God of Mischief | Loki
6 Capítulo 5: Depois da tempestade
Notas iniciais
Na manhã seguinte eu levantei. Digo levantei porque não podia chamar aqueles cochilos de sono, então eu não tinha como ter acordado. Apenas levantei depois de desistir dos pesadelos.
Lavei o rosto no banheiro, abri a porta do quarto e vi Jinggles sentado no meio do corredor. Ele me olhou com olhos acusadores. Claro, Loki estava ocupando o quarto que meu gato rapidamente havia se apossado e agora acreditava ser dele. Entrei outra vez ao lembrar que ele estava na casa, passei um pente nos cabelos e lavei o rosto. Eu estava me sentindo cansada, mas bem dentro do possível. Era como se a noite de ontem tivesse sido um pesadelo e Loki tivesse me acordado na hora certa. Podia ter sido muito pior.
Fui direto à cozinha, abri a geladeira e puxei dois cupcakes que havia feito no dia anterior, rosas de glacê decoravam o topo deles, peguei também dois copos de suco de uva, acrescentei uma grande fatia de melancia. Voltei à sala trazendo tudo numa bandejinha que deixei em cima da mesa de vidro. Eu não iria treinar hoje nem sob tortura. Fui até a varanda deixando o sol tocar minha pele. Ouvi barulho na sala. Loki estava parado bem no meio. Ele usava outras roupas que, até onde eu sabia, não tinha com ele ontem. Era a armadura completa que eu o vira usando na batalha de Nova York. Dessa vez não havia capacete. Ele tinha um cheiro amadeirado que eu gostava. Mas eu não tinha perfume masculino no banheiro.
— Como...? — questionei olhando para a roupa. Ele deu de ombros. Típico. — Obrigada por ontem — finalmente agradeci indicando a mesa e colocando o suco e o cupcake no lado oposto ao meu. Ele me encarou certo de que eu era maluca.
— Ich will das nicht — recusou mais uma vez o que eu oferecia, dessa vez em alemão. Muitos anos tinham se passado desde que ouvira meu idioma falado por outra pessoa diretamente a mim. Fiquei olhando para ele por alguns segundos sem saber o que dizer.
— Você não precisa querer — respondi no mesmo idioma. — Estou agradecendo. Apenas aceite a ideia.
— Não sou acostumado a ter muitas pessoas me agradecendo — continuou sem se sentar. Olhei para ele, meu suco a meio caminho dos lábios. Eu realmente não sabia o que responder.
— Bom, eu estou agradecendo — concluí como uma tonta. — Você fez uma coisa boa por mim. Então eu agradeço. — Para minha surpresa Loki pareceu repentinamente chocado. Como se eu tivesse atirado uma pedra nele ou coisa parecida. Puxou a cadeira sentando-a à minha frente e deu uma dentada no cupcake, os olhos fixos em mim. Me senti completamente perdida por um segundo, desviei o olhar e coloquei uma mecha de cabelos atrás da orelha para disfarçar meu desconforto. Terminamos de comer em silêncio. Ele apontou a melancia.
— O que é isso? — interpelou em alemão.
— O que? A melancia? — Perguntei atrapalhada. — Isso é uma fruta. Não tem em Asgard?
— Se tem, eu nunca vi — Esclareceu puxando uma fatia. Encarou por alguns segundos e mordeu com sementes e tudo. Eu ri. Será que Thor tinha feito coisas assim também? — Que foi? — Perguntou friamente.
— Você tinha que ter tirado as sementes — respondi com algum humor. Ele olhou outro pedaço notando-as. Para minha surpresa, ele também sorriu. Esperei que terminasse de comer e lavei a louça em silêncio. Ele foi para a varanda.
Eu não estava acostumada a ter visitas. Desde que deixara as ruas tinha morado sozinha após um breve período com Pepper. E isso fazia um bom tempo. Pelo menos sete anos para mortais era bastante tempo.
O segui para a varanda, onde o encontrei apoiado nos cotovelos olhando em direção a Stark Industries com uma expressão divagadora.
— Nem pense nisso — Alertei. Ele virou, um sorriso brincando nos lábios. Sorri de volta involuntariamente.
— Como você se sente? — Uma pergunta tão simples e gentil que me surpreendeu e discreta o bastante para me deixar falar apenas o que eu quisesse.
— Bem, eu acho. Não sei como não acertei ontem... — desabafei num tom entre a frustração e a culpa. Loki virou-se de costas para a paisagem, mas manteve-se apoiado nos cotovelos.
— Aquele arco era muito grande para você — Me explicou como se falasse com uma criança. Eu sabia, entendi bem do meu esporte. Mas foi o primeiro que vi. Loki era bem gentil quando queria. Não importava o que tinha acontecido, eu parecia ter perdido toda a confiança em mim. Naturalmente eu não diria isso a ele. — Você atira bem. Eu vi o que você fez com o Chitauri. Bem entre os olhos. — Ele disse colocando o dedo entre minhas sobrancelhas. — Até hoje só tinha visto Sif e o Gavião Arqueiro fazendo isso. — Agora me senti realmente elogiada. Eu sabia muito bem quem era o Gavião Arqueiro. Não pude conter um sorriso.
— Você também atira? — Perguntei animada. Ele me deu um daqueles olhares de lado que me deixavam perdida.
—Não, se eu puder evitar. Eu tenho outros truques — A voz dele respondeu, mas não vindo da minha frente como deveria ser. Olhei para a extrema esquerda da varanda. Ele estava escorado ali. Pisquei achando que tinha algo errado com a minha vista. Ambos Lokis sorriram para mim. Quando percebi eu estava rindo. Aquilo era uma completa loucura, mas inegavelmente legal.
— Jarvis, ative os painéis de tiro, por favor — pedi em voz alta subitamente tomada pela animação.
— Sim, senhorita. — respondeu com sua voz vinda das caixas de som.
— Quem exatamente é Jarvis? — O Loki à minha esquerda perguntou. Devia estar me vendo falando com a inteligência artificial desde a noite anterior sem saber onde estava meu interlocutor.
— Digamos que é uma espécie de mordomo e segurança artificial — respondi num resumo prático. Loki voltou a ser um só.
— Então ele não é muito bom no que faz — constatou sério. Aquilo me lembrava que tínhamos um assunto pendente sobre protocolos de segurança.
— Jarvis, o que aconteceu ontem? Por que não pediu socorro? — questionei enfim.
— A senhorita não solicitou. — Eu e Loki trocamos um olhar exasperado. Eu nem tinha pensado na possibilidade.
— Jarvis, eu espero não precisar pedir na próxima vez, ok? — falei brava. Aparentemente em seu protocolo eu não devia constar como prioridade ou algo assim. Loki tocou meu ombro com a mão, trazendo minha atenção de volta.
— Não vai ter uma próxima vez — Sorri resignada ao ouvir aquilo. Eu confiava nele. Péssima ideia, uma vozinha dizia na minha mente. Ele tinha tentado destruir minha cidade e dominar o planeta inteiro. Completamente surreal. E na verdade eu continuava em dúvida se ele tinha me salvado do Hulk ou se Hulk tinha me salvado dele. Afastei os pensamentos dando um tapinha no ombro de Loki. Seu olhar foi do próprio ombro para mim, indignado.
— Vem aqui. — chamei, andando tão rápido quanto meus pés feridos permitiam. Escutei o suspiro impaciente dele me seguindo com passos arrastados. O primeiro quarto no corredor, na verdade havia sido transformado por Tony em um mini centro de treinamento, sendo bastante amplo. Meu arco estava no suporte e os alvos estavam preparados. Loki levantou as sobrancelhas olhando ao redor quase com desinteresse.
Coloquei a luva na mão ralada. Ele sentou numa poltrona de espaldar alto ao lado e ficou observando. Armei o arco e disparei de uma distância de dez metros. Certeiro. Respirei aliviada. Eu sabia atirar.
— Em um alvo parado até um bebê conseguiria acertar — comentou friamente. Estreitei meus olhos virando-me para a sala. Essa era a parte que eu mais gostava.
— Ligue — mandei. Hologramas surgiram das paredes. Eram pessoas ou animais. Todos diferentes e cada um se movendo da sua própria maneira, sem faces reais, completamente inexpressivos como sombras. Coelhos, onças, pessoas, ursos. Tony disse que era pela diversão. Eu tinha amado aquilo.
Comecei a puxar flechas tão rápido quanto podia de dentro da aljava. Disparava rápida e certeira, sem pensar, sem sentir. Se tinha algo que me deixava no controle era o arco e flecha. Cada vez que acertava, a figura sumia e a flecha despencava no lugar, não completando o trajeto, e era puxada pela parede, retornando a aljava por um sistema interno.
— Só mais um, Jarvis, então pode desligar — comandei, separando mais uma flecha. Ele produziu um beija-flor pequeno acima da cabeça de Loki. Fácil. Disparei e para minha surpresa ele agarrou a flecha a centímetros do alvo. Sorriu com escárnio.
— Você é boa, mas nunca será melhor que um deus — falou arrogante, tocando o holograma com a ponta da flecha, o fazendo sumir. Fiz uma careta para ele. Na verdade eu estava bem impressionada. Já tinha visto Thor em ação, então só podia esperar que fosse tão incrível quanto.
— Não está na hora de você ir, não? — resmunguei colocando o arco no suporte. Ele ficou sério. Olhou para o céu, pela janela.
— Só amanhã — afirmou tranquilo. Estava planejando ficar ali até amanhã? Bom... tudo bem. Eu realmente não me oporia.
— Vou me trocar e a gente pode ir almoçar, ok? — decidi passando por ele. Entrei no meu quarto sem dar chance de resposta.
Dez minutos depois eu estava na sala usando uma calça jeans, uma regata vermelha e sapatilhas pretas. Loki havia encontrado o pacote de ração e alimentado Jinggles por conta própria e estava agachado ao lado dele acariciando as costas do gatinho, enquanto ele comia. Olhei para o deus por alguns segundos. Não parecia uma pessoa ruim. Era meio antipático, porém aquilo parecia tão forçado que eu não me convencia de que fosse ele de verdade. No geral era educado e gentil. Meio quieto demais para o meu gosto. Ele me notou parada olhando. Fiquei vermelha instantaneamente. Ele sorriu. Todos os deuses tinham dentes perfeitamente alinhados e brancos?
— Você não vai se trocar? — perguntei tentando quebrar o silêncio. Não era questão de estética, contudo podia imaginar que na atual situação dele talvez não fosse interessante chamar atenção demais e sua roupa certamente o faria.
Não sei como, mas repentinamente ele vestia um terno preto com uma gravata e uma e echarpe de seda verde e dourada caída sobre os ombros. Acho que devo ter ficado de boca aberta porque ele riu. Era meio formal demais, mas ficava bem nele. Loki se pôs de pé e passou por mim, abrindo a porta e esperando que eu passasse. Acho que o hospedar até amanhã não seria tão ruim.
— Vamos almoçar fora, porque de todos os lugares de Nova York eu escolhi me hospedar no único que só tem melancias — Ou vai ver seria.
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