God of Mischief | Loki
16 Capitulo 15: Dueto de armas
Notas iniciais
O planador bateu com força contra o chão, quicando duas vezes antes de parar, foi necessário agarrar as bordas para não ser arremessada para fora. Estávamos em uma região montanhosa e abaixo havia vilarejos e campos onde o gado era criado. Loki desceu e eu o segui de perto. Ele retraiu o veículo no disco e o guardou no bolso.
— Onde...? — comecei a perguntar.
— Vanaheim — cortou, entendendo minha dúvida. Depois de tanto dizer que eu era dali finalmente conheceria o lugar. Loki olhou ao redor e começou a caminhar próximo ao paredão. Achou uma fresta na rocha e passou por ela. O esperei do lado de fora. Quase dez minutos depois ele colocou a cabeça para fora. — Passaremos o resto da noite aqui. Amanhã resolvo o que vamos fazer — decretou categórico, voltando para dentro. Suspirei cansada. Não era uma boa ideia discutir agora. O jeito seria aceitar permanecer naquele buraco.
Eu quase caí para trás quando passei pela fresta da parede. O interior definitivamente não era um buraco qualquer. As paredes eram feitas de mármore branco e liso, havia uma grande cama a um canto sem nenhuma coberta, uma lareira que ele tentava acender e uma enorme pilha de livros cheirando a mofo no fundo. Olhei visivelmente surpresa. Ele sabia que aquele lugar estava ali. Aquilo tudo era dele.
Assim que fez o milagre de acender a lareira com uma madeira terrivelmente úmida, levantou, tirou a cota de couro e a capa pendurando-as em um cabideiro, apoiou a lança na parede e se sentou ao lado da entrada vigiando a montanha. Ergueu os olhos para mim e fez um gesto com a mão indicando que eu poderia ficar à vontade. Passei por ele e me sentei na beirada da cama. Ficamos em silêncio por uma meia hora. Ele dobrou um dos joelhos e tinha o cotovelo apoiado sobre ele, a mão fechada em punho apoiando a boca.
— Você vai me ajudar? — perguntei, enfim. Não havia outra maneira de abordar o assunto e ele não parecia ser muito favorável a rodeios. Loki inclinou a cabeça para trás, a apoiando na parede e me olhando seriamente. Por fim sorriu de um jeito debochado.
— Achei que estivéssemos quites. — Percebi que eu adorava a maneira como ele alongava as sílabas das palavras. Mas agora, quites? Pelo quê?
— Foi você quem me colocou naquela confusão toda! — acusei, direta. O sorriso dele não esmaeceu.
— A sua raça tem tendência a esquecer as coisas, mas achei que você ainda fosse muito nova para isso. Que eu me lembre, salvei sua pele. Não coloquei você em problema nenhum — rebateu inclinando a cabeça num falso tom de inocência.
— Bom... foi — concordei, derrotada. – Mas eu também te ajudei. Você seria executado se não percebeu — lembrei-o, perdendo a paciência. Eu tinha vindo até ali para quê? Loki riu baixo com escárnio.
— Achei que tivesse feito isso como retribuição por eu ter te tirado do meio daquela floresta — redarguiu sem se alterar. — Sabe, como se esperaria de uma pessoa honesta.
— Bom, então talvez eu não seja tão honesta — argumentei sem me importar. — Até porque você me tirou da floresta devido a sua grande personalidade altruísta, não foi? — Ele riu novamente, dessa vez com algum divertimento. Minha raiva o divertia e isso me irritava ainda mais. Um ciclo vicioso. — Eles acham que estou com você — contei, afinal. O príncipe levantou parecendo calmo, caminhou lentamente, as mãos para trás, o corpo suavemente inclinado na minha direção.
— Eles acham o quê? Que você se voluntariou para me ajudar em alguma coisa? Que eu precisaria de uma humana imunda? — atirava as palavras em mim como se fossem facas. — Acharam que eu, de todas as criaturas no universo, escolheria uma humana, você, como aliada? — disparou bruto, saboreando minha expressão de desgosto pelo discurso dele.
— Bom, lamento te informar, mas é exatamente isso que eles acham — revidei, levantando as mãos na altura dos ombros, mostrando que eu não podia fazer nada a esse respeito. Ele parou diante de mim, parecendo surpreso e irritado. — Parecem achar que você deve estar desesperado ou algo assim. — O deboche era notável em minha voz. Por um segundo achei que Loki fosse me bater, porém, apenas passou uma das mãos pelos cabelos escuros.
— Quando acho que vocês bateram no fundo do poço, os humanos cavam ainda mais — disse exasperado. — E o que você espera que eu faça para te ajudar? — perguntou com a ironia pronunciada em cada sílaba. — Dizer que você não planejou nada? Ou que eu controlei sua mente? — inquiriu se inclinando na minha direção, o rosto a centímetros do meu.
— Bem, na verdade, é precisamente o que eu gostaria — admiti o encarando firme. Não posso dizer que Loki não me assustava, mas se eu demonstrasse isso ele me dominaria por completo. Para minha surpresa o homem riu parecendo achar a ideia divertida de algum modo.
— E o que você acha que vai acontecer, Liana? — questionou irritado. — Vou sentar e tomar um chá da tarde enquanto esclareço as coisas com os Avengers? E eles vão simplesmente aceitar minha palavra como verdade? Depois de você vir a Asgard trazida por mim e me ajudar a escapar da prisão? Pela manhã eles já terão somado dois mais dois. Você não tem lógica — declarou num tom baixo e venenoso, enquanto colocava mais lenha na lareira. Eu não consegui ter nenhuma reação. Ele ergueu os olhos das chamas crepitantes para mim. Minhas sobrancelhas estavam franzidas e a boca entreaberta. Eu era a imagem do desespero. Loki sorriu, voltando a atenção para o fogo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, ele remexendo as madeiras com uma haste de metal e eu me sentindo despedaçar. Por mais que tentasse pensar em uma saída, em todas as poucas opções vislumbrava no fim meu cadáver em uma vala qualquer. Olhei para Loki e o detestei por isso. Era culpa dele eu estar ali e não em casa, com Steve e Jinggles. Pensar neles doía. Quem sabe se eu matasse Loki, Fury me desse algum crédito. Ri de incredulidade do absurdo que era aquilo. Loki ergueu os olhos para mim novamente.
— Por que você me trouxe aqui?— questionei por fim. Ele levantou uma sobrancelha, acho que admirado por eu não estar às lágrimas. Pôs-se novamente em pé, e caminhou até os livros, passando os dedos pelas lombadas.
— Isso importa? — rebateu sem me dar atenção.
— Não. Mas já que tudo deu errado podia ao menos me dizer o motivo — falei fria. Ele virou o rosto na minha direção me avaliando.
— Eu precisava que você entrasse no cofre e pegasse o Tesseract — explicou indiferente. Isso eu já tinha deduzido. — Mas parece que decidiu por conta própria não o fazer.
— Bom, eu sou livre para fazer minhas escolhas — rebati com desagrado.
— A liberdade é a maior mentira da vida — falou como se fosse uma frase decorada levando sua atenção de volta aos livros. — Os seres humanos são mais felizes quando alguém lhes diz o que pensar e como agir.
— Realmente acredita nisso, não é? — falei enojada. Ele separou um livro e voltou a se sentar perto da entrada. Nem se deu ao trabalho de me olhar. — O que planejava fazer com o Tesseract? — perguntei com curiosidade. Para minha surpresa, Loki respondeu. Me contou que havia planejado deixar o pai no Sono de Odin, buscar as Joias do Infinito, por sinal não sabia o que eram, e levar Asgard contra todos os outros reinos depois de matar o pai. Nada que viesse dele me surpreenderia.
— Desculpe — pedi. Ele me olhou sem expressão. — Acho que frustrei seus planos — falei com um meio sorriso. Não estava tão arrependida assim.
— Agora não importa. Por que você não pegou, quando eu mandei? — quis saber. Aquilo parecia estar martelando na cabeça dele.
— Sua mãe disse para não pegar nada ali de dentro. Só sua lança — expliquei. Ele pareceu repentinamente tão chocado quanto poderia ficar. — Foi ela quem me ensinou o caminho até a cela. — Loki largou o livro ao lado me encarando como se eu fosse algo incrível. Passou ambas as mãos pelos cabelos. Riu desconcertado, balançando a cabeça e olhando as próprias mãos. — O que foi?
— Ela está morta — o deus me explicou numa voz oca. Aquilo me atingiu como uma pancada. — Frigga via o futuro. Ela... viu o que aconteceria. O destino sempre muda, conforme as pessoas tomam decisões. Arranjou um jeito de interferir no destino, de forma que você estivesse em Asgard para me tirar da prisão antes da execução.
— Eu sinto muito — balbuciei, sabendo bem como aquelas palavras soavam vazias e insignificantes. Ele meneou a cabeça, dispensando meus sentimentos. — Mas ela mesma poderia ter feito isso... — pensei em voz alta. Ele tinha um olhar pesado no rosto. — Acha que Frigga viu...?
— A própria morte? Sem dúvida — concluiu, arrasado. Se existisse alguém no universo com quem Loki tivesse se importado era Frigga, aquilo era muito claro. — Ela poderia ter se salvado, ter mudado o próprio destino — ele soava confuso, inconformado. — Frigga morreu em batalha. Se recusou a entregar Jane Foster a Malekith — contou. Eu não sabia quem era Malekith, mas sabia bem quem era Jane Foster. Aquela conversa só me levou a uma conclusão lógica.
— Frigga escolheu o melhor caminho para ajudar os dois filhos. Mesmo não sendo o melhor para ela — deduzi, encarando as chamas da lareira. Loki olhou para mim, com tanta dor nos olhos que senti o impulso de abraçá-lo.
— Acho que sim... — concordou num tom baixo.
Não falamos mais nada nas próximas duas horas. Era um assunto para não se revirar e eu entendia bem. Me encostei na parede atrás da cama. Loki folheava o livro, porém seus olhos não seguiam as linhas. Eventualmente soltava um pesado suspiro e encarava a escuridão do lado de fora. Eu entendia bem aquela dor. E sabia que nada do que eu dissesse poderia aliviar. A percepção de como tudo, de repente, estava terrivelmente errado o perseguiria para sempre e eventualmente, quando baixasse a guarda, ainda o atingiria como se tivesse acabado de acontecer. Nessas horas uma companhia silenciosa era mais efetiva do que qualquer palavra oca.
Já passava das três da manhã, mas eu ainda não tinha dormido, apesar de a cada poucos minutos acabar cochilando sentada, minha cabeça pendendo para frente me acordando novamente.
— Você pode dormir — ofereceu sem me olhar. Se por acaso ele quisesse conversar, queria estar ali para isso. — Não estou planejando atear fogo ao colchão, quando pegar no sono. — Sorri e me estiquei na cama. Ainda assim não larguei o arco. Eu estava cansada de surpresas e aquela arma era quase uma extensão do meu corpo.
Não demorei a adormecer. A última coisa que vi antes de adormecer foi Loki largar o livro e apoiar a cabeça nas mãos.
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Por volta de dez horas eu acordei assustada. Raramente tinha pesadelos, mas às vezes acontecia, embora eu não lembrasse depois. Sentei na cama e meu arco tinha rolado para o chão durante o sono. Me atirei sobre ele, quase caindo e me sentei de novo segurando-o com as duas mãos. Só então percebi Loki de pé perto da pilha de livros, me olhando com as sobrancelhas levantadas. Me senti corar.
— Bom dia… — cumprimentou, voltando sua atenção aos livros.
— Bom dia... — respondi numa voz rouca. Olhei para aljava deixada ao meu lado e então percebi uma capa verde largada sobre minhas pernas. Meus olhos foram da capa, para o cabideiro na parede agora vazio e por fim para Loki. Levantei, coloquei-a de volta ao suporte, e puxei da minha bolsa duas ameixas.
Não disse nada, jogando uma para ele. Loki a agarrou com uma mão, sem nem ao menos olhar. Bufei irritada. Ele virou a cabeça na minha direção, sorrindo daquele jeito debochado e mordeu a fruta. Como se eu pudesse surpreendê-lo.
Eu estava tentando parecer animada, no entanto, hoje acordara desejando que algo acontecesse. Não importava o quê. Se eu tivesse que ficar mais um dia escondida ficaria louca.
— Loki? — chamei.
— Humm? — respondeu distraído. Caminhei até ele e me coloquei no caminho entre os livros, os braços cruzados. O deus revirou os olhos. — O que você quer?
— Saber o que nós vamos fazer.
— Nós? Não existe “nós’’ — rebateu num tom frio, uma expressão divertida no rosto. Saber como eu dependia dele o agradava. — Thor deve ter contado aos seus poderosos Avengers sobre a minha fuga. Vou levar você de volta a Midgard, para mantê-los distraídos — contou com um sorriso maldoso. Senti o impulso de cravar minha adaga naquela garganta, mas isso seria bobagem. Eu não conseguiria. Loki era um manipulador e se eu quisesse algum benefício, precisava dançar no ritmo dele.
— Distraídos do quê? — indaguei sem me afastar. O príncipe me olhou rígido, os lábios apertados. — Não vão te esquecer fácil assim — adverti em um tom de brincadeira com um senso de humor inexistente simulado. Loki me tirou do caminho com uma mão e puxou um livro do meio da pilha, sem me responder. Eu não era mais que um inseto zumbindo ao redor de sua cabeça. Comecei a me sentir apavorada. Se não me achasse útil, eu seria jogada em Midgard novamente como se não fosse nada. — Quando vai me levar?
— Logo — declarou, folheando as páginas. Uma resposta vaga. Eu não merecia detalhes. Ele já tinha compartilhado coisas em excesso comigo.
Ajeitei os cabelos, peguei meu arco e a bolsa. Ele estava muito concentrado ou simplesmente não se importava. Passei pela fenda na parede, se ficasse perto de Loki acabaria em pânico. Precisava arrumar uma forma de me fazer necessária. Desejei estar na tranquilidade que vinha com Steve. Temia que aquilo não fosse se tornar mais possível.
Desci a montanha da melhor maneira que consegui. Não era tão alta, mas bastante irregular. Diante de mim havia um trecho com campo aberto onde o sol incidia morno durante o dia e o vento soprava frio à noite. Mais a frente uma pequena vila, onde mulheres teciam em grandes teares metalizados, as linhas surgindo de lugar nenhum, conforme moviam os dedos. Algumas sorriram simpáticas quando parei para olhar. Crianças eram educadas ao ar livre em lousas mostrando projeções.
Me sentei no meio da pracinha vendo algumas crianças, ainda muito pequenas, correndo nas perninhas curtas e roliças atrás umas das outras. Queria que minhas preocupações fossem como as delas. Respirei fundo e olhei para o céu límpido. Não tinha jeito. Eu estava condenada.
Fiquei observando as pessoas circulando por ali. Quase ninguém carregava armas, era uma terra muito mais pacífica comparada a Asgard. Os poucos a carregarem, levavam lanças e arcos curtos, próprios para caçar. Me peguei pensando que poderia ser feliz ali. Minha mente voou para Pepper, Tony e Steve. Eu sentiria tanta falta deles que a simples ideia já me doía. De qualquer forma, era um delírio. Loki nunca me deixaria ficar e quando Thor soubesse que eu estava circulando entre os reinos e havia libertado seu irmão, os asgardianos me caçariam como tigres. Eu estava condenada, refleti novamente. Frigga teria visto isso também? Sorri infeliz com o pensamento.
Ela tinha sido uma mãe que amara os filhos da maneira como todos os pais deviam amar os seus. Eu gostaria de ter sido amada assim por meu pai, de ter sido algo pelo qual valesse a pena viver. Frigga havia sacrificado a vida por seus filhos. Meu pai havia escolhido a morte a ficar comigo. Eu não valia o esforço. Talvez teria sido mais fácil se eu simplesmente o tivesse seguido. Nada daquilo estaria acontecendo. Afastei o pensamento macabro. Há muitos anos eu não pensava naquele tipo de coisa.
Podia não ter sido motivo para ele ficar vivo e por isso escolhera sempre achar um motivo para me manter ali. Eu tinha Pepper, Tony, Steve e Jinggles. Valeria a pena me manter viva por eles. Eu deixaria as coisas acontecerem como deveriam acontecer. Se meu destino estivesse traçado, o mudaria como Loki tinha dito ser possível. Frigga vira em mim o necessário para aquela missão e eu não queria acreditar que o que acontecesse comigo em seguida pouco importasse. Eu iria viver.
O som de gritos ao longe me tirou de meu estupor. Levantei e vi um grupo pequeno de uns dez soldados asgardianos em suas armaduras douradas, todos carregando escudos, espadas, lanças e machados. Vinham em uma marcha organizada, paravam algumas pessoas de forma pacífica, trocavam algumas palavras e prosseguiam. Os gritos não eram de medo, mas sim, admiração. Aquele lugar era tão pacífico que parecia não receber soldados nunca, então as pessoas os olhavam com curiosidade e apreensão, corriam as janelas para espiar e paravam o que estavam fazendo e vê-los passar.
A presença das tropas não era um bom sinal. Estavam caçando Loki, era óbvio. Fiquei parada observando, já saberiam que eu estava junto? Conheciam minha aparência?
Minha pergunta se respondeu quando uma das mulheres que teciam apontou na minha direção. Os homens ergueram os olhos para mim, e senti meu sangue gelar. Não esperaria eles chegarem perto para uma conversa. Loki já tinha me alertado que isso não aconteceria.
Virei e comecei a correr o mais rápido que minhas pernas aguentavam. Ouvi os soldados gritarem algo e o som de armaduras retinindo no meu encalço. Eles, assim como Loki, eram mais rápidos que eu e se não fosse a distância inicial entre nós, já teriam me pego. Corri me esgueirando pelos becos da pequena vila, derrubando o que achasse no caminho como barris de arenque e carrinhos de mão repletos de frutas para os manter atrasados, mas não adiantava muito. Tinham treinamento militar e pareciam brincar de correr, enquanto eu já estava ficando sem fôlego.
Virei numa rua, derrapando no chão e consegui ver o campo aberto à minha frente e alguns metros mais adiante, a montanha. Na minha mente havia apenas um pensamento: Loki. Se eu chegasse até ele, tudo ficaria bem.
Senti um puxão no braço quase me jogando no chão, porém virei a tempo de acertar com o arco no rosto de quem puxava. Sei que bati forte, pelo barulho de metal ecoando alto como um sino quando acertei o capacete e porque senti a mão me soltar, dando liberdade para continuar correndo. Eu não conseguiria subir aquela montanha, mesmo que não fosse tão alta.
— Loki! — comecei a gritar por ele enquanto corria, o mais alto que meus pulmões cansados permitiam. Para meu choque, um machado passou voando por mim a centímetros da minha orelha. — Loki! Loki! — Uma nova mão me puxou, essa mais preparada, segurou o braço do arco. Me virei para olhar meu atacante. Era um homem alto, de feições duras, e tão musculoso que espantava. Chegara antes dos outro ainda se aproximando depressa e então eu seria completamente dominada. Mal vi seu rosto, me debatendo como estava. Ele dobrou meu braço para trás me fazendo soltar um grito agoniado, contudo não larguei o arco mesmo ao me sentir cair de joelhos. Tive a impressão de ouvi-lo falar algo sobre rendição, mas sua voz foi estrangulada quando a ponta de uma lança o atravessou na altura do pescoço. O aperto afrouxou e o homem tombou sem vida.
Loki estava parado atrás dele, uma expressão de pura fúria no rosto tenso. Nos entreolhamos por um segundo e ele se virou para os outros homens. O príncipe asgardiano brandia a lança com facilidade, empalando aqui e ali, desviando espadas e levando a morte a qualquer um que se aproximasse. Se tinham treinamento militar, Loki era muito superior. Achei que os príncipes deviam receber algum outro tipo de preparo, porque o vendo lutar, pude notar como ele e Thor seriam facilmente mais letais comparados aqueles homens. O único problema era a diferença numérica. Quando os soldados avançavam juntos, Loki precisava recuar para só então continuar atacando. Já havia derrubado três, fora o meu atacante. Eu estava parada olhando tudo aquilo em choque.
Mas os soldados, não haviam esquecido de mim e apesar de ser Loki quem os atacava, um ou outro brandia a espada na minha direção e o deus acabava aparando os golpes.
— Sai logo daqui! — gritou irritado comigo. As palavras devolveram a vida às minhas pernas e eu comecei a subir a montanha. Estava quase na caverna quando me virei para olhar. Ele havia matado mais três soldados nesse meio tempo. Restavam dois atacando, porém, esses eram rápidos e ele estava tendo dificuldade. Pareciam lutar em conjunto com frequência e o atacavam ao mesmo tempo, dificultando a defesa e ainda mais o ataque. Senti medo que não conseguisse. O arco parecia pesar na minha mão. Eu não podia fazer aquilo.
Um dos homens o acertou com o escudo, ao lado da cabeça, o desequilibrando. O segundo ergueu a espada para golpeá-lo. Não me lembro de ter puxado a flecha da aljava. Não me lembro de ter armado o arco. Apenas me lembro da flecha voando e cravando-se um pouco abaixo do pomo-de-adão daquele homem. Ele desabou para trás a armadura retinindo. Loki o olhou caindo, porém, antes que seus olhos me encontrassem como fariam em seguida, eu já havia soltado a segunda flecha contra o outro soldado e preparava a terceira. Ambas se cravaram em seu peito, rompendo a armadura com um estalo. Quando o homem desabou, meus olhos encontraram os de Loki, alguns metros abaixo de mim. Ele sorriu, mas quase instantaneamente o sorriso esmaeceu dando lugar ao meu nome sendo gritado.
Eu não tive tempo de tentar me defender. Quando virei, havia um último soldado ao meu lado. Ele acertou meu rosto com o pesado escudo, acho que gritei antes de desabar no chão, não tenho certeza. O homem brandiu a espada e o melhor que consegui fazer foi empurrar a ponta afiada para longe do rosto, usando o arco. Senti o metal, encontrar minha coxa e soltei um grito, que foi seguido, pelo barulho da espada caindo da mão do homem. A ponta da lança de Loki surgiu em meio ao abdome do soldado, vinda por trás, transpassando a armadura como se fosse feita de manteiga. Loki ainda puxou a lâmina para cima, abrindo o corte, até o osso esterno. O homem arquejou e estava morto antes do deus o afastar da arma com um chute nas costas, derrubando-o ao meu lado.
Me apoiei no antebraço, minha mão tapando o corte sangrento na perna. Não tinha atingido nenhuma artéria, mas eu sangrava o suficiente para me pôr em pânico e certamente nunca seria capaz de estancar aquilo sozinha. Olhei para Loki as lágrimas escorrendo no meu rosto. Ele se ajoelhou ao meu lado, puxando minha mão de cima da perna. Suas sobrancelhas se franziram por um momento, antes que ele virasse os olhos verdes de encontro aos meus, com uma expressão muito séria.
— Loki, não me deixa aqui... por favor... por favor... — supliquei chorando. Se ele me largasse ali, eu iria me desmanchar em sangue. Ele não me respondeu, apenas passou os braços por baixo do meu corpo e me ergueu do chão com uma gentileza que ainda me surpreendia mesmo depois do incidente no centro de treinamento. Minhas flechas que pairavam aos pedaços ao redor de mim esperando espaço na aljava se inteiraram novamente e voltaram aos seus lugares.
— Heimdall — ele chamou. Sua voz era baixa e letal. Nada aconteceu. – Heimdall, ela vai morrer — alertou, dessa vez num tom de voz alto e claro. Fomos envolvidos pela luz colorida e eu não vi mais nada.
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