Glóbulo Branco

1 Capítulo único


Ele sempre aparecia quando ela mais precisava, fosse para exterminar um germe ou apontar o caminho. Trazia a mesma expressão séria e a voz gentil. Ela gostava de conversar com o Glóbulo Branco. Sua companhia proporcionava um bem estar que compensava a adrenalina de subir e descer os vasos sanguíneos e quase ser esmagada pelos companheiros no átrio do coração. Sim, era fácil conversar com ele. Por isso, os olhos âmbares sempre brilhavam ao encontrá-lo.

— Glóbulo Branco!

— Glóbulo Vermelho. — Ele assentiu. — Está tudo bem por aqui?

— Hai! Estou levando esta caixa de oxigênio para o pulmão. Até logo! — Ela esboçou um sorriso e retomou a caminhada.

— Ah, Glóbulo Vermelho, o pulmão é para lá. — Ele indicou o caminho oposto.

— Eh?!

Às vezes, ela o via ajudando as Plaquetas. Era uma imagem tão linda! E aquelas Plaquetinhas tão fofinhas que dava uma vontade de apertar as bochechas! Ownt!

— Onee-chan! — cumprimentou a Plaqueta.

— Ah, Glóbulo Vermelho. — Assentiu o Glóbulo Branco, ajudando outra Plaqueta a prender um cartaz com aviso de obra.

— Plaquetinha, Glóbulo Branco, bom trabalho para vocês!

— Bom trabalho, Onee-chan!

E ela seguiu serelepe, até se dar conta de que tomara o caminho errado e ter de dar meia volta. O Glóbulo Branco acompanhou-a com o olhar.

— Precisa de alguma ajuda?

— Nã-não precisa! Eu me acho!

Certa vez, pousou a caixa de gás carbônico no chão para amarrar o cadarço e foi surpreendida por uma bactéria surgida sabe-se lá de onde. Gritou apavorada, pegou a caixa e desatou a correr, apenas para se ver presa em um beco sem saída.

— Venha para mim, baby! — riu-se a bactéria, balançando a cauda com o ferrão.

— So-socorro! Alguém me salve!

— Alvo avistado!

Um vulto saltou de cima de um dos prédios e fincou a ponta da faca no corpo do germe. Era o Glóbulo Branco, desafiando todas as probabilidades e surgindo onde era mais necessário.

— Ah... — Ele virou o rosto. — Glóbulo Vermelho, está tudo bem?

— Glóbulo Branco! — ela exclamou, quase chorando. — Arigatou! Arigatou!

E o ciclo se repetia e repetia e repetia.

Até que, durante uma de suas entregas, distraiu-se por uns instantes ao perceber que chegara à medula óssea vermelha. Vários Eritroblastos perambulavam de um lado para o outro sob a supervisão dos Macrófagos. Bateu uma saudade! Era dia da Cerimônia de Enucleação, e ela decidiu dar uma espiada. Ver os companheiros tornando-se Glóbulos Vermelhos completos trouxe-lhe lembranças, a maioria desagradável. Ela chorava muito quando se perdia e se perdia o tempo todo! Mas houve uma vez particularmente assustadora.

Ela e os amigos estavam treinando como fugir de bactérias caso fossem atacados durante a circulação pelos vasos sanguíneos. Ficou tão assustada com o fantoche e a atuação do Tio Glóbulo Branco que saiu correndo sem prestar atenção aonde ia. E acabou topando com uma bactéria de verdade. Quanto azar!

Teria morrido se o Mielócito não aparecesse. Era tão pequenino quanto ela, mas segurava uma faquinha de plástico e encarava o inimigo. Ele a protegeu, ainda que por breves segundos. Então, o Tio Glóbulo Branco e a Professora Macrófago apareceram para salvá-los. O Mielócito foi parabenizado por sua coragem, mas ainda era muito jovem e acabou chorando. Quando chegou o momento de ir embora, ela não se conteve.

— O-obrigada por me salvar! Nós vamos nos ver de novo?

O Mielócito mexeu no boné.

— Eu... eu não sei. Mas, quando nós crescermos e começarmos a trabalhar nos vasos sanguíneos, pode ser que nos encontremos. Tchau.

E ela sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto infantil.

— Tchau! Tchau! — disse, acenando.

Respirou fundo. Não era hora de se apegar às lembranças. Empurrou o carrinho e ah! Esbarrou sem querer na perna de alguém.

— Sumimasen! Sumimasen! Você está bem?

— Não, eu que peço desculpas — resmungou a célula branca, esfregando o machucado.

— Ah... Glóbulo Branco?

Ele a encarou.

— Glóbulo Vermelho... Nós realmente nos encontramos bastante.

— Si-sim...

Ela lhe comprou um novo chá, pois o primeiro caíra no chão.

— Obrigado. — Ele pegou o copo. — Por acaso, você se perdeu de novo?

— Ah, sim...

— Tudo bem... Eu te acompanho. Estou livre agora.

— A-a-arigatou!

Andaram lado a lado, ela ainda muito tímida por ser tão desastrada. Fitou-o pelo canto dos olhos. Aquele Mielócito... será que virara um Glóbulo Branco? Será que eles se encontrariam de novo? Ela não se lembrava mais do rosto dele, por isso não podia ter certeza. Mas... Pensando bem, o Glóbulo Branco... Não! Ela balançou a cabeça. Seria coincidência demais!

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