Giz de cera

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
UA do Calmo Detetive Osomatsu com algumas alterações! (Adoro esse ua ♥)

Os gatos eram presentes e audíveis, com suas pequenas patas a mostrarem suas diminutas garras, porém úteis, a arranhar os móveis que se encontravam nos cômodos. Ou, com suas cabeças, afáveis, a se esfregarem nas pernas de quem os agradava mais. Era assim aquele lugar, e Todomatsu não tinha nenhum mal pensamento a respeito disso.

Engraçado que só conscientizou aquele fato depois de encontra-lo com ele mais uma vez, aquele espaço com paredes e superfícies desajeitadas, desarrumadas, como apenas aquele homem conseguia deixar e sua numerosa companhia de felinos amigos. Mas tão diferentemente estavam os cômodos, os cheiros, as cores, que Todomatsu poderia imaginar consigo de que estaria equivocado.

Mas não: era lá mesmo que dividiu suas manhãs e noites enquanto ainda se permitia viver junto daquela pessoa.

Contudo, mas, todavia, entretanto... aquele cheiro de café era uma ilusão naquele instante, as cores mornas, porque havia apenas o cheiro de sangue seco, e resquícios de desespero pelos corredores. Seus colegas trabalhavam com agitação de forma a conseguirem respostas das motivações daquele incidente em que apenas animais mortos se encontravam nos recintos.

Ichimatsu não estava lá. E não se poderia dizer ainda se tinha sangue dele no recinto ou não... o que deixava muitas possibilidades em aberto, umas piores que outras. Mas duvidava que fosse ele o agressor quando tinha mais amor por aqueles animais do que a si mesmo.

Entretanto, contudo, todavia... havia passado anos desde a última vez que o teve diante de seus olhos, tocado aquela pele... E já havia visto um número considerável de casos até ali. Todomatsu poderia se surpreender de forma desagradável.

Não havia certezas se estaria lidando com o mesmo rapaz que tinha conhecido até a “última vez”.

((lápis de cor, e aquele giz de cera, espalhando suas pontas coloridas nos papéis. Desvendando, construindo, montando. Ele lhe dava algumas respostas interessantes. As mães, que se davam relativamente bem, animavam-se com a proximidade deles. Desenho 1: Ichi gostava de gatos. 16: Ichi gostava de balões coloridos e giz de cera, por lhes lembrar das irmãs mais velhas, divertidas e estranhas. 61: Ichi também “gostava dele”.))

O peito apertava mais de uma vez, mas colocou a culpa no assassinato brutal presenciado.

Todomatsu, como os colegas, tão pouco tinha ideias muito específicas. Entretanto provavelmente alguém se infiltrou naquela casa em busca de bons pertences (e quem chegaria a imaginar que teria algo assim naquele apartamento caído?), e teria tido alguma resistência tardia? (os gatos, pressentindo o perigo, provavelmente procuraram fugir, porque tinha apenas uma meia dúzia de desafortunados ali, realmente desafortunados. Revolta aparecia inútil, era muito tarde para fazer algo de curativo, apenas consolos)

Corrompido, distorcido, aquele pequeno lar. Como aquele outro devia estar se sentindo? Ainda nem se tinha certeza se estaria respirando ainda...

Arrependimento, Todomatsu conseguiria pronunciar aquela palavra da melhor forma que nunca, como se fosse ele a ter os orgãos rasgados e a sangrar de forma triste. Não podia, todavia, desistir, fazia parte de seu dever sanar aqueles maus resultados apresentados com êxito.

E mais uma vez

Arrependimento

E ento

E ento.

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O giz de cera o que poderia revelar? Podia conter respostas incríveis. Admirava como Ichimatsu pegava os gizes de ceras sem medo de expressar no papel o que quer que quisesse dizer quando o próprio Todomatsu tinha tanta dificuldade.

O oposto acontecia em conversas, e não poucas vezes eles acabaram brigando por isso. Até que um dia Todomatsu decidiu que aquilo não era para ele. Colocou suas coisas em uma grande mala e não virou o olhar até que sentisse que não estava sendo observado por aqueles olhos. O que acabou não acontecendo. Ichimatsu o encarou em partida por todo o percurso até não serem mais visíveis um ao outro.

—-----

Como Todomatsu, muitas outras pessoas precisavam de certezas, o que o acabou fazendo se formar naquela profissão. Desvendar e tentar remendar o que fosse possível (talvez ele assim poderia consolar a si mesmo por ter desistido naquele dia).

Entretanto, “Jason” estava atacando novamente. Era o que os jornais, a rádio e a televisão estavam dizendo. Osomatsu falava para ele que em pouco tempo conseguiriam pegar aquele criminoso “cretino e cruel” que, apesar de no início se mostrar mais como um justiceiro, atacando quem a sociedade considerava “ruim”, suas vítimas se ampliaram a ponto de muitos inocentes agora se enquadrarem no grupo de potenciais alvos.

Oso sorriu para Todomatsu e em reflexo acabou respondendo aquele gesto, mas estava muito incerto. Não tinha contado a ninguém que conhecia “Jason”, de nome real Matsuno Ichimatsu, mas não era como se isso mudasse alguma coisa, quando seu amigo, conhecido, ex-companheiro tinha se permitido ultrapassar a linha. Todomatsu teria de prendê-lo, mesmo que não soubesse todas as respostas.

(... por quê? Porquê...?)

Em parte, não queria saber, porque tinha muita certeza de que se machucaria. Osomatsu ficaria perplexo se soubesse que estava se refreando na busca, nunca tinha duvidado tanto.

Quem sabe devia fazer como as heroínas na ficção que, ao se encontrarem nesses casos, em que seus amores estavam em um caminho perigoso, iam atrás deles, não para acusá-los, mas para abraçá-los pelas costas e com a força do amor purificar seus corações.

Mas Todomatsu apenas pode esboçar um sorriso mais triste.

Ele o deixaria de novo. Não poderia deixar aqueles sentimentos consumi-lo, não era assim que as coisas funcionavam.

Osomatsu o beijou, assim que Todomatsu disfarçou seu último sorriso dizendo “Sim, sim, com certeza vamos pegá-lo”. Sentiu-se indiferente.

((A memória de algumas vozes, as de Todomatsu e as de Ichi, em brigas, outras rindo de algo idiota que um dos dois fez ou disse, estava dificultando que ele se concentrasse naquele presente. Amava aquele homem diante dele, tinha certeza que sim, mas não conseguia queimar as bifurcações que apareceriam desde que desenterrou aqueles sentimentos, recordações, sem pensar muito, desde o dia em que mais uma vez colocou os pés naquele apartamento. Não dava mais. Não ainda.))

Eles ainda estavam vivos.

Notas finais
Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!