Glory and Gore

1 Largo Grimmauld, número 14


A Sra. Draper andava apressada ao lado de filha de 11 anos, que estava encantada nas milhares lojas do Beco Diagonal. Seu marido estava comprando os livros do primeiro ano letivo da filha, enquanto ela ficava de olho na pequena de cabelos até os ombros o tempo todo, pois sabia como a filha era e poderia sair correndo a qualquer momento.

A mãe mal tirara os olhos da garota, o fez apenas para tentar enxergar o marido dentro da loja, quando a menina entrou em uma onde uma Nimbus 1500 estava exposta.

— Mãe! – a garotinha gritou, correndo até a mãe depois de vinte minutos contemplando a vassoura. – Mãe! Uma Nimbus 1500! Deve voar demais! Li que com o mínimo movimento ela vira, e os bruxos que a compraram dizem que voa mais rápido do que o prometido! Extremamente rápido! Papai...!

Ela não parou para respirar e sorriu abertamente quando viu o pai saindo da loja com vários livros.

— Está bem, Edwina, quem sabe no seu aniversário de 12 anos. – Sr. Draper sorriu, orgulhoso por talvez conseguir dar um presente tão maravilhoso para a filha.

— Sério? – Edwina ignorou o fato de a ter chamado pelo nome. Nunca gostou, sempre achou estranho demais.

— Quem sabe... – sua mãe sorriu e pegou a mão da garota. Viajando pela rede de flu, chegaram em casa.

Já no seu quarto, Edwina pegou o telefone que havia emprestado de sua avó trouxa, um extremamente antigo, e, lendo os números escritos em um pedaço de papel que estava jogado no chão de seu quarto, a garota ligou para sua melhor amiga, uma menina trouxa de doze anos.

Após alguns segundos, Edwina ouviu a voz conhecida do pai de sua amiga.

— Alô? – falou com a voz um pouco rouca.

— Sr. Kevich? – a garota sorriu, um pouco desconfortável. Não usava os meios de comunicação trouxa muito frequentemente. – É a Edwina, a Cassie está?

— Ah, olá, Wina! – o homem sorriu. – Está sim, vou chamá-la daqui a pouco. Vai para a nova escola quando?

— No fim dessa semana, senhor. – ela o informou. Um dos motivos pelo qual Sr. Kevich adorava a garota era pela sua educação. Não estava acostumado a adolescentes falando “senhor” em seu cotidiano.

— Acha que vai gostar do internato? – seus amigos trouxas achavam que Edwina iria estudar em um internato com aulas especializadas em alemão e francês, que era a origem da família de seu pai e sua mãe, respectivamente. Sr. Kevich sempre admirou o esforço da garota.

— Sim, as aulas são fantásticas e tenho plena certeza de que os bru... Os alunos novos vão ser ótimos! – ela se interrompeu rapidamente. – Mas, hm, senhor...? Posso falar com Cassie? Quero me despedir já, vou devolver o telefone aqui de casa para minha vó hoje de noite.

— Ah, claro, Winny! – ele riu, ainda não entendendo a organização da família Draper. Quem daquela classe social não tinha um telefone em casa? – Enfim, boa sorte no internato e bom fim de férias!

Edwina agradeceu e enquanto esperava a amiga observou seu quarto. A garota estava sentada na cama, de pernas cruzadas, que ficava no meio do quarto, entre a janela e porta. As paredes estavam pintadas de branco e com algumas imagens de jogadores de quadribol coladas. Havia um jogador da Irlanda, Gael Roanan, que socava o ar depois de marcar 10 pontos para seu time.

— Winny! – a bruxa ouviu a voz de sua melhor amiga e sorriu, um pouco chateada por não poder contar para ela a verdade, sabendo que a amiga iria amar. – Olá! Como você está? Já estou imaginando aquela escola sem graça pra qual eu vou. Sabia que tenho que usar uniforme e tenho que ficar sempre com o cabelo preso?

Cassie começou a falar sem parar, não dando chance para Winny abrir a boca. Acabaram conversando por praticamente uma hora, ambas querendo poder falar para sempre. Falavam rápido, alto e riam de bobagens.

— Acho um saco não conseguir falar com você durante o ano letivo. – Cassie bufou.

— Eu sei... – Winny concordou. – Posso mandar cartas, na verdade...!

— Cartas? – a amiga riu. – Que escola rígida, hein, Wina!

Edwina revirou os olhos ao ouvir o apelido que tanto odiava e Cassie riu, sabendo que isso acontecia.

Winny ouviu o pai a chamando, avisando que o jantar estava pronto. Ela gritou em que já estava indo em resposta, mas continuou falando com a amiga por mais vinte minutos, até ouvir a mãe gritando.

— Edwina Freya Encausse Draper! O jantar!

— Ferrou... – ela murmurou e se despediu da sua amiga, dizendo que por mais idiota que Cassie achasse, iria mandar cartas para ela de qualquer jeito.

Edwina desceu as escadas da casa, encontrando seus pais sentados na mesa próxima à sala cheia de livros e cadernos de anotações. Não era à toa que ambos foram da Corvinal quando estudaram em Hogwarts. Winny passara a maior parte do tempo naquela “pequena biblioteca” quando era menor e fora lá que aprendeu seu amor pela leitura.

Seu pai, um homem alto e com uma pequena barriga, de cabelos negros bagunçados que estavam sendo controlados ultimamente, colocou os óculos quadrados quando terminou de limpá-los com um feitiço.

— Fomos convidados para um jantar na casa dos Black amanhã. – Edwina ouviu, enquanto descia as escadas, o pai contando para a Sra. Draper, que era minimamente mais baixa que o marido. Tinha longos cabelos loiros e olhos cinzentos.

— Ah, não, os Black?! – Edwina se sentou ao lado da mãe e já colocou macarrão em seu prato. A garota era uma mistura perfeita dos pais. Cabelo castanho claro e olhos âmbar. 50% de cada.

— Sabia que ouviria isso de alguma das duas. – John disse, também se servindo. – É só um jantar, filha.

— Mas eles sempre falam como a Sonserina é a melhor casa, e como sangues-puro são melhores e blá blá blá...! – a garota imitou a voz do patriarca da casa, que conhecera apenas uma vez, mas já tinha isso claro em sua mente: não gostava dos Black. – Sério, pai, como consegue ouvir isso sem falar nada? Quer dizer, sua mãe é trouxa.

— Winny... – seu pai suspirou. — É mais complicado que isso. Precisamos ir, estou trabalhando em algo com eles.

— Como assim? – a garota franziu as sobrancelhas. – No que?

— Não posso lhe contar agora, não é mesmo, Anthea? – a loira assentiu com a cabeça e rapidamente mudou de assunto, contando para a filha como seria seu primeiro ano na Escola de Magia e Bruxaria, o que distraiu Edwina por algum tempo, mas não tirou da mente dela o que seu pai estaria fazendo com os Black.

Depois do jantar, a família estava na sala de estar, cada um lendo um livro. A sala tinha as cores da Corvinal no tapete e nas cortinas, que eram leves e deixavam uma brisa suave entrar. Anthea e John estavam na mesma poltrona gigante cor de cobre, abraçados, e o Sr. Draper apenas tirava os olhos das palavras para olhar para sua mulher e filha.

— Quando conheceu os Black, papai?

Quando ouviu as palavras de Winny, fechou o livro e tirou o braço do redor de sua esposa. Edwina estava de bruços no tapete azul, balançando as pernas.

— Quando Sirius nasceu, filha, foi quando comecei a trabalhar no Ministério. – sua voz estava levemente falha. – Você veio algumas semanas depois.

— Não estudaram juntos em Hogwarts? – Edwina virava as páginas do livro de ficção que lia, como se não quisesse nada, mas seus pais entenderam onde ela queria chegar.

— Sim, Edwina. – Anthea falou firme. – Acho que já é hora de dormir, ahn? Vou pegar o telefone que sua vó emprestou e devolver para ela, ok?

A garota franziu as sobrancelhas e assentiu, subindo as escadas de dois em dois degraus, ainda querendo saber o que estava errado com seu pai. Ela sabia que os pais não eram inimigos dos Black, mas também não iam a jantares em sua casa.

Sabia que o Sr. Draper tinha orgulho de ser mestiço e não aguentava ouvir nada sobre essa coisa de “sangue-puro” que percorria pela mente dos Black. Agora, o mais estranho para Winny, era saber que aquela família convidara um mestiço para um jantar.

Edwina não se forçou a dormir porque sabia que não iria conseguir pregar o olho. Estava extremamente animada para ir para Hogwarts no fim daquela semana e tinha certeza de que suas expectativas eram menores que a realidade. Mal conseguia esperar para saber todas as coisas sobre alquimia, coisas que seus pais não explicavam para ela. Edwina sabia que havia mais do que nos livros de sua casa.

Hew Draper, seu antepassado, tataravô de seu pai, fora um famoso alquimista, que foi preso por ser bruxo. Não admitiu ser, apenas dissera que se interessava por magia e que já havia queimado todos seu livros de alquimia, quando, na verdade, o escondera com um dos filhos, que fugira para Londres.

A parte de um dos livros de Hew Draper que Winny mais gostava era a seguinte metáfora de mudança de consciência: a ideia da transformação de metais em ouro. A pedra simples seria a ignorância que é transformada em ouro, a sabedoria.

Edwina achava interessantíssimo que alguém da sua família – mesmo que extremamente distante –, tivera contato com Nicolas Flamel e acha extremamente engraçado como os trouxas acreditavam que “bronze, mercúrio, titânio e iodo”, por exemplo, eram simples palavras, quando na verdade eram apenas códigos para confundir leitores indignos – trouxas.

A garota se confundiu um pouco com as informações e, tentando se recordar se os códigos eram dos livros de Draper ou Flamel, desceu as escadas correndo e cuidadosamente, já de pijamas xadrez azul, apenas para ir até a sala de estar e pegar mais alguns livros de Hew Draper e Nicolas Flamel.

Segurando cinco livros extremamente grossos, a garota fechou a porta de seu quarto e apagou as luzes, acendendo em seguida um abajur que consistia em milhares de vagalumes falsos dentro de um potinho, tocando duas vezes rapidamente no vidro.

Edwina não dormiu aquela noite, só queria conseguir ler mais rapidamente, já que as informações eram tantas, e tão interessantes! Era comum que a garota conversasse com o pai sobre como era frustrante ter um limite de coisas que ela podia aprender, apesar de o Sr. Draper não concordar com isso.

No dia seguinte, Winny jogava xadrez com a elfo doméstico da família, Mika. A elfo usava um laço azul na cabeça que combinava com seu vestido, que Edwina havia lhe dado quando era pequena. Desde aquele dia Mika recebia um salário.

— Mika? – a garota a chamou, depois de fazer uma jogada. – Por que será que papai saiu tão nervoso daqui?

Apenas Edwina e o elfo estavam na casa dos Draper, que haviam saído para o jantar na casa dos Black. Winny não deve que tentar convencer os pais a não ir, eles mesmos falam que não seria interessante a garota acompanhá-los.

John Draper desceu as escadas com cara de assustado enquanto arrumava a camisa de botões. Edwina, que estava acostumada a ver o pai sempre feliz e com a pele morena, ficou extremamente preocupada com a palidez dele. Ficou mais preocupada ainda quando sua mãe não pareceu notar.

Winny jantara com Mika e estavam há uma meia hora jogando xadrez no estilo trouxa, mexendo as pecinhas. Ambas acharam extremamente divertido, sem ter que falar em voz alta as coordenadas.

— Mika não sabe, senhora... – Mika murmurou. – Mas... Os Black, certo?

Winny entendeu o olhar da elfo e não poderia lhe dar mais razão.

— Então por que será que meus pais concordaram de ir jantar lá?

— Negócios, senhora Edwina. – o tom de Mika deixava claro que não deveriam continuar com a conversa. Jogaram em silêncio por mais dez minutos, quando Winny começou a falar.

— Não acha, Mika, que deveríamos ir a Hogsmeade? Você precisa provar a cer... – a garota foi interrompida pelo som da campainha. Winny franziu as sobrancelhas. — Mamãe e papai iriam simplesmente aparatar, não é?

Mika assentiu e ia se levantando, porém Edwina pediu para ela parar. Winny se levantou, prendendo o cabelo rapidamente.

— Vou atender, Mika. Não mexa nas peças! – ambas sorriram. A garota puxou a camisa do pijama mais para baixo e abriu a porta, franzindo as sobrancelhas quando viu os cabelos negros de Sirius Black, que estavam necessitados de um corte. Winny não percebeu que quase revirou os olhos. – Sim?

— Oi, Edwina. – Black deu um meio sorriso. Mal sabia que ia aperfeiçoar esse gesto. – Meus pais disseram que você tinha ficado em casa, já que estão falando de negócios. Então... Quer fazer algo?

— Não tinha que ficar nesse jantar, Black? – Winny deu um passo para trás, deixando o garoto entrar.

— Não aguento mais meu irmão. – Sirius colocou o cabelo para longe dos olhos. – Saí pela janela. Não moramos longe, sabe.

Ele parou de falar quando viu Mika olhando desconfiada e com certo receio para ele.

— Você tem um laço?! – o garoto sorriu, acostumado com o pano surrado de Monstro. Mika assentiu com a cabeça, amedrontada e se virou para Edwina.

— Aceitam um chá, senhores? – perguntou com a voz esganiçada.

— Não, Mika, obrigada. Pode descansar se quiser. – Winny respondeu depois de ver Sirius negar com a cabeça. A elfo murmurou um “com licença” e saiu da sala de entrada do casarão dos Draper.

— Sua casa é legal, Edwina. – Black exclamou. Winny não se surpreendeu pela expressão do garoto.

Há três anos estivera na casa dos Black quando sua mãe fora entregar alguns livros de sua livraria. Achou estranho na época, já que Anthea nunca fazia as entregas de pedidos. A garota lembrava-se de como a casa deles era escura e com um ar sombrio, decorada com verde e prata. Edwina ficou curiosa aos oito anos de idade pela pintura da árvore genealógica daquela família, porém não teve muito tempo para analisar.

Já a casa dos Draper era arejada e luzes sempre invadiam os cômodos mesmo com as cortinas fechadas.

— Wow, vocês são corvinos mesmo, hein? – Sirius sorriu, percebendo que enxergava um livro e um caderno de anotações em todos os cômodos que conseguia ver.

— Meus pais. – Edwina respondeu, se sentando em um banco da cozinha, feita praticamente de madeira clara. O acolchoamento dos assentos eram azul marinho, intercalando com almofadas cor de bronze.

— Você não? – Sirius levantou as sobrancelhas, se sentando ao lado da garota.

— Nunca nos falamos por mais de três segundos, Black. Não me conhece.

O garoto abriu a boca, mas não tinha argumentos. Realmente estava tirando conclusões precipitadas da menina que sabia apenas o nome.

— Posso até ir para a Sonserina. – Edwina sorriu brincando, fingindo um ar de superioridade.

Sirius riu, agradecendo mentalmente por ter pulado a janela do quarto para bater na porta de uma pessoa que mal conhecida.

— Pelos sonserinos que conheço, você já teria se matado por ser filha de um mestiço. – Black murmurou, realmente triste por só ter influências ruins daquela casa.

— Ah, vocês sabem? – Edwina pareceu surpresa por alguns segundos. – Achei que os Black nunca convidariam alguém assim para um jantar.

— Ei...! Nem todos os Black! – Sirius se defendeu. – Mas quem sabe meus pais estão evoluindo?

Edwina sorriu um pouco surpresa. Há Blacks que se salvam, pensou. Que não têm pensamentos tão arcaicos.

Os dois bruxos ficaram por quase duas horas conversando – com pequenos silêncios constrangedores nesse intervalo – e comendo sapos de chocolate, trocando as imagens que já tinham dos bruxos que apareciam nas embalagens. Iria bater três horas de conversa quando Sirius saiu correndo ao ouvir o Sr. e a Sra. Draper chegando. Se perguntou se sua mãe estaria furiosa ou se havia percebido sua ausência.

— Até a plataforma, Edwina. – ele murmurou, tirando os cabelos de rosto.

A garota engolia um pedaço de chocolate e não conseguiu respondê-lo, mas acenou e apagou a luz da cozinha, disfarçando que estivera ali.

Os pais de Winny aparataram no andar de cima, achando que a filha já dormia.

— Você trabalha no Ministério, John! – ao subir as escadas silenciosamente, Edwina ouviu sua mãe exclamando em um sussurro alto.

— Cuidando de artigos trouxas, Anthea! – Sr. Draper respondeu no mesmo tom, claramente irritado e pressionado.

— Mas trabalha no Ministério! Poderia dar um empurrãozinho! Sabe que o próximo passo é o Departamento de Oculta...

— Se você está confortável em vender aquele livro na sua livraria, ok! Mas não me obrigue a mudar o meu trabalho, Anthea!

— John, escute-me...! – a loira disse em um tom um pouco mais alto e foi interrompida pelo marido.

— Irá acordar Winny! – ele a repreendeu, porém seu tom era até mais alto que o da mulher.

Edwina já estava em seu quarto, com a porta encostada, tentando ouvir o máximo que conseguia.

— Está decidido, Anthea, não concordo com Rad...

— Riddle! – foi a vez da loira o interromper.

— Não ligo para esse nome, Anthea, sinceramente! Por algum acaso ouviu o que o Black disse?! Irão acabar com parte da minha fa...

— E meus negócios, John? Isso não importa?

Sr. Draper respirou fundo, não acreditando que ouvira aquilo. Ele queria apenas questioná-la: quer comparar livros a pessoas, Anthea?, mas tinha medo da resposta.

— Você mal os vê, John...!

— Você nega, Anthea, mas é igual ao seu tataravô...

Edwina ouviu a porta do quarto dos dois se abrindo e correu para sua cama, ainda com a cabeça a mil, tentando encaixar as pequenas informações que conseguira. Viu uma pequena luz invadir seu quarto e fechou os olhos, sentindo seu pai lhe beijar a testa e sussurrar:

— Boa noite, Winny. Sei que sangue não irá definir o seu caráter.

Após alguns segundos afagando os cabelos da filha, John se levantou e fechou a porta do quarto de Edwina.

A garota abriu os olhos e olhou para o calendário, onde, dali três dias, havia um círculo feito de caneta vermelha no dia em que iria pegar o Expresso de Hogwarts.