God Save the Prom Queen
1 Capítulo 1
Notas iniciais
I
“Don't ask me how or why, but I'm gonna make it happen this time
My teenage dream tonight”¹
— Pai, pode parar aqui. – uma garota falou sentada no banco de trás.
Ela já tinha mais do que idade suficiente para ir no banco da frente, mas preferia continuar no banco de trás com os vidros fechados. O vento bagunçava seus cabelos e aquilo não era aceitável, principalmente hoje.
— Tem certeza, princesa? Eu posso te deixar na porta do colégio. – o pai argumentou.
— Não precisa. É mais rápido se você entrar aqui. Não quero fazer você chegar atrasado no trabalho. Eu posso andar alguns metros.
— Se você prefere assim, tudo bem. – ele falou um pouco desconfiado, encostando o Volkswagen Gol prata próximo ao meio-fio. — Boa aula, princesinha.
— Obrigado, pai. Não me precisa me chamar assim. Eu não sou mais uma garotinha. – ela falou pegando a mochila e abrindo a porta do carro.
— Você sabe que sempre será meu bebê, não sabe? – ele objetou.
— Certo. Tchau, pai – ela falou revirando os olhos.
Zelda Little saiu do carro e começou a caminhar até a praça. Zelda... Aff. Ela odiava aquele nome. Ela sempre era a última da lista, a última a sair e era impossível passar despercebida. Sem contar com todas as piadinhas sem graça que sempre se repetiam desde a infância. As pessoas sofriam de um caso terrível de falta de criatividade.
Por causa de uma aposta, o pai dela ganhou o direito de escolher o nome do bebê, mas sua mãe fez uma condição: tinha que ser um nome de princesa. Nerd de carteirinha como ele é, seu pai escolheu o nome Zelda, por causa dos famosos jogos da Nintendo. E sua irmã mais nova se chama Leia, por causa de Star Wars. Sua mãe estava grávida de um menino e ela tinha medo que o pai botasse o nome do coitado de Frodo ou Gandalf.
— Não acredito que você chegou depois de mim em alguma coisa nessa vida. Quem é você e o que você fez com a minha amiga? – uma voz aveludada falou.
A voz pertencia a Anita, a melhor amiga de Zelda. Elas eram melhores amigas desde sempre. Seus pais eram amigos e vizinhos, então a ligação aconteceu de uma maneira muito natural e continuava firme e forte até então. Elas se abraçaram assim que se viram.
— Eu tive que enrolar me arrumando. Não queria ser a primeira a chegar. – ela reclamou.
— Uau! Quem é você e o que fez com a minha amiga? – Anita comentou cutucando a amiga com o cotovelo.
— Foi tão difícil, não sei se vou continuar fazendo isso.
— Vai por mim, chegar atrasada é viciante. Antes que você se dê conta não vai mais conseguir parar. Até ser chamada para a sala do diretor.
Zelda fez uma careta e começou a andar com a amiga.
Era o primeiro dia de aula do segundo ano do colegial para as duas. Não bastassem as matérias novas, professores novos e a pressão de um novo ciclo chegando, as garotas estavam entrando em uma nova escola. Mas, não era qualquer escola e sim a melhor escola da cidade, Lincoln High. A instituição era privada, mas por causa de seu caráter filantrópico fazia uma prova todo final de ano letivo oferecendo bolsas para os melhores colocados. Era o sonho de qualquer pai ter seu filho estudando com os melhores e não pagando nada por isso. Além de ser a melhor escola da cidade, estava entre as melhores da região e a maioria de seus alunos entravam em renomadas universidades por todo o país. Grandes personalidades locais passaram por ali.
As meninas fizeram a prova e foram muito bem, Zelda ficou entre as cinco primeiras colocadas. E agora, com as bolsas de estudo, elas estavam entre os herdeiros das poderosas famílias da cidade.
Santa Emilia é uma cidade mediana próxima ao litoral californiano. Ficando a uma hora e meia de carro de Los Angeles, a cidade era muitas vezes usada como dormitório para aqueles que não conseguiam manter o alto custo de vida de L.A. Sua economia é baseada em serviços, servindo como um suporte para as cidades maiores em volta dela. Zelda havia nascido e crescido ali. Amava aquela cidade e estava prestes a conhecer um novo lado dela.
— Animada para o nosso primeiro dia de aula? – Anita perguntou dando um gritinho de felicidade.
— Bem... Mais ou menos. Estou curiosa para saber como vai ser lá..., mas eu ainda queria estar de férias. – Zelda falou soltando um suspiro alto.
— E quem não queria, né? Mas eu estava feliz por estar de volta à cidade. Não aguentava mais ficar no sítio da minha avó. Ficar sem internet é péssimo. Quando voltei para cá tinha mil mensagens para responder – Anita falou pegando o celular. Sua capinha era cor de rosa com um unicórnio estampado e cheia de brilho.
A garota aproveitou e tirou uma selfie das duas. Zelda deu uma piscadinha e Anita botou a língua para fora.
— Eu estava com saudades. – ela abraçou a amiga.
— Eu também. Vai lá em casa depois da aula? – Anita perguntou depois que se separou.
— Com certeza. Temos que nos preparar para amanhã à noite – Zelda disse
— O que vamos fazer amanhã à noite?
— A mesma coisa de todas as noites, Anita, tentar conquistar o mundo. – ela falou rindo
— Ou a Lincoln High, pelo menos. – a outra completou em meio às risadas.
As garotas eram como carne e unha e estavam sempre juntas. No colégio anterior, elas eram conhecidas como Pink e Cérebro; Anita era Pink porque era sua cor favorita e Zelda era o Cérebro, por causa das suas notas perfeitas e sua expressão sisuda. No começo elas não gostavam dessa denominação, mas depois acabaram levando na esportiva e aceitaram a brincadeira.
Assim como as garotas, um bom número de alunos estava chegando a pé ao colégio porque se situava numa região bem localizada no centro da cidade. Entretanto muitos alunos chegavam nos carros demasiado caros de seus pais ou nos seus próprios carros. Eles não pareciam ter vergonha dos pais como Zelda tinha. Pareciam mais orgulhosos da herança e tradição. Mas Zelda tinha certeza que ninguém tinha um pai tão maluco e sem noção como o dela.
Elas viraram a esquina e já estavam quase dentro do colégio. A grande calçada de concreto que havia à frente dos muros do colégio servia como ponto de encontro dos alunos antes de entrarem no espaço da instituição. O muro era feito de tijolo maciço aparente com espigas de ferro nas pontas. O portão era grande e também feito de ferro com vários arabescos dourados que se retorciam um dentro do outro. No centro do portão, o nome da escola estava escrito em tipologia antiga.
— Caramba, isso aqui é enorme. – Anita exclamou arregalando os seus grandes olhos cor de mel.
E realmente era. O colégio ocupava dois quarteirões cercados por muros altos para dificultar qualquer aluno que tentasse fugir das aulas. O prédio principal era bem largo e tinha quatro andares. Tinha um frontão triangular que se destacava do resto da edificação como nos templos gregos que Anita sempre via nos livros de história. Uma grande águia dourada ficava no topo do prédio, era o símbolo do colégio. Ele tinha grandes colunas de mármore sustentando o teto e o hall ia até o telhado. O prédio tinha sido construído num nível mais elevado no chão então ele parecia brotar do solo e tinha uma escada larga de mármore branco para chegar até lá.
— Eu não tinha noção da quantidade de gente que estuda aqui – Anita comentou observando o estacionamento se enchendo de alunos que chegavam de carro pelo portão secundário.
— Pois é. Tem tanta gente bonita e eles parecem muito mais a vontade nesse uniforme – Zelda falou ajeitando os seios medianos na camisa branca de botões.
Ela começou a se questionar se devia fazer algo mais ousado, como abrir um botão a mais. Ao contrário da maioria das escolas americanas, Lincoln High fazia questão do uso do uniforme. Era uma forma de demonstrar orgulho e prazer de estar na instituição. Também era uma forma de diminuir a segregação, considerando o número de bolsistas que não compartilhavam a mesma condição dos alunos pagantes. O uniforme usava as cores da escola: branco e azul, com detalhes em vermelho. Sapatilhas pretas, meias brancas três quartos, saia plissada azul marinho, blusa branca de botões e um blazer azul marinho com o brasão da escola em vermelho no lado esquerdo. A diferença nos uniformes para os meninos era o uso de calça e sapatos sociais.
— Relaxe. Estaremos acostumadas com o uniforme em algum tempo. Os britânicos usam isso o tempo todo. – Anita a tranquilizou e ajeitou os cabelos castanhos cacheados.
— Certo. – Zelda falou não muito convencida ajeitando os óculos Wayfarer de armação azul com o dedo indicador — Vamos entrar?
— Sim
Zelda respirou fundo, deu um sorriso confiante e começou a andar determinada até a guarita. Anita a acompanhou e logo estavam andando da mesma maneira.
— Bom dia, meninas. Tenham um bom ano letivo. – o porteiro as cumprimentou enquanto checava suas carteirinhas.
— Obrigado. – agradeceu gentilmente — Esse ano vai ser incrível – Anita falou e deu uma piscadinha para a amiga.
Elas admiraram a beleza da instituição, todos aqueles alunos e a riqueza que eles ostentavam desde o uniforme de tecido fino aos materiais refinados do prédio. Era um pequeno gosto do mundo que elas queriam fazer parte. E elas estavam dispostas a permanecer nele o máximo que pudessem e o primeiro começava naquele exato momento.
— Nosso reinado está para começar
¹ “Não me pergunte como ou porquê, mas eu vou fazer acontecer dessa vez / Meu sonho adolescente esta noite” The Fame – Lady Gaga
Fale com o autor