Glass
1 Capítulo Único - Glass.
Notas iniciais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=kQFCtXyWqjw (é linda, não irão se arrepender se escutarem *-*).
Tentando viver e amar
Com um coração que não pode ser quebrado
É como tentar ver a luz
Com olhos que não podem ser abertos.
Sim, ambos carregamos bagagens
Que pegamos ao longo do nosso caminho
Se você me ama faça isso gentilmente
E eu vou fazer o mesmo.
O salto alto bateu contra o chão duro e recém-molhado pela chuva e foi em direção ao grande edifício que se estendia à sua frente. Entrou no local um tanto lotado, como de costume, mas não teve problemas para se locomover, afinal ninguém se atreveu a ficar no seu caminho, nem em nenhum elevador que ela quisesse usar, e ela podia usar todos que quisesse.
Chegou na redação, as portas do elevador se abriram e os óculos escuros foram retirados, a postura se manteve firme, cabeça erguida, corpo esguio e ninguém se atreveu a entrar em seu caminho, e os que já estavam, saíram. Passou pelas duas mesas e a bolsa e o casaco foram jogados em cima de uma delas, antes de entrar em seu escritório e enfim poder respirar fundo.
Era assim todos os dias, como se Miranda precisasse segurar a respiração até chegar em seu escritório, pois caso contrário, seria capaz de se desfazer, como uma Rainha de Gelo que se derrete em meio ao nada. Só ela sabia porquê se sentia assim, mais ninguém, somente uma Dama de Ferro seria capaz de se manter firme, até mesmo quando tudo a sua volta parecia desmoronar.
Runway desabaria sem ela. Miranda tinha certeza disso, afinal ninguém seria capaz de fazer o seu trabalho. Ninguém. Moda era algo delicado demais, ia além dos tecidos, das cores, estampas e das grifes. Moda era um estilo de vida, e Miranda se questionava se era ela que se alimentava disso, ou se era a moda que se alimentava dela. Com o passar do tempo, essa dúvida se tornou uma certeza.
–Miranda ? –foi tirada de seus pensamentos por Emily, que entrava na sala com uma agenda em mãos. –Me mandaram as fotos das modelos para o layout Brasileiro, você gostaria de ...
–Peça para o Nigel adiantar o trabalho, e para prepararem a sala de reuniões, irei usá-la daqui à 1 hora. –falou enquanto ia em direção a sua cadeira e se sentava nela. –Ligue para o Demarchelier e confirme a sessão de Segunda-feira de manhã, eu quero que esteja tudo certo. Caso ele não confirme, ligue para a minha esteticista e marque uma sessão para as 9 horas, a mesma que ela desmarcou semana passada. –ia dizendo enquanto Emily corria a caneta no papel.
“Não posso me esquecer disso” mentalizou enquanto continuava a escrever. Miranda puxou uma revista que estava ao lado e começou a folheá-la calmamente.
–Mais alguma coisa ? –a ruiva perguntou sentindo uma leve dormência nos dedos, havia apertado a caneta demais.
Emily era eficiente, quando sua assistente sênior anterior foi promovida, ela não hesitou em transformar a ruiva em seu novo braço direito. Não podia negar o quão competente e profissional ela era, um pouco egocêntrica ás vezes, mas Miranda sabia muito bem o porquê disso. Mas ela não podia simplesmente abrir um largo sorriso e lhe dar nota dez. Pessoas se tornavam mal acostumadas por isso, e no âmbito profissional isso era péssimo. Por isso ela era tão firme e exigente com Emily, afinal talvez um dia, alguma revista de moda famosa precisasse de uma editora chefe.
–Preciso de 10 saias da Calvin Klein e quero dar uma olhada na nova coleção do James Holt hoje às 15 horas. –ainda demorou alguns segundos para erguer o olhar, enquanto se livrava dos pensamentos anteriores. –Isso é tudo !
Tornou a folhear a revista como se tudo a sua volta fosse se resolver sozinho e vir pronto até ela, e de certa forma iria, pois seu trabalho era impecável. Passou algumas folhas e conforme ia avançando, foi se lembrando da sua carreira, de como batalhou tanto para chegar até ali, até a fama.
Eu vou deixar você olhar dentro de mim
Através das manchas e através das rachaduras
E na escuridão deste momento
Você vai ver o bem e o mal
Mas tente não me julgar
Porque nós andamos por caminhos diferentes,
Mas ele nos trouxe aqui juntos
Então, eu não vou ter que voltar.
–Miranda ? –mais uma vez foi tirada de seus pensamentos, quando Nigel entrou em sua sala com um catálogo aberto em mãos. –Estava olhando as fotos para o layout e não gosto muito do que vejo. –falou se posicionando ao seu lado e passando as fotos para que Miranda pudesse vê-las.
–Escolha a melhor, se não a encontrar, peça para que enviem novas, mas quero tudo resolvido até esse final de semana. –fechou a revista que lia e a devolveu para o seu lugar anterior.
–Deixar a decisão em minhas mãos é perigoso, você sabe o meu estilo. –piscou antes de sair da sala com um sorriso no rosto.
Por alguns instantes Miranda ficou parada em sua cadeira, com a cabeça apoiada no encosto e olhando para a porta por onde Nigel acabara de sair. Era de longe o funcionário mais competente de toda a Runway e ela investia no rapaz, pois sabia que se um dia a revista precisasse de uma nova editora chefe, por certo ganharia um editor chefe. No fundo não se sentia culpada por ter lhe tirado o lugar de sócio de James Holt, perdê-lo teria sido terrível.
Se levantou e caminhou até a mesa ao lado, onde haviam todos os exemplares da revista do último ano. Apreciou o trabalho tão bem feito e deu um leve e imperceptível sorriso. Se sentia feliz por tudo sempre dar certo, aquela sensação de dever cumprido a acompanhava até para fora dos portões do edifício.
Estar em casa junto de suas filhas, no aconchego de seu lar, era ótimo, mas para Miranda Priestly, estar na Runway era algo inexplicável, um sentimento novo. Sentia que podia parar de respirar se algum dia não pudesse estar lá, fazendo o que fazia tão perfeitamente bem. Gostavam de dizer que ela era viciada, obcecada por trabalho, e até ela mesma chegara a acreditar nisso, mas no fundo sabia que era diferente, que ela amava estar ali, amava fazer o quê fazia.
Podemos estar em óleo e água,
Este poderia ser um grande erro.
Podemos queimar como gasolina e fogo.
É uma oportunidade que vamos ter de tomar.
–Miranda ? –Emily entrou apressada no escritório e recebeu um arquear de sobrancelhas quando Miranda se virou para encará-la. –Com licença, mas, Demarchelier confirmou a sessão, então marquei a sua esteticista para a Terça-Feira no mesmo horário e ...
–Terça-feira terei reunião com Irv, desmarque e marque para a Quarta-feira no mesmo horário, se ela não tiver, dê um jeito. O James Holt confirmou a visita ?
–Ás 15 horas. –riscou o item de sua agenda. –Agora mesmo irei buscar as saias da Calvin Klein.
–Além das saias ... –Emily que estava saindo, se virou novamente para Miranda. – ... quero também as bolsas da última coleção. Isso é tudo ! –e Emily saiu sem pestanejar.
–Hoje ela ta o diabo. –a ruiva passou correndo ao lado da mesa de Andrea, que apenas riu antes de dar uma rápida olhada para o escritório. Tantas ordens para Emily e ela sem nada ? Chegava a sentir medo.
Miranda percebeu quando Andrea a olhou e disfarçadamente se virou para a janela, afim de tentar se dispersar de tais pensamentos. Deixar que ela voltasse a trabalhar na Runway não havia sido fácil depois dela quase tê-la abandonado, mas como poderia recusar a melhor assistente que ela já havia ganho em toda a sua carreira ? Andrea era competente, ela não podia negar, e mais do que qualquer outra coisa, Miranda se via muito nela, como se a moça fosse um fantasma do seu passado. Precisava lapidá-la aos poucos, e transformá-la em uma joia rara, como ela havia se tornado. Joia rara digna de estar na coroa de uma Rainha da Moda.
–Andrea ? –chamou e escutou os passos rápidos da assistente entrando em seu escritório, mas permaneceu onde estava.
–Sim, Miranda ? –perguntou com o caderno já em mãos e um arrepio lhe percorreu a espinha. Era estranho entrar naquela sala depois de tudo, mas só Andy sabia o porquê de ter voltado. Aquelas últimas palavras de Miranda em Paris ...
–Peça para Jocelyn e Lucia estarem na sala de reuniões daqui a 1 hora sem atrasos, e assim que Emily chegar com as saias e as bolsas da Calvin Klein, arrume tudo para que possamos começar. Nigel já escolheu a modelo do layout Brasileiro ?
–É, eu não ... eu não ...
–E Emily remarcou minha esteticista para Quarta-feira ?
–Bem, quando ela chegar eu ... eu vou perguntar. –Miranda lhe deu um sorriso irônico.
–Ligue para o Irv e confirme nossa reunião da Terça-feira, depois ligue naquele restaurante que teve boas críticas e reserve um lugar pra mim hoje. Isso é tudo ! –se sentou de novo em sua cadeira. Andrea fechou o caderno de anotações, assentiu com a cabeça e girou nos calcanhares apressada.
–E Andrea ... –se virou lentamente, sem saber o quê a esperava. Sabia que não deveria ter colocado aqueles sapatos. – ... por quê meu café ainda não está aqui ?
–Ou ... –foi tudo que a moça falou antes de se virar e sair do escritório correndo.
Podemos brilhar,
Podemos quebrar,
Nós podemos pegar as peças aqui no depois,
Estamos frágeis,
Nós somos humanos,
Somos moldados pela luz que deixamos através de nós,
Nós quebramos o jejum,
Porque nós somos vidro.
Miranda assistiu Andrea ir até sua mesa e fazer as ligações praticamente correndo. Depois a viu se levantar e passar pela porta de vidro mais rápida ainda. Foi só nesse momento que conseguiu sustentar um sorriso sincero nos lábios. Sabia que por trás falavam atrocidades a seu respeito, mas sabia também que sua equipe era fiel a ela, especialmente Emily, Nigel e Andrea.
Tinha tudo que queria e precisava em suas mãos a qualquer momento, e apesar do seu ótimo trabalho no que diz respeito a moda, Miranda sabia que o melhor trabalho que ela podia estar fazendo, era com sua equipe. Seu interior radiava por isso, mesmo que ela jamais deixasse transparecer.
Quando Andrea voltou algum tempo depois com seu café, ela ainda sorria e só se deu conta, quando a morena o depositou em cima de sua mesa. Ergueu o olhar e pode perceber que Andrea a tinha visto sorrir, e quase que imperceptível, ela também estava sorrindo. Sustentou o olhar por alguns segundos, antes de esticar o braço e trazer o café até si.
–Isso é tudo ! –falou antes de se virar bruscamente.
Escutou Andrea sair do seu escritório e deu uma rápida olhada para sua mesa. Runway era seu lar, moda sua melhor maneira de viver, aquele era o trabalho que ela amava fazer, e aquele era o único lugar no mundo onde ela sabia que logo em frente, havia alguém que fazia tudo aquilo valer a pena e um sorriso seu. E não era por causa do café.
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