começou a explicar um pouco das regras em português e inglês e iniciou a chamada dos nomes. Ele anunciava o país e em seguida o nome da atleta citando algumas características que pudessem ser um diferencial, como precisão, força de puxada, estabilidade do tiro e muitas outras para então, a atleta efetuar seus disparos contra os alvos. Seus pontos eram computados e então se passava para a próxima participante. Eu era a última na minha categoria.
As outras duas americanas se despediram desejando sorte quando foram chamadas para suas provas. Eu não as conhecia. Uma era patrocinada pela Universidade de Columbia e a outra pelo time de futebol Atlanta Falcons. Era simpáticas, mas eu já sabia que não ganhariam. Talvez o bronze para a primeira.
Os disparos se iniciaram. A japonesa era uma moreninha de cabelos muito curtos e lábios carnudos, toda de preto com um grande G da inicial de seu nome entrelaçado em uma foice prateada, estampando as costas de seu uniforme. Dona de uma mira excelente. Atingia alvos difíceis, mas não centralizava bem os tiros. Ela certamente teria uma das medalhas. Algumas atletas eram acima da média, mas não boas o bastante. Houveram flechas desperdiçadas. Outras pecavam na força e o projétil ricocheteava no alvo sem marca-lo. Era o efeito do nervosismo. A brasileira era uma morena de cabelos castanhos e ondulados vestindo um uniforme verde musgo e tinha uma grande aranha armadeira tatuada na panturrilha. Muito habilidosa, tinha uma boa mira e era precisa. Uma boa puxada, mas a corda estava vibrando em excesso desestabilizando o voo da flecha. Ela devia ter colocado um estabilizador ali, mas isso não lhe roubaria uma medalha. Eu vestia o uniforme de sempre. Preto com o logo da Stark Industries nas costas.
Comecei a atirar minha primeira bateria. Era fácil. Eu era rápida. Não sentia e não pensava. Era como estar livre da dor, por alguns minutos que fossem. As flechas iam certeiras onde eu queria. O arco era parte de mim. Era como comandar um músculo. Eu o queria de um jeito e ele faria como eu queria. Eu podia ouvir palmas de incentivo e gritos do público. Assim que fiz o disparo final da bateria, me virei para olhar para as outras. Todas me olhavam num misto de choque e inveja. Minha vitória era certa.
– E assim encerramos a primeira bateria de arquearia com Liana Stark. Nem parece que essa menina esteve em coma! – O narrador disse em um inglês cheio de sotaque. Eu poderia esgana-lo por me lembrar disso. O vazio me encheu novamente. O sol queimava minha pele servindo para me lembrar de como Jotunheim era fria. E do quanto ele sabia ser quente apesar disso.
O pensamento foi afastado pelo som da minha média sendo anunciada. 9,8. Não era perfeito, mas era o suficiente. E com isso a segunda bateria se iniciou. Ficou claro que a japonesa e a brasileira me seguiriam no pódio eu apenas não sabia em que ordem. As médias dessa bateria seriam expostas apenas depois que eu terminasse.
Tomei posição e iniciei os disparos. Mais uma vez livre de emoções. Apenas atirando e vendo os alvos serem atingidos. Duas flechas. Quatro flechas. Perfeitas. Irrepreensíveis. Barton ficaria orgulhoso? Eu quase ri ao pensar nisso. Cinco flechas. Seis flechas. O vento aumentava e jogava o cabelo no meu rosto. Eu devia tê-lo amarrado. O sinal de autorização soou, indicando que eu tinha trinta segundos para disparar, mas eu parei para ajeitar uma mecha atrás da orelha. Então meus olhos foram atraídos pelo símbolo do patrocinador de uma das outras americanas que estava pendurado em uma grande flâmula na frente das arquibancadas. O símbolo dos Atlanta Falcons. Uma ave de rapina vermelha e preta, patas jogadas para frente, pronta para atacar em pleno voo. Não era a minha ave, mas era tão semelhante em cor e na postura agressiva que me desconcentrou totalmente. Meus olhos passearam por ela e eu franzi as sobrancelhas sentindo meu coração disparar. Podia ouvir a plateia gritando meu nome, exigindo que eu terminasse a prova. O tempo ia acabar. Tentei desviar os olhos e então eu o vi. Meus olhos se arregalaram e eu poderia ter desmaiado. Sentado na primeira fileira de cadeiras, acima da flâmula. Me olhando diretamente. Imóvel e rígido. Em roupas midgardianas. Apenas alguns metros. Loki.
Ele percebeu que eu o tinha visto. Ficou de pé imediatamente, as sobrancelhas visivelmente franzidas, suas mãos fechando-se em torno da barra de contenção tão apertadas que deixariam marcas no metal. Estava algemado. Então um homem a seu lado o puxou pelo braço, o forçando a se sentar. Odin. Meus olhos voltaram a Loki e eu senti minha visão se turvar por milhares de lagrimas não choradas. Ele olhou de mim para o alvo e de volta. Segui seu olhar instintivamente. Como uma marionete de volta as mãos do titereiro. Atirar. Eu precisava atirar. Fiz o disparo nos dois últimos segundos, sem ao menos olhar. Estava presa a ele. Ouvi o ginásio explodir em gritos de viva. Eu devia ter acertado mais essa.
Meus olhos correram instintivamente ao redor do lugar. Era como estar viva de novo. Todos os instintos pulsando em mim, me fazendo tremer dos pés a cabeça. Onde estavam os agentes? Qual era o caminho mais curto? Quantas flechas eu tinha? Não havia tempo para essas respostas. Disparei numa corrida em linha reta, apertando o arco e minhas últimas duas flechas. Ele se pôs de pé e Odin fez o mesmo ao ver que eu ia em direção a eles. Os deuses estavam em uma área coberta. Heimdall não poderia abrir a Bifrost ali. O velho tentou imobiliza-lo, mas ele foi mais rápido e pulou lá de cima, caindo com impacto no chão.
Alguns agentes corriam na minha direção, mas eu estava na vantagem. Eles nunca me pegariam. Eu jamais permitiria. Loki desceu as escadas do ginásio ao ver que o pai fazia menção de segui-lo. O público se colocava no caminho do velho correndo para ver o que eu estava fazendo. Havia milhares de câmeras do mundo todo me filmando. Ainda não podia disparar. Eu desci atrás dele.
Meus olhos se arregalaram ao perceber que havia dezenas de agentes no corredor. Loki havia nocauteado vários deles, com as mãos nuas. Mal tive tempo de cogitar algo, um soco me atingiu em cheio. Eu cambaleei, com tanta adrenalina correndo meu corpo que era incapaz de sentir a dor. Acertei o rosto de alguém com a haste do arco. Pude ouvir o som de osso se quebrando. Me desviei como pude e entrei por um corredor qualquer. Passei por vestiários e banheiros. Eu podia ouvir passos atrás de mim me virei para olhar e era ele. Ele congelou as algemas. Me virei disparando a primeira flecha. Ouvi o som de metal se partindo. Eu o tinha libertado. Mais uma vez. Ouvi um som alto e vi que um agente tinha se jogado contra ele. Os dois se engalfinhavam no corredor. Tiros soaram e fui obrigada a entrar em outro corredor para me proteger. Aquela perseguição era como estar de volta ao aeroporta aviões. Mas dessa vez havia apenas mais uma flecha.
Dobrei o corredor e me peguei em um segundo que era dividido ao meio por uma longa parede de vidro. Ele corria do outro lado. Estava suado e tinha as mangas do casaco preto puxadas até os cotovelos. As mãos sujas de sangue. Eu parei por um segundo. Uma mão segurou meus cabelos tentando me jogar no chão. Um grito agudo me escapou, fazendo Loki virar-se para mim enquanto eu enfiava a ponta afiada da flecha repetidas vezes no pescoço do meu agressor. O deus sorriu. A mão enfim afrouxou-se quando um homem alto caiu no chão ensanguentando o corredor.
Me virei para ele do outro lado do vidro. Sorri, com as lagrimas escorrendo em profusão pelo meu rosto. Ele estava vivo. Estava ali. Eu não estava mais sozinha. Mais agentes chegaram ao corredor dele. Não fosse a grande distância o teriam pego rapidamente. Me encararam por um segundo e avançaram contra Loki.
– Corre! Corre! – Gritei em alemão. Ele avançou pelo corredor entrando de qualquer jeito em uma sala. O moreno congelou a porta de tal maneira que ela parecia um gigantesco iceberg largado no meio do prédio. Eu entrei na sala que fazia par àquela. Uma quadra de squash.
Caminhei agitada deslizando minhas mãos pelo vidro das paredes. Não havia portas que ligassem as quadras. Loki parou diante de mim. Me encarou com os olhos verdes e frios, as sobrancelhas franzidas. Seus lábios se moveram, mas eu não consegui ouvir. O vidro abafava o som. Ele apontou para o arco na minha mão. Eu sorri, limpando as lagrimas do rosto com o pulso trêmulo. O deus se afastou enquanto eu armava o arco. Disparei a flecha contra aquela barreira, mas ao contrário do que esperávamos ela não se quebrou. Apenas um som alto e minha flecha partida no chão. Encarei a flecha partida em choque. Do que era feito aquele vidro? Vidro de banco? Vidro das prisões da S.H.I.E.L.D.? Mesmo que ele congelasse devia ser tão expesso que não quebraria. Nos entreolhamos nervosamente. Um ginásio olímpico. Nada mais natural do que vidros blindados.
Corri até o vidro novamente, tomada pelo desespero. Ele estava ali. Vivo do outro lado. Não estava mais sozinha. Não havia vazio. Eu era inteira de novo. E não podia toca-lo. Ouvi o som de agentes se posicionando no corredor. Estávamos encurralados. Chorei desesperadamente. A dor me tomava de uma forma que eu desconhecia. Tudo o que eu queria estava do outro lado daquele vidro. Estava vivo. Havia sentido em tudo outra vez. Havia sentindo em mim. Eu chamava seu nome e via os lábios dele formarem o meu, enquanto ele acariciava a barreira numa tentativa vã de me acalmar. Alegria se misturava a dor. Como poderia ser diferente?
Apoiei a mão e a testa na parede. Desejei atravessa-la. Dissolve-la. Mas aquela barreira ainda existia. Tempo demais nos separava. Problemas demais. Ouvi os agentes gritarem que eu devia sair da quadra, com as mãos para cima. Que morressem todos. Eu sairia dali apenas carregada.
Loki se abaixou o suficiente para ver meu rosto. Apoiou a mão sobre o vidro exatamente sobre a minha. Aquilo me fez rir nervosamente, engasgando com as lagrimas. Ele sorriu daquele jeito irônico. Havia feito propositadamente. Queria me ver rindo. Tinha os olhos excessivamente brilhantes. Marejados? Os lábios se contraíram novamente como se reprimisse algo. Lagrimas? Então me ocorreu o óbvio. Morta em seus braços. De volta doze horas depois. Dez meses até acordar e mais dois até nos encontrarmos. Ele havia lamentado por um longo ano. Se eu vinha num poço sem fundo há dois meses o que tinha sido dele nesse meio tempo? Ele se importava. Tinha me dito isso. Confessado como se fosse um crime. O que não tinha lhe passado pela mente no último ano? Remoendo culpa e pesar...
Me flagrei o encarando fixamente. Muito mais magro. Os cabelos precisavam de corte. Tinha fundas olheiras. Parecia tão abatido que desejei mais do que nunca poder o abraçar. Mas estava vivo. Por que Odin não o tinha executado? O que estava acontecendo em Asgard? Tínhamos tantas coisas para falar um ao outro. Tanto a perguntar. Tanto a ouvir. Mas não tínhamos tempo. Mais uma vez.
‘‘Você está bem?’’ – Vi seus lábios formarem as palavras no meu idioma. Me peguei pensando na imagem deplorável que eu devia ter. Estava como ele. Eu sempre tinha sido magrela, mas devia estar pele e osso. Cheia de olheiras, chorosa, suada e respingada de sangue. Assenti levemente. Ele sorriu como se lhe custasse. Não acreditava em mim.
‘‘E você?’’ – Perguntei. Ele fechou os olhos com força, encostando a testa no vidro. Um ano era muito tempo. Que coisa irônica que agora ele pensasse assim. Deu um soco na barreira, com o ódio lhe fervendo nas veias. Devia ser tão resistente e grosso, que pouco mais que um barulhinho chegou a meus ouvidos. Era uma quadra de squash feita de vidro em um centro olímpico... naturalmente tinha que ser resistente. Eu deslizei o dedo pela superfície contornando a mão dele. Aquilo o fez sorrir. Ouvi o último aviso dos agentes. Eles invadiriam o meu lado. Recomecei a chorar me ajoelhando no chão. O deus se abaixou me seguindo.
Me olhou com olhos sofridos, como se sentisse dor. Eu podia ouvir Odin destruindo o gelo que selava sua porta. O que aconteceria com ele? O deus passou os dedos no vidro, na altura do meu rosto como se limpasse lagrimas. Eu forcei um sorriso trêmulo, para ele. Loki estava vivo. Se me tirassem isso, criariam um demônio.
A porta se escancarou e cerca de dez agentes entraram, apontando armas para mim. Eu nem me dei ao trabalho de virar para olhar. Meus olhos eram de Loki. Tentei guardar cada detalhe de seu rosto. Ele me encarava com a mesma expressão. Uma lagrima escorreu solitária por seu rosto.
– Afaste-se do vidro. – Um homem alto falou seriamente.
– Nicht. – Recusei aos agentes. Loki encarava meus lábios, para entender o que eu dizia.
– Vai. – Falou em alemão. Balancei a cabeça negativamente apoiando as duas mãos no vidro. Fechei-as em punho e soquei aquele maldito bloqueio. O homem então se aproximou de mim e me puxou pelo ombro, me derrubando de costas.
– Não! – Gritei em inglês, me jogando contra a parede mais uma vez. Loki tinha as mãos cerradas. Os olhos fechados dolorosamente. O agente me puxou pelos cabelos, me atirando no chão. Não era gentil e cheio de dedos como a maioria. Estava ali para me conter a qualquer custo.
– Você vai me obedecer sua alemã vagabunda! – Falou me dando um soco tão forte que minha cabeça, voltou contra o chão. A dor me atingiu com tanta brusquidão que não consegui gritar. Me sentei como podia e vi o homem se abaixar diante de mim. O deus estava em pé do outro lado, mas fui incapaz de ver sua expressão. – Bem quietinha porque assim que eu gosto. – Falou de um jeito nojento. Eu cuspi no rosto dele. O segundo soco veio tão depressa quanto o primeiro, seguido pelas risadas dos outros agentes. E então eu vi a sala tingir-se de vermelho.
Pelo menos dez ilusões dele, matavam agentes. Vi pescoços serem quebrados como se fossem gravetos. Pelos próprios agentes. Loki dominava suas mentes e usava suas ilusões para confundir. Armas disparavam contra companheiros e ele as forçava contra os próprios agentes. Alguns esfaquearam a si próprios. Sobramos apenas eu e o agente que tinha me atacado. Todos os Lokis se aproximaram dele, enquanto o original assistia escorado à grande vidraçaria. Um agente que choramingava como um idiota. Patético.
Um dos Lokis se abaixou diante dele e os olhos do homem tornaram-se de um tom azul esbranquiçado. O deus estava em sua mente vasculhando o que ele tinha dito à mim e muitas coisas mais. Por fim os olhos voltaram à cor natural, quando ele lhe devolveu sua mente. O homem se encolhia de medo puro e simples. Ele pegou uma faca de guerra do chão, incapaz de controlar seus próprios músculos.
– Bem quietinho. – Loki disse fazendo o homem cravar a arma na garganta. – Porque é assim que eu gosto. – Concluiu girando a arma findando a vida daquele infeliz. O corpo desabou inerte. Todas as ilusões se voltaram para mim. A expressão de preocupação replicada várias vezes. As ilusões se foram quase instantaneamente. Mas o motivo era a chegada de Odin.
O velho nada disse. Nem sequer olhou para mim. Foi sedento contra o filho que ainda me olhava. O puxou pelo braço com brusquidão, o fazendo recuar alguns passos. O moreno tentou afasta-lo, mas Odin falou algo apontando em minha direção, conjurando Gugnir. O filho se rendeu subitamente.
– Loki! – Gritei me jogando mais uma vez contra o vidro, socando-o. Seus olhos verdes fixos em mim com preocupação. Sangue escorria da minha boca. Odin proferiu algumas palavras que fui incapaz de ouvir. Um portal se abriu, a ponto de um poder ver Heimdall do outro lado, e ele praticamente jogou o filho na frente antes de atravessar. E assim como ele havia estado ali, havia partido.
Escorreguei pelo vidro chorando. Não conseguia saber sequer o que eu estava sentindo. Eu era uma bagunça. Alegria por que ele estava vivo. Poderia mesmo dizer euforia. Dor por ser inalcançável à minhas mãos mortais. E ódio. Desejo de vingança. Eu entendia os bloqueios que nos eram impostos. Éramos perigosos juntos. Criadores do caos. Mas entender não significa aceitar.
– Liana Schroeder. – Uma voz chamou ao fundo. Apenas uma pessoa me chamava assim e eu sabia que estaria ali hoje. Me virei tremendo dos pés à cabeça, limpando as lagrimas no dorso das mãos. Tentava controlar meu ódio.
– O que você quer? – Perguntei num rosnado, me levantando. Puxei uma Glock do chão. Nunca tinha atirado, mas minha mira era boa. Com duas ou três tentativas eu poderia me acostumar ao coice da arma e acertar. Eu não ficaria desarmada na frente dele. Mas mesmo que eu pudesse acertar, ele me mataria muito antes que eu pegasse o jeito. Será que eu voltaria mais uma vez? Tinha a estranha sensação de que a Morte já devia estar bem cansada de brincar comigo. A realidade não ficaria se moldando o tempo todo. Ele próprio sacou suas duas armas e apontou-as para mim. Fiz o mesmo.
– Eu devia terminar isso tudo agora. Estou cansado de você causando problemas. – Nick Fury falou friamente. Eu estremeci. Tiros não eram exatamente uma boa lembrança. Me perguntei como ele explicaria isso ao governo brasileiro. Devia ter seus amiguinhos na Interpol.
– Recomendo você descansar então, chefia! – Tony entrou rápido como um raio passando por Nick e ficando na minha frente, uma mão erguida ameaçadoramente na direção do homem. Estava de armadura. Ele não largava aquilo nunca? – Vamos trocar. – Falou tomando a arma e empurrando uma pulseira e um bracelete nas minhas mãos, atirando a Glock de volta no chão.
Sorri meu primeiro sorriso sincero em dois meses, colocando as peças nos lugares. Convoquei o arco de guerra. Ele entrou quebrando uma parede, espalhando poeira e concreto. Destruição e caos. O aparei antes que acertasse meu rosto, como sempre. Como se nunca o tivesse largado. Armei-o instintivamente, sua corda de luz surgindo. Eu estava inteira novamente. Viva. Depois de um ano minha recuperação estava completa.
– São quatro olhos contra um. Alguém está na desvantagem aqui. – Tony cantarolou, ironicamente.
– Vocês sabem que o prédio está cheio de agentes. – Ele afirmou calmamente.
– E você sabe que nenhum vai tocar na medalha de ouro, sem que metade do planeta saiba antes do jantar. Ela é quase tão popular quanto eu. E com nós dois aqui... Acho que hoje arquearia é o esporte mais popular do planeta. – Meu irmão afirmou no seu habitual tom sagaz. Fury abaixou as armas. Tony as mãos. Eu mantive o arco armado. O Iron Man empurrou meu braço para baixo sem me olhar, fazendo apontar para o chão. – Quer café? – Perguntou me encarando finalmente. Assenti lentamente. Ele passou a mão pelo meu ombro num gesto protetor e me conduziu para fora da sala. Fury não nos impediu.
Avançamos em silêncio por um corredor. E repentinamente Tony me empurrou dentro de uma sala, a máscara da armadura subindo. Pepper estava ali dentro acompanhada por uma sorridente Jane Foster que devia ter achado em meio à confusão. Deduzi imediatamente que devia ter encontrado Thor. Ela não representava perigo. Não era uma ameaça aos nove reinos permitir que encontrasse o deus. Já eu era um caso à parte.
– Cinco minutos, senhor. – Ouvi a voz de Jarvis vinda da armadura de Tony.
– Você ouviu. – Ele disse para mim.
– Quanto dinheiro você precisa? – Perguntei imediatamente à Jane.
– Muito. – Ela respondeu.
– Quanto? – Pressionei. Tony e Pepper pareciam confusos.
– Liana, é muito mesmo... As pesquisas são caríssimas. – Desculpava-se. Olhei em desespero para Tony. A compreensão do assunto chegou ao casal, através das palavras de Jane. Eles sabiam o que planejávamos. Eu podia mexer nas contas como quisesse, mas nunca fazia isso. Tirava sempre apenas o suficiente. Seria a primeira vez que esbanjaria e me sentia horrível em fazer isso sem pedir.
– Por favor. – Supliquei, sentindo lagrimas vindo aos meus olhos. Minha voz soava dolorida e sofrida. O sofrimento de dois meses, pesando. O sofrimento de uma parede vidro, doendo.
– Liana vocês são causadores do caos! – Pepper afirmou exasperada. – Como pode esperar que eu concorde com isso? Vocês mataram muita gente! Ele arrancou a mão de Clint! – Ela afirmava irritada. Eles achavam que Loki tinha arrancado a mão do Barton? Então por isso não tinham me acusado de nada. Me consideravam incapaz de fazer algo assim. E eu era, a menos que tivesse a motivação correta. Melhor que continuassem acreditando que aquilo tudo era trabalho do deus. — Você está melhor sem ele.
– Olhe para mim! – Gritei a plenos pulmões, chocando-os. – Você realmente acha que eu estou bem?! Você realmente acredita nisso?! Achei que me conhecesse! – Ela e Tony se entreolharam com expressões ansiosas. Eu sabia que eles andavam preocupados comigo. Eu os ouvia cochicharem nos momentos em que estava na casa deles e me ausentava da sala por algum motivo. Reparava no esforço que faziam para que eu comesse mais e me sentisse bem.
– Eu vou me arrepender disso... – Ele murmurou. — Jarvis, libere acesso de Jane Foster as dependências e a conta da Stark Industries. Torne as movimentações discretas. – Comandou. Ela tinha um laboratório e tanto dinheiro quanto poderia querer. A S.H.I.E.L.D. teria trabalho para rastrear os gastos. Laranjas seriam usados. Contas falsas. Notas frias e todo tipo de artimanha. Meu irmão era tão desregrado quanto eu. Mal de família. Me abracei a eles beijando o rosto de ambos, os olhando com tanta gratidão que se tentassem expressar em palavras choraria. Eles sorriam. Éramos uma família estranha e complicada. Mas nos amávamos e nos entendíamos. Como todas as famílias.
– Claro, senhor.
– Quanto tempo até você concluir? – Perguntei ansiosa. Eu queria respostas o quanto antes. E sabia que ela também.
– Um ano no máximo. –Informou.
– Um ano?! — Gritei exaltada. Pepper pousou a mão no meu ombro sorrindo com doçura. Era o melhor que teríamos. – Desculpe...
– Tudo bem. Eu sei como é. – Jane ponderou mansamente. Aquilo me trouxe uma sensação de paz. Ela me entendia. Estávamos trabalhando juntas. Éramos aliadas.
– Jarvis, elas precisam de comunicação livre. – Pepper pediu. Nada de ouvidos nas paredes.
– Vou providenciar um celular do meu próprio sistema para cada uma, senhorita. – Trocamos sorrisos. Tínhamos nossa própria equipe ali. Então a porta se abriu e dois agentes entraram.
– Senhorita, as outras atletas aguardam para a premiação. – Falaram. Eu assenti, reparando que olhavam atentamente para todos na sala. Avaliando o que estivéramos fazendo até a pouco.
– Vieram tomar café também? – Tony perguntou quando eles demoraram mais que o necessário. Ambos os homens continuaram me encarando. Eu os segui. Um deles me alcançou uma jaqueta da equipe americana e o outro uma toalha úmida. Limpei o sangue das mãos e do rosto com uma tranquilidade que chocaria muitas pessoas. Segui-os pelo corredor pronta para voltar e ocupar meu lugar no pódio. Essa era apenas minha primeira vitória.
– Senhorita, quando perguntarem sobre o olho diga que foi agredida por uma das atletas que se frustrou, mas prefere não comentar qual delas, por profissionalismo. Você fugiu da quadra porque temia que ela fizesse isso. – Um dos agentes instruiu. Eu devia estar roxa onde o agente tinha me acertado os socos. Assenti breve e entrei no ginásio sendo muito aplaudida.
Sorri daquele jeito artificial, acenando para o publico e ocupando meu lugar no pódio, permitindo que as imagens de Loki me viessem à mente, enquanto o hino americano tocava e eu encarava a bandeira dos Atlanta Falcons. Algemado e domado por Odin. Algo tão antinatural a ele. Devia ter concordado por desejar me ver. Os olhos verdes marejados pela simples emoção de saber que meu coração ainda batia. A minha própria emoção por saber que ele ainda existia. O vidro nos separando. Minha vontade quase enlouquecedora de sentir sua pele. Seus lábios. De ouvir sua voz. De dividir a carga que ele carregava. De aliviar o peso do luto. Meu desejo de enxugar suas lagrimas. Por um ano ele havia afundado em si próprio. Por um ano havia lamentado e se culpado. Eu o conhecia bem demais para saber isso.
Odin certamente sabia. Sabia de tudo. Heimdall devia tê-lo mantido informado. E ele havia assistido Loki definhar impassível. Permitir nosso encontro era perigoso, já que era quase tão mansa quanto o deus da trapaça. Eu me vingaria daquele velho desgraçado. Mas porque diabos Jane não poderia ver Thor? O que aquela mulher frágil tinha de errado? Por que puni-los? Para não misturar o sangue asgardiano? Para que Thor se mantivesse entre os seus? Para que não sofresse quando a perdesse? Duvidava que ele fosse tão preocupado. Loki e eu lidaríamos com meu tempo quando o momento viesse. Jane e Thor deviam ter o mesmo direito. Eu não podia compreender que alguém que se intitulava Pai poderia querer tanto tolher o livre arbítrio de seus filhos. Eu não aceitava aquilo. Não aceitava que quisesse podar e moldar o que chamávamos de felicidade. Eu e Jane nos ajudaríamos e imporíamos nossa existência e, acima de tudo, nossa presença.
Eu havia me tornado fogo brando. Havia me apagado lentamente, tornando-me brasa. Sido abafada, até virar uma fagulha desejosa de sumir em definitivo. Mas o que acontece quando se atira gasolina em cima de uma fagulha?
Eu era chama. Era incêndio outra vez. E ninguém mais me conteria.
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