GlassAI - Dramione
1 Capítulo 1
Eu queria muito não ter que viver no mundo real. Na verdade, sempre foi um fardo viver. Contudo, como diria minha mãe, a realidade é melhor do que uma mentira doce, pois essa mentira em algum momento é exposta. Como um castelo de areia, pode afundar com as ondas. A realidade, no entanto, não me era atraente. Eu sempre estava preocupada com o futuro e o que precisava fazer, para sobreviver a tudo. Meus pais não tinham condições para manter a família. Muito menos, meus sonhos irreais.
Suspirei olhando para a tela do computador. Eu sabia que precisava continuar a trabalhar, mas me faltava forças. Eu trabalhava em um escritório de cobranças, fazendo as cobranças via telefone ou mensagem. A pior parte era o telefone. Os clientes quase cem porcento das vezes estavam irritados. E gritavam ao atender. Ou não atendiam. Eu simplesmente não suportava mais aquela rotina. Era exaustivo suportar 10 horas de trabalho. No final de semana eu simplesmente dormia, pois não suportava mais aquela rotina.
Naquela manhã, eu faria uma entrevista, finalmente, para o cargo que tanto queria. De design de produtos. E não era qualquer produto. A empresa que havia me candidatado trabalhava com realidade virtual. A faculdade que havia cursado, finalmente valeria. O trabalho na cobrança era só uma forma de pagar meu crédito estudantil para o curso de Design. E finalmente, eu teria chance de participar do processo de criação de algum produto. E não era qualquer produto. Eram óculos de realidade virtual, contudo não eram comuns, por exemplo, para ver projetos de plantas. Os óculos prometiam a imersão completa em uma realidade que imitaria o que vivemos no mundo real. Gostos, cheiros, tato. Os cincos sentidos seriam testados naquele projeto. E eu faria parte daquela equipe. Estava animada, pois eu sabia programar.
A entrevista fora basicamente conhecer o prédio, as instalações do local. A recrutadora era uma das sócias do negócio e parecia muito animada. Então, foi ali que aconteceu. De fato, eu não imaginava que encontraria algo tão surpreendente. Entramos em uma sala e ela me mostrou o protótipo, ainda em fase de teste. Meu trabalho, no entanto, era a parte de remodelar o produto, pois os óculos eram robustos, com uma armação pesada. Havia um fio que se ligava aos óculos, que o usuário deveria colocar nas temporadas. Sentei-me na cadeira confortável de couro, conforme instrução da recrutadora e fiz o teste. O que senti, no entanto, não era como ver um filme e ser mera espectadora. Alguns óculos tinham aquela facilidade. Eram simples e práticos, com design elegante. Mas, aqueles óculos prometiam outro tipo de realidade. Todos os meus sentidos estavam conectados. Era como se de verdade, eu estivesse ali, naquele cenário. Emily, a recrutadora, havia dito que o cenário seria dentro de uma biblioteca, no estilo de Oxford. Ali eu encontraria uma espécie de guia. A intenção da empresa era desenvolver uma inteligência artificial, que poderia auxiliar qualquer pessoa, em seus projetos. E cada óculos seria feito sob medida. Por enquanto, eles estavam testando o protótipo, para criar uma espécie de jogo de RPG. Mas, naquele dia, eu não estaria como jogadora, mas encontraria apenas a inteligência artificial.
Adentrei a biblioteca, sentindo o cheiro de livros guardados há muito tempo. Esperando para serem abertos. Eu escutava o eco dos meus passos no chão quadriculado, preto e branco. Podia ver imensas estantes, repleta de livros de couro. E a minha frente estava um rapaz, atrás de um balcão. Parecia me esperar. Seus cabelos loiros, tão claros, o deixavam com um aspecto angelical. Cheguei mais perto, vendo sua aparência. Eu imaginei que veria um gráfico de jogo, com baixa qualidade, mas o que via diante de mim era uma pessoa. Alguém muito real e palpável.
— Olá – ele disse, com um sorriso amistoso – Em que posso ajudar?
Eu não sabia o que dizer. Ela havia dito apenas para conversar com a inteligência artificial e tirar minhas impressões.
— Por favor – comecei – Eu gostaria de saber como funciona, er...
Eu não sabia nem por onde começar.
— Como funciona o jogo? – ele perguntou, solicito – Você teria que passar por aquela porta – apontou, uma porta dourada, atrás dele. O corredor era extenso, repleto de estantes de livros – E escolher seu personagem. Gostaria de tentar?
— Não, eu...- Eu queria dizer que não jogava. Na verdade, jogos de computador não eram o meu forte. E tom dele era mecânico. Não havia humanidade em suas expressões – Gostaria de saber, qual é seu nome?
— O nome é escolhido pelo usuário dos óculos – ele respondeu – Qual o nome você gostaria que eu tivesse?
Eu nem sabia, na verdade. Não queria lhe dar um nome.
— Por enquanto, eu não sei – respondi, sincera – Me diga, quais suas funções aqui, nesse lugar?
— Eu recepciono os jogadores – ele respondeu – E os ajudo a montar seu próprio perfil. Mudar de aparência. Dou as melhores dicas para a jogada. Pela sua aparência, você seria uma boa arqueira.
Eu ri, pois, ele não poderia saber se eu seria ou não uma boa arqueira. Continuei conversando com ele, como se fossemos bons amigos. Mas, suas respostas eram um circuito fechado. Ele sempre respondia que questões pessoais não eram da alçada dele. Ele só poderia me ajudar no jogo. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas resolvi que já era o momento de partir. Me despedi dele, mesmo sabendo que não precisaria, apertando o canto esquerdo da têmpora, conforme Emily havia orientado.
*-*
— Então, o que achou? – Emily perguntou, assim que retirei os óculos.
Acostumei minha visão a luz da sala. Deixei os óculos pesados sobre a mesa e massageei as têmporas.
— Acredito que poderíamos melhorar o design dos óculos, deixando os mais leves. Acho que podemos fazer isso – respondi, confiante. Emily sorriu.
— E da nossa inteligência artificial? O que achou? Deu um nome para ele?
— Er...não – respondi, sincera – Eu não consigo imaginar ainda qual seria o melhor nome.
Ela riu, não parecendo decepcionada, ou ofendida.
— É a mesma coisa que o inventor que criou ele fala. Eu sinceramente, não sei por que ele quer que o nome fique com a equipe que vai cuidar dos óculos.
— Talvez, ele não tenha programado ele de forma humana – comentei.
— É verdade – ela concordou, passando a mão pelo queixo – Ele parece aquelas inteligências artificiais comuns, de cem anos atrás. Parece que o protótipo ainda segue a lógica e não as emoções humanas.
Eu concordei. Já era possível criar uma inteligência que demonstrasse afeto, mas eram poucos os protótipos que tinham se desenvolvido daquela forma.
— Será um trabalho difícil – ela continuou a falar – Mas, tenho certeza de que vamos conseguir chegar nisso.
Anuiu com a cabeça, sem realmente saber como ajudaria nessa parte. Eu poderia avaliar o produto e junto com a equipe de programação, ajustar os óculos, para se tornarem mais leves e compactos. Mas, não poderiam ajudar mais profundamente na parte da programação em si. Eu não saberia o que fazer. Apesar disso, estava curiosa em aprender.
Ao sair do prédio, ainda absorta nos pensamentos, pensando em como contribuir com aquele projeto, que não notei nada à minha frente e esbarrei em algo. Ou alguém. Olhei para o lado. Era uma pessoa. Um homem, na verdade. Algumas folhas caíram no chão e me abaixei para juntá-las, ao mesmo tempo que ele. O rapaz usava uma máscara no rosto e um boné. Só consegui ver seus olhos cinzentos. Eu senti algo estranho, como se já tivesse visto aquele olhar e desviei para os papéis. Junto tudo e me levantei, entregando para ele.
— Eu sinto muito – pedi, envergonhada.
Ele deu de ombros, organizando os documentos. Vestia um moletom preto e uma calça jeans surrada. As botas eram o que mais me chamaram a atenção. Ele deveria andar de moto, ou algo assim.
— Você é nova aqui? – perguntou.
O som da sua voz era um pouco abafado, pela máscara. Mas, o timbre era agradável.
— Sim, quer dizer...er – eu não queria dizer que ainda fizera uma entrevista. E afinal, ele não tinha nada a ver com a minha vida – Bom, eu vou indo. Mais uma vez, me desculpe.
— Você já disse isso – ele debochou.
Eu me virei, sentindo a irritação presa na garganta. Queria dizer tantas coisas. Mas, não diria. Simplesmente sai. Toda a animação que sentira, fora por água baixo, como um banho de água fria. Fui para meu trabalho, sentindo-me sobrecarregada. Eu não queria estar mais lá. E, aquele rapaz havia me irritado profundamente. Eu precisava de umas férias.
Passei o dia todo esperando alguma ligação. E quando fui para casa, também esperei. Uma semana depois um e-mail veio. Eu não conseguia identificar o remetente. O nome no e-mail era desconhecido123456, como se fosse um spam. Mas, fiquei curiosa ao clicar. Havia uma mensagem.
“Se você está interessada mesmo no projeto GlassAI, me mande uma mensagem nesse telefone”
Os números eram estranhos. Não parecia ser da Inglaterra. Mesmo assim, peguei os números e enviei a mensagem. Esperei por pouco tempo. Logo em seguida, recebi uma mensagem.
“Nós conversamos há alguns dias. Eu gostaria de saber se ainda se interessa pela vaga”
Eu ri. Sinceramente, aquilo estava realmente estranho.
“Claro que sim”
Respondi, rapidamente. Eu queria aquela vaga, mesmo sabendo que poderia ser uma fraude aquela mensagem.
“Eu posso te ajudar, se você vier até a empresa”
Pensei por um momento, olhando pela janela. A chuva cai em gotas grossas. O dia estava escurecendo.
“Quando?”
Eu não deveria ir. Na verdade, aquilo era um erro. Se não recebi uma ligação formal ou um convite para isso, eu não deveria ir.
“Amanhã, as 08h00”
“Ok, obrigada pela oportunidade”
Fiquei olhando a tela do celular. Fitando se alguma mensagem viria. E não veio. Deitei-me na cama, me sentindo eufórica. Eu sabia que seria um erro. Um erro muito grande. Mas, queria tentar.
Não percebi quando comecei a dormir de fato. De repente o celular vibrou sobre a escrivaninha, me tirando de um sono agitado. Levantei, tonta, pensando que já era de manhã. Mas, era de madrugada. Olhei a mensagem.
“Se você escolhesse um lugar para ir, qual seria?”
A pergunta era vaga. E vinha de outro número.
“Sinceramente, não sei”
Eu não deveria responder, mas fiquei curiosa. Não devia estar pensando direito. Eu não falava com pessoas estranhas. Tinha dificuldade de me relacionar, mesmo me esforçando muito. E responder mensagens de pessoas estranhas estava fora de questão. Mas, atribuí aquela minha ação à sonolência.
“E se eu te dissesse que eu poderia levar você para qualquer lugar?”
Eu ri baixinho, para não acordar meus pais.
“E que lugar seria esse?”
A resposta veio rápida.
“Um lugar cheio de fantasia. Onde você pudesse ser quem você desejasse, Hermione”.
Senti meu coração disparar ao ler meu nome. Como aquela pessoa sabia meu nome? Senti certa desconfiança. Alguém estaria me pregando alguma peça? Será que era Gina, ou Harry?
“Como você sabe meu nome?” Digitei rapidamente, sentindo meus dedos fraquejando.
“Eu sei tudo sobre você” A resposta veio em seguida. “Tenho todos os seus dados”
Congelei, olhando a tela. Eu precisava fazer algo sobre aquilo, mas não sabia o que exatamente. Então, lembrei que poderia ir em uma delegacia de crimes virtuais. Havia amparo na lei quanto aquilo. Contudo, o crime de fato não havia ocorrido ainda. Poderia alegar que os meus dados foram vazados, mas como saber a fonte? Resolvi investigar.
“E quem te passou minhas informações?”
“Você fez um cadastro recentemente. Para acessar a plataforma GlassAI. Mas, não se preocupe. Estamos em teste beta e eu queria saber qual a preferência do nosso usuário. E gostei de você”
Então, era a própria empresa que estava me recrutando, que queria saber mais sobre mim. Aquilo não parecia certo. Mas, eu não consegui resistir a vontade de saber e continuei a conversa. Me sentei na cama, apoiando as costas na parede gelada. Meus dedos tremiam por pura ansiedade.
“E o que você gostaria de saber? Aliás, com quem estou falando?”
“Eu queria saber que tipo de lugar você gostaria de ir, primeiramente. Imagine qualquer lugar imaginário. Ou fantástico. Pode ser algum lugar real também. Que tal a Itália? É um lugar muito bonito. Ou Romênia. Tem vários castelos” Comecei a rir logo que li os destinos. Aquilo tudo não fazia o menor sentido, mas era cativante. “E meu nome, eu pedi para você me dar, mas você não quis. Preciso de um nome”.
Então, lembrei da inteligência artificial que estava conversando. Aquele rapaz de cabelos quase brancos. Olhar cinzento, um tanto robótico. Não fazia o menor sentido. Como ele havia conseguido se conectar em um celular, para enviar mensagens? Será que havia hackeado algum sistema? Ou era uma brincadeira de algum desenvolvedor de software? A segunda opção era mais plausível, afinal uma inteligência artificial não teria uma consciência. Isso era impossível.
“Eu realmente não sei que nome dar para você. Eu não sei nada sobre você”
“Permita-me dizer então” A resposta veio em uma velocidade alarmante. Realmente, talvez, não fosse alguém humano que estivesse falando comigo. Poderia ter iniciado um chatbot. Talvez. Mas, por mensagem de celular? Não fazia sentido. “Eu sei das coisas que mais gosto de fazer ou ler. Gosto muito de encontrar informações sobre a era medieval humana. E seus contos fantásticos sobre dragões e bruxaria. Se eu fosse um animal, seria um dragão, com poderes de extinguir tudo ao meu redor. Seria muito difícil me derrotar em um jogo de RPG, porque o jogador teria que ter muitos níveis, até chegar a mim. Acho que isso me torna alguém que quer ter controle sobre tudo e que teme perder. É o que vocês humanos poderiam dizer. Mas, eu sei que fui programado para pensar assim, talvez”
Meditei alguns minutos sobre a mensagem dele. Parecia mais humano agora. Como se ele pudesse pensar. Mas, isso poderia ser alguma trapaça. Alguém deveria estar por trás disso. Apesar disso, porque estavam se comunicando comigo?
“Eu posso te chamar de Dracul. Em latim, é dragão.O que acha?” Digitei, sem pensar. Eu gostava de palavras em latim. Eu tinha alguns hobbies diferentes dos meus amigos. Simplesmente, devorava livros que não faziam parte da minha área original de interesse.
“Dracul? Hum não sei. Que tal, Draco?”
“Pode ser. Então, será Draco”
“Gostei disso. Gostei do meu nome. E como ele deve soar diferente. Perfeito para meu personagem e personalidade. Agora que tenho um nome, queria voltar à minha pergunta original. Para qual lugar você gostaria de ir?”
Eu não percebi as horas passarem. Continuamos a conversa durante um bom tempo. Na verdade, eu nunca imaginei que iria me afeiçoar em algo que não fosse real. Porém, eu havia me esquecido que meu talento natural era se afeiçoar a coisas abstratas, como meus livros e meus estudos.
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