God of Mischief | Loki

19 Capitulo 18: Musphelheim


Notas iniciais
Beleza pessoal? Aproveitando o feriado para escrever e postar, porque sou uma eterna odiadora do carnaval. Quero agradecer os excelentes comentários que recebi pelo ultimo capitulo e dar as boas vindas as meninas que chegaram agora! Continuem comentando pessoal! Se expressem porque adoro conversar com vocês! Divirtam-se! ''Blurring and stirring the truth and the lies So I don't know what's real and what's not Always confusing the thoughts in my head So I can't trust myself anymore I'm dying again''

Ele estava pendurado numa corda no teto. Balançava de leve com o vento entrando pela janela aberta. Eu era tão pequena e não alcançava para tirá-lo dali. Aquilo o estava machucando. Ele me pedia para que não fosse embora, mas sim sentasse e ficasse. Eu não conseguia me lembrar de como tinha chegado naquela sala. Havia um cheiro forte de remédio no ar e eu ouvia os passos de pessoas ao longe. A notícia era ruim, eu já sabia. Ela me mandava largar a boneca. Mas a boneca era parte de mim e eu não podia obedecer. O barulho da corda tensionada rangendo me incomodava. Os passos ficavam cada vez mais altos. Eu sentia muito frio. Me sentia nauseada com o cheiro da medicação e hospital. Eu estava tão sozinha, queria alguém. Ergui meus olhos pra ele e um rosto sem expressão me olhava de sobre um pescoço num ângulo esquisito. Estendeu a mão para mim pedindo que eu ficasse. A culpa era minha. Seus dedos gelados tocaram a minha pele e eu gritei assustada.

Levantei da cama com um pulo desesperado, jogando meu cobertor, meu arco, as flechas e tudo que estivesse perto para longe. Loki que estava dormindo sentado na poltrona levantou quase tão assustado quanto eu, seus olhos correram para a porta e depois para mim. Ele não entendia meu pânico. Me coloquei contra a parede, minhas mãos agarrando meus cabelos e me encolhi no chão chorando alto, os puxando com raiva. O deus atravessou a sala sem hesitar, abaixando-se diante de mim, o rosto pura confusão.

— Liana? O que foi? — perguntava, aturdido. Ele tentou tocar meu rosto para me fazer olhá-lo, mas minha reação foi apenas um grito agudo e um tapa afastando sua mão e me encolhendo ainda mais.

Eu soluçava muito alto. Há anos eu não tinha uma crise dessas. Achei que nunca mais viriam, porém escutar suas vozes havia trazido tudo aquilo de volta. Eu estava no inferno outra vez.

Loki parecia confuso, não estava no controle e não era acostumado com isso. Não sabia o que eu tinha e nem o que fazer. Pepper nunca havia conseguido me acalmar quando isso começava. Ela sempre tentava, contudo depois percebera que era melhor me deixar sozinha até o medo ir. Ele continuava tentando chamar meu nome, porém tudo que eu conseguia fazer era chorar. Eu puxava meus cabelos com tanta força que certamente teria uma enxaqueca depois. Suas vozes tinham me chamado. Eles estavam tão longe. Eu estava tão irreversivelmente sozinha. Como queria que aquilo acabasse. Eu não tinha controle sobre mim mesma.

Loki segurou minhas duas mãos com força e eu me debati em desespero. Estava apenas me impedindo de arrancar os cabelos, contudo eu não entendia naquele momento. Então me puxou contra seu corpo e me abraçou. Esperneei por mais alguns minutos, mas ele era mais forte que eu. Parei de me debater e deixei meu corpo relaxar nos braços dele, as lágrimas escorrendo profusamente. Ele não moveu um único músculo. Continuou ali, parado. Ficamos daquele jeito por quase meia hora. Então eu ergui a cabeça do ombro dele, meus olhos desnorteados pelo quarto até encontrarem os dele repletos de preocupação. Loki não entendia.

— Desculpe — murmurei olhando para o chão, cheia de vergonha. Loki não precisava ter visto aquilo. Se inclinou procurando meu olhar.

— O que foi isso? — indagou como se falasse com uma criança.

— Desculpe — repeti, exausta. Ele passou a mão sobre os meus cabelos, numa carícia gentil.

— Tudo bem — desconsiderou. — Aconteceu alguma coisa, vai me contar?

— Meus pais... — balbuciei envergonhada. Loki suspirou. Não estava aborrecido.

— Sonhou com eles? — deduziu. Eu esperava acusação, talvez recriminação. Não havia nada disso. Era apenas uma pergunta.

— São lembranças. Todas embaralhadas — disse, fechando as mãos em punho para impedi-las de tremer. — Há muito tempo não me incomodavam. Me apavoram. Fazia muito tempo — admiti, cansada. Eu estava tão farta daquilo. Achava que havia deixado aquele momento ruim para trás. — Só que hoje foi... um pouco demais… — balbuciei, antes de soltar um gemido como o de um animal ferido, levando as mãos aos cabelos outra vez.

— Chega, chega, chega — começou a repetir com toda calma, puxando minhas mãos para longe. — Vem aqui — chamou, ficando de pé e me erguendo com gentileza pelos cotovelos. Me conduziu de volta para a cama e colocando-me sentada. Acomodou-se na minha frente puxando a poltrona. Me senti relaxada e cansada como se pudesse dormir quase na mesma hora. Aquilo me deixou alerta. Não era eu. Era ele.

— Não! Não! — reclamei alto, batendo com a mão em punho na cama. Eu sabia agora, que era Frigga quem permitia que eu soubesse quando Loki tentava fazer aquilo. Eu morria de medo daquela capacidade me abandonar e assim ele resolvesse roubar minha vontade.

— Só hoje — ponderou como um pedido. Pela primeira vez não parecia tentar impor sua vontade à minha. Eu não sabia o que responder. — Só uma vez — pediu. Hesitei por alguns minutos, contudo a imagem da corda era muito nítida na minha mente para ignorar.

— Se você não me devolver minha mente de manhã, enfio uma flecha na sua cabeça assim que eu puder. — Ele sorriu e me senti amolecer instantaneamente. Deitei novamente me controlando contra a vontade de sorrir. Que coisa bizarra, era quase como estar drogada. Loki pegou o cobertor do chão e o jogou de volta sobre mim. — Você não é uma pessoa ruim — concluí numa voz que soava como a de outra pessoa.

— Eu sou terrível — afirmou, no momento em que adormeci novamente.

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Acordei tranquila e leve como se nada daquilo tivesse acontecido. Loki estava sentado à mesa, comendo. Quando me viu uma sensação de peso se apossou de mim. Eu era eu novamente, como havia prometido. Sorri agradecida e me sentei ao seu lado. Esperei algum comentário, mas tudo que fez foi empurrar uma travessa cheia de pão na minha direção.

— De onde vem a comida? — indaguei tentando estabelecer uma conversa normal. Duvidava muito que pudesse ir a alguma padaria mesmo em Vanaheim.

— De Asgard — falou servindo-se de chá de um bule bonito Eu o olhei surpresa. — A comida é colocada em cestos e largada no mar. Qualquer um pertencente ao exército asgardiano acordará com sua refeição por perto. Assim os soldados não passam fome em batalha. Isso é feito todo dia, já que temos tropas circulando pelos Nove Reinos sempre. E ela vem parar aqui – explicou como se fosse muito lógico.

— Vou me lembrar de manter um asgardiano por perto quando sentir fome — ri baixo do absurdo de ter pão enviado pelo mar enquanto me servia justamente de um. Loki me olhou pelo canto dos olhos, a xícara a meio caminho dos lábios. Virei meu rosto para ele, rindo. Ele desviou o olhar e bebeu o chá. — O que vamos fazer hoje?

— Vou estudar a joia e você vai descansar — decidiu, categórico. Pelo meu entendimento estávamos sendo caçados por Asgard, dois grupos de Midgard e com a sorte que tínhamos Jotunheim havia resolvido entrar na dança só por esporte. Ainda precisávamos nos apressar antes de Odin acordar. E Loki queria ficar parado? Então me ocorreu: ele estava preocupado. Queria me dar tempo.

— Bom, então se você vai ficar aqui, tudo bem — comentei encarando meu pão mordido. O príncipe virou o rosto para mim, levemente abaixado, as feições contraídas. Sentiu que a teimosia estava a caminho. — Vou terminar de comer e pedirei ao Heimdall por um passeio — comentei num tom bem humorado. Ele largou a xícara pequena na mesa e me olhou sério.

— Tem certeza?— confirmou. Não estava me intimidando. Apenas queria saber.

— Tenho — respondi com um sorriso quase natural.

— Tudo bem, então — aceitou, se levantando e pegando as botas em um canto. — Pegue uma roupa leve — orientou enquanto as calçava. Enfiei o pão na boca e corri para o enorme armário a um canto. Havia dezenas de roupas dele. Algumas pareciam tão antigas que duvidava se ainda serviriam. Comecei a revirar em busca de algo que me servisse. Então eu vi. Um vestido de seda verde água, muito leve, em meio a tantas roupas masculinas. Havia uma ave dourada bordada sobre a lateral direita, subindo de asas abertas em direção ao corpo por sobre as costelas. Não era possível. — Loki? — chamei em voz alta. Ele estava distraído, organizando as adagas. — Loki, olha aqui — insisti, puxando o vestido para fora do armário, fazendo-o trazer a atenção a mim. — Foi ela não foi?

— Sim — confirmou sério, encarando o vestido que eu erguia na frente do corpo. Aquilo me dava certa tranquilidade. Frigga havia visto nosso caminho até ali. Eu sorri. Ele voltou a atenção para a adaga que ajeitava na cintura.

— Vira para lá — mandei. Ele revirou os olhos impaciente e saiu pela porta, a lança surgindo em sua mão e o elmo na cabeça. Me vesti como um furacão. Era perfeito para mim, mas a verdade é que eu estava precisando de um banho. Meu cabelo parecia esticado e seco, embora fosse apenas poeira e falta de cuidado. Tentei afivelar a armadura e, para variar, sempre ficava frouxa. Segurei o arco seguindo porta afora, virando as costas para ele. — Ajeita essa coisa — pedi mal humorada. Loki começou a afivelar aquilo direito.

— Planeja aprender a fazer isso? — perguntou friamente. Ele era uma pessoa muito impaciente.

— Não enquanto tiver você por perto ajeitando com tanta boa vontade —redargui malcriada enquanto o príncipe apertava a última trava. Virei a tempo de flagrar um sorriso ínfimo no canto dos lábios dele.

— Vamos entrar e sair tão rápido quanto pudermos. Heimdall — Loki chamou. Nada aconteceu. Ele torceu os lábios e fez um gesto com a mão livre para mim.

— Bom dia, Heimdall! — A luz colorida nos envolveu. Ter a benção de Frigga tinha suas vantagens. Suspeitava que secretamente o guardião também estava apreciando aquele jogo.

Cambaleei quando chegamos ao lugar correto. Estava começando a acostumar com o impacto daquele tipo de viagem. Uma hora conseguiria sair de uma com tanta elegância quanto Loki. Observei com atenção os arredores e percebi como era o extremo oposto de Jotunheim. Era quente como o inferno.

Flechas incandescentes voaram de lugares distintos sem aviso. Estávamos em uma planície e eu não conseguia ver de onde vinham os ataques. Loki desviou duas com a lança e começou a correr me puxando pela mão. Eu suava como se estivesse em uma sauna. Ele deslizou atrás de uma rocha vermelha enorme.

— Fique aqui — mandou. Saiu de trás da rocha e eu armei o arco. Que recepção calorosa, por assim dizer. Havia sete deles. Eram enormes e vermelhos, como se chamas os tomassem inteiros. Seus arcos eram feitos de fogo puro. Alguns tinham espadas na cintura, muito bélicos para o meu gosto. Loki desviou das flechas como se estivessem em câmera lenta. Sua lança cortou a cabeça de duas das bestas, antes que sequer tentassem armar os arcos. Uma se aproximou por trás dele nesse momento, desembainhando a espada. Minha flecha encontrou sua carne flamejante abaixo da nuca. Ele caiu sem que Loki nem ao menos o notasse.

O deus girou a lança a frente do corpo desviando mais uma flecha e bloqueou uma espada vinda de cima, usando o cabo de sua arma. Era muito hábil e rápido. Acertou uma das criaturas na altura do estômago usando o cabo, a fazendo recuar. Jogou a lança para o alto invertendo a posição da arma e terminou o golpe com mais uma cabeça rolando. Uma criatura o ignorou e armou o arco mirando em mim. Antes de disparar, minha flecha já voava o atingindo na barriga, seguida por outra buscando sua garganta. Elas voltavam tão incandescentes quanto as dos monstros. Não parecia ser uma boa ideia deixar que me tocassem.

Loki acertou uma das criaturas com o cabo da lança a empurrando contra uma segunda. Ambas se desequilibraram e o deus cravou a ponta da sua arma no tórax da mais próxima, no exato momento em que uma das minhas flechas encontrava outro monstro. Loki olhou para mim e eu sorri como se fosse uma ótima manhã. Ele correu na minha direção gesticulando para recomeçar a correr. Obedeci e em segundos ele estava ao meu lado.

— Por que ainda estamos correndo? — indaguei em uma voz arquejante.

— Porque mais virão — avisou tão tranquilo quanto alguém passeando num parque. Corríamos desabalados pela planície de chão vermelho e ressecado. Nada florescia ali. Mais flechas voavam em nossa direção, Loki as afastava com a lança. Acabariam nos acertando. Parei de correr e me virei com o arco armado. O deus parou um pouco a frente seus olhos indo de mim para meus alvos. Atirei três vezes, três corpos tocaram o chão. Recomeçamos a correr.

Descemos em direção a uma depressão no centro da planície, sempre correndo. Meus pulmões gritavam para eu parar ao menos um pouco. Continuava correndo contra a vontade deles.

— Atire! — Loki comandou percebendo que estávamos ficando com problemas novamente. Eu tinha certeza de que morreríamos. Me virei e o deus estava pronto para rebater flechas para longe de mim. Armei o arco e disparei cinco vezes contra três disparos deles. Dois disparos adversários Loki afastou, o terceiro atingiu o braço do arco, protegido pela armadura, o que fez a flecha ricochetear e cair no chão. Queriam me inutilizar e estavam tentando estourar a placa metálica. Agradeci o design que Frigga tinha dado à minha proteção.

Loki me puxou pela mão e pulou em uma espécie de escorregador de mármore que nos levaria para dentro da terra quente. Haviam centenas de corredores complexos ali. Pulei atrás e quando cheguei à base ele me apoiou pela cintura antes de recomeçarmos a correr. Eu estava decidida a não mencionar a dificuldade que seria sair dali para algum lugar onde Heimdall pudesse nos buscar.

O deus me guiou para o espaço atrás de uma porta em um dos corredores tapando minha boca com a mão livre. Minha respiração acabaria nos entregando. Ouvíamos os passos das criaturas avançando pelos corredores. Falavam em um idioma que eu não entendia, mas ainda assim o significado era claro. Havia invasores a serem eliminados. Ele abaixou a mão, o rosto virado na direção de onde se ouviam os passos.

— Precisamos sair daqui logo — sussurrei. Loki assentiu sem me olhar. O suor escorria pela lateral do seu rosto, ali era um péssimo lugar para alguém como ele. O príncipe espiou o lado de fora e fez um sinal para o seguir. Enquanto avançávamos pelos corredores, atentos aos sons, tentava memorizar os corredores daquele formigueiro. Esquerda, direita, direita, esquerda, direita, esquerda... seria impossível.

Loki atacou dois guardas que estavam ladeando o final de um amplo corredor, os levando a nocaute. Reparei em sua respiração ficando rascante como a minha. Ele abriu uma porta dupla e ampla, e passamos apressados por ela. Ele parecia muito cansado.

— O príncipe de Asgard — uma voz feminina e suave falou. Nos viramos de sobressalto. Havia uma mulher sentada em um trono no fundo daquela sala. Linda e estonteante., os cabelos ruivos pareciam realmente com chamas cascateando muito cacheados pelas costas, os meus ao lado dos dela deviam ter cor de molho velho. Ela tinha uma pele bonita como a de quem toma muito sol e olhos vermelhos como rubis. Seu sorriso revelava dentes muito brancos e alinhados, destacados por carnudos lábios rubros. Era voluptuosa e não escondia isso. Loki sorriu daquele seu jeito debochado.

— A rainha de Musphelheim, Sinmore — cumprimentou, de certa forma a apresentando a mim. — Será uma visita diplomática — informou. Por algum motivo eu me sentia ofendida pela simples existência de alguém como ela.

— Creio que não — a rainha respondeu, puxando uma katar flamejante da lateral do trono. Quando Sinmore fez isso reparei que atrás havia uma porta pequena e simples claramente guardada por ela. — Você não vai levar o que veio buscar — alertou. Falava no singular? Eu era invisível ali? — Contudo posso permitir que se retire como o lorde que sabemos que é — ofereceu ficando de pé. Ela era uns 40 centímetros mais alta que Loki. Ele sorriu amplamente com escárnio, como se a chamasse ao bom senso.

— Infelizmente não será possível — rebateu, aprumando a lança. — Essa é Liana de Midgard — me apresentou. Não desviei os olhos dela, apesar de ter ficado surpresa com aquela cortesia. — Ela vai buscar o que precisamos enquanto eu lhe faço companhia.

— Você adotou um bichinho de estimação. Que graça — falou, seca. Antes que Loki pudesse impedir, armei o arco e disparei. A mulher desviou minha flecha assim como Loki fazia. O projétil se cravou no trono atrás dela. Os olhos do deus foram da flecha para mim e ele franziu as sobrancelhas estranhando por um segundo antes de sorrir, percebendo que eu ainda não a fizera retornar. Sinmore estreitou os olhos em minha direção. — E ela morde.

— Você ainda não viu nada — cuspi as palavras. Me olhou de alto a baixo.

— Que combinação estranha você formam — comentou me encarando. — Nem todas as luzes devem brilhar e, na minha opinião, existe fogo demais em você.

— Sabe de uma coisa? Eu concordo — falei. A flecha no trono explodiu atirando estilhaços de mármore para todos os lados. A mulher se desequilibrou com a pressão e cambaleou para frente. Loki se adiantou com a lança em riste, pronto para atacá-la, enquanto atravessei a sala em disparada passando pela porta. Ele teria de lidar com Sinmore sozinho. Eu precisava torcer que ela não traria seu exército como reforço. Dessa vez deveria ser mais rápida.

Quando atravessei a porta, as coisas tornaram-se confusas. Eu estava no teto. Lava escorria pelas paredes em direção ao chão, que ficava acima da minha cabeça, porque a porta do outro lado indicava assim. Demorei alguns segundos para meu cérebro se acostumar àquela situação.

Tentei avançar, mas não consegui. Eu me movia e, no entanto, não saia do lugar. Era como estar presa em um sonho. Ouvia o som de metal contra metal ecoando da sala anterior e aquilo servia como um lembrete de que devia ter pressa. O que você faz quando está em um sonho? Esperar que a cena mude, que algo se altere. Mas eu não podia esperar. Eu tinha pressa. Tentei um passo e nada. Devia haver um jeito de chegar ao outro lado.

Eu não sabia nem que joia estava enfrentando. Dessa vez saímos com tanta acelerados que Loki não me preparara. Eu não conhecia nada das joias. Tentei avançar mais uma vez sem sucesso.

Aquilo era como um sonho. Estranho e surreal. Eu precisaria voltar e pedir instruções. Não havia outro jeito. Quando me virei e abri percebi o que estava acontecendo. A porta refletida do outro lado era apenas um espelho. E eu era invisível, por isso não me via no reflexo. O truque naquela sala era entrar e sair pela mesma passagem. Em sonhos as mesmas portas podem te levar a lugares diferentes. A realidade não é fixa.

Quando passei, me vi, não na sala do trono como seria normal, mas sobre um rio de fogo. Havia uma pequena balsa me esperando. O calor era horrível e opressor, como entrar em uma fornalha. Ao embarcar, o barquinho avançou sozinho por longos minutos. Para meu susto um enorme urso de fogo se ergueu e o agarrou, quase o virando. Ele tentava subir, mas desse jeito eu acabaria no fundo daquele rio de chamas. Atirei uma flecha contra ele que afundou. Então dezenas de animais surgiram da água. Leões, alces, pacas, elefantes e macacos feitos de lava. O barquinho não derretia, contudo o objetivo não era esse. Era me matar antes que eu chegasse ao destino. Porque aqueles cofres não eram simples como o de Odin? Ele devia ser realmente descuidado e prepotente como Loki o pintava. Eu atirava tantas flechas quanto conseguia e muitas vezes elas eliminavam animais mesmo enquanto voltavam à aljava.

Diante de mim havia uma bifurcação e eu devia virar o leme para a balsa não se chocar contra o paredão de lava. Precisava descartar um dos lados, no entanto com aqueles animais de fogo atrapalhando, mal conseguia olhar o que estava a frente. Eu a vi levantar voo de sobre um rochedo a minha esquerda e seguir pelo caminho da direita. Uma ave enorme feita de fogo. Frigga estava me mostrando o caminho. Não havia outra explicação.

Os animais continuavam avançando contra mim, chacoalhando a pequena embarcação. Eu não conseguiria virar o maldito leme. Pelo menos não com as mãos. Atirei uma flecha virando-o bruscamente e o barco bambeou perigosamente. Entramos pela bifurcação e pude ver um pequeno cais no final. Quando estávamos nos aproximando o número de animais pareceu triplicar. Eu não conseguiria chegar até o meu destino. Virei de costas para os animais, avancei os três passos que eu conseguiria me deslocar dentro do barco e dando o maior impulso que consegui, pulei em direção ao porto. Pude sentir as chamas lambendo minha pele, mas não demoradamente, então tudo que notava era o calor que não tinha tempo de queimar.

Caí com um baque pesado no chão quente, antes de levantar o mais depressa que podia e correr. A ave de fogo pairava no céu ainda indicando o caminho. Os outros animais se erguiam daquele rio maldito e seguiam, atirando bolas de fogo e urrando. Ao fim de um longo corredor pude ver a joia amarela flutuando em meio a um amplo salão. Se a tocasse ficaria bem. Se eu a alcançasse, os animais me deixariam em paz.

Me virei e disparei duas flechas a esmo, sem ver se havia acertado algo. Meu fôlego me matava, os pulmões urrando contra o esforço. Eles que aguentassem, eu precisava correr. Sentia as investidas daquelas bestas nos meus calcanhares e dessa vez sentia a pele das pernas ardendo. Apertei os lábios para não gritar. Faltavam dois metros e eu seria engolida pelas chamas antes disso. Me lancei contra a joia, a agarrando no ar. E tudo ficou branco.

As paredes ao meu redor, o chão, o teto, tudo. A joia estava firme em minhas mãos. Os animais sumiram. Com exceção da ave de fogo pousada diante de mim, transformando-se em homem. Um homem alto e bonito. E loiro. E de olhos claros. Steve.

Senti minhas bochechas corarem repletas de culpa, mesmo sabendo como aquilo não poderia ser real. Steve estava em Midgard. Ele sorriu e achei que meu coração fosse sair pela boca.

— O que você mais deseja. Isso pode se tornar real — falou numa voz que certamente não pertencia a Steve, apontando a joia entre meus dedos.

— O que eu mais desejo? — refleti olhando a pedra. A paz de uma vida tranquila. Voltar para casa, aos treinos e a minha rotina. Sem me preocupar com Fury, com joias ou qualquer coisa que ficasse mais longe do que eu e um alvo. Ergui os olhos novamente e havia Loki parado diante de mim. Ele sorria daquele jeito dúbio e malicioso. Esqueci como se respirava. Era óbvio que eu não sabia o que eu queria. Ou pelo menos estava tentando me convencer disso. Olhei para ele desconfiada. — Tornar algo real? Assim? Do nada? Sem planejamento? Parece arriscado...

— Eu não disse que era simples — falou naquela voz que não combinava com a imagem do deus. Pensei por alguns minutos. Que joia eu tinha em mãos? Então me ocorreu quase como se alguém sussurrasse a resposta em meus ouvidos.

— Não quero mudar nada, Realidade, pelo menos por enquanto — afirmei, séria. Loki sorriu e suas feições se alteraram lentamente passando pelas de Steve e finalmente chegaram as de um homem que eu não conhecia, mas pareciam mudar constantemente, como se não fossem dele. Eram irreais.

— Então volte para o ponto de onde parou. Até saber o que mais quer — concluiu simplesmente.

Quando percebi estava novamente na sala do trono. Loki não lutava contra Sinmore. Minha flecha estava cravada no trono. Senti o peso da pequena joia entre meus dedos fechados e minha pele se arrepiar apesar do calor naquele lugar.

— Que combinação estranha você formam — comentou me encarando. — Nem todas as luzes devem brilhar e, na minha opinião, existe fogo demais em você.

— Sabe de uma coisa? Eu concordo — falei sorrindo maliciosa. Minha flecha explodiu naquele minuto, como eu sabia que faria. Loki tentou se adiantar com a lança, mas o puxei pelo pulso. Ele me olhou confuso e eu mostrei a joia segura junto à haste do arco. Seus olhos correram da pedra para mim, surpreso.

— Como...? — perguntou.

— Depois eu explico. Corre — chamei o puxando. Loki não discutiu, apenas tomou a dianteira.

Guardas começaram a surgir pelos corredores e eu ouvia a voz de Sinmore gritando ordens esganiçada. Corríamos de maneira aleatória por aquele labirinto de corredores, não sabíamos o caminho, mas precisávamos ser rápidos. Encarei a Realidade amarela entre meus dedos. O que eu precisava? De um caminho curto até a saída.

Uma porta amarela e dupla que eu não tinha notado antes estava ao nosso lado esperando apenas para ser aberta. Nos entreolhamos perplexos com seu surgimento repentino e Loki a abriu. Passamos apressados por ela, e a fechamos com força. A porta se fundiu à parede de pedra, sumindo. Estávamos de volta a Vanaheim. Estávamos na caverna. Simples assim e tão chocante quanto prático. Esse era o poder daquela joia.

Sentamos no chão da caverna, lado a lado. Minha respiração entrecortada, os cabelos grudados à pele pelo suor. Loki puxou o elmo da cabeça, tão ou mais suado do que eu. Ri baixo, vendo-o chacoalhar os cabelos úmidos com uma das mãos. Ele me encarou.

— Problemas com calor? — perturbei, cansada, sendo solenemente ignorada.

— Me deixe ver a joia — mandou. Abri os dedos, revelando o pequeno cristal amarelo. Ele tentou tocá-la, contudo parecia uma projeção em minha mão. Seus dedos não encontravam nada material para segurar. Ele franziu as sobrancelhas. Ninguém precisava me explicar o que aquilo significava.

— A Realidade é minha — falei com certeza inabalável. Ele ergueu os olhos para mim parecendo irritado. Loki desejava a joia, desejava o poder que ela encerrava, mas eu era a dona. — Eu a dobrei à minha vontade. Eu a controlo — expliquei simplesmente. Não sabia como, nem porque, mas aquilo era verdade. Loki parecia entender isso.

— Como você a pegou? — quis saber, a voz amarrada pela irritação. Comecei a explicar a ele sobre os animais de fogo, o barquinho e obviamente ocultei um ou outro detalhe que considerei desnecessários para seu conhecimento. Apenas relatei sobre ter respondido não querer mudar nada por enquanto, não desejar nada específico quando perguntada. Ele parecia pensativo. — A joia vai ficar com você até que saiba o que gostaria de tornar real. Até ter certeza sobre seu maior desejo. Achei que já soubesse isso. Você não queria voltar para seu mundinho? — falou com a voz carregada de desprezo e irritação. Ele desejava a joia e não conseguiria tomá-la de mim.

— Achei que fosse isso... — balbuciei, débil. O príncipe suspirou irritado e se levantou do chão. Serviu uma taça com água e bebeu me olhando por cima da borda. — Não fique bravo comigo — pedi numa voz mínima. Ele estreitou os olhos.

— Não achei que fosse me dar tanto trabalho. Você é fraca e atrapalhada, mal consegue se defender. Você me atrasa — afirmou venenoso. Agora estava me irritando.

— Eu sou humana — respondi me pondo de pé, a palma da mão estendida com a joia flutuando acima, diante dos olhos dele, em uma provocação baixa. Quando a fechei ela sumiu para lugar nenhum, embora eu soubesse estar comigo. Ele me encarava com desprezo.

— Exato — concordou entredentes. Agarrei uma almofada de cima da cama e a atirei contra ele, em um rompante infantil. Loki a agarrou no ar e ficou me encarando enquanto eu saia intempestiva pela porta. Aquilo ia acabar mal mais cedo ou mais tarde.

Notas finais
Comentem e recomendem pessoal!!!