Glass Soul

1 Prólogo - Mudando Mais Uma Vez.


Notas iniciais

- E para aqueles que entram que sejam bem vindos, para aqueles que saem, o meu sincero adeus, e para aqueles que permanecem, o meu eterno agradecimento ... Autoria Própria.

Dedicado a uma série de acontecimentos na minha vida, felizes, infelizes, mas importantes. Aos meus queridos amigos, e a minha mãe que me apoiou e amou a ideia real do livro que em breve será descoberta. Ah, e a Ana, pois sem ela, eu nunca teria descoberto o que eram pra mim Almas de Vidro.

Por: Wonderland.

Dentro de uma hora e meia tinham atravessado quase o Alabama inteiro; Desdê prédios de empresas importantes, até o Jornal local não muito conhecido de um bairro quase que abandonado, a não ser pelos moradores mais antigos de alguns prédios pichados por vândalos e os pobres coitados que aguentavam o inverno gelado nas ruas em seus pedaços de papelão. Pouco a pouco a paisagem que conhecia ia indo embora, mais uma vez ,e tudo era tão estranho quanto nadar com um casaco acolchoado. A paisagem começou a mudar dentro das horas que Liv parara de contar tediosamente, e o deserto deu lugar a uma charmosa cidadezinha, cercada de cafeterias e de lojas de suvenires; De relance viu uma fonte, jorrando uma água límpida transparente, passaram em seguida por uma grande rodovia, que dava na rua de um condado cheio de casas geminadas e perfeitamente cômodas, o sol quase que queimando sua pele pelo vidro lustrosamente limpo do carro da Senhorita Jimps, estranho para uma sexta feira de outono. Liv observou um grande prédio comprido como a prefeitura de uma cidade, mas era uma escola com o nome da cidade, típico de cidades pequenas das séries de TV que assistia.

E logo a paisagem mudara novamente, da cidadezinha pacata da qual Liv não vira ninguém nas ruas, para uma floresta de grandes árvores, lustrosos carvalhos e altos pinheiros. Ela se sentou, mudando de posição desconfortável largada, jogada e desinteressada a sua volta. De um bairro movimentado em Nova York ao Alabama, e do Alabama para uma cidadezinha pacata no estado da Geórgia, a charmosa Cartersville. Mais uma vez o rumo da sua vida a tirava de um lugar que amava. O motivo era uma história muito longa, e quase tão triste quanto a história da morte de seus pais biológicos.

Alguns acontecimentos nas vidas de pessoas ocorrem para mudar elas para melhor, mas este não era o caso de Liv. Logo após o acidente de seus pais numa rodovia movimentada, ela prometera nunca mais se meter em encrencas, mas como uma sina, elas a perseguiram com um orgulho venenoso. Logicamente que era incorreto entrar no carro de sua melhor amiga embriagada a meia noite em ponto de uma sexta feira para sábado, mas era por este motivo que ela entrou, para protege-la de si mesma.

Liv suspirou derrotada, soprando uma mecha de seu cabelo azuladamente negro do rosto e voltando seu olhar para a janela. Tudo estava indo bem desdê sua saída do reformatório a sete anos atrás quando ela tinha nove anos. Tinha ficado pouco, mas era um tempo torturantemente suficiente para em sua opinião. E logo quando saíra, foi levada ao abrigo, de onde conheceu Ebbe e Jack, seus até então pais adotivos que tanto amava. Eles a adotaram depois de uma árdua batalha de quatro meses judiciais e, a trataram como sua filha de sangue quando enfim a venceram. Não tendo outros filhos, Liv logo se tornou a paixão da vida deles, e assim longos sete e felizes anos se passaram até seu bendito aniversário de dezesseis anos, de onde de uma festa surpresa atrasada dois dias, sua amiga teve o coração partido, e descontando toda a sua mágoa no volante, fizeram ambas capotarem quase quatro vezes antes de romperem as barras de proteção da ponte e caírem para dentro do lago. Mas este não era um motivo forte para a Senhorita Jimps decretar que ela devia ser levada a outro reformatório e ser tirada de sua família contra a vontade. Aliás, porque sua família não estava consigo neste momento tão difícil?

Bem, uma resposta de cada vez. Após ser salva por um grupo de Hippies que passava com sua minivan colorida e viram a todo o espetáculo violento, uma investigação começou a correr, e os mergulhadores da policia da cidade vizinha vieram para tirar o corpo de Holly de dentro do carro no escuro fundo do lago, após a retirada, descobriram que os cabos do freio estavam rompidos, e de qualquer maneira, o acidente ocorreria, obvio que a culpa foi despejada em uma única pessoa. Liv.

Logo um julgamento fora marcado, e por três noites seguidas a delegacia local foi seu quarto. Os depoimentos foram recolhidos, e Liv fora culpada pelo acidente terrível que assombrava sua mente a noite em pesadelos permanentes e recém adquiridos. Logo cartas escritas em papéis vermelhas e pichados de palavrões começaram chegar em montanhas ao rancho da família Lee, e a sua sentença foi dada.

Julgada por quase todo o bairro local onde morava no Alabama, Liv fora despachada com um pedido de transferência para Colégio Reformatório Resumption & Opportunity, de onde durante três anos teria que cumprir a pena por um crime que nem mesmo tinha cometido. Mas porque seus pais não estavam ali? Sem condições de pagar uma passagem de ônibus para a Geórgia, ambos resolveram que era melhor aceitar a oferta de Senhorita Jimps, uma jovem professora da Resumption que tinha sido a porta voz do Reformatório em todo o processo de assinatura de papéis para a transferência de Liv. E lá estava ela, sacolejando no velho Chevrolet Impala 1972 que andava sobre o chão pedregoso e enlameado da reserva ambiental da cidade. As cinco da manhã, uma buzina soou em seus ouvidos, e ela soube que chegara a hora de se despedir de seus amados pais de coração, não que ela desprezasse o que morreram num também acidente de carro, mas Ebbe e Jack Lee, eram para sempre os pais que lhe deram todo o amor do mundo.

E foi depois de quase trinta e cinco minutos de soluços desesperados vindos de sua mãe e de si, que se despediu com um leve tchau da mulher de cabelos cacheados com um lenço simples na cabeça que fora feito a mão e lhe dado de presente de dia das mães, e do homem de óculos de armação fina e prateada, que viu com a poeira de terra batida, que estava indo embora de mais um lugar que amava.

Num solavanco, Liv deu um pulo no banco do carro, tirada de seus mais profundos devaneios, e foi quando viu que havia uma semelhança em duas de suas experiências traumáticas. Ambas tinham sido em acidentes de carros. Talvez não fosse algo precisamente apontável, talvez fosse apenas mera coincidência, mas que acidentes de carro a perseguiam, era um tanto verdade.

Olhou a sua volta e tossiu um pouco a poeira que tinha invadido o carro no solavanco, foi percebeu que a Senhorita Jimps tirava seus cintos para sair do carro, que só então após o clique dos tais cintos, tinha percebido que estava parado. Inclinou-se no banco do carona e murmurou fracamente com a garganta irritada.

— O que houve ? – a mulher de cabelos estilo Cleópatra versão loira olhou por sobre o banco de couro e suspirou levemente decepcionada.

— Atolamos na lama, acho que a chuva de ontem foi mais forte do que eu pensava – ela pausou e limpou a garganta num pigarro – Querida, será que poderia me ajudar? – ela pediu serenamente, e logo em seguida, Liv abria a porta e colocava seus pés vestidos em suas típicas botas vermelhas preferidas para fora.

— Claro – ela assentiu para fortificar o seu consentimento e arregaçou as mangas de sua blusa de frio listrada. Do outro lado, a Senhorita Jimps tinha retirado o casaco jeans surrado e o colocado no banco de trás do Impala atolado, puxou um pouco a saia do longo vestido roxo escuro e andou com suas galochas plásticas por sobre a lama barrenta, até prender a aba de seu vestido num laço bem feito, exibindo a perna coberta por uma meia calça fina preta. Liv fez uma careta não muito visível pensando o quão brega era, mas não se conteve a dar uma risada, da qual chamou a atenção da Senhorita Jimps, que segurou um lado da traseira do carro e respirou fundo.

— Levante quando eu mandar, sim? – Liv assentiu e fez o mesmo que ela – Agora – ambos as quatro mãos trabalharam e levantaram dificultosamente a traseira do carro, e empurraram para frente, mas a Senhorita Jimps por um desequilíbrio, quase caiu de cara na lama se não fosse por Liv segurá-la – Ah, obrigada querida. – ela agradeceu e voltou para o seu posto, enquanto Liv fazia o mesmo e entrava no carro novamente, porém um pouco antes de abrir a porta de trás do carro, um lindo gato preto apareceu e se recostou na raiz de uma grande árvore, do nome que Liv não conhecia. Seus profundos olhos azuis foi o que mais assustou a garota. Geralmente gatos pretos tem olhos verdes, mas aquele não, este tinha olhos profundamente azuis, quase tão azuis quanto o céu de uma manhã ensolarada de verão em Junho.

Por um momento ela teve a leve impressão que o gato a estava olhando de propósito, como se a forçasse reconhece-lo de algum lugar como: um amigo distante que perdera contato, ou um rapaz que a chamou para sair, do qual deu um bolo de que se arrependera amargamente. Mas nada disso fazia sentindo, pois afinal, era apenas um gato. Hipnotizada por seus olhos como uma névoa ofuscante que fez os seus adormecerem por um instante, Liv quase não escutou quando o motor do carro roncou chamando sua atenção.

— Liv, querida, entre no carro, não estamos muito longe– a Senhorita Jimps a chamava calmamente, Liv ousou tirar os olhos do gato por um momento, olhando de relance para os castanhos escuros da mulher no volante, e quando voltou-se para o gato, já não havia nem um mísero pelo negro solto no ar para afirmar que ele esteve ali realmente. Respirou profundamente e se pôs dentro do carro, fechando a porta em seguida. Olhou para os pés , constatando que suas lindas botas vermelhas estavam cheias de lama, respirou forte enraivecida, e optou por ocupar sua mente com o gato, se estavam perto do Reformatório, de alguém era.

— Senhorita Jimps, no Reformatório, tem alguém que tem um gato? – a mesma para quem foi dirigida a pergunta, se virou minimamente e soltou uma gargalhada desdenhosa medonha, virando-se novamente para a estrada.

— Querida, não são permitidos animais domésticos de modo algum da Resumption, é estritamente proibido, mas porque a pergunta?- ela lhe respondeu com outra, e Liv deu de ombros, cruzando os braços sobre o peito em seguida.

— Por que eu acabei de ver um recostado logo ali numa árvore, presumi já que estamos tão perto, que fosse de alguém e estivesse sumido a um bom tempo – novamente a gargalhada espalhafatosa e tosca da Senhorita Jimps ecoou pelo carro, fazendo Liv torcer o nariz, não entendia o que era tão engraçado para ela.

— Meu anjo, não tem gatos nessas redondezas desdê dez anos atrás quando a escola começou a colocar veneno para ratos no perímetros perto da escola, então cada gato que se aproximava e atacava um ratinho infecionado com o veneno, morria também, achamos vários naquela época, eu tinha vinte anos, tinha acabado de chegar a escola, recolhíamos seus corpos e os enterrávamos, mas mais vinham, ratos do campo acho que são apetitosos para eles, demorou mais ou menos sete meses para não encontrarmos mais nenhuma gato, acho que eles entenderam que aqui, a comida não era de boa qualidade, e muito menos farta – ela deu uma piscadela para Liv que assentiu, mas não satisfeita, pois uma de suas perguntas não fora respondida.

— Mas então de quem era o gato que eu acabei de ver?- Liv perguntou pensativa e igualmente confusa. A Senhorita Jimps riu e passou por uma lombada de terra que fez Liv pular do banco e bater a cabeça no teto do carro de colecionador.

— Talvez seja o velho fantasma do Gato Cazim – ela lhe respondeu zombeteira. Liv fez uma careta de desentendimento.

— Como? – ela perguntou perdida, enquanto a Senhorita Jimps freou bruscamente sobre uma possa de água lamacenta que fez uma onda molhar o capô do carro antes liso e brilhante

— É uma longa história, mas vamos deixar esta de lendas e gatos, chegamos ao seu novo lar de três anos querida – Liv estava tão concentrada em achar alguma explicação coerente para o hipnotizante gato, que nem se deu conta de que pararam em frente a um velho portão enferrujado de grades grossas como as de uma cadeia. Saiu do carro e bateu a porta, botando os olhos no imenso casarão velho com cara de castelo mal assombrado cinzento. Atrás de si escutou os passos da Senhorita Jimps, que carregava sua mala média com alguns de seus poucos mas, mais preciosos pertences, várias mudas de roupa e alguns sapatos, incluindo suas botas agora completamente viscosas.

Ela suspirou e pegou sua mala da Senhorita Jimps, seguindo em passos pequenos, quase escorregando nas pedrinhas do começo do chão de cascalho da escola, parou em frente ao portão enquanto do outro lado na parede esquerda coberta de musgo, a Senhorita Jimps digitava algo em um velho interfone gorduroso, ela falou algumas palavras e em mais ou menos dois minutos, o velho portão começou a ranger de um modo insuportável, logo Liv descobriu que era um velho sistema de porta de correr, ou melhor, o portão era velho, quase que do tempo dos seus avós. Seguindo a Senhorita Jimps que começou a andar segurando a bolsa de couro meio gasto nos ombros, elas andaram até atrás do casarão, e acabaram por encontrar uma grande porta de madeira que mais parecia as portas de madeira de uma igreja, ela bateu na mesma alguma vezes seguidas, e logo um novo rangido rouco tomou conta de seus ouvidos, martelando. A porta se abriu para dentro, diferente do que Liv imaginava, e então as duas rumaram para dentro, ambos os sapatos sujos batendo contra o mármore lascado em algumas partes do salão que com toda certeza era como Liv imaginava, uma igreja luxuosa desativada.

Liv observou em volta. Quadros adornavam as paredes pintadas com camadas de diferentes cores pastéis, uma transparecendo a outra a cada brecha de mão mal passada. Em alguns cantos teias de aranhas enfeitavam dando um ar fantasmagórico ao local, e pilastras tipo de coliseu romano, sustentavam imagens de santos, e de alguns deuses misturados, atrás das pilastras havia um tipo de corredor com uma porta ao meio. Ao lado esquerdo, uma grande escada de madeira antiga forrada com um tapete velho maltrapilho, e do outro uma sala de portas altas fechada, demorou a entender que devia seguir a Senhorita Jimps pela casa, e que seu tour pelo reformatório ainda não havia começado. Ela foi guiada por um corredor cheio de portas trancadas, alguma com partes faltando, e outras encostadas por falta de maçaneta, ao final, um grande ginásio deteriorado pelo tempo, ao começo delas, um escritório de porta entre aberta, de onde um visível braço de uma mulher repousava numa imponente cadeira de estofado verde escuro, olhando para uma janela espaçosa que tinha uma das mais belas vistas que Liv já vira.

— Venha querida, estamos atrasadas, você vai chegar as aulas no almoço se demorarmos mais – Liv a seguiu carregando sobre os ombros sua mais ou menos pesada mala. A Senhorita Jimps entrou furtivamente na sala, escancarando a porta e ofegando, foi só quando ela tirou uma bombinha dos bolsos do casaco que havia recolocado, que Liv havia entendido que ela tinha Asma. A mulher na cadeira estofada se virou rapidamente e observou Liv de cima a baixo, e com a mesma, não fora diferente.

Os cabelos brilhosos presos num coque perfeitamente feito, os óculos que pendiam no nariz com deboche e os lábios contornado de um rosa bem claro, a roupa social a vestia, mas uma echarpe verde, acompanhava seus ombros, seu rosto não era velho, nem jovem, era como uma mulher no auge de seus trinta e sete anos, os olhos compenetrados e cansados, como se já tivessem visto muito da vida. Ela sorriu e dirigiu seus olhos a Senhorita Jimps que já havia se recomposto.

— Carmen – a cumprimentou e se voltou para Liv – Você deve ser a Senhorita A... – Liv a interrompeu, fazendo um sinal de pare com a mão. E não, seu nome não era Liv, e era por esse motivo que odiava seu nome verdadeiro, e a revelação do mesmo seria a sua morte.

— Por favor, só , Liv Lee – a mulher assentiu e arqueou as sobrancelhas, erguendo entre os dedos, um lápis vinho.

— Ok, Senhorita Liv, bem, acho que como vê, Cartersville é um lugar pacato, você não fez exatamente um tour, mas pode ter percebido que quase ninguém se encontrava na rua, isso porque hoje, está tendo um jogo importantíssimo de Beisebol – ela passou – Aqui, é mais pacato ainda, tirando os alunos encrenca que estão pagando pena igualmente como a Senhorita, e é por isso que todos os alunos novos passam pela minha sala, porque gosto de esclarecer que aqui temos jovens delinquente, garotas e rapazes que estão cumprindo trabalhos comunitários e outros que estão em condicional – Liv engoliu em seco, mexendo a cabeça desconfortável afim de disfarçar tirando o cabelo dos olhos – Seu caso não me assusta Senhorita Lee, mas você certamente deve estar com o coração apertado e com a sensação estranha de que fez alguma coisa de muito feia, tudo bem, isso passa, e você vai ver – ela respirou fundo e levantou-se da mesa, batendo seu salto alto sobre o chão de mármore que fazia eco nas paredes – Nossos métodos de punição são rigorosos, então espero que de maneira alguma você tente infligir as regras, suas aulas serão impressas num papel e grudadas da parede de seu novo quarto, e por -último, quero que coloque na minha mesa todos os objetos eletrônicos que tiver dentro de sua bolsa – Liv deu de ombros e suspirou.

— Eu não tenho celular, o meu se perdeu no ... incidente – e completando, ela nem tivera tempo de comprar outro para repor. A mulher assentiu e cruzou os braços.

— Uma última advertência, todos estaremos observando seus passos, cada pessoa aqui foi bem instruída para cuidar dos alunos, e é claro que não cogitamos deixar de lado os aparelhos eletrônicos no teto para observar vocês melhor, temos câmeras espalhadas pelos corredores a todo momento, então, você não tem muita escolha senão, obedecer, por fim – ela respirou, olhando nos olhos de Liv, tão perto que ela achou que a mulher a sua frente você furar seus olhos a qualquer momento com uma visão de raio X – Meu nome é Adora Brinks, e eu sou a diretora dessa escola por hora, e você com certeza, não vai querer me enfrentar, estamos entendidas ?- a mulher perguntou, estendendo a mão, da qual Liv apertou receosamente.

— Sim – Liv assentiu e largou a mão da mulher.

— Perfeito, quando se acomodar devidamente em seu quarto, desça, eu vou mandar alguém para te guiar num tour pela escola, e Carmen ... – ela se dirigiu a professora ao lado de Liv – Pras aulas, tem cinco salas ansiosas pela sua aula hoje , tenham um bom dia meninas – Liv suspirou aliviada quando pensou que acabaria aquele interrogatório, ou melhor, aquela instrução aterrorizante da diretora do reformatório , a Senhorita Jimps assentiu e puxou Liv pelo braço, rapidamente, correndo de volta para a frente da casa novamente , ambas subiram as escadas e chegaram a um corredor branco e triste, com paredes lascadas e alguns quadros velhos e mofados, no fim do corredor tinha uma porta lascada, da qual a Senhorita Jimps apontou com as mãos tremendo.

— Aquele é o seu dormitório – a Senhorita Jimps declarou , entregando uma chave em sua mão — no nível superior tem mais outro, se preferir depois de uma noite aqui, você pode pedir pra ser transferida para o andar de cima, até logo querida , te espero nas aulas de teatro – Liv fez uma careta, nunca gostara de teatro, mas era um mal necessário se queria sair logo daquele inferno, e quem sabe sendo uma boa menina, poderia voltar o mais rápido possível dali pra sua casa no Alabama novamente. Andou alguns passos quando levou um susto com a voz da Senhorita Jimps exasperada novamente – Ah, e espere na frente do refeitório, uma garota vai encontra-la lá, ela vai te mostrar a escola – e do mesmo modo que apareceu novamente, sumiu.

— Tudo bem – Liv murmurou quando já estava sozinha. Ela arrastou a bolsa com os pés até a porta negra, e girou a chave na maçaneta. Havia dois degraus até o chão de madeira, do qual Liv pulou e aterrissou com a mochila nos braços, olhou em volta o teto também de madeira pintada, e seguiu até a escrivaninha que tinha uma gaveta arrancada, deu de ombros e deixou a mochila encostada na mesma, seguiu para o mini banheiro que tinha ali, e tirou um pedaço de papel higiênico, limpando os cantos da bota vermelha e o bico quadrado. Em poucos minutos, ela já estava limpa novamente. Levantou um pouco a calça preta de seu macacão jeans e virou arrumou seus cabelos novamente para trás no seu típico rabo de cavalo frouxo, voltou ao quarto deparando-se com uma folha mal impressa de suas aulas, observou todas e quase nenhuma delas fez sentido para si na tinta borrada.

Suspirou pesarosamente derrotada e se voltou para a porta, lembrando-se do aviso da Senhorita Jimps de esperar uma garota na porta do refeitório. Girou a maçaneta colocando a chave no bolso da calça e fechou a porta atrás de si, andando cautelosamente pelo corredor vazio do Reformatório, este era diferente do que ela ficou quando tinha sete e oito anos. O antigo Reformatório em que passara dois anos de sua vida era mais rigoroso no quesito limpeza, tudo era extremamente branco , tanto que doía os olhos ficar observando muito as paredes , apenas a ala infantil tinha sido pintada de um rosa bebê muito claro. As paredes eram bem pintadas, e os azulejos do chão não haviam uma lasca, os cantos não tinham teias de aranha e o prédio definitivamente não parecia a casa de um velho conde cristão confuso que tinha uma igreja romana estilo vaticano em casa.

Liv desceu as escadas vagarosamente, puxando as mangas da blusa listrada larga afim de esquentar as mãos, não que estivesse com frio, mas estava aflita, aflita por alguma luz que a fizesse se sentir mais a vontade no meio das quatro paredes frias e mofadas a sua frente, no final da escada que a cada passo seu fazia um barulho, pisou em falso num buraco no começo da escada e quase caiu de cara no chão, se não fosse ter segurado no corrimão frouxo e quebrado da escada velha, ela olhou para os lados e endireitou sua coluna, se lembrou novamente das palavras da Senhorita Jimps ‘’ refeitório ‘’ , refeitório que Liv não fazia a mínima ideia de onde ficava.

Levantou seus olhos para o quadro de uma garota com as mãos na costas , olhando por uma janela, seu rosto estava virado em direção ao longe, mas os cabelos estavam presos num coque cheio de fios soltos, o vestido com pequenas pérolas cuidadosamente pintadas, o desenho não parecia ter mais que cinco anos de existência, mas pela legenda num cantinho pequeno, ele tinha mais de um século, ela passou os dedos delicadamente sobre a tela, sentindo a tinta ressecada sobre a pele, estranhamente, o quadro lhe lembrara de sua mãe biológica. Os cabelos negros como os seus , o sorriso aberto, uma pontada de saudade e dor corroeu seu peito, e logo a lembrança de seu carro derrapando sobre a ponte com sua melhor amiga, Holly, a quem lhe lembrava demais sua mãe, atormentou sua mente e por um momento, Liv teve vontade de quebrar o quadro em pedaços. Respirou fundo e percebeu que estava tão atarefada com o assunto de depoimentos, julgamento, transferência, cartas malcriadas, que nem teve tempo de viver com a dor de sua perda.

Uma raiva doentia de si mesma despontou em seu peito, e ela teve que sair de perto para se acalmar. Liv respirou diversas vezes andando vagarosamente com a mão no peito até entrar em um pequeno espaço que dava para um corredor, ela se apoiou na parede e fechou os olhos, teve vontade de chorar, deslizar até o chão e não levantar nunca mais, mas os seus planos reais estavam longe de se direcionarem para ficar sem fazer nada. Com as mãos na cabeça que latejava sem parar, abriu os olhos para o corredor cheio de janelas com grades e avistou de longe um aglomerado de alunos entrando por uma ampla abertura, ‘’ o refeitório ‘’, sem dúvidas era ele. Liv após tomar coragem o suficiente, se aventurou a andar quase se arrastando em direção ao grupo de alunos que quase se empurrava violentamente para forçar entrada, não muito depois ela já se via quase que completamente na porta do mesmo, e um vento gélido e ao mesmo tempo tropical fez os seus cabelos presos atrás da orelha voarem em seus olhos como de costume.

Ela parou, a alguns passos antes de entrar pela ampla abertura que dava para o refeitório estranhamente cinzento e assombroso do qual via bem de longe, agarrada as mangas de sua camisa, um sopro estalou em sua nuca e uma ansiedade inquietante surgiu na boca de seu estômago, ela tocou o mesmo, fazendo uma leve careta, devia ser fome, mas um pressentimento e uma voz dentro da sua cabeça negavam, e como um trovão anunciando uma tempestade, um estouro surgiu em seu peito e por um momento, tomada por um instinto desconhecido que nem sabia de onde tinha vindo, a nuca queimando, virou-se de costas, deparando-se com uma coisa, ou melhor, uma pessoa que a fez engolir em seco sem saber o porque.

Parado a sua frente, um rapaz. Cabelos repicados tão negros quanto os seus penteados num topete jogado, lábios de um tom rosa e um rosto completamente expressivo de pele extremamente branca. E o que mais a chamou atenção, olhos aterrorizantemente azuis profundos e intensos quase cinzentos como todo o resto do reformatório a sua volta. Adornando o lado direito de seu nariz uma argola, e na boca, em seu pescoço, uma pena perfeitamente desenhada. Liv mordeu o lábio inferior e rapidamente encarou seu rosto, ela pôde ver o momento em que seus lindos olhos cristalinos se focaram nos seus, por um pequeno traço , percebeu um resquício de surpresa, medo, raiva, alívio, mágoa e, por incrível e estranho que se parecesse, paixão. Mas preferiu pensar que estava completamente enganada e que o dito cujo só estava apenas estranhando seu olhar fixado.Ele comprimiu os lábios e enfiou as mãos nos bolsos da calça rasgada em um dos joelhos, Liv olhou para o chão, não aguentando, e voltando a encarar estranhamente o rapaz que acabara de lhe tirar o fôlego sem motivo.

Liv prendeu a respiração e apertou os dedos uns contra os outros enquanto mantinha suas pernas travadas, ainda olhando para o mar revolto a sua frente. Sua expressão se modificou. E de um misto de emoções passou a uma única, o convencimento. Prepotentemente ele jogou a cabeça um pouco para o lado afim de movimentar o cabelo e então tirou as mãos dos bolsos e ajeitou a gola de sua jaqueta preta. Liv corou, corou ao perceber que definitivamente estava babando por um cara que mal conhecia.

Ela não sabia quem ele era, não sabia de onde vinha, não sabia qual era o seu nome, muito menos de onde tinha surgido ou se era um delinquente perigoso. Ela não sabia de absolutamente nada, e muito menos o porque de estar tão abismada com sua presença, só sabia que tinha algo que precisava descobrir, um mistério do qual pressentia que precisava mergulhar, era como se sentia cada vez que fixava os olhos nos dele , e então recomeçava todo o processo de olhar rapidamente para o chão e depois para ele , só para ter certeza de que ele estava ali mesmo. E ele estava.

Os olhos azuis profundamente intensos e profundamente focados nos seus. Liv ofegou, e mesmo vendo que o único sentimento presente em sua face fosse igual ao de um jogador famoso de futebol americano esnobe, quase dava para perceber que ele a familiarizava com alguém muito próximo. Como um estalo na mente, os lábios rosados se curvaram por um instante num leve sorriso e ela soube. Ela o conhecia realmente.

Deu um passo a frente ainda encarando seu sorriso levemente debochado e completamente encantador. Teve vontade de falar algo e de fazer a pergunta mais clichê do mundo que daria a entender que ela realmente estava interessada quando não estava, ou será que estava? . Ela estava pronta para fazer aquela maldita pergunta, quando perdeu as palavras logo que ele também deu um passo a frente, as mãos voltaram aos bolsos da calça e Liv quase pode notar um brilho diferente naqueles hipnotizantes olhos, ela poderia ter ficado encarando aquelas belas safiras por milênios, se não fosse por ...

Notas finais
- Bem, espero que tenham gostado, e este é o sincero sentimento de um autora que estava em crise e retornou depois de séculos. Espero que eu ainda não tenha perdido o jeito. Mas, Flores ou Pedras? Eis a questão, o que vocês me responde meus queridos estilhaços de vidro preciosos.

Um beijo, até a próxima, espero que tenham gostado ... Wonderland.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.